Cândida Oliveira. As conquistas de uma clarinetista portuguesa.

Cândida Oliveira«A questão atual é para mim preocupante no sentido em que grande parte do ensino é gratuito e isso indiretamente traz alguma desvalorização. Ou seja, uma grande parte dos alunos estão no ensino especializado da música porque é gratuito. A um nível básico, não me parece preocupante, pois é uma mais-valia para a formação de um ser humano desenvolver as competências que a música traz, tal como está estudado e relatado por muitos investigadores. A questão prende-se num nível já de ensino secundário, quando os alunos são inseridos no regime do ensino especializado da música. O empenho, a motivação e o gosto pela prática do instrumento deviam ser as prioridades para que o aluno fosse inserido neste regime. É muito frustrante para um professor de instrumento que ambiciona que os seus alunos absorvam o seu conhecimento, sentir que o aluno está ali simplesmente porque é mais uma disciplina que tem que cumprir».

Cândida, muito obrigado por estes momentos que guardou para os nossos leitores. O piano foi o primeiro instrumento. O que a fez mudar para o clarinete?
A principal razão desta opção foi o facto da escola profissional onde ingressei no 7º ano de escolaridade não ter o curso de piano. Mesmo assim mantive o estudo dos dois instrumentos até ao 9º ano de escolaridade. Nesse momento decidi continuar o meu percurso com o clarinete, uma vez que o tempo escasseava para o estudo dos dois instrumentos.

Cândida OliveiraDe qualquer forma, Sílvio Cortês foi um nome relevante na sua formação? Influenciou-a a seguir pelo mundo musical?
Sem dúvida que o professor Sílvio Cortês foi uma influência importante na minha motivação pelo estudo da música. Tinha aulas com ele numa escola particular, em Frazão, aldeia de onde sou natural. Com ele terminei os livros de órgão de Eurico Cebolo e depois ele incentivou-me a iniciar o estudo de piano, pois seria mais enriquecedor na minha formação musical. Reconheço também que as aulas de formação musical que tive com este professor foram extremamente importantes para o meu percurso. O nível por ele exigido era altíssimo. Reconheci esta mais-valia, quando passei a estudar na escola profissional e percebi que muitos dos parâmetros abordados até ao meu 12º ano, eu já tinha abordado nestas aulas de formação musical.

Ter sido admitida na Escola Profissional Artística do Vale do Ave – ARTAVE, na classe de clarinete do Professor Adam Wierzba foi um grande marco na sua vida? O que mudou a partir deste momento?
Só passados alguns anos de pertencer à classe de clarinete do professor Adam é que me apercebi que tinha caído em "boas mãos". O professor Adam era também professor do Conservatório de Música do Porto e quando comecei a frequentar master classes e concursos é que tive oportunidade de perceber que tinha alunos de excelente nível. Ensinou-me as bases, sempre de forma muito exigente abordando, não só, aspetos técnicos, mas também, aspetos de vivência necessária para construir uma carreira como músico. Desde cedo tive alguém que me fez tomar consciência do modo de vida de um instrumentista.

Terminar com 19 valores indiciava um percurso brilhante pela frente...
Terminar com 19 valores foi gratificante fazendo-me sentir confiante para agarrar o futuro, agora de forma mais autónoma e gerir os meus próximos projetos. Nesta fase de conclusão de licenciatura, não só os 19 valores indiciavam um bom percurso pela frente, como o facto de ganhar o 1º prémio no concurso inserido no International Clarinete Association no Japão e na mesma semana também o 1º prémio no concurso Jovens Músicos. Foi um final de um percurso de 10 anos de aprendizagem com excelentes frutos.

José Ricardo Freitas, Aldo Salvetti, Rui Lopes, José Pedro Figueiredo, Paulo Martins, Sandra Pina, Nuno Pinto, Luís Carvalho, António Saiote, Ana Mafalda Castro e Nuno Pinto são nomes que jamais ficaram dissociados do seu percurso. Concorda?
Claro que sim, entre muitos outros que felizmente tive oportunidade de conhecer e partilhar conhecimento.

Cândida OliveiraO que lhe trouxe cada um deles?
Acima de tudo ensinamento musical e pessoal. A aprendizagem musical é muito individualizada, ou seja, temos aulas individuais regularmente e isso faz com que o professor nos acompanhe e contagie também com o seu testemunho e exemplo. Acabamos por absorver muito mais que apenas aspetos musicais. Cada um deles, à sua maneira, me transmitiu ensinamentos que me acompanham no dia-a-dia nas mais diversas situações.

Já trabalhou com inúmeras orquestras. Com quais colaborou de forma mais efetiva?
Remix Ensemble, Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e Orquestra Sinfónica Portuguesa - São Carlos e Orquestra Filarmonia das Beiras.

António Soares, Francisco Ribeiro, Jaroslav Mikus, Ernst Schelle, Manuel Ivo Cruz, António Saiote, Christophe Millet, Dominique Sourisse, Roberto Tibiriça, Paulo Silva, Kevin Wauldron, Cesário Costa, Peter Bergamin, Andre Piérre Valade e Jan Cover são apenas alguns dos maestros com quem já trabalhou. Adapta-se com facilidade às diferentes formas de dirigir?
Penso que sim. É um desafio enorme, pois como intérprete sinto que tenho a liberdade de apresentar a minha interpretação a diferentes maestros e aguardo com expectativa o que têm a dizer. É muito enriquecedor... Mas o que me fascina mais é decifrar o que querem transmitir com os seus movimentos, isso é o que me desperta e dá imenso prazer.

Há algum maestro que admire de forma particular?
Simon Rattle, Pierre Boulez...

Cândida OliveiraJá tocou em vários pontos do país e no estrangeiro. Quais os concertos que mais a marcaram? De quais não se consegue esquecer?
Todos os concertos são únicos! As emoções do momento, raramente se repetem e, por isso, todos se tornam especiais. No entanto há uns que me marcam mais do que outros. Por exemplo o concerto no Europarque em 2000, onde tive oportunidade de tocar a grande obra "Pássaro de Fogo" - Stravinsky. Estava a concluir o meu 11º ano na ARTAVE e este concerto era inserido no estágio de orquestra APROARTE. (Felizmente, só no final do concerto soube que o Professor António Saiote estava no público!...) Outro exemplo de concerto marcante foi o do Coliseu do Porto, concerto com Orquestra Sinfonieta - ESMAE, sob a direção do professor António Saiote no qual interpretámos "Scheherazade" de Rimsky Korsakov.
Também inesquecível foi o concerto com o Remix Ensemble, Paris - Centre Pompidou. Pierre Boulez estava na primeira fila a assistir ao concerto!!!
De uma forma geral, todos os concertos em que toquei a solo com Orquestra me marcaram.

Quais os nomes do clarinete que mais admira?
António Saiote, Philippe Berrod, Michel Arrignon, Carl Leister, Benny Goodman, Victor Pereira, Sabine Meyer...

Sente que estes vultos do instrumento a influenciam?
Sim, posso afirmar que são uma referência. Felizmente já tive oportunidade de conhecer pessoalmente alguns destes nomes.

Prémios conquistados até à data desta entrevista

  • 2011 – 2º prémio no I Concurso Internacional de Clarinete de Lisboa.
  • 2006 - Prémio Fundação Eng. António de Almeida, de melhor aluna de curso.
  • 2005 – 1º Prémio no Concurso Jovens Músicos, categoria Solista, nível Superior, Lisboa.
  • 2005 - Finalista no Concurso de ingresso na Orquestra de Jovens da União Europeia, tendo ficado colocada como reforço.
  • 2005 – 1º Prémio no Concurso Internacional ICA – International Clarinet Association, Japão.
  • 2003 – 1º Prémio no I Concurso Internacional de Clarinete da Vila de Montroy – Valência, Espanha.
  • 2002 – 3º Prémio, nível médio, no III Concurso Nacional para Jovens Clarinetistas, Porto.
  • 2002 - Semi-finalista no Concurso Internacional de Clarinete Dos Hermanas, Sevilha, Espanha.
  • 2002 – 3º Prémio, nível Superior, categoria Solista, no Concurso Jovens Músicos, Lisboa.
  • 2000 – 3º Prémio, nível médio no concurso Prémio Jovens Músicos na categoria de Solista e também em Música de Câmara (não foram atribuídos 1o e 2o prémios em ambas as categorias), Lisboa.

Ter entrado para a ESMAE para a classe do professor António Saiote foi outro grande marco na sua vida?
O Professor António Saiote era já na altura uma referência mundial. Poder ingressar na sua classe, receber os seus ensinamentos, pertencer a uma classe com excelentes alunos, foi sem dúvida um grande marco.

Não podemos fugir à questão do momento. Como descreve os sentimentos e o que representa para a Cândida Oliveira o lugar que acaba de conquistar na Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP), um dos corpos artísticos do Teatro Nacional de São Carlos?
Como descrevo o sentimento? O concretizar de um sonho... Realização... Desde cedo que colaboro como freelancer com várias orquestras! Estar rodeada de todos os timbres, cores, programas dos mais variados estilos e formações, procurar fundir com este e aquele instrumento, ser o papel principal e secundário em compassos diferentes, são aspetos de uma procura incríveis... Estes aspetos, conciliados com a possibilidade de partilhar o palco com excelentes músicos, ser dirigida por excelentes maestros e ter concertos agendados semanalmente é o que sempre desejei!

Cândida Oliveira, Quarteto ASSAIVai mudar muita coisa na sua vida?
Vai mudar muita coisa... Espero, pelo menos!

Vai continuar a lecionar?
Sim. Aprendo muito a dar aulas. Faz-me refletir sobre como tocar, como ultrapassar determinada dificuldade... É uma procura intensa de estratégias para ajudar o aluno a evoluir e vejo isso como um desafio.

Mas mantém outros projetos. Pode falar-nos um pouco do Quarteto Assai e do Clap duo?
Estas são duas formações nas quais posso explorar diferentes potencialidades do clarinete! O Clap Duo, com o percussionista Bruno Costa existe há 10 anos e tem vindo a explorar programa já existente e o nosso mais recente projeto é direcionado para a música portuguesa. Temos já algumas obras que foram compostas para a nossa formação e estamos a aguardar mais algumas, todas elas de compositores portugueses, para seguir para estúdio.
O Quarteto Assai (Flauta - Marco Pereira, Oboé - Hugo Ribeiro, Fagote - Lurdes Carneiro) é um projeto mais recente, com concertos realizados por todo o país, inseridos em vários festivais.

Portugal é, em sua opinião, um país de referência no ensino do clarinete?
Sim. Podemos constatá-lo pelo trabalho desenvolvido ao longo dos anos, que se reflete nos resultados dos clarinetistas portugueses no estrangeiro, e pela procura das nossas escolas portuguesas por parte de clarinetistas de outros países...

Cândida Oliveira, Clap DuoAntónio Saiote é o grande responsável?
Sim. Sem dúvida. O Professor Saiote foi em busca de conhecimento além fronteiras e poderia ter seguido a sua carreira no estrangeiro. Voltou ao seu país e com a convicção de criar em Portugal uma classe de clarinete de excelência. E assim o fez! Atualmente os seus alunos têm dado continuidade ao seu trabalho, passando para as gerações mais novas os seus ensinamentos.

A evolução no ensino da música em Portugal tem sido grande, no entanto temos vislumbrado alguma preocupação no ar por parte das escolas e dos seus professores. Pensa que existem efetivamente razões para estarmos preocupados?
Na minha opinião o ensino da música teve um crescimento relevante nos últimos anos, o que me parece positivo. Atualmente, desde tenra idade é possível obter o ensino da música a baixo custo. Lembro-me de quando tinha 6 anos e comecei a aprender órgão, que os meus pais pagavam seis contos mensalmente. A questão atual é para mim preocupante no sentido em que grande parte do ensino é gratuito e isso indiretamente traz alguma desvalorização. Ou seja, uma grande parte dos alunos estão no ensino especializado da música porque é gratuito. A um nível básico, não me parece preocupante, pois é uma mais-valia para a formação de um ser humano desenvolver as competências que a música traz, tal como está estudado e relatado por muitos investigadores. A questão prende-se num nível já de ensino secundário, quando os alunos são inseridos no regime do ensino especializado da música. O empenho, a motivação e o gosto pela prática do instrumento deviam ser as prioridades para que o aluno fosse inserido neste regime. É muito frustrante para um professor de instrumento que ambiciona que os seus alunos absorvam o seu conhecimento, sentir que o aluno está ali simplesmente porque é mais uma disciplina que tem que cumprir. Esta situação infelizmente é regular no dia-a-dia dos professores atualmente, o que faz com que o nível de exigência tenha que baixar, para que estes alunos possam atingir os objetivos mínimos. Não quero dizer com isto que todos os alunos que frequentam o ensino especializado da música têm que ser músicos no futuro, quero dizer sim que a vontade e motivação própria pela aprendizagem musical são meio caminho andado para que se obtenham melhores resultados e consecutivamente maior realização para ambos, professor e aluno.

Cândida OliveiraPode partilhar com os nossos leitores alguns dos sonhos que ainda não tenha concretizado? Alguns serão para concretizar brevemente?
Sonhos tenho muitos!!! Ter o prazer de tocar em salas emblemáticas por todo o mundo... Não só pela história das salas em si ou do programa a executar, mas pela oportunidade de partilhar o palco com músicos de culturas diferentes, conhecer países que ainda não tive oportunidade de visitar...
Há alguns concertos que pretendo tocar a solo com orquestra, muitos dos quais já tive oportunidade de tocar com piano. No entanto, a riqueza dos vários timbres e cores dos instrumentos de orquestra proporcionam sensações únicas... Este é um dos sonhos que procuro concretizar num futuro próximo!

Muito obrigado pela partilha que protagonizou com a comunidade do Portal do Conhecimento Musical. Vamos deixar-lhe 5 questões de resposta rápida...

Qual o filme de que mais gostou até hoje?
"As it is in Heaven" de Kay Pollak.

Qual o seu prato favorito?
Tenho vários, posso realçar comida italiana e japonesa - sushi!

Nos tempos livres adora...
Viajar, praia...

Qual o livro que mais gostou de ler?
Posso destacar dois que li e me marcaram "Siddhartha" de Hermann Hesse e " As velas ardem até ao fim" de Sándor Márai.

Pratica desporto?
Sim, regularmente! Ser músico requer uma boa preparação física... São vários os motivos!!! Desde a prevenção de lesões, como a melhoria da resistência, assim como o libertar de energia e tensões acumuladas ao longo da pratica do instrumento!

Cândida Oliveira. As conquistas de uma clarinetista portuguesa.

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