Ensemble Ars Iberica e a paixão pela música antiga

Ensemble Ars IbericaArs Iberica nasceu em 2013 e desde essa data tem vindo a consolidar-se enquanto grupo e a afirmar-se como grupo de referência no âmbito da interpretação da denominada música antiga. As flautas, o violoncelo e o cravo utilizados são cópias de instrumentos do século XVIII e “cada concerto é estruturado e pensado em função de uma temática. Neste momento estamos a preparar um concerto tendo por temática a música ibérica e suas influências na segunda metade do séc. XVIII. Assim, temos por exemplo obras de Avondano e em simultâneo incluímos 12 Kline Stuke (1758) de Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788), compositor de referência neste período”. Esta entrevista dá a conhecer o trabalho que é desenvolvido pelo Ensemble Ars Iberica que se irá apresentar no “3º Festival de Música Antiga de Castelo Novo (Concelho do Fundão), no dia 26 de julho, pelas 15 horas, na Igreja Matriz. Este concerto será efetuado no encerramento da 3ª edição do Festival”.

Muito obrigado por terem aceitado o nosso desafio para esta entrevista. Quando e em que circunstâncias nasceu este projeto Ars Iberica?
Nós é que agradecemos esta oportunidade, a qual potencia o nosso trabalho. Em 2013, surge ao Alexandre um convite para apresentar uma comunicação no XVII Festival de Música Antigua de Úbeda y Baeza na Universidade Internacional de Andalucia. A temática escolhida foi Música para flauta en el tiempo de D. María I: relaciones entre Portugal, España y Brasil e por conseguinte à direção artística do evento, propusemos um recital tendo por base este mesmo repertório, o qual foi bem aceite. Assim, demos o nosso primeiro concerto integrado neste festival o qual faz parte da REMA – European Early Music Network. Não podíamos ter melhor baptismo, pois é um conceituado festival de música antiga na Europa.

Quando foi essa vossa primeira apresentação pública?
Em concreto foi no dia 4 de dezembro de 2013, no Auditório San Francisco, na cidade de Baeza (Andaluzia). E, como dissemos na resposta anterior, integrado no XVII Festival de Música Antigua de Úbeda y Baeza.

Ensemble Ars Iberica, XVII Festival de Música Antigua de Úbeda y Baeza

O facto de se dedicarem ao estudo e interpretação da música ibérica limita os locais em que podem apresentar o vosso reportório? O vosso circuito depende muito dos festivais de música antiga ou o vosso espetáculo tem cabimento noutro tipo de eventos?
De forma alguma. O conceito - temática em que temos alojado os nossos programas não limita os locais onde podemos atuar. É fundamental que um projeto desta natureza tenha uma identidade, um linha condutora que fundamente a apresentação ou o alinhamento das obras a apresentar em concerto, apenas isso. Assim sendo, na verdade tanto podemos atuar no âmbito de um festival de música antiga, como podemos participar num festival de música, como foi o caso do Festival de Música da Primavera (Viseu) em 2014. Ou mesmo num evento isolado desde que consideremos válido e devidamente ponderado pelo grupo.

Assumem fazer a ponte histórica entre Espanha, Portugal e Brasil, na transição do séc. XVIII para o Séc. XIX. Quais os compositores e obras que são revisitados com vista à obtenção desta ponte?
Sem dúvida. Hoje em dia, só podemos marcar a diferença no âmbito da Música Antiga se estabelecermos a ponte entre a performance e a investigação musicológica. Fruto desta pesquisa, encetada nos últimos anos, encontrámos um espolio musical muito significativo e valioso no respeita à música de câmara ibérica da segunda metade do séc. XVIII. Estamos a falar de obras de compositores como Pedro A. Avondano, António Rodil e irmãos Pla. Algumas dessas obras foram levadas para o Brasil através da corte portuguesa. Temos no nosso habitual repertório a obra Lisbon Minuets for two flutes and bass (1766) e Trio nº 1 em Ré Maior (1765) de Avondano, Sonata nº 2 en Re Menor para dos flautas (o violines o oboe) y bajo (ca. 1770) de Juan B. Pla.

Olavo Tengner Barros e Alexandre Andrade – Flautas, Sofia Nereida - Cravo e Esperanza Mara Rama - Violoncelo são a atual formação do Ars Iberica. É esta a formação desde o início do projeto?
Na verdade, inicialmente não tínhamos a colaboração da Esperanza no violoncelo. Mas, atualmente sim, é um elemento fundamental e que traz mais consistência harmónica ao projeto. Apesar de termos feito os primeiros concertos sem o violoncelo, a Esperanza rapidamente captou e assimilou muito bem o repertório que estávamos a trabalhar. Traz um certo “espírito ibérico”... pela sua origem galega.

Ensemble Ars IbericaO que faz cada um dos elementos do Ars Iberica fora do contexto do Ensemble? Dedicam-se todos ao ensino da música?
O Olavo é professor no Conservatório de Música do Porto, na Escola Superior de Música de Lisboa e no Curso de Música Antiga da ESMAE. A Sofia também é professora no Conservatório de Música do Porto. O Alexandre é professor no Conservatório de Música da JOBRA e no Instituto Piaget. A Esperanza finalizou os estudos de violoncelo barroco na ESMAE e no CNSM de Lyon. Atualmente faz o Mestrado em Musicologia em Coimbra e o Mestrado em Canto Barroco na ESMAE.
Em Portugal, viver-se só de concertos no âmbito da música antiga é tarefa complicada devido ao mercado muito restrito. O ensino é e sempre será uma forma de equilíbrio orçamental. Contudo, ensinar não é visto por nós como algo redutor, pelo contrário, temos muitos anos de experiência pedagógica, e o ato de ensinar, transmitir, partilhar, comunicarmos é fundamental para nos sentirmos bem, também em palco, perante o público.

Os instrumentos que utilizam são instrumentos das épocas que são contempladas no vosso reportório?
Sim, os instrumentos (flautas, violoncelo e cravo) utilizados são cópias de instrumentos da época; séc. XVIII.

“Música ibérica e suas influências na segunda metade do século XVIII” e “Música Para Flauta No Tempo De D. Maria I” são dois exemplos de temas subjacentes a apresentações do Ars Iberica. Os concertos que apresentam obedecem sempre a um tema específico?
Certamente que cada concerto é estruturado e pensado em função de uma temática. Neste momento estamos a preparar um concerto tendo por temática a música ibérica e suas influências na segunda metade do séc. XVIII. Assim, temos por exemplo obras de Avondano e em simultâneo incluímos 12 Kline Stuke (1758) de Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788), compositor de referência neste período.

Nas vossas apresentações há implícito um caráter pedagógico? Costumam explicar ao público o contexto das obras que interpretam?
Depende do contexto em que vamos apresentar o concerto. Se este é num festival de música antiga, por norma o publico sabe e é conhecedor e consumidor deste tipo de música. Porém, se é num evento isolado, e não existe um programa de sala, evidentemente que fazemos questão de aproximarmos a nossa performance ao público e fornecermos o máximo de informação possível sobre as obras que interpretamos, bem como os instrumentos que utilizamos.

Podem partilhar com os nossos leitores os locais onde estes os poderão ver e ouvir em breve?
Fomos convidados para participarmos no 3º Festival de Música Antiga de Castelo Novo (Concelho do Fundão), no dia 26 de julho, pelas 15 horas, na Igreja Matriz. Este concerto será efetuado no encerramento da 3ª edição do Festival. O local é magnífico pois Castelo Novo faz parte da rede das Aldeias Históricas de Portugal e será uma boa oportunidade para conciliar a música antiga e um passeio pelo interior do país.

Muito obrigado pelo tempo que nos dedicaram. Para terminar gostaríamos que nos dissessem quais os projetos que ainda gostariam de abraçar no âmbito do Ars Iberica. A gravação de um CD é um dos vossos objetivos?
Sem dúvida que um dos nossos objetivos será a gravação de um CD. Não temos isso como uma meta imediata, mas queremos fazer um registo deste tipo de repertório, e por conseguinte valorizarmos parte do património musical português referente à 2ª metade do séc. XVIII. Como dissemos anteriormente, este repertório visa a relação entre Espanha, Portugal e Brasil, neste período histórico, e na verdade já tivemos oportunidade de tocar em Espanha e Portugal, só falta apresentarmos o projeto no Brasil. Até já surgiram convites, mas a falta de apoios para despesas de deslocação tem sido o maior entrave. Vamos continuar pois estamos convictos que um dia destes podemos levar o nosso projeto a outras paragens. O Ensemble Ars Iberica agradece esta oportunidade e todo o apoio dado pelo XpressingMusic.

Ensemble Ars Iberica e a paixão pela música antiga

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