Ru fala-nos de “Summer Blaze” e não só. Entrevista.

Ru VasconcellosRu Vasconcellos já passou por projetos como Rockalady, Red House View e Casual Attraction, mas é em nome próprio que nos apresenta agora “Summer Blaze”. Nesta entrevista quisemos conhecer melhor a Ru enquanto profissional da música. O início da sua aprendizagem, as suas influências e os sonhos para o futuro também foram aqui abordados. “Sou um autêntico bicho de palco. Adoro tocar com bandas grandes em grandes espaços porque posso dançar, sentir o groove, andar a correr e a saltar de um lado para outro, puxar pelo público, fazer brincadeiras, é uma parte muitíssimo importante para mim. Por outro lado a música e o som sempre foram a minha paixão desde que nasci. Ter a oportunidade de criar, e gravar num estúdio é como um cozinheiro na fase de preparar a comida para ser cozinhada. Não é possível dizer de que parte se gosta mais, faz tudo parte do prato final”.

A Ru iniciou a sua aprendizagem musical muito cedo. Recorda-se desses tempos e da criança que estudava piano?
Antes de mais olá e muito obrigada pela entrevista! Recordo-me perfeitamente. Desde bébé que imitava os passarinhos e lembro-me de me sentir fascinada com som. Quando ouvi o som do piano pela primeira vez foi marcante e aos 3 anos pedi aos meus pais para ter aulas de piano. No início hesitaram porque era muito pequena mas insisti tanto que lá cederam. Aprendi piano clássico mas sempre sem ligar muito às partituras. Quando a minha professora me pedia para ler, pedia-lhe para tocar a música primeiro para “ver se gostava” e depois tirava as notas de ouvido e tocava de cor. À “pala” disto ela nunca se apercebeu que estava a tocar de ouvido pois a minha leitura nunca foi o meu ponto mais forte. Lembro-me de estar sempre a cantar, a inventar músicas, compor ao piano, a dançar, enfim qualquer coisa que envolvesse música lá estava eu.

O que a levou a optar pela guitarra anos mais tarde?
Mais tarde fartei-me do clássico porque já andava a tocar música clássica há 10 anos e comecei a tocar e a compor peças estilo “soundtracks” no piano num estilo mais minimalista devido a uma grande influência minha: O Michael Nyman (The Piano).
Aos 5 anos “roubei” um CD dos Offspring ao meu irmão e partir daí começou a minha paixão pelo rock e pelas guitarras elétricas. Na altura que comecei a tocar guitarra elétrica estava a ouvir bandas como Led Zeppelin, Jimi Hendrix, portanto acho que foram as minhas influências que me levaram a querer pegar a sério na guitarra. Para além do facto de que fiz uma banda com os meus colegas de escola para tocar nos “battle of the bands” e concertos do género.

Ru VasconcellosO Hot Clube de Portugal foi importante para que enveredasse por caminhos mais próximos do jazz ou esse caminho já estava bem definido na sua cabeça?
É engraçado o facto de o jazz ter entrado na minha vida porque o meu avô (que tocava piano muito bem – improviso) era um grande apaixonado por jazz e blues. Quando era pequena ouvia muito Bill Evans em casa do meu avô mas, como não sabia quem era, era só uma muito boa memoria. Mais tarde quando estudei jazz e comprei álbuns do Bill Evans, veio-me uma nostalgia enorme porque já tinha ouvido maior parte das músicas dele em criança sem saber que eram dele. Sempre gostei de jazz mas como passei tantos anos ligada ao rock, passou-me um bocado ao lado na adolescência até entrar para a faculdade, em Design, quando comecei a ir a clubes de jazz como o Hot Club. Aos 17 deixei completamente o piano clássico de lado porque me apaixonei pela harmonia do jazz, e principalmente a “liberdade” do improviso. Acabei por querer aprender a fazer música mais complexa harmonicamente, com cores e texturas diferentes.

Na Universidade Lusíada fez o curso superior de Jazz e Música Moderna. Há nomes que a tenham marcado muito neste seu período de formação?
Fiz o primeiro ano de piano do curso de Jazz e Música Moderna na Lusíada mas infelizmente tive de sair porque não era compatível com os concertos (foi nessa altura que entrei como guitarrista acústica, percurssão e back vocalist do Fernando Pereira assim como comecei a fazer eventos e dar concertos com os meus projetos de Jazz e covers rock pop etc... pois de outra forma não tinha como pagar a universidade. Tive um professor de Harmonia excepcional, que já tinha sido meu professor no Hot Clube: o Vasco Mendonça. As aulas de harmonia eram autênticas aulas de “how to understand the magic of music” misturadas com matemática. Quando saí da faculdade ainda quis tentar só aulas de harmonia mas com muito pena minha não foi possível. Tive outro professor de Física do Som, Pedro Pestana, que me marcou bastante porque sempre adorei física e aprendi tanto a cerca de acústica, dos “porquês” de isto e aquilo acontecer a nível sonoro, das frequências... Ficava sempre até mais tarde nas aulas a fazer mil e uma perguntas. A Ana Araujo que foi minha professora de piano no Hot Clube também foi das que mais me marcou porque foi a primeira professora que tive que me ajudava e incentivava a fazer os meus próprios arranjos das músicas, e ajudava-me a desenvolver as minhas ideias e encontrar o meu som.

Quais as suas principais influências musicais? Há músicos que a marquem muito ao ponto de se espelharem na música que faz?
Embora o “Summer Blaze” seja um single bastante pop/soul as minhas influências são bastante diferentes. Neste momento a minha maior influência são os Snarky Puppy. Não consigo fartar-me e tenho tanta vontade de compor músicas do género mas ainda tenho de comer “MUITA sopa” para lá chegar. As minhas principais influências a nível vocal são o Chris Cornell (Soundgarden, Audioslave), Kurt Elling e Ella Fitzgerald (para mim os dois melhores improvisadores), Jamie Cullum (tenho a tendência para cantar de forma brincalhona e misturar os meus estilos preferidos: rock, jazz, soul, blues e funk como ele), e claro o grande Stevie Wonder. A nível do piano as minhas principais influências a tocar e quando componho peças são o Jamie Cullum, Michael Nyman, Chopin, Bill Evans, Hiromi e Oscar Peterson. A nível da guitarra, as minhas maiores influências são o Mark Tremonti (Alterbridge, Creed), Jimi Hendrix, Jimi Page (Led Zeppelin), John Mayer, Gary Clark JR, John Butler (acústica), etc. Resumidamente, a nível de bandas e artistas, as que mais me marcaram foram: Alterbridge, Led Zeppelin, Snarky Puppy, Chris Cornell, Soundgarden, Jamie Cullum, Kurt Elling, Ella Fitzgerald, Esperanza Spalding, Stevie Wonder, Red Hot Chili Peppers, Foo Fighters, Michael Nyman, Beethoven, Chopin, Hiromi, Bill Evans, Oscar Peterson, Jimi Hendrix, Gary Clark JR, entre muitos outros.

Ru VasconcellosComo surgiu a possibilidade de compor o tema "Janeiro" para o filme “Before Dawn”?
No ano passado tive um single chamado “So many reasons” da minha banda de blues rock “Casual Attraction” a passar na série “I love it” da TVI. Decidimos gravar um videoclipe para a música com a Maria Rita (videografa) que chamou a Margarida Saldanha para fazer a produção. Desde aí criei uma grande amizade com elas e como componho músicas e escrevo letras para outros artistas, a Margarida pensou em mim quando estava a produzir o filme para escrever “Janeiro”. Foi com alguma rapidez, 1 hora depois do telefonema a letra estava escrita. Como tudo nesta área, é uma questão de as pessoas conhecerem e gostarem do nosso trabalho.

Considera-se uma mulher de palco ou o estúdio também é um ambiente que admira?
Sou um autêntico bicho de palco. Adoro tocar com bandas grandes em grandes espaços porque posso dançar, sentir o groove, andar a correr e a saltar de um lado para outro, puxar pelo público, fazer brincadeiras, é uma parte muitíssimo importante para mim. Por outro lado a música e o som sempre foram a minha paixão desde que nasci. Ter a oportunidade de criar, e gravar num estúdio é como um cozinheiro na fase de preparar a comida para ser cozinhada. Não é possível dizer de que parte se gosta mais, faz tudo parte do prato final.

Em 2014 fez 102 concertos. O trabalho que agora nos apresenta foi construído ao longo deste tempo de estrada?
Ando há 7 anos na estrada, inicialmente com projetos de rock originais e covers e depois com eventos de jazz e bossa nova e a tocar para artistas internacionais. Estes dois anos e meio da minha vida foram muito intensos porque eu tive de aprender a ser a minha própria manager, marketeer, Personal Assistant etc. Deixei de ter tanto tempo como gostava para me dedicar só à parte musical e passava mais tempo ao telefone e em reuniões para organizar tudo para os eventos do que a focar-me em criar etc. Depois da loucura que foi 2014 decidi que para além de andar a escrever para outras pessoas ia aproveitar aquilo que escrevia para mim. Portanto diria que foi no final de 2014 e 2015 que comecei a construir e organizar aquilo que compus em 2014 e comecei a levar a composição e escrita mais a sério. Claro que as ideias que tive on tour foram aproveitadas nesta fase. Mas é um processo complicado principalmente quando mal se tem tempo para respirar para não se perder oportunidades (trabalho como freelancer é assim). Precisava de tempo para chegar ao ponto que queria a nível de escrita e composição. Tudo o que saía não era bem “eu” porque ou era demasiado pop, ou demasiado rock, ou demasiado jazz, ou as letras demasiado complexas, etc. Como tenho muitas influências musicais é difícil criar algo que me agrade a 100% a não ser que seja uma mistura. Com o Summer Blaze foi simples. Estava na praia, e saiu-me. Fez sentido. O arranjo inicial era bem mais “jazz” mas o João Ferreira (meu guitarrista) optou por me ajudar a fazer este arranjo mais pop com um beat que faz lembrar coisas dos Gym Class Heroes que funcionou bastante bem portanto “I just went with it”. Decidi deixar de ser tão autocritica e deixar as coisas fluir naturalmente porque percebi que estou numa fase de descoberta e que tenho de passar por estas coisas. Mais vale partilhar a “Summer Blaze” com o mundo do que guardá-la como uma ideia que nunca mais é ouvida. Pode não ser 100 % eu mas é uma grande parte de mim e das minhas influências por isso em vez de me preocupar que as pessoas pensem que eu só componho músicas pop comerciais decidi lançá-la e divertir-me com uma música que eu criei.

Quais os espetáculos que mais a marcaram até hoje?
Jamie Cullum – vi-o 3 vezes. Durante muito tempo quis ser uma “female Jamie Cullum” antes de perceber que tenho é de ser eu. Identifico-me tanto com ele, temos um caminho demasiado parecido a nível de educação musical, instrumentos, influências, etc. As palhaçadas que ele faz em palco, o estilo “sério mas descontraído”, as misturas de influências tanto jazz como rock, como pop... As versões jazz que ele faz de temas pop e pop que ele faz de temas jazz... Sempre fiz isso. Desconstruir preconceitos e aproximar grupos de pessoas que podiam pensar que nada tinham a ver umas com as outras. Musicalmente, mesmo quando toco covers ou jazz, faço sempre versões minhas mais cozido ou assado.
Kurt Elling – Jamais vi alguém com aquele tom único de voz a improvisar como ele faz. Mind. Blowing.
James Morrison – tive a oportunidade de ter um tête-a-tete com ele no Sudoeste e impressiou-me imenso como pessoa. No palco é uma montanha de soul e power. No final da primeira música já está ensopado. Tem uma energia incrível.
Gary Clark JR foi uma viagem incrível pela emoção transmitida por uma guitarra elétrica.
Ouvi a banda do Count Basie a ensaiar na sala 10 do Hot Clube e a sensação de levar com a energia da uma big band numa sala pequena é indescritível... Desde então que um dos meus sonhos é tocar com uma big band.

Ru Vasconcellos, Summer BlazeTodo este tempo de carreira foi de amadurecimento para que se sentisse segura para lançar algo em nome próprio?
Sinceramente, foi para pagar as contas e para poder juntar algum para conseguir investir no meu projeto a solo. Cresci muito com os concertos todos que dei tanto dentro como fora de Portugal, tanto como front woman, como compositora, como guitarrista, como teclista e back vocalist, nos vários estilos: jazz, pop, rock, soul, blues, funk, hardcore, metal, punk etc.
Fui educada num ambiente muito conservador e, no ano passado, saí de casa, logo cresci muito como pessoa. Passei fases muito complicadas, que me permitiram perceber que tenho muito mais força de vontade do que pensava. Perdi muitas pessoas na minha vida, mas ganhei pessoas que têm o mesmo “mind frame” e puxam por mim como eu puxo elas. Sinto que amadureci como pessoa. Obviamente que este tempo de carreira ajudou, mas sinto que acima de tudo precisei deste tempo para mudar de mentalidade, crescer, e a partir do momento que larguei as coisas que me puxavam para trás, nomeadamente ser excessivamente auto crítica, comecei a ter confiança para desenvolver as ideias que tinha para mim.

O que podemos esperar deste novo trabalho? Como o caracteriza?
Todas as minhas influências. Tenho temas mais pop, outros mais blues, outros mais dark, outros mais Light, uns mais ritmados, outros lentos. Acima de tudo sou eu a partilhar-me com o mundo nesta viagem de autoconhecimento e crescimento musical.

Podemos dizer que “Summer Blaze” será uma boa amostra do trabalho que aí vem?
Podemos dizer que o “Summer Blaze” é o tema mais alegre e “happy-go-lucky” que tenho. Os temas que aí vêem falam de coisas mais sérias, mas o denominador comum sou eu e a minha forma de cantar e expressar o que sinto através da música.

Muito obrigado por este tempo que nos dedicou. Para terminarmos gostávamos que partilhasse com os nossos leitores se existe algum sonho que ambicione concretizar em breve.
Obrigada eu, foi um prazer! Peço desculpa por usar muitas expressões em inglês (mas como sou bilingue e um bocadinho bifa às vezes é complicado expressar-me numa só língua) e se me arrastei um bocado nas respostas mas as vossas perguntas são tão interessantes que dá vontade de continuar! (risos) Tenho tantos sonhos! Ou melhor, objetivos. Um deles é: quero voltar a tocar para 40 mil pessoas no estrangeiro mas desta vez como artista principal. Outro é tocar com uma big band, e o mais recente que estou vai acontecer em Outubro/Novembro é mudar-me definitivamente para Londres. The sky is the Limit. Obrigada por tudo e até breve!

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Ru fala-nos de “Summer Blaze” e não só. Entrevista.

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