Luís Tinoco. O compositor português em entrevista.

Luis TinocoO compositor Luís Tinoco acedeu ao nosso desafio para uma entrevista onde os nossos leitores poderão ficar a conhecer melhor o seu percurso académico e profissional. “Identificava-me com a música escrita por vários compositores britânicos - Birtwistle, entre outros - e, na Royal Academy, encontrei um ambiente de estudo estimulante e toda a liberdade que procurava para continuar a procurar uma linguagem musical própria. A variedade, de correntes estéticas, oferecida em Londres era francamente mais alargada do que aquela que eu tinha encontrado no meu país. Hoje, o contexto do ensino da Composição em Portugal é inquestionavelmente mais plural e aberto – comparando com o que tínhamos na década de 90. Na altura havia uma certa asfixia no ensino que era depois prolongada na forma como a música contemporânea era programada em Portugal. Em países como a Inglaterra, entre outros, podíamos encontrar um contraponto a esta realidade e foi essa liberdade que verdadeiramente me levou a estudar em Londres”.

Queremos, em primeiro lugar, agradecer a amabilidade que nos conceder esta entrevista. Qual foi o seu percurso formativo antes de chegar ao curso de composição da Escola Superior de Música de Lisboa?
Eu é que agradeço o vosso convite. A minha formação musical passou por um percurso cheio de interrupções. Vários professores e muitas hesitações, enquanto eu encarava a música como algo que me dava muito prazer, que estava sempre presente, mas que eu não via como o meu futuro profissional. O meu projeto passava por dedicar-me ao cinema e cheguei a frequentar o primeiro ano do Curso Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa. Pelo caminho, passei pelas mãos da minha avó [Maria Carlota Tinoco], depois fiz estudos de piano e teoria com a Profª Elisa Lamas e, mais tarde, de piano jazz com o Mário Laginha. No Conservatório Nacional fiz algumas cadeiras como aluno externo mas o meu estudo mais disciplinado e verdadeiramente focado inicia-se com a decisão de ingressar no curso de Composição da Escola Superior de Música de Lisboa (ESML).

Luís TinocoHouve uma altura na sua vida em que surgiu a oportunidade de rumar até ao Reino Unido. Pode falar-nos desta experiência? Foi importante a sua passagem pela Royal Academy of Music?
O Reino Unido, curiosamente, começou por ser um país onde eu planeava estudar cinema. Isto é, antes de ter ingressado no curso de Composição. Depois, quando completei os estudos na ESML, a Inglaterra voltou a surgir como um destino possível para fazer uma pós-graduação. Identificava-me com a música escrita por vários compositores britânicos - Birtwistle, entre outros - e, na Royal Academy, encontrei um ambiente de estudo estimulante e toda a liberdade que procurava para continuar a procurar uma linguagem musical própria. A variedade, de correntes estéticas, oferecida em Londres era francamente mais alargada do que aquela que eu tinha encontrado no meu país. Hoje, o contexto do ensino da Composição em Portugal é inquestionavelmente mais plural e aberto – comparando com o que tínhamos na década de 90. Na altura havia uma certa asfixia no ensino que era depois prolongada na forma como a música contemporânea era programada em Portugal. Em países como a Inglaterra, entre outros, podíamos encontrar um contraponto a esta realidade e foi essa liberdade que verdadeiramente me levou a estudar em Londres.

Ao longo do seu percurso formativo houve nomes que o tenham marcado e até influenciado?
A minha forma de ouvir música foi essencialmente formada na minha infância, dado que nasci no seio de uma família fortemente ligada à música e às artes em geral. E, neste contexto, destaco a importância que tiveram tanto a música erudita como a música jazz, na minha escuta desde os primeiros anos. Portanto, quando ingressei na ESML os meus ouvidos já estavam “focados” na música de compositores que se mantiveram uma referência, até hoje. Stravinsky, Keith Jarrett... Naturalmente, a ESML permitiu-me alargar essas referências e descobrir e estudar obras absolutamente maravilhosas. Depois, no Reino Unido, essa descoberta foi expandida não apenas frequentando a RAM (e a sua biblioteca!) mas, também, graças à enorme oferta de concertos, que eu frequentava com regularidade. E, também, graças à rádio BBC 3, que eu estava sempre a ouvir dado que (felizmente) não tinha televisão no quarto da residência de estudantes.

O Luís é doutorado pela Universidade de York conciliando atualmente a sua carreira enquanto compositor com a docência na Escola Superior de Música de Lisboa. O facto de estar em contacto com o mundo académico é visto por si como uma oportunidade de manter uma prática reflexiva constante relativamente ao universo da composição?
Naturalmente, o contacto permanente com o trabalho de colegas e, também, dos alunos e com os seus interesses e descobertas, ajuda-me a manter-me actualizado e a reflectir sobre a música que se faz hoje. Aliás, no que se refere a manter viva a minha curiosidade sobre a produção contemporânea, tenho a sorte e privilégio de manter uma relação prolongada com a Antena 2, onde assino um programa semanal sobre música contemporânea e através da qual tenho acesso permanente a gravações recentes de novas obras.

Luís Tinoco

Outra faceta do seu trabalho espelha-se nas suas funções enquanto programador e divulgador musical. São atividades que o fascinam?
O trabalho de composição é, em grande medida, um trabalho solitário que exige algum isolamento. Como tal, procuro complementar essa faceta da minha vida profissional com outras atividades que possibilitam um contacto regular com outros músicos. O ensino, claro, é também um espaço de partilha, algo que encontro também nas minhas restantes atividades mais ligadas à programação. Quer seja através da rádio, dos concertos que tenho ajudado a ESML a promover ou, ainda, da direção artística do Prémio e Festival Jovens Músicos.

Tem uma vasta obra publicada. Nas suas composições, predominam as elaboradas a partir de encomendas ou as que emanaram da sua iniciativa individual e criativa?
Eu não diria que é vasta. Mas tenho, de facto, uma atividade regular desde 1995, ano em que escrevi um Quarteto de Cordas que, de certo modo, marca o início “oficial” do meu trabalho como compositor. Quase tudo o que escrevi desde então está publicado pela University of York Music Press. Como não sou rápido a compor e divido à minha atividade profissional por diferentes áreas, acabo por não produzir mais do que duas ou três peças por ano – dependendo da dimensão de cada caso. Neste contexto, tudo o que tenho composto nos últimos anos tem resultado de encomendas, dado que não tem sobrado tempo para escrever noutros contextos. Na realidade, a maior parte da minha atividade criativa é exercida durante os períodos de férias letivas, portanto, como vê, não me sobra muito tempo para além daquele que reservo para assegurar a entrega das partituras nos prazos acordados...

Luís TinocoAs suas obras têm sido estreadas não só em Portugal como no estrangeiro. Sente que lá fora há uma boa recetividade ao trabalho que produz?
Sinto-me feliz com essa receção, de facto. Uma boa parte do que tenho escrito nos últimos anos tem partido de encomendas de orquestras internacionais, e outras peças que resultaram de encomendas nacionais têm tido também algumas oportunidades fora de portas. Por vezes, tem surgido também a oportunidade de compor para projetos em parceria com orquestras nacionais e estrangeiras, como é o caso da peça que estou agora a escrever em resposta a uma co encomenda da Orquestra Gulbenkian e da Orquestra Sinfónica do Estado de São Paulo.

A obra "Incipit" teve há dias estreia mundial no Brasil. A obra foi interpretada pela Orquestra Sinfónica Brasileira sob a direção do maestro americano Tito Muñoz. Como correu esta experiência? Como caracteriza esta obra?
A experiência foi muito positiva, quanto mais não seja pelo facto de ter tido a oportunidade de escrever uma peça para ser estreada por uma das principais orquestras brasileiras, em dois auditórios de grande relevo na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se de uma composição que resultou de uma parceria entre instituições portuguesas e brasileiras (Opart, em Portugal, e Cidade das Artes, no Brasil) e que pretende assinalar os 450 anos da fundação do Rio de Janeiro. Como tal, a partitura procura estabelecer uma ponte entre os dois países e, também, com a música que se escrevia em Portugal por volta de 1565. Neste contexto, “Incipit” inclui citações de Audivi Vocem De Caelo [Liber Missarum, Ed. Officina Plantiniana, Antuérpia, 1621] - uma obra do compositor português Duarte Lobo. Infelizmente, por diversos motivos, não pude acompanhar a estreia no passado mês de junho e tenho aguardado com alguma ansiedade a chegada da gravação feita pela Orquestra Sinfónica Brasileira. Mas já sei que a Orquestra Sinfónica Portuguesa fará em breve a estreia nacional desta peça, sob direcção da maestrina Joana Carneiro e, como tal, poderei então ouvir pela primeira vez esta peça ao vivo.

Muito obrigado por este tempo que dedicou ao nosso portal e aos nossos leitores. Pode falar-nos um pouco dos próximos projetos que levará a cabo? Tem novas composições para estrear em breve?
Como disse há pouco, neste momento trabalho numa peça sinfónica que será estreada pela Orquestra Gulbenkian em fevereiro de 2016, e pela Orquestra Sinfónica de S. Paulo em maio do mesmo ano. O título – O Sotaque Azul das Águas – deriva de um verso do poeta brasileiro Manoel de Barros. Depois, irei escrever um andamento para um bailado da Companhia Nacional de Bailado, que irá envolver vários compositores portugueses e que terá a sua estreia também em 2016. Entre as composições que já foram apresentadas publicamente, terei a estreia portuguesa de Incipit, pela OSP dirigida por Joana Carneiro e, nos Estados Unidos, a Orquestra Sinfónica de Tacoma, dirigida por Sarah Ioannidis, irá fazer a estreia americana de Before Spring. No início do próximo ano, destaco ainda um concerto com a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, no qual poderei voltar a ouvir Díptico para Piano e Orquestra – uma peça que foi estreada na Casa da Música em 2005 e que, desde então, não voltou a ser ouvida em concerto.

tinocoluis.com

Luís Tinoco. O compositor português em entrevista.

Artway
APORFEST - Associação Portuguesa Festivais Música
Fnac
Bilheteira Online