Felipe Antunes. O cantor e o compositor.

Felipe AntunesFelipe Antunes está com viagem marcada para Portugal onde irá realizar vários concertos. Já em Espanha, aceitou o nosso desafio para responder a algumas questões sobre a sua carreira e a carreira dos Vitrola Sintética. Sobre o momento musical que o Brasil atravessa disse: «De facto um dos maiores problemas é a compreensão da necessidade de cultura para a vida das pessoas. E isso é natural em um país que ainda abriga uma grande desigualdade social. Se por um lado há diversas formas de financiar publicamente a cultura pra que o acesso seja democrático, por outro, quem vive na periferia não tem nem tempo e nem disposição - depois de trabalhar um dia todo e ter de enfrentar horas pra chegar até a sua casa – pra ir buscar uma atividade cultural. Então, naturalmente que a pessoa fica em casa consumindo o que a mídia, principalmente televisiva, já organizou pra ela. E pode ter certeza, nesse plano raramente a nossa margem independente está».

Felipe Antunes, a música foi sempre a primeira opção na sua vida? Algum dia sonhou fazer outra coisa?
Não sei dizer se foi a primeira opção, mas foi a opção natural. Não consigo pensar a música ou qualquer outra profissão como um ato não natural. Aquilo que chamamos de trabalho está associado a tortura. A etimologia da palavra nos diz isso, e acredito que não podemos levar a cabo essa origem. Por isso é que lhe digo que não sei se é a primeira opção, também não sei se é uma opção, é onde me sinto bem agora. Já me senti (e ainda me sinto) bem na ciência, estudando o mundo atômico dos materiais – coisa que até hoje faço em projetos de pesquisa pelas universidades - lembro aqui que já estive um tempo, em 2010, na Universidade de Aveiro – e na verdade não acho tão diferente assim; ciência e arte se comunicam, sempre.

A voz e a viola sempre foram os instrumentos preferidos?
A voz, hoje, é o instrumento mais confortável para mim. O instrumento físico que mais gosto de ter por perto é o piano. Foi o meu primeiro contacto com a música, quando tinha oito anos, mas na altura foi pouco. Depois passei muito tempo sem comunicação com ele. Na viola, tecnicamente fico mais a vontade que no piano. Já a toco há mais tempo, principalmente para compor. Nestes concertos que farei sozinho usarei os três: voz, piano e viola.

Vitrola Sintética, Sintético CapaDaqui a alguns dias passará por Portugal. O que nos vai apresentar?
Estes concertos serão bastante puros. No máximo da pureza das canções. E terão diferenças entre eles. Os concertos nas Fnacs serão mais voltados para as canções do "Sintético", nosso novo trabalho do Vitrola Sintética. Os demais serão mesclados com as canções do meu trabalho a solo em gravação e um pouco de poesia. Gravei alguns experimentos lendo poemas - que devem entrar também no trabalho a solo – inspirado - e também para reverenciar – em alguns dos que para mim estão entre os grandes leitores de poemas do Brasil. Por exemplo: Antônio Abujamra, Maria Bethânia e Vinicius de Moraes; o primeiro nos deixou recentemente, mas ficou um legado provocador dos maiores possíveis. E que devemos seguir!

Três discos lançados com a banda Vitrola Sintética são a prova de que o vosso projeto está sólido e dotado de maturidade para ainda fazer muito mais?
Acho que sim! Nós todos do Vitrola temos essa sensação. Chegámos a um ponto de satisfação com aquilo que nos propusemos no início do processo. "Sintético" nos satisfez, era isso que queríamos fazer. Os três álbuns foram produzidos por nós mesmos, e isso reforça nossa satisfação em ter alcançado um lugar em comum. E digo que até já pensamos um pouco na sequência. Em como será o próximo. Não musicalmente, que isso aparece, mas sobre como será o processo. Pode ser, por exemplo, que dessa vez a gente chame um produtor de fora, alguém que a gente se sinta bem e que, como o Abujamra, nos provoque, nos tire do estado satisfeito que entramos com o "Sintético".

Pode apresentar-nos os outros nomes que compõem a banda?
Claro! O Vitrola Sintética tem também Rodrigo Fuji na guitarra e piano, Otávio Carvalho no baixo e programações e Marcelo Bonin na bateria e octapad. Sobre eles queria dizer que o Rodrigo é como nosso maestro. Toca vários instrumentos e teve que se virar nos que não tocava até então, além de ter também cantado em uma faixa. Otávio é o rei dos timbres e sonoridades. É um profundo pesquisador disso, também é dele o estúdio que gravamos esse e o anterior, "Expassos". Além disso, uma das canções, "Mergulhar", do "Sintético" é dele, entre outras que temos em parceria. A canção é linda. E acredito que Marcelo tenha alcançado uma maneira muito própria de se expressar com a bateria nesse novo disco. Me parece que isso foi possível com a fenda larga que abrimos além do Rock. Ele é do rock, mas foi brilhante nas células que criou organicamente. Nesse disco - diferente do anterior - não ensaiamos; gravamos tudo direto, captando as primeiras sensações de cada um com a canção.

Vitrola Sintética

A banda Vitrola Sintética convidou muita gente para colorir o álbum "Sintético". Pode apresentar-nos todos esses convidados?
É verdade que bastante gente esteve connosco no novo álbum, e isso, penso eu, reflete diretamente no nosso momento em São Paulo. A comunicação entre os artistas independentes é fortíssima e saudável. Nós nos consumimos, nós nos visitamos e frequentamos o tempo todo. Começo pelo Maurício Pereira, grande poeta da nossa canção, parceiro de André Abujamra na banda "Os Mulheres Negras". A carreira solo do Maurício é das mais fortes e tocantes que eu conheço. Nós devemos muito a ele pela inspiração, generosidade e parceria com o Vitrola. Gustavo Ruiz é hoje um dos maiores produtores do Brasil. Irmão da querida amiga Tulipa Ruiz é, também, guitarrista e produtor da banda dela; realmente ele é um grande mestre da produção e da guitarra! Bárbara Eugênia é minha parceira de vida, amiga das maiores. Me alegro de tê-la viva em nossa obra. Grande cantora e compositora; estará também em Portugal ao mesmo tempo em que eu estarei. Ela participará do meu concerto do dia 12 de julho na Fnac Oeiras. Gui Calzavara apareceu no estúdio no dia do meu aniversário, ele é meu amigo de infância, grande ator, músico, compositor e tudo mais. Nesse dia tocou trompete em uma canção pra me presentear. André Molinero é parceiro de Rodrigo Fuji em um projeto musical. É um grande músico, tem muito conhecimento e perceção musical. Fê Stok veio nos visitar num dia de gravação, e não teve jeito, captamos sua presença de um jeito muito bonito. Pedro Mibielli nos foi apresentado pelo Gustavo Ruiz, ele tocou violino e viola no álbum, é um grande músico. Nas canções do álbum gravou arranjos de Rodrigo Fuji e, na faixa "Faz um tempo", pedimos que ele ficasse livre, que fizesse do jeito dele! O resultado foi ótimo. Todas as participações nos fazem muito honrados e seguros de que demos passos bem dados.

Para além de ser a voz principal, o Felipe é também responsável pela maioria das composições da banda. Quais são as principais fontes que o inspiram?
Me inspiram as pessoas. No geral, sabe? Em qualquer lugar que estou o que mais me estimula é o contato com as pessoas. Mais do que os próprios lugares. Ou talvez como as pessoas se comportam nesses lugares. E mais do que isso acredito num processo interno. É muito instigante ficarmos nos percebendo. Então no final das contas falo sempre de mim mesmo, de como eu pensaria por ter uma determinada sensação, ou de como eu acho que pensaria, ou até como concluiria em uma determinada situação. Porque na verdade, no geral, nunca falo de situações resolvidas. Até porque essas já encontraram sua solução. Talvez então a falta de final somada "a falta E o final" sejam minhas principais fontes.

Qual a música que mais gosta de ouvir e quais são as principais influências que vê refletidas na música que faz?
Essa é sempre uma questão difícil, mas nesse momento vou ficar com "Trovoa" do "Maurício Pereira". É das canções mais fortes, verdadeiras e bonitas que já escutei. É viciante. Acho que vou tocá-la em algum show por aí.
Não sei exatamente se acaba refletindo, mas escuto muito os poetas da canção brasileira. Um dia conversando com o próprio Maurício ele me dizia das diferenças entre compositores cancioneiros e poetas. Concordo com ele que há mesmo diferença. Não é fácil ter um pouco das duas coisas na composição, e nem precisa, mas às vezes quando isso se funde é realmente muito forte. Escuto muito Vinicius de Moraes, Ná Ozzetti, Cartola, Sergio Sampaio, Erasmo Carlos e também gosto muito da sonoridade toda de Louis-Jean Cormier, Serge Gainsbourg, Françoise Hardy, Frank Sinatra, Chet Baker e etc.

Vitrola Sintética, Sintético ContracapaPara além do seu primeiro álbum a solo, produzido por Wem Mazon, está também a preparar a edição do seu primeiro livro. Quais as temáticas que aborda nestes dois trabalhos em nome próprio?
Voltando um pouco pro que eu dizia no começo, acredito que todas as coisas que realizamos fazem parte do que nós somos, então, cada projeto é só um pedaço de um todo que nos forma. Por isso, como o álbum a solo e o livro praticamente coexistiram no tempo de conceção, eles abordam fluxos de ideias que podem ter a mesma motivação, mas de maneiras diferentes. Ainda assim, pra tentar separar um pouco: uma das coisas que esse álbum expressa é a compreensão generosa dos que o conceberam comigo. Eles cavaram junto os sentimentos mais profundos que habitaram as composições - e nesse contexto faço reverências e ressalto a minha honra de ter tido, entre músicos e participações, Ná Ozzetti, Juliana Perdigão, Hélio Flandres (Vanguart), Enzo Banzo (porcas Borboletas), Bocato- trombone, Thomas Rohrer –rabeca, Arthur Matos – violão, Rafael Montorfano (Chicão) – piano, Leo Mendes – violão, guitarra e ukulele, Meno Del Picchia – baixo, Otávio Carvalho – baixo e teclado, Kezo Nogueira – bateria, no álbum. O livro é praticamente um vómito reflexivo personificado num personagem que não se nomeia e que debate com o narrador sobre os pensamentos que lhe ocorrem. Há também uma personagem, que ganha um apelido no decorrer dos textos. Ela participa ativamente em provocar o ato intenso e confuso de pensar. E é nesse lugar que narrador e personagem se reconhecem e também se estranham. No lugar do sexo, do amor, da projeção, da fuga, do silêncio, do tempo e etc. Acho que ainda não sei falar direito sobre esse romance, talvez hoje, aqui, pela primeira vez, eu tenha conseguido prolongar um pouco mais da impressão sobre ele.

A música brasileira atravessa um bom momento?
Ótimo momento. Digo isso me baseando por onde ando. Tem muita gente boa fazendo música no Brasil. Posso falar mais sobre São Paulo, que é onde vivo, mas no Rio também tem, no Sul, em Recife, Goiânia e etc. Afirmo assim, com toda essa segurança, me baseando na cena independente. O que se propaga de um jeito mais popular sinceramente não conheço muito. Aqui em Madrid, onde estou no momento, me falaram de gente do Brasil que eu nem conhecia. Enfim, nem vou entrar nessa questão por falta sincera de conhecimento. Mas reforço - do que eu conheço – que tem muita gente boa, como: Tata Aeroplano, Meno Del Pichia, Bárbara Eugênia, Gustaco Galo, Tulipa Ruiz, Metá Metá, Maglore, Porcas Borboletas, Juliano Gauche, Juliana Perdigão, Tigre Dente de Sabre, Cícero, Graveola e o lixo polifônico, Helio Flanders e muitos outros mais que eu poderia passar o dia lembrando.

É fácil ser-se músico num país como o Brasil? Há muita concorrência entre os músicos, ou o mercado é tão grande que há espaço para todos?
Concorrência nesse meio que eu te disse não há. Pelo contrário, há muita ajuda e parceria; aproveito para citar e agradecer aqui o Luiz Gabriel Lopes, do Graveola e o lixo polifônico, que compartilhou comigo muito de suas trilhas para chegar até vocês em Portugal. Ele é um exemplo bastante claro de como as coisas têm funcionado. De facto um dos maiores problemas é a compreensão da necessidade de cultura para a vida das pessoas. E isso é natural em um país que ainda abriga uma grande desigualdade social. Se por um lado há diversas formas de financiar publicamente a cultura pra que o acesso seja democrático, por outro quem vive na periferia não tem nem tempo e nem disposição - depois de trabalhar um dia todo e ter de enfrentar horas pra chegar até a sua casa – pra ir buscar uma atividade cultural. Então, naturalmente que a pessoa fica em casa consumindo o que a mídia, principalmente televisiva, já organizou pra ela. E pode ter certeza, nesse plano raramente a nossa margem independente está. Aí entra a dificuldade. Porque o alcance fica reduzido e sempre dependente de outros e novos fomentos. Enfim, estou divagando sobre o tema, mas pra mim a questão do mercado está atrelada à questão social e impositiva que os halos de poder exercem.

Muito obrigado por este tempo que dedicou aos nossos leitores. Como gostaria que a sua obra fosse recordada daqui a uns anos?
Eu que agradeço o espaço e a atenção dos seus leitores - em meu nome e em nome de todo o Vitrola Sintética - gostei muito de dividir essas ideias com vocês e estou muito empolgado com os concertos em Portugal. Sobre como eu gostaria que a obra fosse recordada? Não sei, daqui uns anos devo estar em outro processo, e como é sempre isso, o processo, que me encanta, acho que gostaria que se lembrassem da minha obra e da do Vitrola como "obras em processo".

Felipe Antunes

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