Luís Portugal. Os projetos musicais pessoais e o regresso do Jafumega.

Luís PortugalLuís Portugal recebeu-nos em Estarreja para uma conversa onde viajámos pela sua vasta carreira. O regresso do Jafumega foi obviamente um tema incontornável. Jafumega que subirá ao palco com a Filarmonia das Beiras para um concerto único no próximo dia 20 de junho no Cine-Teatro de Estarreja. Luís Portugal: "Sempre consegui fazer várias coisas. Não sei se bem ou mal, mas nunca me fechei numa gaveta dizendo que sou cantor e não faço mais nada. Quando as pessoas me colocam essas alternativas de fazer, dentro da arte, projetos diferenciados, vou sempre aceitando por gostar de novos desafios. Já fiz coisas para crianças, depois veio a escrita criativa... Vamos ganhando gosto por estas coisas e depois tenta-se conciliar (...) vejo a arte num contexto de expressões artísticas integradas. Já fiz produções de teatro, encenação, portanto considero que a arte deve ser um todo no qual podemos percorrer vários caminhos".

Obrigado por nos ter recebido. Pode falar-nos um pouco daquele tempo, antes ainda do Jafumega, em que, enquanto criança e jovem, já cantava as primeiras melodias?
Em Vila Real havia um Jardim-de-Infância que eu frequentei e que tinha Educação Musical. Logo aí iniciei a minha aprendizagem em piano, acordeão... Já me esqueci de tudo (risos). A música foi um bichinho que me foi sendo introduzido e que se aliou às minhas vivências familiares, nomeadamente através do meu irmão mais velho que tocava no estabelecimento de ensino que frequentava no grupo de jovens. Eu fui entrando nesse grupo pela "porta do cavalo" pois ainda não tinha idade para o fazer. Quando vim para a faculdade continuei sempre ligado à música participando em alguns grupos musicais...

O Jafumega começa nessa altura da faculdade?
Exatamente.

Como se processaram as coisas nesse tempo em que tudo era tão diferente? Como se chegava a uma editora nesse tempo?
Para começar, teve que ser através de um telefone fixo... (risos). Também não havia tantas editoras como hoje. Havia duas ou três multinacionais. Inicialmente não foi muito fácil até porque as editoras estavam todas sediadas em Lisboa. Sendo nós uma banda do Porto passávamos um bocado ao lado...

Luís PortugalIsso acaba por valorizar ainda mais o vosso trabalho...
Sim, de certa forma. Mesmo o próprio Rui (Rui Veloso) após o êxito do "Chico Fininho" foi como que "convidado" pela editora a ir para Lisboa. Isso, só por si é revelador... O que vinha do Porto ainda era conotado como algo da província... Portanto podemos dizer que o início não foi muito fácil. Foi necessário nós chegarmos a uma pequena editora de Lisboa que era a Metro-Som e que nos abriu as portas permitindo-nos a gravação de um primeiro disco que foi gravado em tempo record (risos). Algo do género: gravar num dia e misturar no outro (risos). Foi um primeiro disco cantado em inglês. Entretanto, com o sucesso do "Chico Fininho" do Rui Veloso, a editora conversou connosco no sentido de fazermos algo em português. Nós não tínhamos textos em português, nem pensávamos nisso. Fomos ao encontro do Carlos Tê, outro homem do norte, que escreveu para nós e começámos a ter uma carreira mais visível.

Foi então cantando em português que atingiram o sucesso que chega ainda aos nossos dias. Mas há outras razões que possamos atribuir a tal reconhecimento? O facto de ser uma banda que tocava muito bem também ajudou?
Sim. De facto foi importante. Jafumega é uma banda de exímios instrumentistas e com boas ideias musicais. Os irmãos Barreiros, ainda antes do Jafumega, já tinham um percurso na música com os Mini-Pop. No caso do Álvaro Marques, já havia um passado musical ligado aos Psico. O José Nogueira sempre esteve ligado a outros projetos na área do jazz. Não interpretem mal o que vou dizer mas «Não éramos um grupo de miúdos de garagem». Todos os músicos tinham já uma consistente aprendizagem musical e uma considerável tarimba de palco. Aliás, antes de eu entrar para o Jafumega, fez parte da banda o António Pinho Vargas tendo a banda na altura um caráter mais instrumental. Posteriormente procuraram um cantor para fazer originais sendo aí que se dá a minha entrada.

Passados todos estes anos dá-se o regresso do Jafumega aos palcos. Como sentiram esse regresso? Alguma vez deram por vocês a pensar naquilo que poderiam ter feito se naquele tempo tivessem os meios de que hoje dispõem?
Em termos tecnológicos, sim. Há outro aspeto que pesa muito e que se prende com o circuito de auditórios que hoje existe. Na altura não havia. Nós éramos uma banda que tinha muitos concertos mas fundamentalmente no verão. Na altura a música moderna portuguesa virou moda e qualquer festarola queria ter grupos de pop-rock. Na altura também não havia este movimento denominado "pimba". Nos dias de hoje consegue-se montar uma digressão de inverno durante vários meses pelos auditórios que existem no nosso país. Isso faz logo uma grande diferença relativamente àqueles tempos. A diferença tecnológica também é enorme. Hoje não é preciso ir a um estúdio para gravar um disco. Basta uma pessoa ter um bom computador em casa e mais um ou outro aparelho e algum software e faz-se um disco. Essa é a grande diferença porque em termos do chamado "quem tem mãos toca guitarra" tudo continua na mesma.

Jafumega

Considera que todas as vantagens tecnológicas que acaba de referir podem se certa forma confundir o público no sentido de que a qualidade pode por vezes ficar submersa em tanta informação? Será fácil, no meio de tanta coisa a sair diariamente, evidenciar um projeto musical?
Esse aspeto é muito interessante porque, efetivamente, hoje em dia até se pode editar um projeto só nos meios digitais sem que este tenha que ser lançado no formato físico. Nesse sentido, qualquer pessoa o pode fazer. Depois pergunta-se se as pessoas compram... Mas na verdade quem é que compra música nos dias de hoje? De qualquer modo, para além de todas essas transformações, penso que o talento das pessoas, mais tarde ou mais cedo, vem à tona. Mesmo que eu ouça na net 5 ou 6 trabalhos, no final vou dizer que gosto mais deste ou daquele porque é bem feito musicalmente, porque tem bons textos, etc. É certo que há aqueles casos de sucesso que ninguém percebe muito bem porque acontecem, mas continua a ser o público a mandar e a ditar o que deve ou não ser um sucesso.

Mas por vezes o gosto do público é muito induzido... Se ouvirmos uma música 20 vezes por dia na rádio, acabamos por trautear sem querer este ou aquele tema...
Sim, mas já naquela altura era assim. Por isso é que por vezes digo que as alterações não foram tantas assim. Quem tinha a "sorte" de chegar a uma rádio nacional, acabava por chegar ao grande público. Na altura havia uma coisa que hoje não existe e que eram os programas de música nos canais televisivos. Hoje o que há são os "talk-shows" onde os músicos vão para abrilhantar a tarde ou a manhã. Naquele tempo os músicos podiam explicar e falar sobre o seu projeto e passavam os videoclips... Chegava-se assim com relativa facilidade ao grande público. Hoje os canais televisivos não têm programas de música, e se não chegarmos às rádios nacionais, dificilmente seremos conhecidos do grande público. Mesmo utilizando as redes sociais é difícil porque nem toda a gente lá vai. Há no entanto quem consiga saltar das redes sociais para outros voos.

JafumegaDe quem partiu esta ideia de se voltarem a reunir?
Já há uns anos atrás, houve a possibilidade de fazermos os Coliseus porque eram salas míticas que tinham falhado no nosso percurso. Já tínhamos feito os coliseus mas integrados em festivais e não em nome do Jafumega. Houve essa possibilidade através de uma agência de Lisboa que nos lançou esse repto e não foi para a frente por razões técnicas. Acabou por acontecer em 2013.

Para além do Jafumega, o Luís Portugal está envolvido em inúmeros projetos que englobam a música no contexto global das artes. Vê a música numa perspetiva integrada relativamente a outras expressões artísticas?
Eu frequentei o curso de arquitetura e ainda cheguei a estar inscrito em história da arte. Acabei por ceder ao chamamento da música e dos palcos e não deu para conciliar. Sempre gostei de fazer várias coisas. As artes visuais são também uma paixão que tenho. Sempre consegui fazer várias coisas. Não sei se bem ou mal, mas nunca me fechei numa gaveta dizendo que sou cantor e não faço mais nada. Quando as pessoas me colocam essas alternativas de fazer, dentro da arte, projetos diferenciados, vou sempre aceitando por gostar de novos desafios. Já fiz coisas para crianças, depois veio a escrita criativa... Vamos ganhando gosto por estas coisas e depois tenta-se conciliar. Isto, para responder à pergunta, mostra que vejo a arte num contexto de expressões artísticas integradas. Já fiz produções de teatro, encenação, portanto considero que a arte deve ser um todo no qual podemos percorrer vários caminhos. Tivemos aqui (cine-teatro de Estarreja) no fim-de-semana passado um belíssimo exemplo do que acabo de referir. Falo de um belíssimo espetáculo de dança contemporânea do Victor Hugo Pontes. O Victor Hugo é encenador mas, ao mesmo tempo, tem um curso de pintura, um curso de teatro, ou seja, além de encenador ele é cenógrafo, faz produção de teatro, escrita, logo, é uma pessoa que se move na arte no sentido lato.

A participação do Luís Portugal em diferentes contextos artísticos faz com que uns acabem por "alimentar" os outros, ou seja, também vai crescendo enquanto cantor participando em teatro, comédia...
Sim, participei em espetáculos do Fernando Mendes durante muitos anos e foi aí que surgiu a possibilidade de me dedicar à escrita criativa porque o Fernando procurava guionistas. Cheguei a escrever também um livro infantil para o Fernando Mendes. Foi a partir daí que ele me pediu para escrever textos para ele, ao que respondi que escrever textos para ele seria um pouco complicado (risos) pois move-se numa área que não é a minha. Foi necessária alguma flexibilidade e aprendizagem para que eu começasse a escrever algo que se enquadrasse.

Luís Portugal em entrevistaEstamos a fazer esta entrevista aqui no Cine-teatro de Estarreja, o que acaba por mostrar outra faceta à qual foi estando ligado, ou seja, a programação...
Esta vertente surge numa altura em que fui apresentar a Torre de Moncorvo um espetáculo que se chamava "RIT – Rádio Interferência & Televisão" com um grupo que se chamava ÓQTRUP. Era um espetáculo que fazia a fusão da música com o humor. Fui então apresentar o espetáculo a Torre de Moncorvo e, em conversa com o presidente da câmara local e com a sua esposa, que era a responsável pelo Cine-teatro, surgiu a proposta da parte deles no sentido de passar a ser eu o responsável pela programação do Cine-teatro de Torre de Moncorvo. Na altura eu ainda vivia em Anadia que era muito longe, mas era um desafio que eu gostava de abraçar. Foi-me dada total liberdade em termos de horários e acabei por aceitar. Depois, por razões políticas, interrompi essa minha colaboração que durou 3 anos. Agora recomecei essa minha atividade aqui em Estarreja após ter feito algumas produções para a Câmara de Albergaria-a-Velha.

Voltando ao Jafumega, e aos desafios, gostávamos de saber se, à semelhança do desafio lançado para que se juntassem novamente para tocar, já vos foi lançado o desafio para que compusessem novos temas.
Não. Esse desafio é lançado por nós a nós próprios. É algo que, desde o nosso regresso aos coliseus, nos tem assaltado. Temos avançado nesse sentido, não de forma tão célere como desejaríamos até porque todos estamos envolvidos em muitos projetos. No entanto ainda temos muitas músicas que não foram gravadas. Aliás, quando a banda terminou já tínhamos um disco quase pronto. Há coisas guardadas que agora saltarão cá para fora. É óbvio que em alguns casos teremos que lhes dar uma roupagem nova até porque nunca fechámos os olhos, nem os ouvidos, aos novos movimentos musicais que vão aparecendo. Isso refletiu-se de forma evidente nos convidados que tivemos nos coliseus. Tivemos convidados da nossa altura, como o Jorge Palma, mas tivemos o António Zambujo e a Capicua que já são de outra geração. Digamos que estamos na linha da frente, ou melhor, numa retaguarda avançada (risos). Relativamente aos originais, quando considerarmos que estão prontos para dar à luz, lá faremos o seu parto (risos).

Luís PortugalFalámos aqui dos projetos do regressado Jafumega mas da parte do Luís Portugal também poderemos esperar novos projetos a título pessoal?
Eu estou integrado num projeto chamado "Calendário", um projeto que ainda está no segredo dos Deuses. É um projeto que estou a fazer com muito gosto e que me está a dar imenso gozo fazer. O projeto está pronto e só temos trocado ideias relativamente à melhor altura para que este venha cá para fora. É um projeto que faço com o Tozé Santos dos Perfume e com a Lúcia Moniz. O projeto é feito originalmente para a Liga Portuguesa contra o Cancro. Não foi uma encomenda mas, como a partir de uma certa altura eu comecei a colaborar com eles na produção de algumas coisas e a ir ao 12º piso do IPO do Porto contar e cantar umas histórias aos miúdos, ganhei alguma amizade por algumas pessoas lá dentro que me foram lançando alguns reptos. Um desses reptos passava por fazer uma canção de Natal que fiz com muito agrado. Depois propuseram-me gravar a Canção de Natal em disco mas, hoje em dia, lançar um disco físico só com uma canção, mesmo sendo para angariar fundos, seria um pouco estranho. Antigamente ainda tínhamos os singles pequeninos com lado A e lado B... Propus então que se pensasse em gravar mais algumas coisas para que depois se fizesse o disco. Foi assim que nasceu o "Calendário" assim denominado por ter 12 canções referentes a 12 efemérides do ano, como por exemplo o Dia do Pai, ou o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, ou Dia Mundial da Floresta, ou o Dia Mundial da Música, ou o Dia Mundial do Enfermeiro, estou apenas a lembrar-me de alguns... Há pouco não referi mas temos ainda outro elemento muito importante aqui que é o José Guedes que é a pessoa que nos escreveu todos os textos. O José Guedes já colabora comigo desde os anos 90. Foi ele que escreveu, por exemplo o "Dinis dos Botões". O José é uma pessoa que escreve muito bem e eu achei que lhe devia lançar esse repto e ele rapidamente mandou uma fornada de belíssimos textos e nós tivemos que andar ali a escolher 12 dos 20 que ele nos enviou. Este projeto está pronto, inclusivamente com um videoclip gravado, e vai reverter integralmente a favor da Liga Portuguesa Contra o Cancro. As músicas são nossas, ou seja da Lúcia Moniz, do Tozé Santos e minhas, não interessando se são mais de uns ou de outros pois decidimos que as músicas são "Calendário". Sem falsas modéstias, achamos que o projeto é bom, resultando bem a ligação das três vozes. É um projeto que tem pernas para andar para além da Liga Portuguesa Contra o Cancro. O primeiro single era para ter saído já neste mês de maio mas ficou decidido por todos que deveríamos esperar por setembro pois a proximidade do verão altera muito o mercado sendo que as próprias pessoas estão já com a cabeça mais virada para as merecidas férias que se avizinham. Portanto este é o projeto que tenho em cima da mesa agora e que sairá em setembro. Para além deste projeto não tenho mais nada a solo pois tenho todo o meu tempo ocupado com o trabalho que estou a desenvolver aqui e com o livro e cd que lancei para crianças recentemente, "As Canções da Minha Escola".

Muito obrigado. Por nos ter proporcionado esta agradável conversa. Para terminar que deixar algum sublinhado relativamente ao próximo espetáculo do Jafumega?
Sim. No próximo dia 20 de junho, temos mais um desafio que nos foi lançado. Jafumega e a Filarmonia das Beiras vão estar em simultâneo em palco num total de quarenta e tal músicos com arranjos do Carlos Azevedo. O Carlos Azevedo é um excelente músico que está à frente da Orquestra Jazz de Matosinhos. Estamos todos muito entusiasmados porque já conhecemos os arranjos que são belíssimos na nossa opinião. É mais uma etapa do Jafumega ao longo de todos estes anos. Iremos registar o momento em vídeo para edição de um possível DVD mais tarde porque é outra das lacunas da banda o facto de não termos nenhum registo em vídeo. Não digo que não repetiremos a experiência mas para já será algo único.

Luís Portugal

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