Jost Nickel: “O groove é o mais importante para um baterista”

Jost NickelDe visita a Portugal, Jost Nickel trouxe um discurso de bateria muito sólido que se fundamenta numa sonoridade muito bem conseguida. Tendo como pano de fundo o Festival de Percussão e Bateria de Lavra, tivemos uma conversa com este baterista reconhecido mundialmente como o "homem Groove". Para além das clínicas que protagoniza por todo o mundo, Jost Nickel toca ainda com o guitarrista Barry Finnerty e com a banda alemã Jan Delay. Recentemente lançou o livro "Jost Nickel's Groove Book": "Este livro foi feito para que nos possamos divertir enquanto trabalhamos com ele, já que há muitos livros com os quais não há diversão enquanto os trabalhamos, pois apenas nos dizem o que temos que fazer, sem nos deixar perceber porquê. Pode ser divertido trabalhar com este livro e eu tento trazer o aluno para uma situação em que ele pode criar os seus próprios padrões e grooves".

Jost Nickel é um dos bateristas de referência na Alemanha. Iniciativas como esta que aqui vivenciamos hoje ajudam-no a tornar-se uma referência mundial?
Nós, enquanto bateristas, temos a oportunidade de viajar muito por causa destes festivais. Não há festivais de guitarra como este, ou festivais de baixo. Mas festivais de bateria são mais comuns. Portanto, para mim, é uma grande oportunidade poder viajar para Portugal e tocar bateria, ou seja, fazer aquilo que me dá muito gosto. Eu tento não pensar muito sobre o que eu possa vir a ganhar com estas iniciativas. Tudo o que eu quero fazer hoje é tocar bem.

É a sua primeira vez aqui em Portugal?
Sim.

Jost NickelEstá a gostar? O que está a achar do nosso país?
É difícil ter uma opinião sobre o país pois cheguei apenas ontem à noite, mas tenho sido muito bem recebido até agora, e por isso tem sido uma experiência muito agradável.

Entretanto, enquanto esteve a preparar-se para o evento, já teve oportunidade de ouvir alguns dos bateristas que também irão participar no festival?
Eu só vi o menino de doze anos de idade, ele tocou um pouco quando eu entrei. Ele tocou muito bem, mas eu não sei o nome dele, ele venceu a competição (Gonçalo Albino). A verdade é que, após viajar durante 6 horas para chegar aqui, onde me encontro apenas há 12 horas, eu não me sinto muito conhecedor de Portugal.


O que o distingue dos outros bateristas enquanto professor?

É uma pergunta difícil de responder. Eu identifico-me mais como um baterista. Alguém que faz concertos e grava CDs, mas também ensino. Há uma universidade muito boa na Alemanha, onde eu dou aulas. A forma como eu ensino, está mais relacionada com a procura de uma maneira mais própria de abordar as coisas, e há duas coisas que eu posso fazer. Eu posso ser muito bom a analisar as coisas, e é nisso que me baseio para ajudar os meus alunos, porque muitas das coisas que fazemos como bateristas estão relacionadas com a teoria. Não é só sentar atrás da bateria e tocar, mas há muita teoria que tem que ser colocada em prática, e muitas pessoas não a usam. Eu tento ensinar os meus alunos a aplicar toda essa teoria que existe, e com ela encontrar maneiras de obter o melhor do instrumento.

Quais os pontos que considera essenciais para que um baterista se torne independente e um bom performer?
Eu acho que, no final, a coisa mais importante é encontrar a sua própria voz, não tentar ser o melhor baterista do mundo, mas tentar ser o melhor, seja ele quem for, do mundo. Eu tento ser o melhor Jost Nickel. E para alcançar isso, é preciso desenvolver algumas competências. E para mim, o mais importante para os músicos em geral é que eles tenham um bom groove. Isso é o mais importante. Não é apenas uma questão de velocidade ou técnicas. É mais a criação de uma boa sensação para as pessoas que o estão a ouvir ou a tocar com ele. Essa é a coisa mais importante, e que é difícil de ensinar.

Jost Nickel and Pedro Varandas

Quais os bateristas que mais o influenciaram desde que iniciou a sua aprendizagem?
Quando eu era mais novo gostava muito do Sting e por isso eu admirei todos os bateristas que tocavam com ele, e também com os Police. Stewart Copeland é um baterista único. O Sting tem muito bom gosto no que diz respeito aos bateristas e, como tal, todos os bateristas que o acompanham são excelentes. Omar Hakim, Manu Katché, Vinnie Colaiuta, Dave Weckl, Dennis Chambers, são os bateristas que eu ouço.

Quais os discos que mais prazer lhe deram gravar?
Essa é uma pergunta difícil... é realmente impossível de responder. Quando se trabalha em estúdio, as pessoas têm diversas maneiras de abordar o trabalho. Por isso, às vezes, eu estou no estúdio como um sideman. Na verdade, não se trata de eu dar a minha influência artística, mas sim dar aquilo que alguém está à procura. Então o cerne da questão assenta naquilo que a outra pessoa quer. Outras vezes o importante é criar coisas novas. Por isso é difícil responder. Muitas vezes, o trabalho em estúdio pode tornar-me muito silencioso. Não é stressante, mas cansativo, pois levamos horas a tocar takes e takes e às vezes nem sabemos porque é que é preciso tocar mais takes, porque não nos dizem. Por isso não posso escolher um.

Então, certamente, prefere tocar em público, ao vivo, ter a possibilidade de improvisar...
Nem por isso, é ótimo para fazer coisas diferentes. Eu gosto de tocar em concertos com as minhas bandas, assim como também gosto de tocar clínicas de bateria, que são duas coisas totalmente diferentes, mas também gosto de ir para o estúdio e gravar. Eu faço tudo isto com a minha bateria. No entanto, todas estas situações são diferentes então, na verdade, eu não consigo dizer de qual eu gosto mais.

Em relação aos seus projetos, quais os grupos musicais que integra neste momento?
Neste momento, eu acabo de chegar de uma tour com um guitarrista de São Francisco. O nome dele é Barry Finnerty. Eu conheci o Barry há muito tempo atrás e nós sempre tocámos juntos. Quando ele estava na Alemanha tocámos no Montreux Jazz Festival, e gravámos um CD, que foi muito divertido de fazer. Agora estamos em tournée e, quando eu voltar na segunda-feira, vou tocar com ele novamente na Alemanha. Barry é uma lenda. Ele já tocou com Miles Davis e Joe Cocker, The Crusaders, e muito mais. É uma grande honra para mim tocar com ele, e um enorme prazer. Há outra banda com a qual eu estou a tocar bastante na Alemanha, mas que só é conhecida nos países de língua alemã: Alemanha, Suíça, Áustria um pouco da Bélgica e Holanda, mas não Espanha ou Portugal ou Itália. Esta banda tem muito sucesso na Alemanha, por isso já fizemos muitos concertos. O nome da banda é Jan Delay. Acaba de ser lançado um DVD da nossa última tournée. Eu estou muito fascinado por tocar naquela banda, porque há muita diversão e as condições de trabalho são muito boas. Eu gosto muito de lá estar.

Jost Nickel's Groove BookRecentemente lançou o "Jost Nickel's Groove Book". O que o levou a compor esta obra pedagógica?
Eu comecei na Drummers Collective Nova York. Eles forneciam plataformas para desenvolvermos as nossas próprias ideias. Sempre que eu lá estava, escrevia imensos exercícios para mim. Cheguei a ter uma pilha de papel só com exercícios. Eu sempre quis escrever um livro de bateria, mas, como sabemos, é preciso começar a escrevê-lo. Fui sempre adiando porque tinha muitos concertos e outras coisas, e o tempo foi passando... E eu não lutei verdadeiramente por este objetivo. Mas agora eu quis escrever um livro que é acerca de groove, e é por isso que ele é chamado "Groove Book". Este livro foi feito para que nos possamos divertir enquanto trabalhamos com ele, já que há muitos livros com os quais não há diversão enquanto os trabalhamos, pois apenas nos dizem o que temos que fazer, sem nos deixar perceber porquê. Pode ser divertido trabalhar com este livro e eu tento trazer o aluno para uma situação em que ele pode criar os seus próprios padrões e grooves. Há muitos exercícios no livro que conduzem a uma maior criatividade.

Deve ser uma experiência inspiradora para os alunos que leem o seu livro...
Sim, com certeza. Música é inspiração, é algo que tem que ser divertido. Aquele menino de 12 anos de idade toca bateria porque se diverte ao fazê-lo, não se trata de qualquer outra coisa. Para mim este é o fator principal. Tem que ser algo que se quer fazer, e foi por isso que eu escrevi este livro. O estudante aprende muito, mas é divertido trabalhar com o livro o tempo todo porque, tudo o que se encontra no livro soa bem, não se resume a ter muitos exercícios, mas sim a ter aqueles que soam bem.

O livro encontra-se disponível aqui em Portugal? Onde é que os nossos leitores podem comprá-lo?
Eles podem comprá-lo na Amazon que, certamente, envia o livro para Portugal. É onde a maioria das pessoas compram o livro, mesmo na Alemanha. Mas também deve ser possível obtê-lo em lojas de música. Há também o meu site (www.jostnickel.com). Tem um formulário de contato, por isso às vezes as pessoas perguntam-me se podem obter uma cópia autografada do meu livro. Quanto a isso não é problema. Já enviei o livro para a China, Hong Kong, para a Tailândia, Brasil, Canadá, EUA, todo o mundo, mas ainda não enviei nenhum para a Portugal, até agora. (risos)

Talvez depois da sua participação neste festival...
Sim, talvez. (risos)

Muito obrigado. Existe algum conselho que gostasse de deixar aos aficionados de bateria portugueses?
Para mim é muito simples. Só têm que fazer o que gostam e gostar do que fazem. Para mim esse é o significado da música. É muito importante tocar e praticar todos os dias.
Obrigado.

Jost Nickel

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