Sérgio Nascimento. O baterista em entrevista.

Sérgio NascimentoFoi em Lavra – Matosinhos, mais precisamente nos bastidores do 7º Festival de Percussão e Bateira que encontrámos o Sérgio Nascimento com quem tivemos oportunidade de conversar durante alguns minutos. O nosso entrevistado trazia ao festival uma original atuação. A proposta constava na simbiose entre os seus batimentos e a projeção de um pequeno filme de animação. Dos seus batimentos dependia cada frame do filme. Som, originalidade, técnica, qualidade e maturidade musical foram naturalmente confirmadas ao longo da sua performance. O nome de Sérgio Nascimento tem estado ligado a artistas como Sérgio Godinho e David Fonseca, e a projetos como Deolinda, Humanos, entre outros. Não sou um seguidor de bateristas. Eu gosto muito de música e estou muito ligado à escrita de canções. O que eu faço, embora se movimente em áreas díspares, tem tudo a ver mais com o universo pop. Eu ouço música e analiso as soluções que as pessoas criam para aquilo.

Nós conhecemos o trabalho do Sérgio Nascimento com músicos como o Sérgio Godinho, David Fonseca, Deolinda, entre outros, mas esta vertente mais pedagógica que hoje aqui apresentará em Lavra é uma parte mais escondida da sua carreira. Tem participado noutros eventos desta natureza? Dá aulas?
Não. A parte pedagógica neste sentido que aqui vemos hoje não é de todo uma componente do meu trabalho habitual. Não costumo dar aulas. Penso que esse facto tem a ver com alguma preguiça da minha parte (risos). Considero que efetivamente existem pessoas com jeito para ensinar. São pessoas metódicas e no meu caso as coisas não são bem assim. Gosto muito de falar sobre bateria e percussão e aspetos técnicos da música mas não me revejo em algo onde tivesse que ter algo esquematizado e metódico. É claro que falo com pessoas mais jovens e explico tudo o que me vem à cabeça e respondo a todas as questões que me colocam partindo das experiências que já tive... mas dar aulas não é decididamente um objetivo.

Sérgio NascimentoE em eventos como este em que hoje nos encontramos? Tem participado?
A minha presença neste evento acontece devido à minha ótima relação com o Sr. Paulo Nogueira. Lembro-me que na altura em que comecei a trabalhar com as marcas que ele representa disse-lhe logo: "Sr. Paulo, só lhe peço é que não me coloque a fazer workshops porque eu não tenho feitio, pois sou muito tímido..." Mas é claro que ele lança sempre esses desafios. No caso daquilo a que vamos assistir aqui hoje, posso dizer que consiste na apropriação de um trabalho de um artista plástico meu amigo, que é o Pedro Reis, que assenta numa história que ele tinha em filme e que é contada por um baterista. Basicamente o que acontece é que o filme é disparado frame a frame a cada pancada que eu dou na bateria. Quando o Sr. Paulo me falou neste evento, como pensei que fosse uma coisa dirigida a um público dos 8 aos 80, fiz um filme de animação com uma personagem conhecida por todos. É um episódio ao qual eu acho muita graça mas teve que ser encurtado porque um filme de três minutos dá uma performance de vinte, vinte e poucos minutos. O filme em tempo real teria 24 pancadas por segundo, portanto eu teria que tocar muito rápido para fazer o filme passar em tempo real (risos).

Já o vimos tocar em projetos de áreas musicais tão díspares... Considera-se um músico polivalente?
Quando penso num músico polivalente, lembro-me de alguém que toca muitos instrumentos. Por exemplo alguém que cante, toque guitarra, piano e dê ainda uns toques na bateria, por exemplo. No meu caso, o percurso tem-me empurrado para dar resposta a coisas de forma diferente. Por exemplo, quando toco com o Sérgio Godinho é completamente diferente do que quando toco com o David Fonseca mas são coisas que abraço e gosto da mesma forma. O que tento fazer é adaptar-me. Muitas vezes o próprio kit tem peças ligeiramente diferentes. Apesar de a linguagem ser a minha, obriga-me caminhar um bocadinho ao lado. É o que acontece por exemplo com os Deolinda. Os sons de bateria que utilizo com Deolinda não têm nada a ver com os sons que uso com o David Fonseca.

Sérgio NascimentoSabemos que uma parte da sua formação foi feita no Hot Club mas, antes disso, teve outra formação?
Eu fiz no Hot Club os dois primeiros anos. Fiz o nível preparatório lá. Estudei com o Cajé e com o André Sousa Machado. Mas antes houve uma pessoa que me inspirou muito. Era um senhor que dava aulas na antiga escola da Diapasão. Era o professor Dário. Já lá vão vinte e tal anos... Apesar de não ser um baterista exemplar como era, por exemplo, na altura o André Sousa Machado, a metodologia dele era muito engraçada porque eu lembro-me de ir sempre muito entusiasmado para casa tirar montes de músicas para lhe ir apresentar na aula seguinte. Portanto este professor acabou por ser uma pessoa muito importante para me dar o impulso no sentido de fazer aquilo que estou a fazer agora. Na Diapasão também estudei com o Paleka, que depois acabei por vir a substituir no Sérgio Godinho.

Houve algum baterista que o tenha influenciado mais? Algum o marcou ao longo da sua juventude?
Não sou um seguidor de bateristas. Eu gosto muito de música e estou muito ligado à escrita de canções. O que eu faço, embora se movimente em áreas díspares, tem tudo a ver mais com o universo pop. Eu ouço música e analiso as soluções que as pessoas criam para aquilo. Gosto muito da linguagem dos Blur, por exemplo. Considero o baterista dos Blur uma pessoa incrível em termos de soluções, apesar de ser uma pessoa completamente low profile. Olhamos para ele e nem sabemos bem que ele é, mas é dos rapazes mais incríveis a solucionar coisas no âmbito da música pop. Não te posso dizer: "este ou aquele é o meu ídolo".

Há pouco falou que a sua formação já começou há mais de 20 anos. Hoje tudo é bem diferente. Concorda?
Sim. Os jovens têm hoje meios para crescer e chegar longe mais depressa. Há muitas ofertas formativas boas. Antigamente o que havia era o Conservatório Nacional ou o Hot Club. O Hot Club estava muito vocacionado para a área do jazz e o Conservatório vocacionado para o clássico. E ainda havia algo mais difícil que era o facto de interessar ao Conservatório miúdos muito novinhos. Como comecei a descobrir o instrumento pelos meus 14 / 15 anos, ao ir ao Conservatório para tentar entrar, já era velho para aquilo (risos). Há também uma coisa muito boa para esta geração. Os instrumentos são muito mais acessíveis. Antigamente tínhamos que ficar um ano a juntar dinheiro. Uns para comprar uma guitarra, outros para comprar um baixo, eu para comprar uma bateria em segunda mão... Os instrumentos são hoje mais acessíveis e são melhores. Como os instrumentos são melhores, as pessoas, a nível técnico, chegam mais longe, mais rapidamente.

Muito obrigado por este tempo que nos dedicou antes da sua performance aqui em Lavra. Qual o material que irá utilizar?
Eu também agradeço a oportunidade. Há muitos anos que utilizo baquetas 5A da Vic Firth. A minha bateria é Premier e os pratos que hoje estou a utilizar são Sabian.

Sérgio Nascimento

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