Marco Brescia e o Festival Internacional In Spiritum

Marco BresciaMarco Brescia é pianista, organista, Doutor em Musicologia Histórica/Organologia mas, no dia 2 de abril, fomos ao seu encontro para falar do Festival Internacional In Spiritum - Música e Contemplação na Cidade do Porto no qual tem deixado a sua assinatura como Diretor Artístico. Na segunda edição, à semelhança da primeira, alicerça-se a proposta de fruição do património edificado portuense através da linguagem musical. Fazer com que essa linguagem chegue aos mais diversos setores da sociedade e culmine numa realização similar a outros festivais europeus idênticos e de grande tradição tem sido o principal objetivo. Marco Brescia realçou a associação entre profissionais, cidadãos, agentes culturais e sociais e principais instituições da cidade. O concerto de abertura é já no dia 30 de abril no Salão Árabe do Palácio da Bolsa onde atuará a violinista americana Michelle Kim.

O Marco Brescia tem uma carreira como performer, investigador... Como concilia tudo isto com a organização do Festival Internacional In Spiritum?
(Risos) Dorme-se pouco. Dorme-se muito pouco... (risos). Esta é a resposta mais verdadeira.

Pode falar-nos um pouco da programação de 2015? Quais os destaques?
O Festival Internacional In Spiritum é um festival de música e património. É um festival que propõe a fruição do património através da música. Esta é a grande marca porque não são concertos no património, são concertos feitos para o património. Cada concerto é desenhado para um local específico. É o processo inverso do habitual. Normalmente pensa-se num artista que vem fazer um programa. Aqui pensa-se num espaço, num programa e num artista que tenha o perfil mais adequado para aquela demanda específica.

Marco BresciaPode adiantar-nos alguns dos nomes de artistas que irão marcar presença neste festival?
Sim. Este ano temos "La Real Cámara" de Espanha no dia 2 de maio. É um dos concertos de excelência. Este ano temos cinco concertos na programação oficial do festival e mais um concerto de apresentação do festival. Temos então "La Real Cámara" do Emilio Moreno que faz um concerto de música de câmara na Biblioteca do Palácio do IVDP, ou seja, do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto. É um concerto que se destina a recriar esse ambiente aristocrático e gravita em torno da obra instrumental de Luigi Boccherini e dos seus contemporâneos. Teremos ainda um concerto a dois órgãos que é o concerto de encerramento no qual se vai estrear a peça vencedora do Concurso de Composição Festival Internacional IN SPIRITUM, do compositor Daniel Bondaczuk, composta propositadamente para os órgãos dos Clérigos. Este concerto contará com o maior organista português da atualidade, que é o João Vaz, e com um dos maiores organistas de Espanha, que é o Javier Artigas. Entendo este concerto como um prolongamento do restauro dos Órgãos dos Clérigos. Para além da obra vencedora do concurso teremos a interpretação de obras originais para dois órgãos do século XVIII e primeiro terço do século XIX. Haverá também o concerto de abertura no dia 30 de abril com a violinista americana Michelle Kim no Salão Árabe do Palácio da Bolsa. É um concerto muito evocativo com obras de Saint-Saëns e César Franck. O reportório tem essa mesma inspiração oriental que gerou toda a decoração do salão. No dia 1 de maio haverá um concerto para dois pianos. É uma proposta bem contemporânea. É um ensemble italiano-espanhol com dois pianistas que são o Luca Chiantore, italiano e o David Ortolà, espanhol. A proposta deles é de vanguarda na qual um dos pianistas toca o reportório original enquanto o segundo piano improvisa sobre esse reportório original. O resultado é a fusão de dois estilos contrastantes mas que resultam numa nova forma de ouvir obras muito conhecidas. Eles fazem os Quadros de uma exposição para piano solo de Modest Mussorgsky.

Daniel Bondaczuk e Marco BresciaO Concurso de Composição Festival Internacional IN SPIRITUM com o Prémio Joaquim Simões da Hora repete-se nesta edição?
Sim. A nossa intenção é que, em cada edição do festival, tenha lugar também o concurso em paralelo e que a obra vencedora seja sempre estreada no concerto de encerramento.

Um festival com esta dimensão carece certamente de apoios. Numa altura em que se evidenciam tantas dificuldades económicas no país, ainda vão conseguindo apoios para esta empreitada?
Afortunadamente sim. São vários pequenos apoios, ou seja, não temos um apoio que nos permita a organização do festival como um todo mas a união de todos esses apoios fazem com que o festival aconteça. Na minha opinião isto é muito interessante porque a cidade se envolve com o festival. Temos um conjunto de apoios que envolvem comerciantes, hotéis... Há vários apoios em género. Apoios para as viagens, para os alojamentos... Também houve apoios em dinheiro como foi no caso do Banco Carregosa, a Associação Comercial do Porto, o Ministério do Exterior de Espanha, a própria Câmara Municipal do Porto... Todos os apoios são importantes. Uns porque nos permitem poupar e outros porque nos permitem fazer frente aos gastos que são bastantes.

Falou-nos de parcerias que conferem também uma dimensão internacional ao evento...
Temos dois festivais associados também. O "Espazos Sonoros" e o "Festival Internacional de Música Antiga de Diamantina".

Pelo que nos apercebemos é também necessária uma grande equipa...
Há mais do que uma equipa. Há a equipa ligada ao concurso e a equipa ligada propriamente ao festival. O concurso é organizado pela Artway e pelos seus dois diretores, Tiago Hora e Vanessa Pires, juntamente com a Associação Cultural InSpiritum e em parceria com a Câmara Municipal do Porto. Já o festival é organizado pela Associação Cultural InSpiritum com a Câmara Municipal do Porto. A Associação tem o apoio muitíssimo importante da Fundação da Juventude que nos dá a sede física e toda a logística de funcionamento da Associação.

Daniel Bondaczuk, Marco Brescia e Tiago HoraJá alguma vez vos passou pela cabeça fazer com que este festival extravasasse as fronteiras aqui do Porto ou, pelo contrário, desde a sua génese o festival foi pensado para esta cidade?
Desde a sua conceção inicial que este festival foi pensado para o Porto e, mais especificamente para o centro histórico do Porto. É uma iniciativa muito circunscrita.

Como se procede à divulgação internacional do evento?
Temos dois parceiros internacionais que já referimos há pouco. Um em Espanha e outro no Brasil. Isso, só por si, já é uma grande ajuda. Há no entanto outros meios especializados a fazer eco das nossas iniciativas.

As parcerias de que fala e qua ajudam a divulgar os festivais mutuamente, vão para além desse aspeto da divulgação? Há intercâmbio de artistas?
Sim. Por exemplo a empresa que produz o festival Espazos Sonoros na Galiza é a mesma, logo há inevitavelmente intercâmbios artísticos. Dou o exemplo do concerto de abertura onde teremos o designer de luz da Galiza muito premiado, Arturo Álvarez, que vai fazer uma instalação lumínica.

O que temos percebido é que o balanço do festival em 2014 é positivo e que 2015 também irá mais uma vez surpreender...
Felizmente há público para estas iniciativas. O Porto adere completamente. Em 2014 foi uma surpresa pois era a primeira edição. Acreditávamos profundamente na qualidade da proposta mas não sabíamos como é que a cidade ia reagir. Tivemos casa cheia em todos os concertos. Esse foi o sinal evidente de que a cidade abraça o festival. Em 2015 esperamos que voltem a encher.

Marco Brescia

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