Susana Lima, o violoncelo e a paixão pela música

Susana Lima"Considero que, atualmente, Portugal vive uma época recheada de talentos da música profissional designada por erudita. Com a aposta em cursos artísticos especializados no domínio da música, através da criação de inúmeros conservatórios, academias, cursos profissionais e cursos superiores, seguiu-se, um desenvolvimento de profissionais formados e com expectativas de desenvolverem a sua carreira artística e aplicar os conhecimentos adquiridos. Mas o facto é que depois de nos formarmos, apercebemo-nos que a única saída profissional na área da Música em Portugal é o ensino. No meu entender, não faz muito sentido após um enorme investimento no ensino artístico, o nosso país não defender financeiramente os seus artistas, não existirem apoios, verbas suficientes para a Cultura, é realmente de lamentar e um contrassenso".

Obrigado, Susana, por nos conceder esta entrevista. A Escola Profissional de Música de Viana do Castelo foi onde iniciou a sua aprendizagem musical? Quando se apercebeu de que queria aprender música de uma forma mais séria?
Na verdade, a minha aprendizagem musical iniciou-se aos 6 anos de idade, numa escola particular em Viana do Castelo, onde aprendi o solfejo, depois comecei a tocar órgão e mais tarde acordeão. Com 10 anos de idade fui estudar para o Externato das Neves e rapidamente a minha professora de Educação Musical, Elisabete Matos, percebeu que eu estudava órgão e tinha uma paixão pela música. Desde então, comecei a tocar órgão nas aulas de música e em todas as festas que a escola organizava. Foi a professora Elisabete que me deu a conhecer e incentivou a ir para a Escola Profissional de Música de Viana do Castelo. A minha vontade de aprender música de uma forma mais séria aliada ao apoio dos meus pais para frequentar o ensino da música levou-me a candidatar-me à EPMVC, ingressando aos meus 12 anos no ensino artístico na classe de violoncelo da professora Pétia Samardjieva.

Pétia Samardjieva é então um dos nomes incontornáveis quando se fala da sua opção de enveredar por uma carreira na área da música?
Tal como referi anteriormente, conheci na EPMVC a professora Pétia Samardjieva que me acompanhou desde o 7º até ao 12º ano de escolaridade. Foi sem dúvida uma influência crucial na minha decisão de enveredar no caminho da música. Sinto-me privilegiada por ter estudado estes 6 anos da minha vida com esta professora. Considero-a uma pessoa muito especial na minha carreira porque foi com ela que comecei a crescer gradualmente como violoncelista. Era uma professora muito paciente e carinhosa comigo.

Susana LimaTrabalhar com Jed Barahal foi também um privilégio. Concorda?
Sem dúvida! Depois de ter concluído o Curso de Instrumento (nível III) na EPMVC, iniciei a Licenciatura com o professor Jed Barahal, na ESMAE. Foi sem dúvida, uma pessoa muito importante na minha formação académica. Com o professor Jed trabalhava muito as questões técnicas, permitindo um desenvolvimento bastante significativo na minha prática do violoncelo. Ter começado a estudar com o professor Jed marcou uma nova fase da minha vida. É a partir desse momento que, finalmente, me pude dedicar por completo à música e ao estudo do violoncelo.

Em 2012 houve alguma razão especial para ter optado por mudar de instituição de ensino superior para realizar o seu mestrado? Porquê a Universidade de Aveiro? Porque não continuou os seus estudos na ESMAE?
Já em 2009 se falava da habilitação profissional passar a ser condição indispensável para o desempenho da atividade docente. Quando terminei a minha Licenciatura eu quis continuar os estudos e fazer um Mestrado onde obtivesse a profissionalização de docentes do ensino artístico especializado da música. Nessa altura a Universidade de Aveiro já tinha aberto o Mestrado em Música com habilitação profissional para as Escolas de Ensino Vocacional de Música, o que não acontecia na ESMAE. Foi esta a única razão que me levou a mudar de instituição de Ensino Superior. Senão tivesse uma razão tão forte, teria com certeza prosseguido os meus estudos na ESMAE porque eu adorava estudar lá. Foi na ESMAE onde realmente cresci e evolui como músico, sempre acompanhada por ótimos professores e amigos fantásticos. Guardo recordações muito boas dessa fase da minha vida. Ainda hoje, sempre que estou pelo Porto, "dou um saltinho" à ESMAE.

Clélia Vital, Miguel Rocha, Paulo Gaio Lima, Luís Claret, Xavier Gagnepain, Romain Garioud e o Quarteto Borodin. São outros nomes que figuram no seu currículo no âmbito da sua formação. O que absorveu de cada uma destas experiências?
Todos estes nomes fizeram parte e influenciaram sem dúvida a minha formação enquanto violoncelista. Considero muito importante para um músico ter a capacidade de ouvir várias opiniões e depois construir a nossa própria interpretação. Tive oportunidade de conhecer e tocar para todos estes violoncelistas em masterclasses, recolhendo informações importantíssimas para o meu desenvolvimento enquanto violoncelista. Poderia referenciar o que absorvi em cada uma destas experiências, mas para não me alongar muito, opto por falar da última pessoa com quem partilhei os meus conhecimentos musicais e que admiro muito, quer como músico, quer como professor. Estou a falar do violoncelista francês Romain Garioud, que considero um excelente músico com quem eu tive oportunidade de frequentar um Curso de Aperfeiçoamento de Violoncelo. Romain ensinava que, para tocar bem violoncelo, era necessário sentir-se e dominar o instrumento por completo, e como consequência disso, o repertório fluiria de uma forma mais natural. Lembro-me de estar a tocar numa aula o I and. do concerto em ré menor de Lallo e o Romain pediu-me que tocasse as passagens mais rápidas do concerto de trás para a frente à velocidade normal! Com Romain desenvolvi também a minha musicalidade, a técnica de usar o vibrato, porque trabalhávamos questões musicais do repertório que eu levava para as aulas.

Susana Lima Quarteto ADLIBTrabalhar com maestros como Jaroslav Mikus, Miguel Castillo, Paul Wakabayashi, António Saiote, Vasco Pearce de Azevedo, Cesário Costa e Juliàn Lombana foi algo que contribuiu em larga escala para o seu amadurecimento enquanto performer?
Claro! Primeiro, eu adoro tocar em orquestra. Sempre gostei muito de tocar em grupo, quer em orquestra, quer em música de câmara. Trabalhar com estes maestros contribuiu bastante para a minha formação enquanto músico, porque todos eles possuíam formas distintas de trabalhar.

Para além dos concertos, também as aulas fazem parte do seu dia-a-dia enquanto docente. Dar aulas é algo que também faz com agrado ou é uma realidade à qual os músicos em Portugal não podem fugir?
Para mim é um grande prazer trabalhar na Academia de Música de Viana do Castelo como professora de violoncelo. Trabalho nesta academia desde 2009 e posso afirmar que dar aulas é algo que faço com agrado. Mas reconheço que se trata também de uma realidade à qual os músicos em Portugal não podem fugir, porque dificilmente neste país um músico se sustenta financeiramente apenas a trabalhar como intérprete. Assim sendo e perante uma realidade tão crua como esta, na minha modesta opinião, julgo que seria desejável para toda a sociedade musical e educativa a conjugação das duas vertentes – Intérprete / Professor, permitindo e promovendo ainda mais esse esforço, pois a minha convicção é de que isso só traz vantagens. Seguramente que o Intérprete / Professor ficaria mais valorizado e consequentemente, mais motivado, embora, e reforçando portanto esta ideia, os mais beneficiados serão sempre os alunos, pois passam a ter modelos muito mais fortes e próximos. Estou certa que tal realidade pode fazer toda a diferença. Hoje em dia, um dos assuntos mais debatidos nas academias/conservatórios de música são os fatores de persistência e motivação do aluno para o estudo da música. Procuram-se estratégias e metodologias de ensino para incentivar os alunos a estudarem mais, para que o seu desempenho seja cada vez maior, mas na minha opinião um dos principais elementos de motivação dos alunos é poderem-se rever no bom nível artístico do professor tomando como exemplo e modelos as boas práticas do seu mestre. "Um bom concerto pode valer um bom par de aulas..."

Susana Lima Quarteto ContratempusA que projetos musicais se dedica atualmente?
Neste momento, de todos os projetos que faço parte o que está mais ativo é a "Querela dos Grilos", uma ópera bufa, interpretada pelo Quarteto Contratempus. Posso dizer que sou membro fundador do Quarteto Contratempus e trata-se de um grupo que se apresenta em palco interpretando obras de música contemporânea. Sinto-me muito feliz por pertencer a este grupo de ótimos músicos profissionais e sobretudo grandes amigos. Estamos juntos desde os primeiros anos da ESMAE e temos vivido excelentes experiências no mundo da música, quer em Portugal, quer além-fronteiras. Posso garantir que já temos, além da "Querela dos grilos", outros projetos em vista, no entanto, neste momento ainda não os posso revelar. Além do Quarteto Contratempus, trabalho também com o Quarteto ADLIB, este, bastante versátil, que tem no seu percurso artístico, além dos habituais concertos de música clássica, também inúmeras participações com bandas portuguesas atuais, bem como eventos privados realizados em diversos pontos do país.

Há algum músico que admire de forma particular? Quais as suas principais influências musicais?
Os violoncelistas que eu mais admiro neste momento e que são sem dúvida influências musicais para mim são: Rostropovich, Mischa Maisky, Natalia Gutman. Mas admiro de uma forma muito particular o violoncelista Yo-Yo Ma, por toda a sua versatilidade a tocar. Considero que ser versátil é uma das qualidades mais admiráveis hoje em dia. Na minha opinião estar aberto às novidades que o mundo moderno oferece é muito positivo quando falamos em música. Para mim o violoncelista Yo-Yo Ma pode ser considerado um bom exemplo desta realidade. Julgo que Yo-Yo Ma possui um gosto musical bastante diversificado, já o ouvi a tocar estilos musicais bastantes diferentes e em todos eles com uma performance brilhante!

Enquanto instrumentista há algum compositor que toque com maior agrado? Tem alguma obra preferida?
Não tenho um compositor predileto, gosto de vários. Quanto a obras preferidas, posso dizer que gosto muito de três concertos para violoncelo escritos na época do Romantismo: o concerto de Dvorák em lá maior, o concerto de Edouard Lallo em ré menor e o concerto de Schumann em lá menor.

O que pensa de Portugal, enquanto profissional da música? E enquanto consumidora de música? Nota que há uma evolução na forma como as pessoas vêm a música erudita?
Susana Lima Querela dos GrilosConsidero que atualmente, Portugal vive uma época recheada de talentos da música profissional designada por erudita. Com a aposta em cursos artísticos especializados no domínio da música, através da criação de inúmeros conservatórios, academias, cursos profissionais e cursos superiores, seguiu-se, um desenvolvimento de profissionais formados, e com expectativas de desenvolverem a sua carreira artística e aplicar os conhecimentos adquiridos. Mas o facto é que, depois de nos formarmos, apercebemo-nos de que a única saída profissional na área da Música em Portugal é o ensino. No meu entender, não faz muito sentido, após um enorme investimento no ensino artístico, o nosso país não defender financeiramente os seus artistas, não existirem apoios, verbas suficientes para a Cultura, é realmente de lamentar e um contrassenso. Por exemplo, no caso das orquestras profissionais, em Portugal temos apenas duas orquestras sinfónicas principais e somente umas 4 ou 5 de tamanho reduzido. O mesmo acontece com os ciclos de concertos de música de câmara e festivais de música, que decorrem sobretudo na época do verão! Porque não se organizam atividades deste género durante todo o ano? É como se durante o resto do ano o público não apreciasse nem consumisse música! Por outro lado, se houvesse mais maestros portugueses com responsabilidades de direção artística em festivais de música e ciclos de concertos, provavelmente teríamos mais solistas portugueses, mais grupos de música de câmara e orquestras a funcionar e, muito possivelmente, mais obras portuguesas seriam criadas! Apesar de tudo, julgo que o panorama de concertos clássicos em Portugal não é assim tão desanimador. No entanto, está longe de ser o ideal, e há muito caminho a percorrer. De qualquer das formas, é um facto preocupante que exista uma falta de hábito de assistência a concertos por parte da população, isto pode explicar a razão pela qual tão pouca gente conhece música clássica, compra discos e assiste a concertos.

Muito obrigado pelo tempo que dedicou ao nosso portal e aos nossos leitores. Onde a poderemos ver e ouvir em breve?
Eu é que agradeço pelo vosso contacto! Em breve a "Querela dos grilos" volta a subir aos palcos como Quarteto Contratempus e estaremos no Teatro Municipal Sá de Miranda de Viana do Castelo no dia 23 de Abril e no Auditório do Conservatório de Coimbra no dia 30 de Abril.

Susana Lima

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