A pianista Brenda Hermida em entrevista

Brenda HermidaBrenda Vidal Hermida estudou no Conservatório Superior de Vigo com os professores Cristina Olivar, Maider Ordozgoiti, Emilio Álvarez e Nicasio Gradaille. Em 2005, foi admitida na Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo (ESMAE) do Porto, na classe do professor Luís Filipe Sá, continuando os seus estudos em Espanha ao mesmo tempo. Concluiu em ambas escolas com as mais altas qualificações. Já se apresentou como solista em várias ocasiões e colabora regularmente com a Banda Municipal de Pontevedra, Orquestra Filharmónica Cidade de Pontevedra, Banda Municipal de A Coruña e Banda Sinfónica Portuguesa, entre outros. Nestes contextos já atuou em grandes salas de Espanha, Portugal, Holanda, Bélgica, Brasil, e China.

Brenda, muito obrigado por ter arranjado um tempinho para nos contar mais um pouco sobre si. Qual foi o seu percurso formativo antes de entrar para a ESMAE. Quais as escolas por onde passou e quais os mestres que passaram pela sua caminhada académica?
Os meus estudos começaram no Conservatório Profissional de Vigo, cidade onde nasci. Foi em Vigo que fiz toda a minha formação académica até chegar ao curso superior. Tive a oportunidade de trabalhar com Cristina Olivar, Maider Ordozgoiti e Emilio Álvarez. E já no curso superior com Nicasio Gradaille, no Conservatorio Superior de Vigo, e com o professor Luís Filipe Sá na ESMAE no Porto. Também tive o prazer de completar a minha formação com inúmeras masterclass, nas que trabalhei técnica e interpretação pianística e acompanhamento vocal com Almudena Cano, Josep Colom, Claudio Martínez Mehner, Peter Efler, Alexander Kandelaky, Imre Rohmann, Eulalia Solé, Luiz de Moura Castro, Iván Citera, Blanca Uribe, e Miguel Ángel Chavaldas, entre outros.

Atualmente a sua carreira artística e docente passa essencialmente por Espanha. Onde se encontra a lecionar neste momento?
Tenho o prazer de trabalhar no Conservatório Profissional e Escola Municipal de Música de Ribadavia, na Galiza. Estou muito contente por estar lá, principalmente pelos meus colegas de trabalho. Juntos conseguimos fazer deste pequeno Conservatório, que não tem muitas verbas, um centro de estudos com muito bom nível académico. Temos alunos desde os 4 anos de idade.

Brenda HermidaConhecemos a Brenda num ensaio do Quarteto Contratempus. Como tem conseguido conciliar a sua carreira em Espanha com os espetáculos do Contratempus?
Principalmente sacrificando os fins de semanas, com ensaios e mais ensaios. Tenho que dizer que não é fácil para nenhum de nós. O nosso trabalho não passa só pelos concertos. A maioria de nós trabalha numa escola, pelo que a nossa disponibilidade fica muito reduzida. Durante a semana temos que mudar o dia das aulas ou repor noutro dia… é muito complicado. Tenho que agradecer aos meus alunos e ao Diretor do Conservatório de Ribadavia, que sempre perceberam a minha situação.

Tendo em conta o facto de já ter passado pelas escolas espanholas e por escolas portuguesas, pode dizer-nos se se encontram muitas diferenças entre o ensino da música em Espanha e em Portugal?
Na minha opinião, na nossa especialidade que é a música, a característica que diferencia um centro educativo de outro é a equipa docente de cada Escola ou Conservatório. Estudei no curso superior com duas pessoas maravilhosas, tanto como professores, como pessoas. Falo do Luís Filipe Sá no Porto e Nicasio Gradaille em Vigo. Um aluno, na minha opinião, deveria escolher a um professor e não tanto um centro de estudos ou Escola. Por vezes, este último, pode correr mal. Nas aulas de instrumento, que são a coluna principal do curso, a relação com o professor é muito próxima, e uma má escolha pode dar cabo do teu curso. Com a minha escolha sinto-me muito afortunada e grata!! Por outro lado, os primeiros cursos da formação em Portugal podem ser feitos pelo ensino Articulado desde muito novos. Em Espanha só é possível nos dois últimos anos, antes de entrar na Escola Superior, pelo que os alunos têm que ter muito claro na sua cabeça que querem continuar com a carreira de músico, sobrando muito pouco tempo durante a semana para poder estudar o seu instrumento. Depois, o problema mais grave que me apercebi em Portugal, são as faltas de verbas para manutenção, conservação dos prédios, etc. O caso mais falado é o Conservatório Nacional de Lisboa, só que este caso parece atender a outro tipo de interesses.

E no campo artístico? É mais fácil ser-se músico profissional em Espanha ou em Portugal?
Neste caso posso garantir que é tão difícil ser músico profissional em Espanha como em Portugal, e digo mais, é assim em toda a Europa. As políticas culturais dos nossos países incentivam um tipo de economia baseada na indústria e no turismo e nem tanto na parte cultural. Achávamos que os demais países europeus eram diferentes mas acontece a mesma coisa que na península ibérica. Espanha está a sofrer imenso por causa do IVA do 21% que tem a cultura. Afortunadamente Portugal tem quase a metade do IVA (13%), e também proporcionalmente investe muito mais em Cultura do que o Governo Espanhol. Por isso posso dizer que a cultura portuguesa está um bocadinho melhor que a espanhola, e um dos motivos principais é por que aposta nos grupos nacionais, e projetos de origem portuguesa, como é o caso do projeto do Quarteto Contratempus.

Brenda HermidaDia 19 de março atuará com o Quarteto Contratempus em Espanha. É para si um grande orgulho mostrar o trabalho que desenvolve em Portugal aos seus pares espanhóis?
Sem dúvida. Vamos apresentar o nosso espetáculo no Conservatório Superior de Vigo, onde eu fiz o curso desde o início até o curso superior, portanto, sinto-me muito empolgada, porque vou atuar para os meus professores, colegas, amigos e família. Quero que tudo corra bem e que todos se divirtam!

Para além do Quarteto Contratempus, que outros projetos artísticos abraça atualmente?
Em Portugal, faço parte do Quarteto Contratempus e da Banda Sinfónica Portuguesa, um projeto absolutamente incrível, que tem como base para ensaios e concertos a Casa da Música do Porto. Em Espanha colaboro com a Orquestra Filharmónica Cidade de Pontevedra, a Banda Municipal de Pontevedra e a Banda Municipal de A Coruña, com a qual toquei um Duplo concerto para clarinete e piano no passado mês de novembro no Palácio da Ópera de A Coruña. Também estou a colaborar com a Hulencourt Soloists Chamber Orchestra de Bruselas com quem tenho concerto nos finais deste mês.

Tem algum pianista preferido? Quais são as suas principais influências musicais?
Sempre gostei imenso da qualidade artística e humana de Maria João Pires, acho-a uma das maiores artistas do momento. Mas nos últimos tempos ando virada, mais pela força, o poder e a profundeza que transmite Grigory Sokolov e, sempre que posso, vou ouvi-lo à Casa da Música.

E quanto a compositores… Tem algum que eleja como predileto?
Nos últimos tempos tenho trabalhado muito com música contemporânea, e cada vez sinto que gosto mais e mais, principalmente porque o trabalho é direto com o compositor. Posso fazer muitas questões e resolver muitas dúvidas. É a música que nos toca mais de perto. É a música da nossa geração. Posso nomear alguns deles… Fernando Lapa, João Pedro Oliveira, Daniel Moreira, Eduardo Soutullo, Fernando Buide, etc. Mas passados uns tempos, as raízes sempre nos atiram para trás. Acho fundamentais na minha vida compositores como J. S. Bach, W. A. Mozart, L. V. Beethoven, e F. Chopin. São essenciais para alimentar a minha alma e o meu espírito.

Há projetos que ainda não tenha concretizado e que deseje realizar em breve?
Voltando à música contemporânea, dentro do mestrado de performance que estou a fazer na ESMAE, gostaria de gravar um CD com todas as peças que fizeram parte do meu estudo, e posteriormente apresentar-me em público com este reportório.

Enquanto professora, quais os principais conselhos que deixa aos seus alunos?
O meu primeiro conselho é que desfrutem ao máximo do seu estudo, e que tenham muita paciência, pois é a parte mais importante da formação deles como músicos e, sem dúvida, que oiçam muita música de todos os estilos, e que assistam a muitos concertos, exposições de arte e representações de teatro. Que sejam parte ativa da cultura, para poder crescer como artistas e como pessoas.

Mais uma vez muito obrigado por este tempo que nos dedicou.
Obrigada. Foi um prazer.

Brenda Hermida

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