Teresa Nunes, soprano, à conversa com o Portal do Conhecimento Musical

Teresa NunesTeresa Nunes diz-nos que "A mobilidade hoje em dia é melhor, com o aparecimento dos voos low cost, tornando as cidades europeias mais acessíveis. Num instante podemos ir concorrer para um lugar numa ópera ou noutro qualquer concurso... Hoje, quando fica em aberto um lugar em qualquer parte da Europa, acaba por concorrer para esse lugar toda a Europa. O mercado também está saturado noutros países. Inglaterra, por exemplo, está completamente saturada de cantores e a Alemanha também. Considero portanto que cada um tem que encontrar o seu próprio caminho. Eu continuo a acreditar que, apesar de muita gente dizer que isto está difícil, cada um tem o seu lugar. Penso que deverá haver também um trabalho no sentido de fomentar o consumo de cultura porque as pessoas gostam de ouvir, só que não se dão ao trabalho de conhecer coisas novas e além disso têm estereótipos enraizados".

Sabemos que fez a sua formação superior na ESMAE, no Porto, mas há todo um percurso anterior a essa fase da sua vida... Pode partilhá-lo com os nossos leitores?
Eu estudei piano durante muito tempo na Escola de Música de Esposende. Andava portanto um pouco longe do canto. Entretanto entrei para o curso de gestão na Faculdade de Economia do Porto e como gostava de cantar fui para o Coro da Faculdade de Economia. Foi lá que me encorajaram a retomar os meus estudos musicais, desta feita na área do canto. Como estava no Porto, inscrevi-me no Curso de Música Silva Monteiro e a partir daí aconteceu este percurso que me trouxe até à vertente mais profissional.

Teresa NunesAo longo do seu percurso formativo, houve nomes que a marcaram irremediavelmente?
Sim. O primeiro professor que me marcou foi, na minha infância, o professor Albino Neiva lá em Esposende. Era um excelente professor de Formação Musical. Embora já gostasse de música, com este professor acabei por me apaixonar por música. Com ele percebi que a música não podia deixar de fazer parte da minha vida. Quando comecei a estudar canto a minha primeira professora foi a professora Sara Braga Simões que é para mim uma referência assim como o professor Rui Taveira que foi meu professor na Escola Superior de Música. Atualmente posso referir o professor Peter Harrison com quem trabalho técnica e expressão vocal. Estas pessoas que acabo de referir ajudaram-me muito. Há no entanto outras pessoas pelas quais nutro de um carinho muito especial. Falo de Armando Possante e Jill Feldman.

Vamos falar um pouco das suas preferências. Tem alguma obra predileta, ou algum compositor preferido?
Essa é uma questão difícil de responder. Mesmo que só me restrinja ao reportório do canto, ainda assim falamos de algo muito vasto. Na minha adolescência gostava mais de música coral e de música sinfónica e para piano que era o instrumento que andava a estudar. Depois, quando me comecei a dedicar ao canto, comecei a ouvir mais música vocal. Quando comecei a cantar gostava mais do período clássico e não gostava muito do período romântico. Mas, à medida que comecei a evoluir e a estudar mais, comecei a apaixonar-me pela música romântica (risos). Neste momento tenho imensas referências e todas elas marcaram fases da minha evolução como músico. Há sim músicas que marcaram determinadas fases da minha vida. Há muitos compositores que me agradam... Há muita coisa em Mozart de que gosto, mas não consigo eleger um compositor preferido. Todos eles têm a sua identidade e a sua personalidade na sua música. Não consigo nomear uns em detrimento dos outros. Por exemplo no Requiem de Mozart há uma parte, a Lacrimosa, que marcou uma fase da minha vida, no Magnificat de Bach há uma parte, Et Misericordia, que marcou uma fase da minha vida... Arias de ópera românticas marcaram também fases da minha vida... Ouvir, por exemplo uma parte da Mimi de Puccini marcou uma fase da minha vida... Não consigo dizer se tenho uma obra ou autor favoritos. Neste momento estou a gostar de fazer "A Querela dos Grilos"... é o que lhe posso dizer (risos).

Teresa NunesAcaba de me dizer que está muito focada na obra "A Querela dos Grilos". Está a fazer mais alguma obra ou está exclusivamente nesta?
Neste momento estou só na Querela dos Grilos porque também estou a fazer produção, o que me ocupa imenso tempo. Tenho, no entanto, alguns projetos em vista pois gosto muito de música de câmara e adoro trabalhar com as pessoas que estão ligadas ao meu quarteto. Nós temos vários projetos a acontecer. Tenho também projetos com outras pessoas que não são do quarteto. Tenho um projeto ligado ao encontro entre a música espanhola e a música portuguesa. Tenho também um projeto ligado ao teatro. Aliás já no tempo da ESMAE fiz um trabalho com atores no IPO. Foi um trabalho muito gratificante que gostei muito de fazer. Ainda mantenho contacto com alguns dos atores que participaram comigo e tenho em mente retomar esse trabalho com eles.

Ao longo deste tempo que temos trabalhado no XpressingMusic, temo-nos apercebido de que há imensos cantores em Portugal. O nosso país tem mercado para absorver tanto talento ou ir para o estrangeiro torna-se uma inevitabilidade, até porque continuam a sair cantores das escolas superiores de música...
Cada um vai escolhendo o seu próprio caminho, seja cá, seja lá fora... Neste momento, cá em Portugal há muito pouca oferta para cantores. Muitos deles gerem as suas próprias carreiras e já não se limitam ao mercado nacional. Há quem decida ir definitivamente para o exterior, embora lá fora também haja imensos cantores. A mobilidade hoje em dia é melhor, com o aparecimento dos voos low cost, tornando as cidades europeias mais acessíveis. Num instante podemos ir concorrer para um lugar numa ópera ou noutro qualquer concurso... Hoje, quando fica em aberto um lugar em qualquer parte da Europa, acaba por concorrer para esse lugar toda a Europa. O mercado também está saturado noutros países. Inglaterra, por exemplo, está completamente saturada de cantores e a Alemanha também. Considero portanto que cada um tem que encontrar o seu próprio caminho. Eu continuo a acreditar que, apesar de muita gente dizer que isto está difícil, cada um tem o seu lugar. Penso que deverá haver também um trabalho no sentido de fomentar o consumo de cultura porque as pessoas gostam de ouvir, só que às vezes não se dão ao trabalho de conhecer coisas novas e além disso têm estereótipos. Dizem por vezes que o canto lírico é feito por aquelas pessoas que têm uma voz muito colocada e que não se percebe o texto... Isto faz com que muitas pessoas nem cheguem a ir ouvir um espetáculo deste género. Teresa Nunes A Querela dos GrilosEu penso que, se as pessoas começarem a ir aos espetáculos, as coisas vão mudar. De qualquer forma, as escolas estão a fazer um excelente trabalho. É verdade que estão a sair imensos cantores e músicos em geral que estão a sair para o mercado de trabalho, mas também há imensa gente a estudar música que não vai seguir uma via profissional. Isto faz com que aumente a qualidade das audiências. Pode ser que isto mude em termos de público e que as pessoas passem a consumir mais cultura.

Há algum projeto ainda não realizado e que gostasse de realizar em breve?
Eu gostava de juntar pessoas com valor em Portugal e de conseguir que essas pessoas se pudessem dedicar só à música de forma cuidada... Esse projeto deverá ter uma orquestra, um estúdio de ópera, espaço para a música de câmara, enfim, um espaço onde se possa criar. Isto é necessário precisamente porque há pessoas com muito valor. Este seria um espaço onde as pessoas pudessem criar e serem remuneradas por isso. Gostava de ver esse projeto acontecer, fazendo eu parte dele, como é óbvio.

Muito obrigado por nos ter proporcionado esta ótima conversa. Desejamos-lhe muito sucesso com este projeto que está a levar a vários palcos do país e não só, "A Querela dos Grilos".
Muito obrigada por tudo. Tem sido ótimo o vosso trabalho, não só para divulgar os nossos projetos mas para apoiar tudo o que de mais relevante vai acontecendo no panorama musical português.

Teresa Nunes

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