Cati Freitas e o disco “Dentro” passados em revista

Cati FreitasCati Freitas conquistou o seu lugar no palco enquanto artista a solo após ter colaborado com diversos projetos e artistas tais como Expensive Soul & Jaguar Band, Rui Veloso, Nu Soul Family, Link, Dino D'Santiago e Sara Tavares. Gravou o disco com que sonhou e onde desejou. No Brasil, envolto numa atmosfera em torno de nomes como Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Chico Buarque, Dani Black, Rodrigo Amarante, Pedro Altério e Marcelo Camelo nasceu o disco "Dentro". Em Portugal, as músicas vão para a estrada a 26 de fevereiro num espetáculo em Bragança. Este inaugura uma tournée com vários concertos onde Cati Freitas será acompanhada pelos músicos Óscar Graça ao piano, Nuno Oliveira no contrabaixo e Jaume Pradas na bateria.

Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Chico Buarque, Dani Black, Rodrigo Amarante, Pedro Altério e Marcelo Camelo encontram-se no trabalho "Dentro" que agora nos apresenta. Como surgiu a possibilidade de gravar este trabalho envolto neste conjunto de gigantes da música e da produção musical?
No fundo, a possibilidade, fui eu que a criei desde que comecei a juntar ideias para este disco e a montá-lo na minha cabeça, ou seja, desde quando iniciei a recolha do reportório. Este é um disco que reúne compositores da MPB (Música Popular Brasileira) e da música portuguesa desde os mais velhos aos mais novos e inclui também temas de minha autoria. A possibilidade de ir gravá-lo ao Brasil surgiu através de uma professora de canto, brasileira, que trabalhava cá em Portugal e que, numa das nossas aulas, enquanto eu lhe falava do que pretendia fazer e da minha imensa vontade de trabalhar com o Tiago Costa (que acabou por ser produtor do disco comigo) me disse que o conhecia e tudo começou por aí. Mas tudo foi suportado por mim. Eu não tinha editora. As oportunidades foram surgindo juntamente com as minhas conquistas à medida que a minha ambição e os meus sonhos iam ganhando forma e vida. Há aqui um misto de "procura minha" e de "destino" (risos).

Visto que a gravação passou pelo Brasil, sentiu a necessidade de fazer algum tipo de cedências? Cantar com a pronúncia do seu país e num português "nosso" foi uma imposição sua?
Sim, foi, até porque o que mais me influencia na MPB é, principalmente, a poesia, ou seja, a forma como a mensagem chega às pessoas, não propriamente o ritmo ou a melodia bonita do sotaque brasileiro. Isto porque eu não sou brasileira, sou portuguesa. Eu sempre disse que queria ter uma música virada para o mundo onde eu buscaria este olhar de dentro, este olhar de Portugal, mas atenta aos ritmos, às "cores" de outros ritmos e às influências da música do mundo que eu procuro trazer para a minha música. Realmente, neste primeiro trabalho, a MPB e a forma como esta passa a mensagem através de um instrumental elegante, foram coisas qua me influenciaram muito. Foi algo que eu quis trabalhar e buscar. Mas Cabo Verde também acaba por entrar na sonoridade do disco. Lá, os músicos que trabalharam comigo tinham a tendência de puxar um pouco mais para o Brasil e eu tinha que, por vezes, colocar um travão pois eu queria que o disco soasse a uma coisa dentro da world music mas, ao mesmo tempo, que não fossem explicitamente outros ritmos que não têm a ver com a minha cultura.

Cati FreitasA mensagem é mesmo o aspeto mais importante para si enquanto intérprete?
Sim. A mensagem é o que mais importa para mim. Isso e dar à música aquilo de que ela necessita para que a mensagem seja realmente ouvida e sentida pelas pessoas. Depois acabo por ir buscar aspetos aos trópicos, outros ao jazz... Vou buscar este ou aquele instrumento mas isso é o meu coração que pede e eu monto da forma como ele me pede para montar. O meu principal objetivo é passar a mensagem e a energia da mensagem às pessoas.

O que lhe trouxeram, para além da práxis e versatilidade performativa, as experiências com artistas e projetos como Expensive Soul & Jaguar Band, Rui Veloso, Nu SoulFamily, Link, Dino D'Santiago, Sara Tavares, entre outros?
Com o Rui Veloso e com a Sara Tavares, trabalhei em situações muito pontuais. Com quem tenho vindo a trabalhar de uma forma mais consistente, tem sido com os Expensive Soul. Já trabalho com eles há sete anos e meio. Embora eu já cantasse, foi lá que comecei a sentir a responsabilidade do artista em cima do palco, a perceber o mundo da indústria musical e tudo o que anda à volta de um concerto, coisas que até aí desconhecia. Também fui trabalhando com outros artistas, como referiu, mas em situações muito pontuais. No entanto, essas experiências foram sempre acrescentando mais-valias aos passos que eu ia percorrendo dentro da música. Esses artistas com quem tenho vindo a trabalhar, de certa forma foram-me mostrando, sem que se apercebessem, a dificuldade, o bonito de estar em cima do palco, como estar em cima de um palco... Mas, o mais importante nisto tudo, foi eu ter "bebido" tantas influências musicais e ter-me descoberto a mim mesma. Isso foi o mais importante até porque eu nunca tive um papel de líder de uma banda. Mas foi precisamente esse papel mais recuado que me permitiu observar algumas coisas que eu considero importantes. Mas o que vale mais para mim foi o facto de me ter descoberto a mim mesma e o universo musical em que queria trabalhar, bem como as sonoridades que queria trabalhar... O engraçado é que, não tem nada a ver especificamente com os Expensive Soul nem com os artistas com quem trabalhei mas, todos eles, de uma forma ou de outra acabaram por me influenciar.

Há certamente vozes e géneros musicais que a acompanharam ao longo da sua vida até aos dias de hoje. Quais as suas principais influências?
Podemos falar de um conjunto de influências. Não consigo dizer um cantor ou uma cantora... Há um conjunto de influências que vem desde a minha adolescência até agora. Posso falar por exemplo de Michael Jackson, Ella Fitzgerald, Caetano Veloso, Paulo de Carvalho, Amália Rodrigues, a própria música clássica... Acho que foram as fases da minha vida que me fizeram ouvir este e aquele. Conforme ia amadurecendo ia ouvindo diferentes músicas e diferentes músicos. Não só pelo que eles me passavam, mas pelo que eu conseguia absorver de acordo com a minha maturidade.

Na sua forma de cantar e de se movimentar em palco encontra-se com esses nomes que acaba de referir?
É engraçado mas não. Não me encontro muito até porque eu procuro e tenho procurado, agora que estou a iniciar a minha carreira a solo, descobrir o palco por mim mesma. Tento descobrir onde é que eu me encontro ali naquele espaço que eu quero tanto pisar e que faça parte da minha vida como uma segunda casa. Este é um processo longo porque um artista, quando está a começar, vai-se encontrando e vai descobrindo onde é que é ele e onde é que não é ele. Para mim é muito necessário ter esta liberdade de ser eu e de errar e aprender por mim. Não encontro portanto ali nenhuma das minhas influências. Encontro somente a minha própria vontade de crescer como artista.

"Maldizer", "Alma Nua" e "Menina Vida é Flor" são temas pelos quais nutre um carinho especial neste disco?
Sim. São minhas... Embora eu considere o meu trabalho enquanto intérprete importante. Não é mais fácil do que compor. É muito complicado escolher músicas que não partiram de nós mas que nos digam algo. Eu vivo muito este aspeto de passar a mensagem de algo que eu esteja a viver e que esteja a sentir. Mas realmente as músicas da minha autoria foram uma surpresa para mim porque me permitiram descobrir-me como autora neste disco. O Tiago Costa, que me acompanhou na produção, incentivou-me muito para que eu continuasse a desenvolver esta minha faceta de autora. As minhas músicas transmitem essa necessidade de ir em frente e de me libertar. São músicas de libertação. Acho que passam uma energia boa e leve para as pessoas. As minhas músicas conjugam um misto de interioridade e de "deitar cá para fora" e ajudaram o meu disco a ficar mais completo nesse mesmo sentido.

Vem aí uma série de concertos. Pode revelar aos nossos leitores um pouco daquilo que vai apresentar em palco? Como se caracteriza este concerto? É um concerto intimista?
Este é um concerto que apresentará o álbum. É um concerto feito em trio, só faltará a percussão relativamente à formação que foi gravada em disco. Vai ser um concerto intimista, mas também dará para bater um pezinho de dança, dá para levantar e aplaudir... Também haverá momentos que serão mesmo mais intimistas e mais apelativos para a mensagem que quero passar. O concerto é um misto que aposta nesses dois momentos. O momento em que apresento mais a minha interioridade e o momento em que as pessoas se levantam e dançam e saem de lá com o coração mais leve. Acho que o meu concerto tem um pouco dessa versatilidade e também dessa energia.

Quais os músicos que a acompanharão neste percurso que agora irá fazer pelos palcos portugueses? São os mesmos que a acompanharam na recente tour no Brasil?
Não. Acabo por ser uma sortuda que tem uma banda no Brasil e outra em Portugal (risos). A banda que gravou comigo no Brasil está no Brasil. A banda que fará cá a tournée é composta por músicos portugueses muito talentosos. Falo do Óscar Graça no piano, Nuno Oliveira no contrabaixo e Jaume Pradas na bateria.

O primeiro concerto é já a 26 de fevereiro...
Sim. Dia 26 de fevereiro estarei em Bragança mas para que tenham acesso à tournée completa poderão consultar o site da Uguru onde terão acesso a todas as datas.

Muito obrigado por nos ter concedido este tempo. Já tem em mente outros projetos que deseje revelar aos nossos leitores?
Para já estou a tentar inspirar-me para pensar no próximo trabalho. Talvez entre em estúdio no próximo ano mas ainda está tudo muito "verdinho" como costumo dizer. Estou ainda muito concentrada em divulgar este trabalho que saiu no ano passado e é nele que tenho que me concentrar para levá-lo às pessoas.

Cati Freitas

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