Khalid Fekhari. Visitámos o construtor de alaúdes em Lisboa.

Khalid FekhariCombinámos encontrarmo-nos perto da Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais em Lisboa. Assim foi e, não muito longe dali entrámos no espaço onde Khalid Fekhari transforma madeiras em sonoridades, umas mais orientais e outras mais ocidentais. Khalid Fekhari, à medida que connosco conversava, acariciava cada um dos seus instrumentos como de seres vivos se tratassem. A paixão pelo alaúde já vem de muito longe mas só nos últimos 5 anos se dedicou de forma mais séria ao seu estudo e à sua construção. Não constrói instrumentos pelo ímpeto comercial, mas pelo desafio que a construção que cada um deles desperta em si enquanto homem que só aceita projetos que o ajudem a crescer e que contenham uma evidente componente de aprendizagem.

Quando surge a ideia de se dedicar à construção de alaúdes e outros instrumentos de corda?
Posso dizer que em termos pragmáticos foi há mais ou menos quatro ou cinco anos, ou seja, foi nessa altura que eu decidi começar a fazer. O desejo de fazer estes instrumentos, esse é muito mais antigo. Não querendo fazer psicanálise, poderei dizer que talvez isto fosse algo recalcado. Foram portanto uns quarenta anos até colocar o projeto em prática.

Expõe os instrumentos que constrói? Comercializa-os?
Khalid FekhariNão tenho exposto pois para que o fizesse, as coisas teriam que ser muito dignas e muito acabadas. Logo, como o processo é muito lento, não pretendo expor. Comercializar em termos concisos também não, mas vou recebendo algumas encomendas de pessoas interessadas. Por vezes também há um ou outro instrumento construído que agrada a alguém e que me consigo desfazer dele... Isto até algo muito recente. Só no ano passado é que eu consegui começar a desfazer-me dos instrumentos. Este fator mostra como este projeto não começou com objetivos comerciais mas aos poucos vou ficando submerso em instrumentos e a ter de partilhá-los.

Mas a sua vida profissional passa por este projeto?
O "profissional" e o "amador" são designações um pouco vazias. Há muitos amadores que fazem um trabalho muito profissional e muitos profissionais que fazem um trabalho amador. Neste momento, por sorte minha, posso dedicar algum tempo a isto. Dedicar algum tempo que me permite manter a atividade contínua.

Qual a sua principal preocupação em termos de material? As madeiras são o principal fator que poderá marcar a diferença?
Não (risos). Não digo isto por me dedicar a este ofício mas, pelo que me é dado a conhecer, este é dos ofícios mais complexos tendo em conta que requer um conjunto de competências tão alargado que pode envolver desde a biologia até à física, ou até à química passando pela matemática e, naturalmente, a competência artística. Isto quer dizer que o principal não é a madeira. O principal é o trabalho que é feito em cima da madeira. A componente humana é fundamental. A madeira é matéria viva que não passa disto. Esta madeira viva tem um potencial e a ideia é conseguir que este material se exprima da melhor forma. Aí entra o conhecimento sobre a madeira, a perfeição no ofício e a perfeição do trabalho. Isto para ressalvar a ideia de que o principal neste ofício não passa pela madeira. Por outro lado, é claro que a madeira é a matéria-prima como tal não deixa de ser extremamente importante, principalmente no que diz respeito à parte do tampo. O tampo é, claramente, a parte que é decisiva no instrumento. O construtor espanhol António Torres, considerado o "pai da guitarra moderna", desafiando o conhecimento da altura, construiu uma guitarra cujo tampo tinha a madeira adequada mas o corpo era feito de papel, cartão..., provando assim que o fundamental numa guitarra é o seu tampo sendo o resto uma caixa. Naturalmente que esta caixa também tem a sua importância, logo o instrumento é o "todo". Neste "todo" há partes que são muito importantes e outras que complementam o instrumento. Neste sentido, as madeiras assumem um papel, tendo em conta que cada madeira tem as suas características e o ideal no ofício é entender estas características e aplica-las a um pedido e a um instrumento específico. Nem todos os instrumentos requerem as mesmas madeiras porque requerem características específicas em termos de sonoridade, timbre, etc., etc...

Khalid FekhariEstamos aqui a olhar para um alaúde. Quais são as madeiras mais utilizadas na construção deste instrumento?
Tradicionalmente, sabendo que o alaúde é um instrumento oriental, é preciso também que se compreenda o contexto pois há um século atrás não existia madeira exótica à mão, portanto as pessoas faziam com as madeiras que tinham à disposição. Dentro das possibilidades que tinham à mão, certamente encontravam as madeiras que lhes davam a melhor resposta. A madeira que melhor resposta dá para obtenção de um bom som no alaúde é a nogueira. Esta é a madeira por excelência para o alaúde. O tampo é feito de cedro. O mais comum e que utilizei neste alaúde, é o cedro do Canadá. Mas, o mais utilizado é o cedro do Atlas. O cedro mais utilizado é então o cedro do atlas e o cedro do Líbano que agora são duas espécies protegidas dada a enorme utilização que se estava a fazer delas. O massacre foi tremendo e tem-se tentado preservar estas madeiras. Portanto as madeiras utilizadas na construção do alaúde são o cedro e a nogueira, o que não impede que se utilizem outras madeiras. Há também a possibilidade de utilizar outras madeiras com características diferentes. Eu tenho feito em nogueira mas também já fiz em venge que é uma madeira mais escura, mais pesada, com um timbre mais seco e mais brilhante enquanto a nogueira combina com o estilo musical de que falávamos há pouco. Portanto, este é em venge com o tampo em cedro e este é em nogueira com o tambo também em cedro. A nogueira dá um som menos nervoso, mais melancólico sendo o ideal para a música oriental. Também já fiz com outra madeira que é o pau-rosa. Portanto estas são as três madeiras que utilizei até agora, num processo onde tento perceber as diferenças sabendo no entanto que provavelmente será sempre a nogueira a madeira que irá prevalecer.

Tem mostrado estes instrumentos a profissionais que tocam alaúde?
Este, levei-o para Marrocos recentemente. Houve no entanto um pequeno problema com a alteração do clima pois em Marrakech o clima é muito mais seco e como tampo ainda não estava bem colado deu-se ligeiramente tendo que o trazer de volta para corrigir esse pequeno problema. Podemos voltar um pouco à questão inicial da entrevista. Eu sou completamente apaixonado por música. A música é algo que faz parte de mim. Infelizmente nunca tive tempo nem jeito para me dedicar à música e tocar. Aprendi a tocar sozinho, de forma selvagem (risos), mas nunca pude fazer um trabalho contínuo. Portanto eu experimento os instrumentos que construo mas procuro logo a opinião de pessoas mais competentes até para alargar os meus horizontes.

Khalid FekhariSe uma pessoa lhe quiser encomendar um alaúde, isso é possível? Aceita encomendas?
Sim. Naturalmente. Mas não aceito encomendas só pela razão económica. Isso não me interessa. Se aparecer aqui alguém a pedir "Faça-me um alaúde!", digo que não. Mas, se aparecer uma pessoa dizendo "Olhe, eu toco alaúde mas gostava de ter um alaúde com estas características, com um som assim, com 18 cordas..." isso sim. Aí eu aceito o desafio. Os projetos têm que servir para que eu possa progredir na aprendizagem. Não preciso de escoar mercadoria. Se não for um projeto, dificilmente aceito. Tem que haver um desafio que me permita crescer.

Quanto tempo leva a fazer um alaúde como este que acaba de nos mostrar?
É difícil de dizer porque nunca trabalhei oito horas seguidas de forma contínua. Basicamente é preciso um mês quando as coisas já estão preparadas. Eu tive que fazer moldes e projetos de raiz pois para outros tipos de guitarra já há muita documentação disponível, há fóruns e a possibilidade de recolher muita informação. Para o alaúde, que tem o "inconveniente" de ter uma caixa redonda, não só há pouca informação, como o desafio técnico é maior. Quando comecei a pensar em construir o meu primeiro alaúde, tive que pensar: "Como é que vou fazer isto?" (risos). O que me salvou foi o background de escola, pois tinha na mente conhecimentos de matemática, geometria... Tendo tudo preparado e delineado, um mês chega para construir um alaúde, mas, se me pedirem um instrumento que se vai encaixar numa orquestra e que vai ter que ter maior volume sonoro..., logo, a caixa vai ter que ser um pouco maior, tendo eu que construir um novo molde e ter que calcular a forma das ripas, portanto o processo é mais lento demorando provavelmente uns três meses.

Reparámos que em cima da sua bancada de trabalho está uma guitarra portuguesa em construção. É um desafio que está a colocar a si próprio?
Khalid FekhariÉ para alargar horizontes. Ficar só no alaúde é bastante redutor. Comprei recentemente, em segunda mão, um bandolim, do construtor Augusto Vieira de Lisboa, e, do mesmo construtor, uma guitarra portuguesa. São de 1801, tendo 113 anos. Dei-lhes um pouco de vida pois estavam em mau estado. Fiz uma réplica igualzinha. Mais tarde o bicho apoderou-se da guitarra original que eu tinha comprado e tive a possibilidade de abrir e examinar. Como lhe dizia a parte mais importante de uma guitarra é o seu tampo. Este está em maus estado porque alguém andou a inventar aqui não sei bem o quê... Eu precisava de entender o que estava dentro desta guitarra, nomeadamente estas ripas, que são a alma do instrumento e decidi fazer uma guitarra mas que, desta vez, não é uma réplica. Do bandolim fiz uma réplica mas da guitarra não porque detetei aqui um pequeno problema do construtor ou do que se fazia na altura, ou seja, esta barra não está no sítio certo. O primeiro desafio era fazer uma guitarra portuguesa e em seguida dar-lhe o toque pessoal do mestre. Este problema de que falava é algo que não ultrapassa os 3 milímetros mas torna-se o suficiente para alterar a sonoridade. Eu entendo porque é que o mestre fez isto. Penso que quis acautelar o facto de as cordas exercerem uma pressão fenomenal sobre o tampo. Se falarmos no alaúde, estamos a ter em conta uma pressão de 80Kg. Portanto a pressão que as cordas exercem sobre o tampo é como se eu estivesse pendurado ao mesmo. Quando as coisas não estão bem-feitas, o tampo, inevitavelmente, racha. No caso desta guitarra do mestre Augusto Vieira, para evitar que rachasse, o cavalete, que é o ponto em que a pressão é exercida, foi colocado por cima da alma, ou seja desta ripa mas mesmo assim partiu... Acabando esta opção por não permitir que o tampo vibre livremente. Portanto o meu último desafio tem sido este. Construir uma guitarra portuguesa tendo em conta todos os aspetos analisados até agora. Penso que a inovação residirá também no facto de estar a utilizar pau-rosa, uma madeira que penso combinar totalmente com a sonoridade da guitarra portuguesa. Eu não toco guitarra portuguesa mas tenho a sorte de conhecer o mestre José Lúcio e ele provavelmente irá dar-me uma opinião de quem toca, de quem constrói, de quem arranja...

Muito obrigado por nos ter recebido aqui e por ter, certamente, contribuído para o esclarecimento dos nossos leitores relativamente a alguns aspetos ligados à construção do alaúde e de outros instrumentos de corda.
Eu é que agradeço. Muito obrigado por terem vindo. Foi um prazer receber-vos.

Khalid Fekhari

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