Júlio Pereira à conversa com o XpressingMusic

Júlio PereiraRecebeu a equipa do XpressingMusic em sua casa em Lisboa para uma conversa onde pudemos falar da sua carreira e dos seus projetos mais recentes. A paixão pelo cavaquinho extravasou os discos e os espetáculos e levou-o a empreender um projeto que enobrece, não só este cordofone, como um país por onde prolifera a prática e a construção do mesmo. Portugal surge no mapa dos construtores e agora, de forma organizada e sistematizada, defende-se a história e todo o universo inerente ao cavaquinho através da Associação Museu Cavaquinho, uma ideia que não para de crescer e que, cada vez mais, reúne numa só comunidade, construtores, tocadores, académicos e instituições, todos envoltos numa alegria contagiante que tem como grande impulsionador um homem: Júlio Pereira.

Agradecemos desde já a amabilidade de nos receber aqui em sua casa. Começamos pelos tempos em que começou a aprender bandolim com o seu pai. O seu pai também era músico?
Não. O meu pai tocava nas horas vagas e, quando ele tocava, eu ficava impressionado porque ele tocava com muita energia. Isso foi uma coisa que ele me passou: a energia. Eu sou exatamente como ele, a tocar. Lembro-me da questão dos pés... que ainda hoje é um problema para os vizinhos. Isto não quer dizer que eu toco muito alto, o problema para os vizinhos é mesmo o problema dos pés (risos). Como gosto muito de casas antigas, isto acaba por revelar-se um problema (risos).

E como foi a sua formação musical após a aprendizagem com o seu pai?
Eu fui sempre autodidata. Ainda entrei para o conservatório a seguir ao 25 de Abril, mas rapidamente desisti porque não me podiam integrar em qualquer disciplina, tendo em conta o conhecimento que eu tinha da música. Considerei então aquilo pouco prático, até porque já foi numa altura em que eu já estava a fazer um arranjo para a secção de cordas da Orquestra da Gulbenkian... senti-me um pouco deslocado, quando já tinha trabalhos dessa responsabilidade, de direção musical, arranjos, etc. e isto não me proporcionar uma equivalência a nível académico.

Júlio PereiraO Júlio Pereira foi sempre um defensor e um disseminador da música tradicional portuguesa. No entanto, no cerne da sua filosofia, a universalidade das manifestações culturais está sempre presente. Considera que acaba por haver uma inevitável mescla entre a música tradicional portuguesa que interpreta e as influências que advêm das diferentes músicas do mundo que absorve?
Isso tem a ver com a idade, com os gostos que temos... Eu conheço pessoas que só gostam de um género musical e durante toda a sua vida só ouvem esse género musical. Tenho vários amigos da minha adolescência que só gostam de rock e só ouvem rock. Eu, felizmente, não sou assim. Durante a minha adolescência toquei rock. Depois, a partir da revolução de 74, tive a possibilidade de ser aquilo que se pode considerar um músico de estúdio e, ainda por cima, com a sorte de ter trabalhado com os nossos melhores compositores. É evidente que, dessa relação, acabei por perceber que a música tradicional ia muito além daquela que se ouvia na televisão. Até aos meus vinte anos constatei que a música tradicional que se ouvia na televisão era aquela que dava aos domingos e que era praticamente toda baseada em ranchos folclóricos, acrescendo que todos tinham o mesmo som, independentemente de virem do Minho, do Alentejo ou do Algarve. Acabava, portanto, por ser uma escola muito enganadora. Acresce ainda o facto de a proliferação dos acordeões fazer com que se abafassem completamente os cordofones. Voltando ao que estava a dizer, a seguir ao 25 de Abril tive a sorte de trabalhar com os nossos melhores compositores e, como é óbvio, cada um deles tinha a paixão pela música da sua região do país e, aos poucos, nessa década, entre os meus 20 e 30 anos, fui conhecendo a música do meu país. É claro que este conjunto de saberes nessa década foi extremamente importante quando gravo um disco chamado "Cavaquinho". Este já se tratava de um instrumento tradicional, o que me levou a aprender a sua técnica. Achei graça e até porque na altura fazia todo o sentido, gravei um disco com música das várias regiões do meu país. A partir daí, dos meus trinta anos, foi como se tivesse definido a minha vida como instrumentista e aí, de alguma forma, sempre ligado à música tradicional. Mas, é evidente, e penso que isto acontece com todos os compositores ou com todos os artistas, escritores... Mesmo que comeces a fazer uma música ligada à música tradicional, o teu percurso acaba sempre por te afastar dessa referência, até porque uma pessoa se vai descobrindo, tendo necessidade de ser criativo, de ir à procura de "coisas", acabando por descobrir uma espécie de linguagem pessoal e essa afasta-se das origens, que neste caso não tem qualquer importância porque a alma de qualquer músico está sempre lá.

Acabou de nos dizer que falou com vários compositores, autores e músicos. Trabalhou com José Afonso... O que significou esta experiência? Foi importante?
Júlio PereiraPodemos dizer que foi a principal e isso é fácil de ver se tivermos em conta que, no que aos compositores contemporâneos diz respeito, o Zeca afastou-se de todos porque foi de uma originalidade extrema, porque era um homem que também gostava de muitos géneros musicais e da música de várias culturas. Foi o homem que trouxe a música africana até nós. O facto de eu tocar com ele e de ter estado com ele nos últimos oito anos da sua vida, fez com que eu também tivesse conhecido África com ele. Todas essas experiências foram muito enriquecedoras. Lembro-me por exemplo que em Moçambique, o diretor de uma rádio nos ofereceu um conjunto de cassetes com recolhas de música africana de ali à volta do Maputo, portanto todas estas experiências foram incrivelmente importantes, não só por estar perante um compositor com uma originalidade extrema, por gostar de músicas de várias culturas... e quando digo de várias culturas, até digo de vários géneros porque, embora muitas pessoas não saibam, às vezes o Zeca vinha-me buscar a casa e levava-me para a Gulbenkian para ouvir concertos de free jazz, por exemplo, e só por aqui já dá para avaliar como era aquele compositor. Acresce ainda o facto de, em 79, quando eu comecei a achar graça ao cavaquinho, o Zeca também achou graça e pediu-me que tocasse sempre cavaquinho nos espetáculos dele. Portanto, a primeira vez que eu toco cavaquinho é no estrangeiro, na Alemanha, e foi perante a reação fantástica do público que eu me comecei a interessar mais por este instrumento. O Zeca acaba por estar na origem de eu me ter interessado, de uma forma mais profissional, pelo cavaquinho.

Na altura em que surge esse interesse mais evidente pelo cavaquinho, fez alguma investigação mais aprofundada sobre este cordofone?
Sim. Este cordofone, como deves imaginar, tem uma história bastante peculiar que passa pelo facto de ser pequeno, incrivelmente transportável e só isso bastaria para imaginarmos que ele terá ido parar a inúmeras partes do mundo. Eu nunca fui musicólogo, não sou etnomusicólogo, portanto a minha curiosidade esteve sempre relacionada pela minha ligação ao instrumento. Na altura, e pela primeira vez, começo a viajar para Braga para ouvir tocadores e para conhecer construtores. Nesse tempo conheci o Domingos Machado e estávamos muitas vezes juntos. Foi ele que construiu os meus primeiros cavaquinhos. Fiz muitas amizades em Braga, nessa altura, pois viajava muito para lá e passava lá muito tempo. Eu tinha muita curiosidade para saber mais coisas sobre o cavaquinho. Na altura também conheci o Dr. Ernesto Veiga de Oliveira, que era o diretor do Museu de Etnologia e autor daquilo a que podemos chamar a "Bíblia" dos instrumentos populares portugueses, "Instrumentos Populares Musicais Portugueses". Tive a sorte de ele gostar imenso do disco, de tal modo que fez um texto específico para o disco "Cavaquinho" em 1981 e acabei por inserir no disco o texto integral sobre o cavaquinho que vinha no livro.

Júlio PereiraEntre 1983 e 2003 gravou vários discos mas, pelo meio, em 1995 aparece a conquista de um Grammy...
Não fui eu quem ganhou um Grammy, isso foi um erro da comunicação social da altura. Eu fui convidado pelos The Chieftains para gravar o CD Santiago e esse sim ganhou, penso eu, o primeiro Grammy Award europeu. Eu apenas tocava nesse disco como músico convidado. O Grammy não foi para mim. Na altura as televisões acharam que sim e entupiram a rua para me entrevistar e eu só tinha para contar aquilo que te estou a contar a ti. O primeiro Grammy foi o do ano passado para o Carlos do Carmo.

Por falar em Carlos do Carmo... em 2006 colabora com este e com o Chico Buarque no filme de Carlos Saura "Fado"...
Trabalhei com ele muito antes disso. O Carlos do Carmo convidou-me pela primeira vez, penso eu, em 99, ou até um pouco antes. Participei como músico convidado num concerto dele no Casino Estoril. Esse foi o meu primeiro contacto com o Carlos do Carmo. Depois ele convidou-me mais tarde para um concerto dele aqui no Coliseu de Lisboa. Aqui fizemos a nossa performance mesmo no meio do Coliseu, no meio do público e depois convidou-me para produzir um tema do Chico Buarque que curiosamente é o "Fado Tropical", que era um tema que eu conhecia muito bem da altura do PREC e essa foi mais uma das vezes em que estivemos juntos em trabalho.

Em 2008 lança o disco "Geografias" que originou um concerto com a mesma designação. Qual o impacto deste concerto? Passou por todo o país?
Curiosamente não. Foi um disco bem promovido, que saiu muito bem e permitiu-me fazer um concerto a trio com o Miguel Veras e a Sofia Vitória. Eu gostei muito daquela formação, mas esta não teve muita procura, embora os concertos tenham corrido muito bem e o público até tenha gostado. Com o "Cavaquinho.pt", que saiu no ano passado, as coisas já não foram assim e fizemos inúmeros concertos.

Em 2010, no álbum "Graffiti" convidou cantoras como Dulce Pontes, Maria João, Sara Tavares, Olga Cerpa, Nancy Vieira e Luanda Cozetti. Sendo a maior parte da sua música instrumental, o que pretendeu neste disco? Dar voz e palavra às suas melodias?
Julio PereiraEsse disco foi uma espécie de brincadeira... uma brincadeira séria, é claro, porque me deu muito trabalho e ao mesmo tempo prazer em fazer. Foi uma espécie de raiva que eu senti porque já sentia saudades de ouvir a minha música na rádio. Isto quer dizer que a música instrumental, por norma e salvo raras exceções, não passa na rádio. Todos nós sabemos, e eu sempre estive habituado a isso desde o disco "Cavaquinho", a minha música sempre foi utilizada como voz-off, ou seja, para os pivôs darem as suas notícias, ou para falarem nos seus programas. De algum modo tinha mesmo saudades de ouvir a minha música na rádio. Fiz então um disco de canções que é algo totalmente diferente de um disco instrumental. Convidei então dez cantoras e, de facto, às vezes eu ia no carro e ouvia as minhas canções.

Em 2013 o cavaquinho volta a ganhar protagonismo na sua vida, não só pelo disco "Cavaquinho.pt", mas também porque nasce a "Associação Museu Cavaquinho".
Não me perguntes porquê pois não saberia responder-te com exatidão. Não consigo explicar porque é que ao fim de 30 anos retomo a questão do cavaquinho. Eu fiz uma investigação acerca na qual visitei mais de 1500 sites e ainda bem que fiz esta investigação, porque cheguei à conclusão que no mundo inteiro as pessoas reconhecem os portugueses como estando na origem daquele instrumento. É evidente que também me apercebi que as pessoas não conhecem o universo de facto do cavaquinho. Chegou então a vontade de mostrar ao mundo a história deste instrumento. Comecei precisamente pela criação de um site porque este permite que as pessoas tenham acesso a um conjunto de informações de forma organizada. Durante um ano e meio ou dois anos fui construindo o site www.cavaquinhos.pt e é evidente que depois disto, aconteceram muitas coisas. Quando quis mostrar um universo deste tipo, voltei a visitar os construtores e como passaram 30 anos, dei conta que já existiam novas gerações de construtores, muitos que eu nem sequer imaginava que existiam. Comecei então a fotografar os instrumentos, mais uma vez para mostrar ao mundo que nós, mesmo sendo um país pequenino, temos inúmeros construtores e inúmeros instrumentos para mostrar. Ao mesmo tempo que ia aprofundando o meu conhecimento sobre este universo imenso a todos os níveis, antropológico, musicológico, histórico, etc. fui dando conta de que sozinho não poderia fazê-lo, até porque sou músico, não sou musicólogo e tinha que me munir de pessoas que me ajudassem neste processo e é aí que nasce a "Associação Museu Cavaquinho" em julho de 2013. Tem sido fantástico. A associação tem crescido muito depressa. Há até uma coisa que te vou dizer, que por acaso não tenho dito, que é das coisas mais curiosas... Júlio PereiraEu, como presidente da associação, tenho levado o projeto às pessoas, às instituições, às universidades, ou a construtores... mas há uma coisa que sempre aconteceu. Falo da alegria com que este projeto foi sempre recebido, quer no meio académico, associativo ou outro qualquer. Isso tem sido incrível porque dá a ideia de que este era um universo que estava ali parado em banho-maria e de repente eu sou o fulano que vai apenas levantar a questão, porque na realidade as empatias que se têm criado são fantásticas. O projeto é sempre bem recebido e é a isso que se deve o facto de estar a crescer tão depressa.

São já 20 discos de autor e 80 de outros artistas em que deixa a sua marca como produtor e orquestrador. Quando olha para trás sente que deixa um legado para as gerações que virão mais tarde a interessar-se pela música sobre a qual se debruça?
É uma questão que não me coloco. Enquanto estamos vivos e temos cabeça para pensar e temos ideias para concretizar, não temos tempo para pensar em coisas desse tipo.

Mas há certamente muitas pessoas que seguem de perto o seu trabalho e que até lhe pedem conselhos no âmbito dos cordofones...
Sim. Lembra-te que o disco "Cavaquinho", o do bandolim, o da braguesa, etc. trouxeram muitos admiradores. Todos estes trabalhos desencadearam muitos seguidores, como é o exemplo dos músicos das tunas e de escolas de música de vários sítios. Basta irmos ao YouTube e vemos músicos que aprenderam a tocar cavaquinho com discos meus, mas na altura nem sequer dei conta disso. Às vezes passo pela Associação Académica de Coimbra e, em conversa com os amigos, dou conta que criei muitos seguidores.

Para terminarmos esta conversa vamos falar um pouco dos espetáculos que vêm aí como, por exemplo, o do dia 28 de fevereiro no Centro Cultural de Belém. Quem são os músicos que o estão a acompanhar na estrada?
Neste mês teremos quatro espetáculos. Estaremos em Santo André, Marinha Grande, Évora e no CCB aqui em Lisboa. Este espetáculo está centrado no universo do cavaquinho. A associação, o disco e o site foram apresentados em janeiro do ano passado no CCB e a partir daí tenho feito este meu concerto, que tem tido uma aceitação muito grande e que, na realidade, ajuda todo este processo, à semelhança do que tem acontecido com a exposição 70 Cavaquinhos 70 Artistas. Estes acontecimentos vão ajudando a Associação Museu Cavaquinho naquilo a que podemos chamar os bastidores da investigação.

A exposição 70 Cavaquinhos 70 Artistas está agora em Braga e já esteve nos Jerónimos...
Sim. Vai ainda para Coimbra, Funchal, no verão para Guimarães e Viana do Castelo. Já estão a surgir pedidos para cidades que nada têm a ver com a prática do cavaquinho e já teve cinco convites para o estrangeiro.

E neste espetáculo centrado no cavaquinho quem são os músicos que o acompanham?
É o Miguel Veras na viola, o Luís Peixoto no bouzouki e a Sandra Martins no Violoncelo.

Júlio Pereira

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