José Eduardo Gomes. O clarinete e a direção: duas paixões que caminham lado a lado.

José Eduardo GomesJosé Eduardo Gomes partilhou com o XpressingMusic várias passagens do seu percurso formativo enquanto clarinetista e enquanto maestro. Muito recentemente foi maestro assistente do conceituado Peter Eötvös na Casa da Música. Diz que convive muito bem com a dualidade, clarinetista/maestro. Considera que as duas facetas se apoiam mutuamente. "O clarinetista ajudou muito o maestro, pois o facto de ter tocado muito em orquestra ajuda-me a perceber melhor qual a dinâmica de um ensaio, de um concerto, por já ter vivido isso enquanto clarinetista. O passo seguinte é aplicar toda essa experiência enquanto maestro, um desafio constante sempre em evolução. O maestro também ajuda muito o clarinetista, por exemplo na forma de olhar para uma partitura, na sua análise, na interpretação de cada obra, no seu caráter, fraseado, etc. Não penso nesse momento da minha vida em que poderei ter de optar por alguma das facetas".

José Eduardo Gomes, muito obrigado por ter aceitado este nosso desafio. Muito recentemente foi maestro assistente do conceituado Peter Eötvös na Casa da Música. Acontecimentos inéditos como este são a prova de que trilhou o(s) caminho(s) certos?
Estes acontecimentos são sobretudo experiências muito importantes neste trilho que escolhi, a música, a direção de orquestra. São momentos significativos, que me ajudam a evoluir cada vez mais. Esta oportunidade que me foi oferecida revela o investimento que faço no meu crescimento. Foi uma semana intensa esta que vivi ao lado do maestro Peter Eötvös e da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música. Além desta grande referência, tive a honra de partilhar a semana com o compositor Sir Harrison Birtwistle, para a estreia portuguesa da sua nova obra "Responses: Sweet disorder and the carefully careless" para piano e orquestra, com o pianista francês Pierre-Laurent Aimard. Acompanhei os ensaios desde o primeiro dia, com essa missão de assistir o maestro Eötvös, nomeadamente na obra em estreia, de Sir Harrison Birtwistle. Obra essa de uma exigência técnica elevada para todos os intervenientes, para a orquestra, solista e maestro. Uma das maiores dificuldades desta obra era efetivamente a sua complexidade rítmica, pela velocidade e constantes mudanças de tempo. Foi nesse particular que pude dar o meu contributo, no ensaio de cordas, onde, sempre sob o olhar atento do compositor, pudemos trabalhar com mais pormenor, sobretudo as passagens mais delicadas e de difícil junção. José Eduardo Gomes, Peter EötvösÉ sempre muito bom podermos ter o compositor ao nosso lado, e logo um senhor como Sir Harrison Birtwistle, sempre disponível para clarificar, corrigir e sugerir. Uma obra musical está sempre em movimento, em constante evolução. Foi o que pude constatar, ao longo de todos os ensaios, onde me inspirava da experiência e sabedoria do compositor. Que dizer do maestro Peter Eötvös? Além de um maestro e compositor exímio, é um ser humano fantástico. Pessoalmente, o que me fascinou foi a sua simplicidade, a sua disponibilidade para cada nota, para cada músico. Como se fosse dirigir a sua magnífica obra "Atlantis" pela primeira vez, sempre a descobrir novos detalhes; a sua inspiração, a música que transmite, com gestos muito precisos, as vezes só com um olhar ou expressão! E como conseguiu passar essa magia para toda a orquestra e para o público! Em suma, uma grande semana recheada de inspiração e motivação para continuar a estudar e a evoluir, neste trilho!

Estudou clarinete na ESMAE (Porto), onde se licenciou na classe de António Saiote. Qual tinha sido o seu percurso académico até esse momento?
O meu percurso académico começou na escola da banda filarmónica da minha terra natal, Vila Nova de Famalicão, passando depois pelo CCM (Centro Cultura Musical) e ARTAVE (Escola Profissional Artística do Vale do Ave) até chegar à ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto). Foi um percurso normal de um instrumentista de sopro. Aproveito para agradecer a todos os professores que me ensinaram tanto, durante todos estes anos de formação. Uma palavra especial para a minha família e amigos, que sempre me apoiaram neste percurso!

Mais tarde vem a estudar Direção na Haute École de Musique de Genève (Suíça). Houve alguma razão especial para ter optado por esta escola para prosseguir os seus estudos musicais? Procurava trabalhar com alguns nomes específicos da área da Direção Coral e da Direção Instrumental?
Conheci a Haute École de Musique de Musique de Genève através do Professor Thomas Friedli, conhecido clarinetista e professor nessa escola durante 30 anos. Desde a primeira visita a essa instituição e cidade, senti uma empatia e um bem-estar, que aliados à organização e qualidade dos professores, me motivaram a concorrer ao curso de direção de orquestra. Depois, durante os 4 anos do curso, tive a oportunidade de beber do conhecimento e experiência de muitos professores, dos quais destaco o prof. Laurent Gay (professor principal de direção de orquestra) e o prof. Celso Antunes (professor de direção coral). A vida cultural de Genève foi igualmente um fator muito importante para o meu crescimento musical. A nível pessoal, foi também uma experiência fantástica, pois a cidade de Genève é como um mini globo, onde se cruzam muitas raças e culturas distintas. Um período muito gratificante na minha vida.

Falando agora dos prémios que já alcançou, podemos perguntar-lhe se há algum, ou alguns prémios que tenham tido maior significado para si?
Todos eles tiveram um significado especial, pois um prémio é o reconhecimento do nosso trabalho. Cada um serviu como uma motivação para continuar a estudar e evoluir. Os prémios são muito importantes pelo trabalho anterior que significam, e é sobretudo esse o aspeto mais importante dos concursos. Se os abordamos de uma forma saudável, são muito importantes e úteis para a nossa evolução enquanto músicos.

Como instrumentista, o José Eduardo Gomes tem-se dedicado à música de câmara apresentando-se regularmente com várias formações em Portugal, Itália, Bélgica, Suíça, Japão e Canadá. O José Eduardo clarinetista convive bem com o José Eduardo Maestro? Sente que poderá chegar a um momento da sua vida em que vai ter que fazer opões e dedicar-se com maior intensidade a uma das duas facetas?
José Eduardo GomesConvivo muito bem com essa dualidade, clarinetista/maestro. Sinceramente acho que se apoiam mutuamente. O clarinetista ajudou muito o maestro, pois o facto de ter tocado muito em orquestra ajuda-me a perceber melhor qual a dinâmica de um ensaio, de um concerto, por já ter vivido isso enquanto clarinetista. O passo seguinte é aplicar toda essa experiência enquanto maestro, um desafio constante sempre em evolução. O maestro também ajuda muito o clarinetista, por exemplo na forma de olhar para uma partitura, na sua análise, na interpretação de cada obra, no seu caráter, fraseado, etc. Não penso nesse momento da minha vida em que poderei ter de optar por alguma das facetas. Elas confundem-se, e são uma só! Acima de tudo, tenho um prazer enorme em tocar e dirigir, e isso é o mais importante!

Jorma Panula, António Saiote, Cesário Costa, Jan Cober, Gianluigi Gelmetti, Jésus López Cobos, Alexander Polishuk, Ernst Schelle, Luiz Gustavo Petri, Douglas Bostock e José Rafael Vilaplana são alguns dos nomes que fizeram parte do seu percurso de aprendizagem. Identifica-se mais com algum deles ou, por outro lado, absorveu "em doses iguais" os ensinamentos e influências de cada um destes mestres?
Com todos estes mestres aprendi muito, absorvi ensinamentos e informação muito valiosa. Identifico-me com todos eles, cada um transmitiu-me técnicas, e influências diferentes, que me enriquecem. Para mim a riqueza dos Master Classes é isso mesmo, absorver informação dita de uma maneira diferente do quotidiano, e a oportunidade de aprender muito a ver e ouvir os colegas participantes, assim como o contacto com orquestras e músicos diferentes. São momentos muito importantes igualmente para conhecer novo repertório, poder estudá-lo com o instrumento do maestro, a orquestra.

Já dirigiu a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, Orquestra de Sófia (Bulgária), Orquestra Sinfónica Portuguesa, Orquestra do Algarve, Orquestra Sinfónica de Kaposvár (Hungria), Orchestre de la Haute École de Musique de Genève e Zurique (Suíça), Orquestra Filarmonia das Beiras e a Orquestra Clássica do Centro, entre outras. Cada orquestra que dirige constitui se como um desafio distinto e único?
Sem dúvida, é isso mesmo, um desafio distinto e único. São sempre experiências diferentes, porque cada orquestra tem o seu ADN e personalidade. Um dos aspetos que mais me fascina no meu trabalho é ter esta oportunidade de poder lidar com várias pessoas e com grupos de músicos. Sou uma pessoa comunicativa, por natureza, e adoro poder comunicar através da música, dar e receber energia positiva! Como exemplo, há uns anos dirigi na Hungria, a Orquestra de Kaposvár, a 200 quilómetros de Budapeste. A única língua que nos unia, pela qual podíamos comunicar era a linguagem musical, com os meus gestos, a minha postura, expressões faciais, etc! Foi de facto uma experiência marcante! A minha função enquanto maestro é ajudar os músicos que tenho à minha frente, a tocarem melhor juntos, na mesma direção, contribuir o mais possível para potenciar todas as suas capacidades individuais e do grupo, de forma a poder transmitir a melhor música para o público. Para isso, a preparação para cada projeto é muito importante, com a análise cuidada da partitura, do compositor, etc., a preparação do ensaio, do primeiro ao ensaio geral, até ao concerto. Todos estes aspetos são sempre variáveis, dependendo da orquestra, da dificuldade do repertório, do número de ensaios, etc. A relação humana entre uma orquestra e um maestro é muito importante, em que cada um se adapta mutualmente. Tenho um grande respeito pelos músicos e todos os intervenientes na preparação de um concerto. Eu sou só mais uma peça neste grande puzzle, apenas o líder. Para que tudo corra pelo melhor, todos são importantes!
Em resumo, Música é Partilha!

José Eduardo GomesEm 2009 foi assistente de Martin André na Orquestra Momentum Perpetuum, e em 2011 foi assistente do maestro Kazushi Ono na Opéra National de Lyon. Como encara estes momentos? São também encarados como etapas de aprendizagem?
Encaro estes momentos como uma oportunidade de aprendizagem, sem dúvida. Momentos onde aprendo de uma forma específica um repertório e a interpretação do maestro. A experiência em Lyon, por exemplo, foi incrível! Tive a oportunidade de acompanhar desde o primeiro dia de ensaios, com solistas e maestro vindos dos quatro cantos do mundo, à estreia da ópera de Verdi, Luisa Miller! Conheci artistas formidáveis, tive o privilégio de conhecer e trabalhar com o maestro Kazuzhi Ono, maestro com uma vasta experiência no mundo operático, e não só. Pude acompanhar o dia-a-dia de uma casa de ópera como a Opera de Lyon, uma instituição de enorme tradição, com grandes profissionais. A Opera é de facto uma escola incrível, um mundo especial, onde se pode aprender e crescer tanto enquanto artista. Espero um dia ter a oportunidade de voltar a trabalhar nesta área, que tanto me fascina!

O José Eduardo Gomes é um dos membros fundadores do Quarteto Vintage. Este é um projeto pelo qual nutre bastante envolvimento emocional? Como é que sente este quarteto formado há uns anos, integrado na disciplina de música de câmara na classe do Prof. António Saiote na ESMAE?
O Quarteto Vintage é um grupo muito especial para mim, pelo qual nutro um sentimento emocional e artístico muito forte. É um grupo que evoluiu muito ao longo destes últimos 13 anos, onde temos investido muito tempo e dinheiro na pesquisa de novo repertório e encomenda de novas obras. É um grupo muito criativo, sempre tentando explorar novas sonoridades desta formação, assim como divulgar a música portuguesa e o melhor repertório escrito para quarteto de clarinetes. O grupo já conta com 2 discos, o primeiro mais eclético, e o segundo "Clair de Lune", dedicado à música francesa. Acima de tudo, queremos distinguir-nos no panorama musical pela qualidade e inovação.

Quais os projetos que abraça atualmente enquanto clarinetista e maestro titular?
Enquanto clarinetista, sou membro fundador do Quarteto Vintage e Serenade Ensemble. Sou maestro titular da Orquestra Clássica da FEUP, e maestro titular do Coro do Círculo Portuense de Ópera.

Agradecemos mais uma vez a amabilidade demonstrada para com a equipa do XpressingMusic – Portal do Conhecimento Musical. Onde o poderemos ouvir e ver em breve?
Eu é que agradeço o convite. Bem hajam pela divulgação da cultura! Em breve, como clarinetista estarei com o Quarteto Vintage no dia 29 de Novembro, na Casa de Montezelo pelas 21h30 integrado no Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres. Enquanto maestro, estarei com a Orquestra da ESART, no concerto de abertura do 42º Congresso Internacional de Viola de Arco, no dia 26 de Novembro, no Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto. No dia 10 de Dezembro, no Auditório da FEUP, no Porto, dirijo a Orquestra Clássica da FEUP com o Coro do Circulo Portuense de Ópera, para um concerto dedicado a Gabriel Fauré. Estão todos convidados!

José Eduardo Gomes

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