Luís Figueiredo. O piano, o jazz e como estes se relacionam com a universidade.

Luís FigueiredoFomos a Coimbra ao encontro do pianista e compositor de jazz Luís Figueiredo. Na "Casa das Caldeiras" entrevistámos o autor de discos como "Lado B", "Manhã" e "Palavras de Mulher". A sua atividade tem sido intensa em várias frentes. Como sideman tem também participado em discos como o último da Luísa Sobral "Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa", ou de outros músicos como João Hasselberg e Jorge Moniz. Levou o Jazz para a Universidade de Aveiro e debruça-se sobre esta área com enorme dedicação sendo já indiscutível que deixará uma marca para os que vierem a seguir. Sente-se um privilegiado dizendo: "eu tenho um percurso um pouco atípico em relação aos meus colegas porque eu comecei a tocar com as pessoas que eram os meus ídolos e não com os meus colegas de escola. Eu acabo por ser o benjamim dos meus próprios projetos".

Luís, começaste por ter uma formação clássica no Conservatório de Coimbra. Era isso mesmo que querias, ou já na altura ansiavas dar o pulo para outras coisas?
No início, mesmo antes do conservatório, eu ainda não sabia bem o que queria. Tinha uns 7 ou 8 anos... Acho que fui andando e aprendendo. Lembro-me de gostar daquilo mas não tinha nada definido relativamente ao que queria vir a fazer. Há miúdos que já têm tudo muito bem definido mas eu não tinha nada disso. Depois quando entrei para o Conservatório, fiquei lá por 10 anos. A vivência do Conservatório foi, por um lado útil, mas por outro, bastante sofrida. O Conservatório sempre foi um local onde eu sentia que não me era permitido fazer aquilo de que gostava. Não me permitia exprimir, sendo uma instituição bastante conservadora. Digo muitas vezes que a música de que eu gostava tinha que ser deixada à porta. Não é que eu não gostasse da música erudita. Sempre gostei de música erudita mas uma boa parte da música de que eu gostava tinha que ficar à porta. Quando terminei o conservatório senti que aí sim teria que tomar uma posição. Tinha duas possibilidades. Ou entrava para a faculdade, pois tinha terminado Humanidades e entrado para o curso de Direito, ou teria que ir estudar música e fazer outras coisas.

Foi nesta altura que surgiu a possibilidade de ires para Universidade de Aveiro?
Sim. Ainda não existiam cursos de Jazz. Só abriu na ESMAE dois ou três anos depois disso. A possibilidade que eu tinha era fazer um curso superior de piano, um pouco na continuidade daquilo que vinha fazendo no Conservatório. Aí, apesar de continuar a estudar aquela música no campo da música erudita, acabei por reaprender aquela música. Reconciliei-me com aquela música e com o piano porque a verdade é que a reta final no Conservatório foi muito desapontante. A minha desilusão com a aprendizagem da música foi aumentando à medida que iam avançando os anos no Conservatório. Na Universidade tive a sorte de começar a trabalhar com um professor e pianista russo que se chamava Vitali Dotsenko. Ele era muito duro e severo mas deu-se ao trabalho de entender os alunos que é algo que até então eu não tinha experienciado. Este Senhor, que tinha uns 70 anos, dava-nos reportório que ele próprio não conhecia. Vi-o algumas vezes nos intervalos a estudar coisas que me ia dar a mim. Isto foi muito importante para mim. Voltei a lembrar-me do propósito disto tudo. A Universidade já foi um período que me correu muito melhor.

Luís FigueiredoNesse período, para além desse mestre que já referiste, houve mais algum professor que te tenha marcado?
Sim. Tive um professor de música de câmara que era o compositor e pianista António Chagas Rosa. Ele e mais duas ou três pessoas ali na Universidade mostraram-me que até podemos estar envolvidos com outras áreas da música mas que há ali coisas que são transversais. Vasco Negreiros foi outra pessoa importante.

Mas voltando atrás... No período do Conservatório, não tinhas outros projetos cá fora onde pudesses dar largas à tua veia jazzística?
Não. Nunca fiz nada nessa altura até porque no Conservatório nos passavam muito a ideia de que a improvisação era outra coisa. Não era para pessoas como nós. Era algo que as pessoas nem percebiam bem o que era, mas que também não interessava até porque não era considerada música a sério. Aí também tive alguma culpa porque me deixei convencer. Apesar de ouvir outras coisas cá fora, pensava sempre que aquilo não era para mim. Desde os meus 14 anos que ouvia Jazz e gastava o meu dinheiro todo em discos e raramente eram discos de música erudita.

E lá em casa? Eras influenciado pelo teu irmão Paulo (Paulo Figueiredo – CORDIS)?
Sim, claro. Era influenciado pelos meus dois irmãos mais velhos. Mesmo o meu irmão que não é músico ouvia muita música que se veio a tornar muito importante para mim. Com o Paulo era uma ligação muito direta pois ele levava-me quando ia tocar aos bares ou a outros concertos. Levava-me também a concertos e apresentava-me aos músicos que ele conhecia. Apresentou-me ao Rui Veloso e a muitos outros de quem ele gostava muito. Ouvi muita música graças ao Paulo e aprendi muito sobre a forma de estar neste meio musical mas mesmo assim, naquela altura não despertei para este mundo pois aquilo que eu aprendia no conservatório não tinha aplicabilidade ali. Com o meu irmão do meio ouvi muita World Music e outras coisas que aprendi a gostar mais tarde. Ouvia também aquele Jazz europeu... Se pensar um pouco hoje, vejo que esses tempos definiram muito o meu universo musical.

Mais tarde surgiu a oportunidade de trabalhares com o Mário Laginha...
Quando conclui o curso superior de piano na Universidade de Aveiro, cheguei à conclusão de que esta fase tinha sido muito importante porque me tinha permitido reconciliar com o estudo do piano mas também me fez perceber que estas coisas da improvisação também eram para mim. Então, depois desse período que aconteceu entre 2001 e 2005 mais ou menos, pensei "não posso perder mais tempo". Assim, inscrevi-me no Hot Club durante um ano letivo. Depois acabei por não ir o ano todo pois ainda estava na Universidade, estava a estagiar no Conservatório de Coimbra e ir para Lisboa era pesado. Passava dois dias em cada cidade (Aveiro, Lisboa e Coimbra). A partir daí comecei a organizar algumas ideias que andavam dispersas na minha cabeça sobre harmonia, sobre improvisação no jazz e sobre o jazz em geral. Pouco tempo depois disso fui ter com o Mário Laginha que era uma pessoa de quem eu já andava atrás há imenso tempo pois ia ver os concertos todos e já nos conhecíamos. Lembro-me que no final dos concertos dele ia sempre ter com ele e até lhe pedia as partituras das coisas dele e ele sempre foi uma pessoa muito generosa. Um dia enchi-me de coragem e fui ter com ele averiguando a possibilidade de ele me dar algumas aulas. Ele aceitou e tivemos então algumas aulas. Pouco tempo mais tarde, ingressei em doutoramento na Universidade de Aveiro. Como não me via a fazer uma coisa só teórica, propus um plano que tinha a componente teórica e a componente prática e o Mário Laginha acabou por se converter em meu Coorientador.

Luís FigueiredoEsta tua colaboração com a Universidade de Aveiro está já a dar alguns frutos. Está ali a nascer uma cultura jazzística?
Sim, é verdade. Esta era uma cultura que não existia no tempo em que eu entrei para a Universidade. Tinha alguns colegas que ouviam jazz e tocavam mas não havia grandes escapes para isso. Eu tinha um projeto com outro colega que envolvia dois pianos no qual tocávamos algumas composições minhas e outras coisas, mas não havia uma licenciatura em jazz nem uma pós-graduação em jazz. O departamento estava claramente orientado para a música erudita. Quando entrei para o doutoramento, não havia ninguém a estudar jazz na Universidade por isso é que o meu percurso lá foi complicado porque quando eu entrei nem havia bibliografia de jazz. Passei os primeiros meses a consultar currículos de universidades estrangeiras e a ver qual a bibliografia que sugeriam para que se pedissem os mesmos para a Universidade de Aveiro. Fiz cartas para a Universidade a pedir livros e mais livros (risos). Não havia ninguém para me orientar pois não existiam professores desta área. Existiam duas ou três pessoas que trabalhavam noutras áreas fazendo uma incursões pelo jazz. Falo, por exemplo do Mário Teixeira que é baterista e percussionista. Logo, os primeiros anos foram muito complicados. Depois as coisas começaram a tomar forma. Comecei a trabalhar no Centro de Estudos de Jazz que se formou com base numa doação do José Duarte. O José Duarte doou toda a sua coleção de discos e de livros à Universidade de Aveiro e foi sobre essa coleção que se iniciou o Centro de Estudos de Jazz. Comecei então a trabalhar nesse centro e a propor programação anual trazendo pessoas para fazer masterclasses, conferências e concertos. Comecei a frequentar conferências internacionais com o Hélder Martins, que agora é vereador da Câmara da Lousã e foi o primeiro a publicar alguma coisa académica sobre jazz em Portugal com a sua tese realizada aqui na Universidade de Coimbra. Sempre que havia congressos da área, nós íamos apresentar artigos sobre jazz em Portugal... Depois começaram a entrar mais pessoas para o Centro. Recentemente entrou o Pedro Cravinho, depois o Ricardo Pinheiro que é um guitarrista de Lisboa que concluiu o doutoramento sobre jazz na Universidade Nova. Entretanto começou a engrossar este número de pessoas que trabalha sobre jazz em Portugal e a Universidade de Aveiro está agora inserida numa Unidade de Investigação à qual também pertence a Universidade Nova de Lisboa e um ou outro instituto. Assim, no total, já começa a haver uma rede de pessoas a investigar nesta área.

É interessante ouvir aquilo que nos acabas de dizer. Principalmente os mais novos têm uma ideia de que isto da academia não é muito importante para se fazer música mas acaba por ser evidente que está tão mais preparado aquele músico que consegue refletir sobre as suas práticas e o contexto que as originou... Concordas com isto?
Eu concordo. Considero que a academia permite que pensemos nas coisas de outra forma complementando a vertente prática. Não sou nada adepto daquela ideia que às vezes existe nas Universidades de que "a academia é que é!", ou de que na academia é que se produz o real conhecimento. Eu diria que, no mínimo, o conhecimento de um investigador é tão importante como a música nova que um músico faz. Digo no mínimo porque se o músico não fizer música nova, o investigador não tem nada para estudar.

Aliás, se o músico está a criar, acaba por ser reflexivo, quanto mais não seja sobre a criação e a praxis. Assim, se há reflexividade, o músico está a ser académico fora da academia... (risos)
Óbvio! Aliás, está muito enraizada a errada ideia de que o músico, o performer, não reflete sobre as coisas, ou seja, que este é um mero técnico. Esta é uma ideia errada que uma boa parte da academia tem: "Nós na academia pensamos e eles que estão ali na prática executam". Isto é uma idiotice. Qualquer ser criativo reflete sobre as coisas. Claro que não reflete com a objetividade da academia porque não o faz segundo as suas normas. A produção fora da academia é, por definição, subjetiva, mas uma parte não sobrevive sem a outra.

Vamos agora falar dos teus projetos. Começamos pelo Luís Figueiredo Trio. Está no ativo esta formação?
Não temos tido muitas datas ultimamente porque entretanto surgiu o outro projeto "Lado B" ao qual tenho dado prioridade. O Lado B é um quarteto/quinteto com o qual gravei um disco mais recente e só por isso tem tocado mais e o trio tem estado mais parado nos últimos tempos.

Luís FigueiredoEstes dois projetos tem músicos comuns aos dois?
Não. O trio, pelo menos na forma como foi gravado o disco, é composto por mim, pelo Nelson Cascais no contrabaixo e pelo Bruno Pedroso na bateria. Com o trio gravei o registo do reportório que tinha composto até ao momento. Orgulho-me muito deste meu primeiro projeto com princípio, meio e fim. É um formato trio, é algo que admiro muito. E não o quero abandonar. Se por um lado, este formato trio tem um equilíbrio tímbrico muito grande, por outro também nos deixa muito espaço para criar e propor coisas. Se estivermos a tocar num quinteto ou num sexteto, as coisas mudam muito pois temos que ter cuidado com aquilo que propomos pois pode chocar com o que os outros músicos estão a propor...

E no quinteto "Lado B"? Quem são os músicos?
Há ali um quarteto base que é formado por mim, pelo João Moreira no trompete, Mário Franco no contrabaixo e o Alexandre Frazão na bateria. Para o disco chamei o saxofonista Ricardo Toscano que é um jovem instrumentista dotado de uma qualidade impressionante e sempre que posso continuo a chamá-lo para os concertos pois há ali algo muito interessante naquela abordagem dele e no facto de poder ter uma secção de metais.

O facto de tocares com estes nomes, como por exemplo o do Alexandre Frazão, acaba por constituir também preciosos momentos de aprendizagem... Concordas?
Sem dúvida nenhuma. Aliás, eu tenho um percurso um pouco atípico em relação aos meus colegas porque eu comecei a tocar com as pessoas que eram os meus ídolos e não com os meus colegas de escola. Eu acabo por ser o benjamim dos meus próprios projetos (risos). Eu lidero os projetos em que sou o "menino" lá do sítio (risos).

Também tens um projeto com a Sofia Vitória. Esse é um trabalho contínuo?
Sim. Estamos sempre juntos a fazer qualquer coisa. No entanto o disco tem um programa muito específico pois só aborda música do Chico Buarque. Isto aconteceu porque nós nem nos conhecíamos e ela encontrou-me pela internet penso que anda na altura do "My Space"... Ela tinha ouvido algumas músicas minhas e andava a encomendar algumas músicas a malta que compunha na área do jazz, pois queria recolher reportório para fazer um disco dela. Eu escrevi, mas na realidade o tema acabou por ser mais tarde gravado num disco meu convidando-a para cantar. Fomos entretanto fazendo algumas coisas juntos, até que ela me apareceu com a ideia de fazer algo sobre Chico Buarque mas cantado no feminino, escolhendo canções dele em que a mulher estivesse em primeiro plano. Achei a ideia ótima pois também adoro o trabalho do Chico Buarque. Gravámos e temos andado a tocar esse disco nos últimos dois anos.

Para além destas abordagens de que temos vindo a falar, tens trabalhado também para o cinema e para o teatro. Fascina-te, compor para a imagem?
Gosto muito desse trabalho. Tenho pena de não ter feito ainda mais coisas para essa área. É toda uma nova área e há pessoas que se dedicam muito seriamente a isso. O Bernardo Sassetti dedicava-se muito à música para cinema. O cinema sempre me fascinou e o teatro foi algo que apareceu mais tarde e já trabalhei com algumas companhias fazendo trabalhos que me deram imenso gozo. Gostava de fazer mais trabalho nestas áreas.

Relativamente às tuas produções e coproduções...
Eu gravei três discos muito recentemente e estão todos a sair agora. Um deles foi o da Luísa Sobral em que toquei e produzi com ela fazendo também os arranjos. Gravei também um disco com o contrabaixista João Hasselberg. Gravei ainda com o baterista Jorge Moniz.

Lado BPalavra de MulherManhã

Para além de toda esta tua atividade como músico, também és professor. Às vezes ouvimos músicos dizerem-nos que uma das atividades acaba por ficar para trás. Isso acontece contigo?
Na área do jazz é muito comum esta coincidência de funções pois o meio do jazz paga muito mal e os músicos têm que ter necessariamente outras fontes de rendimento. É habitual haver muita intensidade nas duas atividades. O que não é tão comum é estar ligado à Universidade e à investigação e, para ser honesto, é a parte que se torna mais complicada nesta equação toda. O trabalho que faço na Universidade não é tão ligado à performance. Tenho que estudar muito pois, por exemplo, neste momento leciono uma disciplina que se debruça sobre os estudos de jazz e outra sobre a história do jazz. Para além de tudo isto ainda leciono piano.

Projetos para breve... podes partilhar alguns?
Um dos projetos mais urgentes prende-se com a conclusão do meu doutoramento que já se arrasta há muito tempo. Tenho outros projetos no bolso que gostava de colocar em prática em breve. Um deles é fazer um novo disco com o trio, outro é um novo disco com a Sofia. Comecei agora em setembro um novo projeto que começa por ser um projeto a solo mas que não sei ainda bem que formato poderá assumir. Não deverá acabar como um projeto a solo. Vai ser apresentado aqui em Coimbra nos Encontros de Jazz e é uma encomenda do Jazz Ao Centro...

Luís Figueiredo

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