Paulo Gaio Lima. O violoncelista nascido no Porto em entrevista.

Paulo Gaio LimaEntrevistámos o violoncelista Paulo Gaio Lima que nos falou de tudo um pouco. O nosso entrevistado estudou no Conservatório do Porto e no Conservatório Superior de Música de Paris, com Maurice Gendron. Paulo Gaio Lima passou já por Bruxelas, Huddersfield, Marais, Uzés, Torino, Trento, Nantes, Espanha, EUA, Macau, Brasil acompanhado pelas orquestras de Moscovo, Szeged, Xangai, Porto Alegre, Hannover, Monterrey, entre outras. O violoncelista exerce também uma intensa atividade pedagógica da qual também falamos nesta entrevista. Segundo este, "o ensino da música em Portugal cresceu de um modo espetacular nos últimos 25 anos! É um orgulho para mim sentir que participei nessa mudança, que preparo jovens colegas para essa imensa responsabilidade que é tocar e ensinar, que os resultados estão à vista...".

Madalena Costa, no Porto e Maurice Gendron em Paris foram certamente grandes pilares da sua formação enquanto músico. Que recordações guarda destes tempos de aprendizagem?
Estruturantes, com Madalena Costa um convívio imediato com o ato de tocar para os outros, com Maurice Gendron o exemplo do grande solista com uma personalidade única e a aprendizagem de um estilo, de uma técnica e de uma confiança nas minhas possibilidades.

Tem tocado com as orquestras de Moscovo, Szeged, Xangai, Porto Alegre, Hannover, Monterrey, Basel, Varsóvia, Neuss, Istambul, entre outras. A sua carreira internacional começou em que altura? O facto de ter estudado noutro país (França), contribuiu para que o seu trabalho tivesse outra visibilidade?
De facto, durante os sete anos que passei em Paris, tive a oportunidade de colaborar com músicos de todas as partes, gente com quem mantive relações profissionais; naturalmente as viagens musicais aconteceram, sendo no entanto o adquirido como violoncelista que me preparou para as atividades solísticas que comecei a desenvolver. Também em Lisboa, integrado no projeto da Metropolitana, como violoncelista da orquestra, tive a oportunidade de ser ouvido por maestros que lá passaram e posteriormente me convidaram a colaborar com suas orquestras.

Paulo Gaio LimOrgulha-se certamente de ter estreado já várias obras. Considera que a primeira interpretação de uma obra marca-a para sempre? Considera que pode até condicionar os intérpretes que a venham a executar posteriormente?
Quando Rostropovitch gravou as suites para violoncelo solo de Benjamin Britten e as ouvi, pensei que não poderia haver melhor versão. Anos depois dei-me conta que, por mais forte que fosse a personalidade do intérprete, havia sempre ideias novas e fantásticas que surgiam de outros músicos, de nós próprios, do próprio Slava e sobretudo da fonte original: o texto musical. Ao primeiro intérprete compete uma leitura exemplar: o espírito do compositor, a clareza do texto, uma certa comunhão interpretativa com o criador... mas, quem não terá uma imagem diferente e única do herói de um romance que acabou de ler?...

Fale-nos um pouco da sua experiência como violoncelo-solo convidado da Orquestra Sinfónica do Reno. Foi muito distinta da experiência vivida na Orquestra Metropolitana de Lisboa?
Uma orquestra na Alsácia, um jovem sem grande experiência e reportório sinfónico, ópera, estreias de obras contemporâneas... foi uma belíssima entrada nesse mundo dos grandes grupos de músicos cheios de histórias e conflitos... e momentos em que todos estão juntos por uma mão cheia de sons... A OML, projeto no qual participei desde a criação, foi extremamente enriquecedor do ponto de vista humano. Assumi naturalmente um papel de anfitrião, dado o número elevado de músicos vindos de outras partes, bastante jovens na maior parte. Tive como função, para além da parte musical, a organização de centenas de programas de música de câmara por temporada, o que obviamente implicou uma atenção muito especial às características de cada elemento da orquestra, com quem se entendiam musicalmente, qual o reportório que melhor se adequava, etc...

Como surgiu a oportunidade de integrar o Quarteto Verdi de Paris?
O acaso fez com que num ensaio do Ensemble 2E2M (grupo de música contemporânea dirigido pelo compositor Paul Méfano) o 1º violinista e eu tivéssemos um solo em duo... correu bem... procurava um violoncelista para preencher a vaga do seu quarteto... experimentámos... funcionou bem... fiquei a fazer parte do Quarteto.

O Artis Trio deu-lhe oportunidade de atuar em países como Dinamarca, França, Portugal e Itália. No Trio.pt dá continuidade ao trabalho que vinha a desenvolver no Artis Trio?
O trio.pt foi constituído por dois jovens e "eu". Belíssima oportunidade para rejuvenescer, acompanhar as movidas do nosso tempo, trabalhar um reportório diferente daquele que habitualmente pratico com o Aníbal Lima e o António Rosado, meus colegas do Artis, com quem continuo a tocar... Ao contrário das práticas matrimoniais da nossa sociedade, as exclusividades musicais não são tão exclusivistas... mau seria que se perdessem ensejos para se ir ao âmago da nossa profissão e descobrir novos sons por causa disso!...

São já muitas as gravações em disco que contaram com interpretações do Paulo Gaio Lima. Quais os trabalhos mais relevantes que gravou até hoje?
Paulo Gaio LimaA relevância maior das gravações em que participei estará seguramente naquelas obras que nunca antes tinham sido gravadas (música de câmara de autores portugueses...). Claro que todas elas funcionam um pouco como um barómetro de qualidade instrumental, evolução musical, mas também fazem parte natural da vida de um músico... O facto de saber que a gravação será "eterna" é extremamente motivador: o cuidado que se tem com a preparação e ao mesmo tempo a preocupação em deixar um testemunho pessoal de algum interesse é um desafio muito importante para um artista. É nesses momentos que verdadeiramente se cresce.

Para além da sua carreira enquanto performer, tem uma atividade pedagógica muito intensa. Em que instituições se encontra a lecionar neste momento? Como encara o ensino da música em Portugal?
Atualmente dedico-me exclusivamente ao ensino de violoncelo na Academia Nacional Superior de Orquestra em Lisboa. Obviamente, também masterclasses pontuais fazem parte das minhas atividades como docente. O ensino da música em Portugal cresceu de um modo espetacular nos últimos 25 anos! É um orgulho para mim sentir que participei nessa mudança, que preparo jovens colegas para essa imensa responsabilidade que é tocar e ensinar, que os resultados estão à vista (como exemplo diria que todas as orquestras portuguesas poderiam ter apenas violoncelistas formados em Portugal e o nível seria sensacional...). Em épocas de crescimento, neste caso da pirâmide musical, há sempre o perigo de ultrapassar os "objetivos", ...para quê mais músicos se as orquestras mal sobrevivem? Onde estão as propostas de concertos? Será que a única solução será perpetuar um sistema de ensino/aprendizagem virado para dentro?... A música é uma experiência de vida tão forte que todas as dúvidas que possam interferir nesse caminho não são, no entanto, a parte mais importante da questão.

Tem novos projetos para breve? Vai gravar algum novo disco? Já pensou em editar uma obra com um carácter mais pedagógico ou didático?
Como sempre, muitos projetos... no papel ou no imaginário. Algumas concretizações reais no entanto... com violoncelo barroco, grupos de violoncelistas. Ainda não tive a disponibilidade para me dedicar à escrita, mas é sem dúvida uma ideia que tem vindo a germinar dentro de mim, sobretudo por imaginar algo completamente diferente do que normalmente é proposto...

Muito obrigado por nos ter dedicado uma parte do seu precioso tempo. Estamos certos de que os nossos leitores terão muito a ganhar com a partilha que acaba de nos proporcionar.
Obrigado pela oportunidade de deixar algumas palavras que eventualmente levem os colegas mais jovens a encarar a escolha que fizeram de um modo totalmente otimista!

Paulo Gaio Lima

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