António Victorino d’Almeida partilha o seu saber e as suas ideias numa entrevista sem preconceitos…

António Victorino d'AlmeidaViajámos para norte, mais especificamente para Moledo, para irmos ao encontro do Maestro António Victorino d'Almeida. Acabámos por realizar a entrevista em Caminha, terra que muito admira e da qual fala com orgulho. Falámos da sua vida, da sua música, da sua cidade, Viena de Áustria, e das suas preocupações relativamente a uma campanha de estupidificação das pessoas, que está a ser levada a cabo pelo poder político, referindo-se às Secretarias de Estado da Cultura e, principalmente, às Câmaras Municipais. Nesta entrevista, António Victorino d'Almeida mostra a sua indignação relativamente ao facto de se chamar música à música ligeira. O nosso entrevistado refere-se a uma arte menor que se está a intrometer e a ocupar o lugar da Música enquanto arte maior. Esta é mais uma entrevista que vem para propiciar reflexividade junto dos atores culturais, de quem os tutela e, acima de tudo, do povo português que, enquanto consumidor, está a ser privado de uma parte substancial da cultura à qual tem direito, por só se gastarem os orçamentos com a cultura fácil e populista.

Desde cedo esteve ligado à música. Na sua casa respirava-se música...
Não se pode dizer que tenha nascido num meio musical... Aminha mãe tinha uma preparação enquanto cantora lírica. Havia um piano lá em casa mas até aos 6 anos, nunca toquei nele. Eu nunca gostei de fazer aquilo que não sei, e sempre fui fiel a esse princípio (risos). Nunca fui daquelas crianças que ia para lá "martelar" as teclas. Assim, a primeira manifestação de jeito para a música foi detetada por uma senhora chamada Marina Dwander Gabriel, uma cantora brilhante dos anos 30. Ela viu-me na cozinha de minha casa a acompanhar numa bateria que me tinham oferecido...

... Mas chegou a sonhar com outras profissões?
Eu sempre sonhei ser Zoólogo. E continuo a sonhar (risos). Não digo que fosse a minha verdadeira vocação mas há um entendimento entre mim e os bichos que não é normal.

Aos sete anos já interpretava Mozart e Beethoven. Eram os seus compositores preferidos?
Não. Na altura eu não tinha sequer capacidade para saber quem eram o Mozart e o Beethoven. Deram-me aquilo para eu tocar e eu toquei. Obviamente que não estava a tocar a Apassionata nem obras muito complicadas... Mas sim, toquei Mozart, Beethoven...

Tornaram-se referências para si?
Sim, a pouco e pouco foram-se tornando.

Depois, com o avançar do seu percurso académico, surge a oportunidade de ir estudar para Viena de Áustria. Esta bolsa constituiu-se como uma grande oportunidade para o Maestro?
Claro que foi uma grande oportunidade. Nessa altura, quem tivesse 18 valores numa disciplina como piano, violino, ou outro instrumento, tinha direito a uma bolsa praticamente automática para ir estudar para um país à sua escolha, penso que era assim. Eu tive 19, logo fiquei automaticamente selecionável para ir para o estrangeiro.

António Victorino d'AlmeidaEsta oportunidade mudou a sua vida?
Nessa altura eu já era músico. Já estava decidido que iria ser músico. Aos 13/14 anos fiz o meu primeiro concerto no Conservatório. Um concerto com público, pois os primeiros concertos que dei, eram em casa da minha professora, com uma plateia improvisada... Lembro-me que numa dessas primeiras plateias improvisadas estavam dois senhores, um pequenino e outro grande que por acaso eram o Viana da Motta e o Luís de Freitas Branco mas eu nem sabia quem estes eram... Portanto quando digo que este concerto aos 13/14 anos foi o meu primeiro concerto a sério, falo já de um concerto no Conservatório e lembro-me perfeitamente de que estava lá o João de Freitas Branco com quem tirei uma fotografia no fim do concerto e que mais tarde viria a ser um grande amigo meu.

Voltando a Viena, cidade por onde tinham passado grandes nomes da história da música, sentia-se esse ar místico e simbólico?
Viena era uma cidade muito complicada. Viena é a minha cidade. Portugal é o meu país mas Viena é a minha cidade. Nasci em Lisboa mas nunca me adaptei a viver lá. Vivi uns 27 anos em Viena, portanto é a minha cidade. Não é uma cidade que nos acolha de braços abertos. É uma cidade difícil. Pelo menos era no tempo em que lá vivi. É uma cidade onde é preciso lutar. Um músico não chega ali e encontra logo facilidades, antes pelo contrário! Mas isso, por um lado, é bom. Uma coisa é encontrar dificuldades, outra é encontrar torpezas e rasteiras e outras coisas que existem cá em Portugal. Mas dificuldades sim. Uma pessoa não chega a Viena e só por ser músico é recebido de braços abertos. "Se és músico, então mostra lá o que vales!".

27 anos depois regressa a Portugal. O que o fez ficar por cá?
Muitas vezes me perguntam porque é que vim para Portugal, porque realmente é um absurdo. Não havia nenhuma razão para vir para Portugal. Vim para cá, única e exclusivamente por uma razão pessoal, familiar e que consistiu em dar 20 anos de vida ao meu pai. O meu pai ficou viúvo, pois a minha mãe tinha morrido, as minhas três filhas estavam em Paris, portanto as netas estavam em Paris e eu em Viena ficando o meu pai completamente sozinho. Nunca me arrependerei em termos pessoais de ter vindo para Lisboa. Mas eu sabia que estava a dar um tiro no pé, ou melhor, um tiro na cabeça (risos) ao meter-me em Portugal, um país no qual eu não acredito. Falo em termos culturais e especificamente musicais. Depois o meu pai morreu e os problemas agora são outros. Tenho uma das minhas filhas, que por sua vez tem três filhas, e a minha mulher tem que tomar conta delas para ajudar porque a minha filha também tem que exercer a sua profissão que, por acaso, também é na área da música. Mas realmente vim para Portugal, não por saudade até porque não tinha saudades nenhumas. Quer dizer, tinha saudades de Moledo, do Sporting Clube Caminhense, agora do meio musical português não tinha saudades nenhumas porque nunca acreditei nele.

Mas chegou a ter vontade de utilizar o seu peso enquanto personalidade mediática, maestro, para influenciar a mudança desse meio musical? Falo disto até porque o vimos ser candidato ao Parlamento Europeu em 1989...
Não teve nada a ver com música. A Helena Cidade Moura e o Tengarrinha consideravam, e tinham razão, que no Parlamento Europeu nunca tinha havido ninguém, português, com a preocupação de dar a conhecer, de divulgar a cultura portuguesa. Nunca houve e continua a não haver. A ideia agradou-me e disse-lhes: "Por acaso nunca tinha pensado nisso mas vocês têm razão". É claro que para concorrer ao Parlamento Europeu só existe a via política, através de eleições, mas os meus objetivos não eram propriamente políticos. Teria tido imenso gosto em desempenhar tal função mas perdi por trezentos e poucos votos (risos). Foi uma oportunidade que se perdeu pois sei que teria desempenhado bem a função que me era pedida.

Considera então que se os músicos se envolvessem mais na política, a cultura teria outra visibilidade, outra dignidade, e seria finalmente encarada com um maior respeito pelos portugueses?
António Victorino d'AlmeidaNão. O povo é que tem que se envolver. O povo português não está envolvido na política. O povo português continua a acreditar no pai tirano... Já saiu o Salazar mas o povo português continua a acreditar que tem de haver sempre um Salazar qualquer a tomar conta dele. Ainda por cima, o Salazares de hoje, embora sem o caráter sádico associado ao ditador, são, em minha opinião, dotados de uma incompetência, de uma mediocridade que até se torna difícil compará-los sequer ao Salazar que, apesar de criminoso e estuporado, não era medíocre.

Como vê a música e os músicos no Portugal de hoje? A música erudita tem uma maior aceitação do que há 20 ou 30 anos atrás?
Quem conhecer a minha carreira facilmente constata que nunca ninguém, como eu, defendeu tanto a música ligeira. Mas a música ligeira é ligeira. Tenho a maior admiração pelo Georges Simenon que criou a personagem do Comissário Maigret nos seus livros policiais mas ele não tem nada a ver com a figura do Fiódor Dostoiévski, ou do Eça de Queiróz. Não se assemelha nem este quis que assim fosse, embora haja grandes romances do Simenon fora do âmbito dos livros policiais. Há literatura ligeira, teatro ligeiro... Aliás assisti a teatro ligeiro espantoso no Parque Mayer com o Vasco Santana e com o António Silva, com a Bibi Ferreira do Brasil, Ribeirinho, Maria Matos, figuras fantásticas. Aquilo era fantástico mas era ligeiro! Só que neste momento transformou-se a música ligeira em música. Música ligeira é música ligeira! Infelizmente para quem comanda o nosso país, e não me interessa se é o "pimba" ou o "pumba" do rock, deu-lhes o dedo e eles tomaram o braço e tudo. Essa música ligeira tomou conta de tudo. Curiosamente isto não tem nada que ver com o público porque quando ouve MÚSICA, ou seja a arte maior, e a música ligeira não é a arte maior, é arte menor, reconhece-a e admira-a. Vocês até podem dizer que eu estou a contradizer tudo aquilo que dizia dantes... Não estou. Continuo a dizer as mesmas coisas só que, quando a música ligeira é boa, é porque não é ligeira (risos).

Considera então que a música erudita ainda não conquistou o seu lugar em Portugal?
Se tem o seu lugar, ou não, isso é irrelevante. Considero que os músicos ainda não têm o seu lugar. As "Rockalhadas", as "Pimbalhadas", tudo isso é muito divertido. Eu gosto do Quim Barreiros e divirto-me muito com ele. É óbvio que eu não iria meter sinfonias de Bruckner ou de Mahler num arraial. Mas a música do arraial tem esse caráter de diversão. É ligeira! Não me "lixem" (risos). O público sabe isso. O público percebe logo onde é que está a diferença. Só que quem está à frente da cultura chama cultura ao que é divertimento. Chama-se cultura ir-se para um dancing, aquilo que agora se designa como uma discoteca. Isso nunca foi cultura e nunca será. Isso é divertimento. Eu sou um grande defensor do divertimento. As pessoas têm o direito e o dever de se divertirem, aliás, horroriza-me uma pessoa que só leia livros profundíssimos e que só veja teatro profundíssimo... O problema é que neste momento assistimos a uma invasão do nosso terreno que implica uma invasão na nossa própria subsistência. Quando assistimos a um músico a lutar por 500 euros e vemos um cançonetista bêbado a ganhar 15000 euros, alguma coisa está errada aqui. Eu não tenho nada contra os bêbados nem contra os cançonetistas, era o que faltava. Mas isto é uma obscenidade. E acredite que há aí muitos pianistas, violinistas e outros músicos a lutar por 500 euros. Que fique claro que não tenho nada contra os cançonetistas. Estaria inclusivamente ao seu lado a cantar num palco... a cantar não, porque desafino (risos), mas estaria a divertir-me, aliás já estive várias vezes. Mas custa-me a ver um músico, um verdadeiro músico a lutar por 500 euros e um tipo a cantarolar umas coisas e a ganhar facilmente 14000 ou 15000 euros. Isto é uma obscenidade, isto é pornografia!

Paralelamente à sua carreira de concertista foi sempre abraçando outras atividades enquanto compositor, estando também ligado ao cinema, à televisão, à rádio, à escrita... Considera que todas estas vivências lhe conferiram uma maior versatilidade e polivalência artística?
Claro que sim. Eu até já escrevi 14 ou 15 fados. A música para cinema depende sempre daquilo que o filme pede e daquilo que o realizador pede. É óbvio que já fiz muita música ligeira.

António Victorino d'AlmeidaE quando fez música ligeira, como era olhado pelos seus pares mais ligados à música erudita?
Em minha casa nunca houve essa divisão. Em minha casa ouvia-se música, ponto. Ouvia-se música boa, diga-se. Eu teria os meus 15, 16 anos quando em minha casa ouvia Jacques Brel, Georges Brassens, Édith Piaf e nem vou citar o Jazz porque considero que o Jazz é uma dimensão de música maior. Pelo menos o antigo jazz, porque o modern jazz, de uma forma geral, sem generalizar, é uma aldrabice. Que fique claro que sempre ouvimos boa música independentemente do seu género.

A pergunta anterior surge no seguimento de algumas entrevistas que temos feito e onde, alguns músicos nos disseram que quando faziam incursões por outros géneros musicais que não música erudita, os seus colegas dos conservatórios, das orquestras, os olhavam com alguma desconfiança...
Sim... é a mesma coisa que você ir para a Rússia, ou melhor, para a União Soviética do Estalinismo forte e falar com uma duquesa, com uma aristocrata e dizer-lhe "você isto ou você aquilo..." Coitada da aristocrata que nem tinha dinheiro para comer! (risos) Por exemplo, em Portugal, uma cantora lírica luta com adversários impossíveis pois qualquer cantor pimba lhe passa por cima, porque ganha 15, 20, 30 ou 40 vezes mais do que ela. Essa é que é a realidade. Mais uma vez reforço que não tenho nada contra os artistas pimba. Não podemos é comparar o que é incomparável. Mas "eles comem tudo e não deixam nada". E estou a citar o José Afonso que sempre disse, quando lhe perguntavam o que fazia: "faço música ligeira". E por que razão ele fazia música ligeira? Porque, de facto, a música ligeira é a que melhor se adapta à função fundamental da denominada música de intervenção que tanta falta nos está a fazer atualmente. A música de intervenção que o Léo Ferré e outros faziam, era uma música crítica em que as palavras são quase mais importantes do que os sons. Na minha opinião, o maior compositor de música de intervenção do mundo, desde sempre, foi o José Afonso. Só depois vêm outros como o Léo Ferré. Neste género, a música tem que ser muito acessível para que as palavras possam ser mais importantes. Quando o José Afonso dizia que fazia música ligeira, tinha o cuidado de traduzir dizendo "eu faço a música certa".

Considera que as expressões artísticas integradas deveriam ser mais exploradas no seio da escola?
Repare... as crianças vão à escola mas quando chegam a casa têm uma televisão que as bombardeia com "rockalhadas" que chegam a ser imundas, às vezes, e sempre ligadas a desenhos animados. A estupidificação é uma das atividades mais desenvolvidas em Portugal. Devemos ser dos países onde se estupidifica mais. Mesmo que em casa tentemos orientar as crianças, quando estas chegam à escola dizem-lhes que não é assim, e a televisão então, torna-se uma arma sinistra que destrói tudo aquilo que conseguimos construir.

Tem uma vastíssima obra enquanto compositor. Compõe quando a inspiração surge ou, por outro lado, encara a composição como um dever laboral que tem que se cumprir independentemente da inspiração?
Eu costumo dizer que a inspiração é para os amadores (risos). O compositor profissional compõe das nove ao meio dia e das duas às cinco, seis ou sete. Se a inspiração vier, tudo bem, mas não é fundamental. O que costumo dizer é que há dias de especial burrice (risos).

Analisando algumas entrevistas do Maestro António Victorino d'Almeida ficámos com a ideia de que encarava a música como a arte dos sons e de que estes poderiam ser utilizados em diferentes géneros musicais fazendo-se música igualmente válida independentemente da área musical. Hoje ficámos aqui com a noção de que faz uma divisão mais clara e mais marcada entre o que é música e o que é música ligeira...
António Victorino d'AlmeidaMas é evidente que há uma divisão clara. É a mesma coisa que querermos convencer um médico que olha para uma radiografia de que o órgão está saudável e ele a ver que o órgão está doente... A música tem ritmo, melodia, harmonia, timbre e outras coisas. Se fizer uma radiografia a uma música dessas qua anda agora aí a passar vê que o ritmo é medíocre, ou seja, "pum, pum, pum, pum...", a melodia é medíocre também, a harmonia é tónica-dominante e agora já há alguma música que é só tónica-tónica... ou seja, é tudo medíocre para não dizer outra coisa. Não me venham agora querer convencer de que aquilo é bom. Agora se me disserem que um bom "sol e dó", num arraial, faz todo o sentido, eu assino por baixo. É claro que faz sentido. Mas eu sei que o dinheiro do Ministério da Cultura e, principalmente das Câmaras Municipais, vai a 95% para este tipo de música e depois dizem que não têm dinheiro para mais nada. Depois fazem vergonhas como foi este ano o Festival de Vilar de Mouros em que não apareceu ninguém e gastaram-se milhões. Milhões gastos para ninguém porque ainda não perceberam que Vilar de Mouros acabou porque nunca teve condições para ser nada desse género. Vilar de Mouros tem tantas condições para ser um centro de um grande festival de rock como tem para ser o centro de um grande festival de ópera. Vilar de Mouros só tem capacidade para 5 mil, ou no máximo 10 mil pessoas e se isso acontecesse repetia-se o que aconteceu no primeiro Vilar de Mouros em que o contexto era completamente diferente pois tinha um cunho político muito forte. O contexto era, na altura, mais político do que musical. Não se entende quando se diz que não há dinheiro e se gastam milhões num festival onde se estava mesmo a ver que não iria ninguém. Valeu ao festival a boa vontade e esmola de alguns artistas que não quiseram "cachet" ao verem tal desgraça. No primeiro dia eram mais polícias do que público. Vi eu, que estive lá. Eu, nada tenho contra as pessoas destes grupos pois não têm culpa do que se está a passar. A culpa vai toda para as câmaras municipais, Secretaria de Estado da Cultura, e para o poder político. Eu dou-me bem com os grupos, e até com cantores "pimba" ou "pumba", como lhes queiram chamar. Até jantamos juntos e subimos ao palco se for preciso. O problema não é deles e sim de quem tem a função de estupidificar o país e está a cumprir brilhantemente essa função. O poder político está a castrar o país retirando o dinheiro que dá oportunidade aos músicos de viverem a sua profissão com dignidade pois tal como disse há pouco é humilhante ver um músico a regatear 500 euros quando outros que não o são ganham 15000. Isto não é uma guerra entre colegas de palco. O problema está todo no poder político que se encarrega desta missão de estupidificar o país. Nós, músicos clássicos ou de outras áreas, entendemo-nos todos.

Passados todos estes anos em que construiu uma obra e uma carreira vastíssimas e influenciou gerações de músicos, há alguma meta que tenha colocado a si próprio que ainda não tenha sido atingida?
Tenho muitas metas por cumprir mas espero que não sejam sonhos pois enquanto uma pessoa está viva, não deve pensar que está a sonhar, deve pensar que está acordada e que tem que trabalhar para fazer o que está por concretizar. A única forma correta de estar na vida, seja qual for a idade que tenhamos, e veja-se o Manoel de Oliveira, é pensarmos que temos ainda muitas mais coisas para fazer do que aquelas que já fizemos.

Ficámos hoje aqui um pouco com a ideia de que estamos num beco sem saída. O que, em sua opinião, deveria acontecer para que a cultura musical pudesse estar mais acessível a todos os portugueses? Quais os atores que deveriam ser envolvidos nessa mudança de postura e de mentalidades?
Nunca, como hoje houve tantos músicos jovens de qualidade superior. Os que conseguem ir para fora e conseguem vingar lá, ótimo, pois a concorrência lá também é muito forte. É evidente que a lamentável imagem da revolução cultural na China não nos permite dizer que tenhamos que fazer uma revolução cultural. Mas, de facto, era necessária uma revolução. Os artistas têm que se unir. Temos inclusivamente que falar com os nossos colegas de palco. Reparou na expressão? "Colega de Palco". Portanto um fadista, um rockeiro, um cançonetista, são meus "colegas de palco" e não meus colegas de sons. Há então que sermos solidários e chamarmos os nossos colegas de palco para combatermos a perversidade da política que está a ser lavrada para dar cabo dos seus outros colegas de palco que são os músicos da grande arte da música. Eu tenho a certeza que os nossos colegas de palco virão para o nosso lado.

Muito obrigado por partilhar connosco o seu pensamento que, certamente se constituirá, nesta entrevista, como mais um contributo para que tudo não fique na mesma.
Muito obrigado. Repare que, quando há concertos, o público aparece. Nos últimos concertos que fiz, em Braga tinha 900 pessoas, no Parque das Nações, em Lisboa, tive mais ou menos 600, tive 200 porque não cabiam mais, pois foram algumas centenas para casa, numa freguesia como Benfica, estive em Óbidos com uma igreja completamente cheia... Está visto que o público vem. Logo, o problema está com Secretários de Estado que não o são e com câmaras municipais que nomeiam para diretores artísticos de salas de espetáculos, pessoas que nem para engraxadores de sapatos serviriam. Atenção que a profissão de engraxador de sapatos é muito digna, só se torna indigna se o engraxador não tiver competência para a exercer.

António Victorino d'Almeida

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