Lara Martins em entrevista ao XpressingMusic...

Lara MartinsLara Martins fala ao XpressingMusic do seu percurso académico e de uma vida de trabalho dedicada à música. Atualmente interpreta o papel de Carlotta Giudicelli no musical O Fantasma da Ópera no Her Majesty's Theatre em Londres, o que lhe deixa pouco tempo para se dedicar a outros projetos. Rússia, Suíça, França e, obviamente, Portugal são países por onde já espalhou a sua magia. Considera a evolução dos músicos portugueses nos últimos anos extraordinária. Para Lara Martins, o nível de ensino nas escolas superiores, conservatórios e escolas profissionais portuguesas melhorou imenso. No entanto, confessa alguma preocupação perante a incapacidade do estado português para perceber as especificidades do ensino artístico...

XpressingMusic (XM) – Lara, é para nós um enorme prazer fazer esta entrevista. Gostaríamos de dar início à mesma começando por falar um pouco da sua formação. Como foi o seu percurso académico até ingressar na "Guildhall School of Music and Drama" e no "Centre National d'Insertion Professionelle des Artistes Lyriques (Marseille)"?
Lara Martins (LM) – Eu é que agradeço o vosso interesse. A minha formação começou no conservatório de Coimbra, onde obtive a bases da minha formação musical. Enquanto estava no conservatório frequentava os cursos livres do Professor António Salgado, indo todos os Sábados ao Porto para ter aulas com ele. O professor Salgado deu-me as bases sólidas do meu canto, que me permitiram, depois, e com a ajuda de uma bolsa da fundação Gulbenkian, ingressar na Guildhall, onde estive durante quatro anos a estudar com a professora Laura Sarti. A Laura foi de facto o pilar essencial na minha passagem pela Guidhall, mas foram muitos os professores desta escola de excelência com quem tanto aprendi. No meu último ano na Guildhall recebi um prémio no concurso internacional em Espanha, para frequentar durante um ano o Centre National d'Insertion Professionelle des Artistes Lyriques em Marselha. Este é um centro financiado pelo estado Francês que proporciona um estágio pago durante um ano a cantores líricos de todo o mundo, recrutados em concursos internacionais ou em audições que se realizam anualmente em Paris. Fui a primeira portuguesa a entrar neste centro (por lá passaram depois a Eduarda Melo e o Job Tomé). Foi para mim uma enorme honra ter sido escolhida para fazer parte deste leque de cantores. Foi uma experiência magnífica, cheia de desafios e conquistas. Passei da escola diretamente para um ambiente altamente profissional em que todas as semanas tínhamos concertos, recitais, audições para agentes e diretores de casas de ópera. A maior parte das pessoas que aí chega já tem bagagem profissional. Eu não tinha muita e tive que me adaptar rapidamente a uma realidade completamente diferente daquela a que estava habituada.

XM – Atualmente interpreta o papel de Carlotta Giudicelli no musical O Fantasma da Ópera no Her Majesty's Theatre em Londres. Como surgiu esta oportunidade?
LM – Fui contactada pela equipa artística do Fantasma da Ópera para fazer uma audição para este papel. Achei que poderia ser um desafio interessante e concordei. O que se seguiu foram dois meses de audições altamente competitivas onde se vão eliminando candidatos, até chegar à audição final para o Sir Cameron Mackintosh, produtor do Fantasma da ópera e o maior e mais influente produtor no mundo do teatro musical.

XM – Pode falar-nos de outros papéis que tenha interpretado e que jamais esquecerá pela marca que deixaram em si enquanto intérprete?
Lara MartinsLM – É sempre difícil responder a essa questão. Todos os papéis são aliciantes e todos eles contribuem para o nosso amadurecimento. Há alguns que me marcaram mais, como o papel de Kristin em Miss Julie, uma ópera de Philipe Boesman baseada na peça de Strinberg, por ser um papel com uma carga dramática muito diferente dos papéis que geralmente são atribuídos à minha vocalidade. Adorei interpretar recentemente Cunegonde em Candide, no São Carlos. Como esta foi uma versão semi-encenada, tentar fazer chegar ao público toda a teatralidade intrínseca na música e texto desta obra foi um grande desafio. Gostei também muito de fazer o papel de Susana nas Bodas de Fígaro, numa produção que se fez no Teatro da Trindade e que deu aso a alguma controvérsia, entre os puristas do meio musical em Portugal já que a ópera era cantada em português. Este foi um projeto que me deu especial gosto fazer, já que tinha como objetivo cativar novos públicos e contrariar um pouco a visão elitista que temos da ópera em Portugal. Foi um verdadeiro sucesso com o público. Estivemos 4 meses em cena, primeiro em Lisboa e depois em digressão pelo país, com casas cheias o que um foi um resultado fantástico. Depois, há as substituições de última hora... Lembro-me de ter que cantar uma Rainha da Noite sem nunca ter cantado o papel. Estava grávida de sete semanas (muito enjoada), quando recebi um telefonema do São Carlos para substituir no dia seguinte uma colega indisposta. Só tive tempo de apanhar um táxi para o aeroporto e voar para Lisboa, indo diretamente para o teatro assim que cheguei, ensaiar com o maestro ao piano, aprender os diálogos e no dia seguinte estava a estrear o papel no palco do São Carlos sem ter ensaiado com a orquestra uma única vez!

XM – Ter uma carreira internacional é algo que se conquista como muito trabalho. Abdicou de muitas coisas para ter chegado até aqui? Se fosse hoje faria o mesmo?
LM – Há uma frase de Alexandre Herculano que me acompanha sempre desde os tempos do conservatório: "Se a arte fora fácil para todos os que a tentam possuí-la, não nos faltariam os artistas". Fui para Londres com 20 anos, deixei a minha família e amigos. Fui sozinha para um país que não conhecia, para uma escola altamente competitiva. Este foi o primeiro grande sacrifício que fiz. Depois seguiram-se vários. Tudo o que consegui foi à custa de muito trabalho e de sacrifícios pessoais, sacrifícios esses que fazem parte do caminho que escolhi para a minha vida e que, no meu caso, valeram a pena.

XM – Rússia, Suíça, França e, obviamente, Portugal são países por onde tem espalhado magia e onde tem vivido algumas experiências na sua carreira. Quais as mais marcantes?
LM – Comecei a trabalhar profissionalmente com 23 anos (ainda estava na Guildhall); isto aliado ao facto de sempre ter cultivado uma grande polivalência e flexibilidade na minha carreira, leva-me a ser quase impossível escolher. Obviamente que há projetos que gostei mais de fazer que outros, pessoas com quem gostei mais de trabalhar que outras. Mas direi que estou na posição privilegiada de me ser impossível enumerar quais as mais marcantes. Sinto sim uma enorme gratidão para com todos os colegas, professores, maestros, encenadores, técnicos de palco... que me ajudaram a viver essas experiências que me enchem a alma e a vida.

XM – Em televisão e rádio, tem tido a oportunidade de cantar em programas diversos. Falamos da sua participação em programas de estações como a RAI, a RTP e a RDP (Antena 2). Aprecia este tipo de experiências? O palco é sempre mais aliciante, ou ambas as situações têm os seus encantos?
LM – Confesso que gosto muito mais do trabalho de palco, do espetáculo ao vivo sem cortes, sem interferências de meios técnicos. Como a maioria dos artistas, nós vivemos desse contacto constante com o público. A reação, a energia do público e a forma como ele condiciona e influencia a performance, é impossível de recriar numa gravação.

XM – Sabemos que tem vindo a acumular alguns prémios. Todos têm a mesma importância para a Lara? Fale-nos um pouco destas conquistas e do que elas simbolizam na vida de uma performer.
LM – Vejo os prémios que recebi como um reconhecimento do meu esforço e trabalho. Foram motivadores e obviamente compensadores. Do ponto de vista artístico, estes prémios foram importantes já que me abriram algumas portas. O prémio do CNIPAL, que há pouco referi foi obviamente muito importante. O prémio no concurso do Estoril foi interessante porque me levou a trabalhar com várias orquestras e festivais portugueses e a estabelecer contactos que ainda hoje cultivo. A nível pessoal, foi uma enorme honra receber das mãos da Fiorenza Cossotto o prémio Donizetti no concurso Jaumme Aragall. O Anne Winburd Award teve também um significado muito especial para mim já que premeia o aluno que faz o melhor recital final na Guildhall. Receber este prémio numa escola de excelência como a Guildhall foi o fechar de um ciclo com chave de ouro. Os prémios que recebi ocupam todos, cada um de seu modo, um lugar especial na minha carreira.

Lara MartinsXM – Sendo uma pessoa que tem viajado por outros países e contactado com outras culturas, pode dar-nos a sua opinião relativamente à evolução da música em Portugal nos últimos anos? E a formação de músicos em Portugal? A evolução é positiva?
LM – A evolução dos músicos nos últimos anos é extraordinária. O nível de ensino nas escolas superiores, conservatórios e escolas profissionais melhorou imenso. Renovaram-se currículos, fortaleceram-se corpos docentes com instrumentistas e cantores de grande nível. No entanto, confesso que me preocupa a incapacidade do estado português para perceber as especificidades do ensino artístico. Dou como exemplo o facto de se continuar a tratar concursos de professores de instrumento, da mesma forma que trata de concursos de professores de matemática ou português. Estar a exigir diplomas e mais diplomas, estágios e mais estágios, implica que a maior parte dos músicos e instrumentistas que fazem carreira não possam ensinar numa instituição de ensino público. Quem faz carreira não tem tempo para andar a tirar mestrados, doutoramentos, estágios profissionais! Estamos a chegar a situações ridículas de músicos com grandes capacidades e provas mais do que dadas, terem que voltar a escolas superiores para terem um diploma que lhes permita lecionar. É constrangedor para eles e acredito que também será para quem os ensina. Isto é algo impensável em países com grandes tradições no ensino da música, onde o recrutamento de docentes para escolas superiores se faz exclusivamente com base no mérito artístico. Ninguém, estando interessado em saber se o cantor x ou o pianista y tem um mestrado ou doutoramento.

XM – Tem novos projetos para breve que possa partilhar com os nossos leitores?
LM – Para já vou continuar a fazer o papel de Carlotta Giudicelli no Fantasma da Ópera. Foi-me proposta uma renovação de contrato que resolvi aceitar. Para mim, estar a descobrir o mundo do teatro musical é fascinante, de certa forma uma lição de vida, já que, tendo uma formação clássica e tendo desenvolvido a minha carreira no mundo da música dita erudita tinha alguns preconceitos em relação a este repertório. Tem sido para mim um enorme desafio estar a descobrir e a contactar com novas formas de interpretar e trabalhar, tendo a minha bagagem e capacidade artística ficado muito mais ricas desde que comecei a contactar com este mundo. Depois, O Fantasma da Ópera, goste-se ou não, é um dos maiores e mais reconhecidos espetáculos a nível mundial, estando há 29 anos em cena com casa esgotada todos os dias. Para mim, poder cantar um papel principal neste ícone é um grande privilégio.
Tenho ainda alguns concertos agendados nas poucas semanas em que posso aceitar outros compromissos, já que o contrato que tenho com a companhia do Fantasma é um contrato de quase exclusividade.

XM – Há algum sonho ainda não realizado?
LM – Sonhos... eu sou uma pessoa muito pragmática (talvez tenham sido todos estes anos a viver em Inglaterra),tenho desejos, que penso estarem ao meu alcance e ao alcance das minhas capacidades. De uma forma geral e citando Agostinho da Silva "...Não faço planos para a vida, para não estragar os planos que a vida tem para
mim..."

XM – O que diria a um ou uma jovem que agora iniciassem o seu percurso com o sonho de ter uma carreira artística? Haveria alguns conselhos "chave" que sublinhasse?
LM – Antes de mais ser honesto consigo e com os outros. É importante ter sonhos e ambições, mas é ainda mais importante sabermos reconhecer e aceitar até onde o nosso talento e capacidade nos podem levar. Não podemos todos chegar aos mesmos sítios. Saber analisar os nossos pontos fortes e os nossos limites com honestidade são o primeiro passo para sermos artistas felizes e realizados.

XM – Mais uma vez agradecemos à Lara Martins este tempo que nos dedicou, partilhando a sua experiência e as suas vivências com os nossos leitores.
LM – Eu é que estou muito grata.

Lara Martins

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