Anne Victorino d'Almeida. A composição, a interpretação e a transmissão do saber…

Anne Victorino d'AlmeidaFilha mais nova do compositor António Victorino d'Almeida e de Sybil Harlé, Anne Victorino d'Almeida nasceu em 1978 em Poissy (França) e desde muito cedo que mostrou interesse pelo estudo da música. Aos 4 anos de idade já tinha aulas de piano em Viena da Áustria. Nesta entrevista fazemos uma viagem pelas várias abordagens que Anne faz da música e com a música. A composição, a performance e a pedagogia serão alguns dos aspetos revisitados não esquecendo as inevitáveis influências de seu pai.

Em primeiro lugar queremos agradecer a amabilidade e simpatia demonstrada para com o XpressingMusic aquando da nossa proposta para esta entrevista. Tendo iniciado a sua aprendizagem musical pelo piano, houve alguma razão especial para ter optado pelo violino aos 7 anos de idade?
Nós vivíamos em Viena de Áustria e, com a morte da minha avó em 1983, viemos passar poucas semanas a Portugal de modo a dar apoio ao meu avô. Essas semanas transformaram-se em meses, e acabámos por nos instalar em Lisboa. O piano tinha ficado em Viena, e como a mudança demorou vários anos até chegar, acabei por escolher o violino que também era um instrumento que me agradava. A minha relação com a professora, lnês Barata foi determinante. Era uma relação tão boa que não a quis mais perder, mesmo que viesse o piano.

Inês Barata e Leonor Prado foram essenciais no início da sua aprendizagem? Sente que absorveu destas duas personalidades características que ainda hoje são evidentes enquanto músico?
A lnês foi determinante, sem dúvida. Foi minha professora durante 11 anos, dos 7 aos 18. Acompanhou as fases mais engraçadas e também as mais delicadas da vida de uma jovem. Penso poder afirmar que a ela devo, em grande parte, ser hoje violinista e poder ser muito feliz na profissão que tenho. A Professora Leonor Prado surgiu nos últimos três meses do meu percurso na FMAC - Fundação Musical dos Amigos das Crianças - onde estudei. Por razões diversas, a lnês não me pôde mais acompanhar, e terminei o chamado 8º grau na classe da Professora Leonor. Foram meses muito intensos e muito gratificantes. Já tinha uma idade bastante avançada, e era fascinante poder ouvir as histórias de quem já tinha vivido tantas experiências musicais.

Anne Victorino d'AlmeidaQuais as principais razões que a levaram a optar pelo Conservatório Regional de Rueil-Malmaison em França? A possibilidade de trabalhar com Dominique Barbier foi uma das razões?
Da minha ida para Rueil, pouco tenho para contar. Parti para a aventura com 18 anos, quis sair de Portugal e conhecer a França, o país onde nasci. Fui parar a esse conservatório porque me apresentei nas provas e entrei. O Professor Dominique Barbier tinha vagas, e assim foi. Mas não fui muito feliz lá. Por qualquer motivo, não me identificava com o ambiente da escola e passei a dar muito mais valor a Portugal, apesar de todas as lacunas que cá existiam no ensino da música na altura, embora eu seja de uma geração que assistiu a um enorme progresso no ensino e nas escolas superiores de música em Portugal.

Acaba por regressar a Lisboa passado pouco tempo para fazer a sua licenciatura na Academia Nacional Superior de Orquestra na classe de Ágnes Sárosi... O regresso deveu-se a alguma razão especial?
A vida teve que dar uma reviravolta: engravidei e nasceu a Mariana que tem hoje 15 anos. Ficar em Paris sozinha com uma bébé, e manter os estudos, era impossível. Agradeço todos os dias ter engravidado e ter regressado. O conservatório onde estava não me teria dado qualquer habilitação superior e eu não tinha essa consciência na altura. Acabei por estudar 5 anos com a Ágnes Sarosi na ANSO, e aí sim, foram anos muito felizes. A ANSO tinha um nível muito alto. Aprendi muito com a Ágnes, a Orquestra Académica era fabulosa e fiz muita música de câmara com professores excecionais.

Gerardo Ribeiro, Galina Turtchaninova, Gilles Apap e Maxim Vengerov e António Anjos foram certamente outros nomes que a marcaram. Concorda? O que lhes deixou cada um deles?
Anne Victorino d'AlmeidaCom certeza que sim. O Gerardo Ribeiro é um extraordinário professor que ensina em Chicago e que vinha com regularidade à ANSO dar cursos. Sem dúvida, um mestre. Quanto à masterclass com o Vengerov, foi incrível. Fui selecionada primeiro pela sua professora, Galina Turtchaninova que me ouviu e considerou que eu estaria apta para poder participar numa masterclass com ele. Foi uma experiência vivida no Palácio Foz que guardo como um dos grandes momentos da minha vida. Ele era e é o grande violinista da atualidade, e eu sentia que aquela aula que estava a ter seria o sonho de qualquer estudante. Foi um privilégio enorme.
O Gilles Apap é hoje um grande amigo meu. Há 8 anos atrás, recebi um vídeo no meu email com um violinista muito diferente do habitual a tocar uma cadência de Mozart completamente louca mas, ao mesmo tempo, genial. Fiquei tão entusiasmada que quis, à força toda, conhecer esse violinista. Eu sou teimosa. Lembrei-me de tentar organizar uma masterclass no Conservatório Nacional onde eu já lecionava, e entrei em contacto com a agente dele. Parecia impossível concretizar esse projeto, mas afinal, foi tudo ganhando forma, e no dia 25 de Abril de 2007, o Gilles Apap aterrou em Lisboa. A masterclass foi um sucesso. Ele é um violinista incrível mas ficou, acima de tudo, uma amizade muito grande.
O António Anjos foi o último professor de violino que tive. Orientou-me após a minha licenciatura, naquela fase de indefinição profissional de quem é recém-licenciado. Foi uma figura preciosa na minha vida.

Outra das suas paixões profissionais prende-se com a composição. A composição assume um papel diário na sua vida ou somente compõe quando sente que é o momento certo para isso? Espera pela inspiração?
Eu escrevo quase todos os dias, por vezes dois compassos, outras vezes várias páginas de partitura. É uma necessidade que tenho de me encontrar comigo própria. Um momento de reflexão. Traz-me saúde mental. Se não escrevo música, escrevo texto, sobretudo guiões e peças de teatro. Existe qualquer coisa em mim que me obriga a deixar por escrito o que me vai na alma mesmo que acabe por tornar público somente uma parte mínima daquilo que escrevo. Ainda existe em mim uma certa insegurança por isso só divulgo aquilo que considero merecedor de ser partilhado.

Anne Victorino d'AlmeidaQual o significado que atribuiu ao Prémio de melhor proposta musical no concurso "Teatro na Década 97"? Foi um importante estímulo?
Esse prémio foi surreal. Eu tinha 18 anos. Foi a primeira banda sonora que escrevi e nunca tinha pensado ganhar prémio algum com aquele trabalho. Foi evidentemente um estímulo.

De todas as Bandas Sonoras que já compôs destaca alguma, ou algumas, que tenham sido mais marcantes na sua carreira enquanto compositora?
Destaco a banda sonora das "Cartas a uma Ditadura" da minha irmã lnês de Medeiros. Foi um trabalho que guardo com enorme carinho pois permitiu que trabalhássemos juntas e passássemos uns dias fabulosos em Bruxelas, onde a música foi gravada. O documentário é lindo e muito inspirador.

Orquestra Metropolitana de Lisboa, Orquestra Sinfonietta de Lisboa e Orquestra do Algarve são algumas das formações que já interpretaram obras da sua autoria. Qual é o sentimento da Anne no momento da estreia? Sente as obras como um prolongamento dos seus sentimentos mesmo quando a direção está a cargo de outra pessoa?
No dia da estreia, os nervos estão à flor da pele. Fico sempre muito alterada com o receio de que a obra possa não ser bem recebida. Penso que seja assim com todos os criadores. Passamos tanto tempo à volta de uma obra, a criá-la, escrevê-la, a desenvolvê-la, a corrigi-la, e isso exige tanto de nós, que a possibilidade de qualquer frustração é muito dolorosa. Felizmente, tenho sentido uma receção muito calorosa à minha música. Quanto à direção estar nas mãos de outra pessoa, alivia-me. A análise de quem descobre a obra quando ela já está no papel e a estuda, sem qualquer influência, é muito interessante. Acho graça quando descobrem pormenores na minha música que até a mim, autora, me tinham escapado.

O Quarteto Lopes-Graça foi outro projeto que lhe trouxe certamente muitas alegrias e muito trabalho... Quais os momentos que classifica como marcos na carreira deste quarteto?
O Quarteto Lopes-Graça fez parte de 9 anos da minha vida. Foi um enorme projeto no qual muito me envolvi e muito dei de mim. Porém, o destino quis que outras portas se abrissem e me levassem para outros caminhos. Destaco as tournées pelo país, pelas ilhas, e a fabulosa ida ao Brasil. Fomos, de facto, muito felizes. O Quarteto Lopes-Graça faz parte do meu passado, mas a música de câmara faz parte do meu presente e futuro. Não sei viver sem tocar em conjunto. Muito brevemente surgirá um projeto novo.

Anne Victorino d'AlmeidaTer alunos que têm vindo a ser recorrentemente premiados em diversos concursos, tais como o Concurso de Arcos de Viana do Castelo, Concurso Internacional do Fundão, Concurso Capela, Concurso Jovem.com, Concurso de Fátima Ourém, entre outros, constitui-se como uma confirmação do seu empenho enquanto docente... Concorda? Sente que o ensino da música vive um momento de prosperidade em Portugal?
Ensinar é algo que me corre nas veias. Ao longo desses anos de ensino, estou certa de que aprendi mais do que ensinei. Ensinar é fascinante sobretudo quando construímos uma classe constituída por alunos que são antes de mais fantásticos seres humanos, para além de extremamente talentosos ou com uma enorme vontade de aprender. Os meus alunos adoram tocar, adoram música. A maioria quer seguir violino, os restantes serão um público extraordinário. Para mim, é uma vitória. Felizmente, o que sinto é um reflexo do que se passa em diversas escolas do país. Atualmente, ensina-se muito bem nos conservatórios e escolas de música em Portugal. Os diversos concursos que existem pelo país revelam-no.

Moçambique e Brasil constituíram-se como experiências importantes para a Anne enquanto docente? São realidades completamente diferentes da nossa... O que levou da sua experiência europeia e, por outro lado, o que trouxe destas paragens na sua bagagem enquanto ser humano, músico, pedagoga e compositora?
Moçambique e Brasil foram, estou certa, as duas grandes experiências da minha vida. De Moçambique realço a ternura daquele povo cheio de vontade de aprender com quem lhes possa ensinar apesar dos escassos recursos que possuem. Encontrei lá pessoas tão talentosas. É um país que deixa muitas saudades pelas pessoas e pela cor que África tem e que não sei bem explicar. No Brasil foi uma experiência diferente apesar de igualmente fantástica. Não me esquecerei daquele aluno que aprendeu a tocar viola de arco sozinho com aulas oferecidas pelo YouTube e que sobrestimamos. Foi uma lição: o miúdo era incrível, tocava muitíssimo bem, e que mão direita! Mas ele não conseguia ter aulas pois o professor de violino mais próximo vivia a mais de 4000 km de distância da sua cidade. A sua paixão pela música era tão grande que recorreu às tecnologias, à internet e ao YouTube. São realidades que nunca iremos conhecer. Deixei de ser tolerante com o aluno que se queixa porque tem que atravessar a ponte para chegar à escola...

Anne Victorino d'AlmeidaPara além de todas as experiências de que fomos falando ao longo desta entrevista, também foi professora na Escola Metropolitana de Lisboa entre 2000 e 2012 e lecionou no projeto de ensino da música da Sic Esperança na Escola Gil Vicente em Lisboa. Sente que ainda estão muitos projetos por abraçar? Tem algum sonho que ainda não tenha concretizado?
Todos os projetos da minha vida me marcaram de um modo bastante positivo. Sou feliz naquilo que fiz e conquistei. Mas tenho grandes sonhos por concretizar ainda e que fogem da música: a escrita de argumentos cinematográficos. Uma paixão que esteve fechada em gavetas vários anos e que decidi levar mais a sério. Este ano ainda pretendo divulgar algum trabalho meu nesse sentido.

Desde 2004 que é professora na Escola de Música do Conservatório Nacional e, desde 2013, no Conservatório de Lisboa em Carnide. Com a azáfama inerente à carreira docente, cada vez mais exaltada pelos seus pares, como consegue conciliar todas as suas "paixões"? A Anne performer e compositora fica algumas vezes para trás?
Nada fica para trás. Tudo é feito no momento adequado. Herdei do meu pai a absoluta necessidade de abraçar diversos projetos diversificados. Não seria feliz de outra maneira. Não sei o que é estar encostada sem pensar a nada. A minha mente está sempre a planear qualquer coisa, uma ideia, um tema musical, um projeto... Peco na concentração, é verdade. Ou melhor, estou diversas vezes concentrada nas minhas ideias e não no mundo que me está a rodear naquele momento. Sou criticada por isso pelos meus alunos (risos).

Alguma vez sentiu que o facto de ser filha de António Victorino d'Almeida constituiu uma vantagem, ou por outro lado, tal realidade responsabiliza-a ainda mais no sentido de não frustrar expectativas? Como gere esta realidade com a qual já se deve ter confrontado inúmeras vezes?
Não sei responder a isso porque nunca vivi de outra maneira. Tenho um enorme orgulho de ser filha de quem sou, tal como se esperara que qualquer pessoa se orgulhe dos seus pais. Não me lembro de grande pressão por ser sua filha e, se alguma vez constituiu alguma vantagem, espero bem que não, pois foge completamente dos ideais que defendemos na família.

Mais uma vez, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Eu é que agradeço o vosso interesse pelo meu trabalho.

Fotos: Joana Nogueira

Anne Victorino d'Almeida

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