Helder Abreu e as reflexões sobre o ensino profissional de música em Portugal

Helder AbreuMestre em Direção de Orquestra de Sopros e Licenciado em Professores de Educação Musical do Ensino Básico, frequentando ainda o mestrado em Ensino de Música - Análise e Técnicas de Composição, Helder Abreu proporciona-nos, nesta entrevista, uma reflexão sobre o ensino profissional de música em Portugal apoiando-se na sua experiência enquanto coordenador e Professor do Curso Profissional de Instrumentista de Sopros e Percussão/ Cordas e Tecla da Escola Profissional Serra da Estrela. Helder Abreu nasceu em Gouveia e aos onze anos iniciou os seus estudos musicais na Escola de Música da Sociedade Musical Gouveense Pedro Amaral Botto Machado. Nesta instituição integrou a banda como instrumentista de Trompete, Organista e Pianista, prosseguindo mais tarde os seus estudos musicais no conservatório de música de Seia onde estudou com António Tilly, Jaime reis, Joaquim Raposo e Domingos Teixeira.

XpressingMusic (XM) – Helder, muito obrigado por ter aceitado o nosso desafio para esta entrevista. O mundo do ensino e da educação musical sempre o fascinou? Quais eram as suas principais motivações quando concorreu para a licenciatura em Professores de Educação Musical do Ensino Básico na Escola Superior de Educação de Coimbra?
Helder Abreu (HA) – Primeiramente gostaria de agradecer ao Professor Bruno Amaral e à equipa do XpressingMusic o honroso convite para figurar da vossa conceituada lista de entrevistados. Muito Obrigado.
A música como música sempre me fascinou. Independentemente da forma como se expressa, quer num contexto pedagógico, num contexto amador ou num contexto profissional. Fazer música de qualidade é sempre o fator primordial que pauta a minha atuação desde que me conheço como ator deste palco imenso.
As limitações inerentes ao local onde vivia, não permitiam que pudesse ter tido acesso ao ensino artístico especializado o que atrasou, de certa forma, a decisão de seguir uma carreira na área da música. Não se pode deixar de salientar o papel fundamental que a família tem neste processo, ou seja, o apoio incondicional da esposa, mãe, irmão, avós e amigos. Assim que essa decisão foi tomada, foi na Escola Superior de Educação de Coimbra que vi, numa primeira instância, o caminho para poder desenvolver competências do ponto de vista pedagógico. As motivações eram muitas, mas perceber que poderia estudar e tentar desenvolver um trabalho que pudesse ser útil, e ao mesmo tempo artisticamente válido para a região onde nasci, sempre foi a minha principal motivação. No fundo, poder proporcionar às crianças e jovens da região aquilo a que nós não tivemos acesso - um Ensino Artístico Especializado de Música - e, saliente-se que ver crescer para a música a primeira aluna (flautista) é algo de inesquecível, um orgulho tremendo. Talvez possa ser uma contradição, estando num curso especializado em Educação Musical, e falar do Ensino Artístico Especializado de Música, no entanto sempre tentei articular as diferentes práticas e sei perfeitamente que uma não é "inimiga" da outra.

Helder AbreuXM – Tendo em conta que abraça a carreira docente em tantas frentes, pode dizer-nos qual a sua opinião relativamente à expressão e educação musical em Portugal? Considera que estamos no bom caminho, ou ainda há muito por fazer?
HA – Neste momento ser professor em Portugal não é nada fácil. Começando na exagerada burocracia que deixa menos tempo para o professor exercer na sua plenitude o ato fundamental de educar, e acabando na panóplia de problemas que nos chegam às escolas, fruto da instabilidade que se vive na sociedade... No entanto considero que ser professor é isso mesmo, viver cada dia que passa, na constante mutabilidade da pessoa e da sociedade, na constante adaptação ao meio. Quem mais facilmente entender estas mudanças, mais facilmente consegue aplicar tudo o que aprendeu no desenvolvimento e sucesso de cada aluno.
Depois de ter trabalhado em todos os níveis de ensino desde o pré-escolar até ao secundário, considero que talvez esteja na altura de mudar o conceito de educação musical em Portugal. Não estando atualmente ligado à Ed. Musical oficial, digamos assim, não poderei dizer com experiência de campo se tudo está bem. A minha convicção é que a Educação Musical precisa de uma regeneração de filosofia, de abertura e de articulação, mas sobretudo precisa de profissionais qualificados que possam exercer essas funções e desenvolver um trabalho digno. Digno, não para a sociedade, não para a escola, digno para o desenvolvimento holístico da criança. Com as Atividades de Enriquecimento Curricular vimos intervenções muito interessantes, mas também assistimos ao mais puro degradar da música, mas principalmente do desenvolvimento musical das crianças.
Será que precisamos de Educação Musical e Ensino Artístico Especializado de Música e Ensino Profissional de Música? Podemos colocar esta questão para um futuro, mas temos que trabalhar com o presente. Não querendo utilizar um chavão, considero que muito há a fazer no domínio do Ensino de Música em Portugal. Um bom começo seria um trabalho para a articulação entre os diferentes agentes do ensino da música. Deixo a questão: Quem realmente faz a gestão, de forma global, do Ensino de Música em Portugal?

XM – A Direção de Orquestra de Sopros, é uma área na qual também tem formação superior. A Direção é outra das suas paixões profissionais?
HA – Posso dizer que dirigir é a minha grande paixão. Desde o primeiro momento que dirigi a Sociedade Musical Gouveense senti que era este o caminho que gostaria de seguir. Dirigir pressupõe estar munido de uma quantidade de ferramentas técnicas específicas da área da música, que têm de ser bem desenvolvidas, mas também de apetrechamento sócio-afetivo e humano. Um maestro têm de ser um líder. E não se aprende a ser líder de um dia para o outro. Poder fazer música através da direção de um grupo é algo que dificilmente se explica mas que facilmente se aprende a gostar, facilmente se torna num "vício". É sem dúvida a minha paixão com a benesse, a sorte e o prazer de poder dirigir quase diariamente diferentes tipos de grupos. A Sociedade Musical Gouveense permitiu-me ter Helder Abreuacesso a esta vivência, instituição com a qual já pude trabalhar ao mais alto nível, desde o honroso 2.º Lugar na 2.ª Categoria no Concurso Ateneu Vilafranquense ou o Concerto da minha Tese de Mestrado em Direção de Orquestra de Sopros. Não posso deixar de prestar o meu agradecimento publico à Instituição, mas sobretudo a todos que, direta ou indiretamente, diariamente comigo trabalham para o sucesso artístico e social deste grupo.

XM – Nomes como Alberto Roque, André Granjo, José Brito, Délio Gonçalves, Félix Hauswirth, Mitchel Fenell, Jo Cojnaerts e Jean Sébastien Bérreau fizeram parte do seu percurso académico na área da direção. Considera ter sido importante o convívio com estes mestres?
HA – Tive o prazer de poder trabalhar com grandes Maestros de nível internacional. Cada um deles, marcou muito positivamente o meu desenvolvimento como maestro, mas também como pessoa. Podemos dizer que temos em Portugal grandes maestros, mas também grandes pedagogos da direção. Ter trabalhado com uma quantidade considerável de diferentes maestros permitiu-me ter acesso a estilos, técnicas visões/ filosofias diferenciadas do domínio da direção. O maestro André Granjo é um dos propulsores do estudo da literatura de banda portuguesa. Sendo um conhecedor profundo das dinâmicas bandísticas portuguesas, despertou-me também esse gosto, tendo-se refletido no tema da minha tese de mestrado. Por outro lado, o maestro Alberto Roque foi uma grande referência e inspiração para definitivamente abarcar a carreira neste ramo da música. Para além dos conhecimentos técnico-artísticos que me proporcionou foi uma referência na capacidade de trabalho mas sobretudo do ponto de vista humano. E finalmente, a referência a um grande maestro de cariz internacional, o maestro Jean Sebastien Bérreau. Ter tido a oportunidade de trabalhar regularmente com o maestro foi uma experiência muito enriquecedora, que permitiu aumentar consideravelmente a paixão pela direção, para além de poder absorver a partilha das suas experiências com as grandes orquestras e grandes maestros de craveira mundial.

XM – Outra área à qual se dedica, é a da composição. A quem se destinam os seus trabalhos nesta área?
HA – Os trabalhos originais são mais direcionados para orquestra de sopros e também para formações de música de câmara e, neste momento também de Electroacústica. No entanto o grosso de trabalho de escrita passa essencialmente pelas orquestrações e arranjos para big band, como por exemplo de Luis Represas, Ala dos Namorados e recentemente de José Cid. A composição é uma componente fundamental do desenvolvimento de um maestro, pelo que tento, sempre que o tempo deixa, estar em contacto com a escrita musical.
Com o decorrer dos diversos eventos "Dias da Música Electroacústica", cuja direção musical está a cargo de Jaime Reis, um compositor de referência a nível internacional, pude embrenhar-me mais nesta área da composição e identificar-me cada vez mais com esta.

XM – Para além de ser Diretor Artístico e Maestro da Sociedade Musical Gouveense Pedro Amaral Botto Machado e cofundador, Diretor Artístico e Maestro da Orquestra Ligeira de Gouveia, é ainda Coordenador e Professor do Curso Profissional de Instrumentista de Sopros e Percussão/ Cordas e Tecla da Escola Profissional Serra da Estrela. Trabalhar em todas estas frentes confere-lhe uma visão muito abrangente da música.
Helder AbreuComo tem observado a evolução do investimento público na área da cultura e mais especificamente na área da música? Como é encarada a música pelos agentes económicos?
HA – Neste domínio aconselho a leitura e análise dos relatórios anuais do INE relativamente à Cultura que permitem ter uma visão abrangente das dinâmicas culturais em Portugal, e daí inferir o que se passa em cada região.
No Relatório Final do estudo elaborado, em 2010, por Augusto Mateus & Associados, para o Ministério da Cultura podemos ler que "A ligação entre a economia e a cultura foi durante muito tempo encarada como se os interesses económicos e a criação cultural e artística fossem, pura e simplesmente, contraditórios, onde a produção e/ou comercialização da arte e dos bens culturais era deixada à esfera do "mercado", e as artes e a cultura, em si, eram encaradas como pertencendo à esfera da "sociedade" e do "Estado", onde não podia vigorar, por assim dizer, a lógica económica "normal" da procura de um retorno remunerador dos investimentos".
Esta ideia patenteia o que realmente se passa no domínio das manifestações culturais em Portugal, e de forma mais acentuada no interior. Segundo o estudo "Estatísticas da Cultura 2011" efetuado pelo Instituto Nacional de Estatísticas registou-se uma subida substancial no investimento por parte das autarquias locais no que concerne às atividades artísticas e culturais. No entanto, na Região Centro registou-se, em 2011, cerca de 6500 empregos nesta área, percentagem relativamente baixa relativamente a outras NUT's.
Nota-se ao passar por muitas festas e romarias, que o investimento no sector cultural/musical decaiu substancialmente. No entanto deve salientar-se que o grupos locais são potenciados podendo, desta forma, ter mais acesso a oportunidades de concertos pagos.

XM – A sua experiência tem-lhe mostrado que a aposta no ensino profissional de música é um dos caminhos em que se deve continuar a investir? Quais as principais vantagens desta tipologia de ensino?
HA – A necessidade premente de formar profissionais nas diferentes áreas das artes para atuar no mercado, que tem, ainda, necessidades de pessoas devidamente qualificadas e artisticamente valoradas é uma razão evidente para que a aposta no ensino profissional deva continuar a existir.
Independentemente das áreas dos cursos profissionais podemos salientar, das 3200 horas de formação distribuídas por três anos, uma componente Sociocultural, com 100 horas, que se adapta à formação profissional e, que é flexível ao ponto de se poder particularizar na especificidade de cada curso. Uma componente cientifica, com 500 horas, que vai ao encontro das necessidades basilares da formação técnica. Uma componente técnica com 1100 horas que, no caso dos cursos de instrumentista, permitem: ter acesso ao aluno de um número elevado de horas de Instrumento e disciplinas de Prática Performativa de Grupo; Para alunos que não têm formação base tão sustentada, têm mais tempo de prática do instrumento.
O Ensino Profissional contempla ainda 600 horas de Formação em Contexto de Trabalho (prática simulada ou efetiva em contexto de trabalho) aliada ao desenvolvimento de uma Prova de Aptidão Profissional.
Respondendo assim à primeira parte da questão, penso que, com os devidos ajustes, este tipo de ensino deve ser potenciado, tendo servido de exemplo, como se viu na reestruturação da legislação através do Dec. Lei n.º139 de 2012 e respetivas portarias especificas para o EAE de Música (Portaria n.º 243-B/2012), para a restruturação da avaliação do EAE, com a implementação da Prova de Aptidão Artística.

Helder AbreuXM – Quais os problemas que identifica no ensino profissional da música em Portugal?
HA – Os principais problemas que encontro são por exemplo os programas das disciplinas Socioculturais, principalmente Português, não condicentes com os programas que contemplam os exames de acesso ao ensino superior (grande taxa de insucesso nos alunos dos profissionais no exame de português); Teoria e Análise Musical com poucas horas para o desenvolvimento teórico de cariz musical; Desdobramentos das disciplinas técnicas causa um aumento de custos; A disciplina de Instrumento tem três horas individuais por semana.
Salienta-se ainda o facto de os alunos do Ensino Profissional não terem, no seu currículo, as disciplinas correspondentes ou os currículos equiparados, para realizarem os três exames obrigatórios de acesso ao ensino superior, de acordo com o Dec. Lei n.º 139/2012. Acrescenta-se ainda a estes exames as provas de ingresso obrigatórias para o acesso aos cursos superiores de música.

XM – O Curso Profissional de Instrumentista de Sopros e Percussão/Cordas e Tecla da Escola Profissional Serra da Estrela é uma aposta ganha? Perspetiva-se um aumento no número de alunos para este tipo de cursos nos próximos anos?
HA – Não podemos, hoje em dia, dizer que algo está garantido. No entanto, o Curso Profissional de Instrumentista de Sopros e Percussão/Cordas e Tecla tem mostrado, paulatinamente que pode ser uma referência no ensino da música na região. Prova disso são os primeiros licenciados em música que estão a sair já este ano letivo, como por exemplo a Vanessa Romão em Ed. Musical, Margarida Cardoso em Ciências Musicais e Daniel Pinheiro em Percussão.
A EPSE tem neste momento um Conselho de Administração, na pessoa do seu presidente Dr. Victor Moura, que acredita no projeto, e com uma estrutura muito bem organizada. A escola possui um corpo docente jovem e bem formado, empenhado, dinâmico e motivado para alcançar os objetivos traçados para o sucesso dos Cursos de Instrumentista, que nada mais é que, o próprio sucesso de cada aluno.
Não podemos deixar de referir o papel fundamental que o Conservatório de Música de Seia tem no desenvolvimento do Ensino de Música na região, nomeadamente o seu diretor pedagógico Doutor António Tilly e também Joaquim Raposo, que depois se reflete nos alunos que ingressam no ensino profissional.
Quanto à perspectiva de alunos para o próximo ano é animadora, a procura destes cursos tem aumentado de ano para ano.

XM – Muito obrigado por nos ter dedicado um pouco do seu tempo. Para terminar, gostaríamos que nos dissesse se tem algum sonho que gostasse de concretizar em breve... E quanto a novos projetos... Teremos novidades para breve?
HA – Para já, o objetivo principal é acabar o mestrado em Ensino de Música - Análise e Técnicas de Composição. No entanto há uma panóplia de pequenos e grandes projetos que estão na gaveta, que passam sobretudo pela direção musical. Já no próximo dia 6 de julho estarei a dirigir a Orquestra de um projeto que envolve a EPSE, o Conservatório de Música de Seia e outras entidades de cariz musical da região, no qual estará, como convidado especial, o músico José Cid. Na semana a seguir o IX Curso de Verão Collegium Musicum, com mais de 120 jovens músicos.
O sonho mais próximo que tenho a nível profissional seria internacionalizar a minha carreira de maestro, aliada a um projeto de intervenção pedagógica na área da direção.
Mais uma vez reitero os meus agradecimentos ao XpressingMusic, dando os meus parabéns e incentivo para o desenvolvimento do projeto.

Helder Abreu

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