Rui Pinheiro, José Lourenço, Nuno Fernandes e o Projeto AvA Musical Editions passados em revista…

Rui Pinheiro, José Lourenço, Nuno Fernandes e o Projeto AvA Musical Editions

Quando três músicos se juntam e abraçam a divulgação e promoção da Música Portuguesa, só podemos esperar empenho e dedicação aliados à enorme vontade de defender aquilo que amam. Foi assim que nasceu a AvA Musical Editions. Nesta entrevista quisemos conhecer melhor este projeto de sucesso português. Rui Pinheiro - pianista, José Lourenço – flautista e Nuno Fernandes - tubista dedicam-se à criação e manutenção e incremento de um catálogo dedicado ao repertório que vai desde o século XVIII até à produção contemporânea. Este catálogo é diversificado relativamente aos géneros instrumentais e destina-se a formações desde o Instrumento Solista, Música de Câmara, Coral e Orquestral, incluindo Ópera, Música Concertante e Música Sinfónica.

O XpressingMusic agradece desde já a amabilidade demonstrada desde a primeira hora. Quando e como surgiu a ideia de criar a AvA? Sentiam que havia uma lacuna a colmatar nesta área?
Sim, sentimos que havia uma lacuna grave na edição e publicação do património musical português. Até à data tudo o que havia eram publicações esporádicas e que se resumiam a consumo privado, pois nunca houve uma distribuição eficiente nem uma edição regular. A ideia surgiu quando houve a proposta de uma editora internacional em publicar uma obra do maestro António Victorino D'Almeida, em que apresentou condições muito desfavoráveis e apenas com o objetivo de obter lucro rapidamente. Aquela situação despertou em nós a vontade de fazer alguma coisa pela música portuguesa e não ficar à espera de que os outros se lembrassem que a nossa música existe. E assim surgiu a ideia da AvA Musical Editions.

AvA Musical Editions, Loja

Consideram que um projeto deste género deve ser gerido por músicos tal como no vosso caso? Alguma vez sentiram dificuldades para tratar de assuntos mais relacionados com a gestão, com a parte financeira ou até com o marketing e a comunicação do projeto?
Se não fosse gerido por músicos já teria fechado portas há muito tempo, é um negócio que não dá lucro, estamos a funcionar na base da “carolice”. Existe em Portugal aquilo a que eu chamo a cultura da fotocópia... vendemos um exemplar e todos os outros tiram fotocópias. A nível internacional começa a haver uma maior procura, mas ainda é bastante desconhecida a nossa música. Neste sentido, temos alguma dificuldade em tentar penetrar no mercado lá fora. Acredito que com uma estratégia devidamente conjugada com a secretaria de estado da cultura se poderia atingir esse objetivo com maior eficácia.

Como foi recebido este projeto pelos vossos pares? Músicos, compositores, maestros, e os outros intervenientes deste mundo musical acreditaram desde o início na AvA?
O projeto foi acolhido com grande entusiasmo por parte de toda a comunidade musical. Tivemos sempre o incentivo de todos, mas quando pedimos algum apoio a uma entidade oficial, a resposta é sempre a mesma, não temos dinheiro, ou dizem-nos para concorrer aos concursos de apoio às artes promovidos pela Dgartes, e sabemos de antemão ser quase impossível ter algum apoio para o nosso projeto de edição, dados os cortes orçamentais que existiram nestes últimos anos.

AvA Musical Editions, LojaO facto de terem experiência na área pedagógica é uma mais-valia quando têm que decidir se apostam ou não num trabalho de autor dirigido ao ensino? Costumam dar sugestões aos autores no sentido de alterarem este ou aquele aspeto numa obra didática?
Sim, sabemos exatamente o que o público pretende, e debatemos sempre o trabalho final de modo a ter uma melhor aceitação e implementação no mercado.

Não raras vezes assistimos a discussões relativamente ao preço das obras artístico musicais ou até das obras didáticas. Se por um lado os autores e as editoras tentam garantir a sustentabilidade das edições lutando contra a cópia, por outro, os que copiam, mesmo que não assumam que o fazem, desculpam-se com os elevados preços das edições. Como olham para estes aspetos ligados à sustentabilidade, e rentabilidade no mundo das edições musicais? Há que mudar mentalidades? A AvA surgiu também com esta missão de educar os consumidores?
Como referi numa resposta anterior, a fotocópia é um flagelo, vende-se um exemplar e o resto tira cópias desse exemplar vendido, mas temos verificado que ao longo destes últimos anos as mentalidades têm mudado, já se vai vendendo mais exemplares, temos apostado numa política de apoio aos concursos de instrumentistas que têm vindo a existir no nosso país, em contrapartida apenas exigimos que os concorrentes se apresentem em concurso com as partituras originais. Mas enquanto as entidades estatais não olharem para este problema com vontade de o resolver, este problema não vai ter resolução. Deveria partir de todos os professores de música exigirem aos seus alunos os originais, mas quando os próprios professores oferecem as fotocópias aos alunos, estamos a educar para que isso perdure. Como dizia o Sketch do Gato Fedorento “É ilegal ... mas pode-se fazer... mas é ilegal”.
Com este problema é praticamente impossível manter este projeto, pois não é rentável este negócio. Para terem uma ideia, abrimos uma loja mesmo ao lado do conservatório nacional de Lisboa e nem sequer a renda da loja se consegue pagar.

AvA Musical Editions, LojaCom um projeto desta dimensão, sentiram necessidade de repensar as vossas carreiras artística e docente? Qual a percentagem de tempo dedicada à AvA?
Sim, o José Lourenço está a trabalhar a 100% para a editora deixando a atividade do ensino, eu Nuno Fernandes continuo como professor no Conservatório Nacional de Lisboa mas todo o restante tempo é para a editora deixando de fazer outros trabalhos de freelancer que fazia antes de ter aparecido este projeto da editora. O Maestro Rui Pinheiro depois de ter ajudado este projeto a nascer optou por ir estudar direção de orquestra para Londres e agora faz carreira como maestro e divulgando a nossa música sempre que possível quando é chamado a dirigir orquestras.

Como olham para o futuro da música em Portugal? Ainda há muito a fazer nesta área?
O futuro da música em Portugal pode ser brilhante. Apenas uma ínfima parte está já editada, mas desde que as entidades governamentais assim o queiram, temos música e compositores da melhor qualidade, capazes de competir com o que de melhor se faz lá fora, apenas não temos apoio das entidades com políticas de investimento na divulgação e produção como acontece nos países de primeiro mundo, neste aspeto está tudo por fazer.

A AvA equaciona entrar noutras áreas de mercado que não só a edição e comercialização?
Não. Para já apenas pretendemos fazer edição de música impressa, a edição de CDs não passa pelos nossos objetivos.

Mais uma vez muito obrigado por nos terem dedicado parte do vosso tempo.
Obrigado nós pelo convite e oportunidade de falar um pouco do nosso trabalho.

Rui Pinheiro, José Lourenço, Nuno Fernandes e o Projeto AvA Musical Editions

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