Rui Rodrigues, a percussão e o seu mais recente trabalho “Manual de Percussão Tradicional”

Rui RodriguesBaterista independente e autodidata, por volta dos seus quinze anos, sendo mais tarde aluno de Wagner Ribeiro de Carvalho e de Michael Lauren, Rui Rodrigues é membro cofundador dos Big Fat Mamma, dos Red House Blues Band e dos Pyroscaphe. O nosso entrevistado realizou diversos espetáculos em território nacional e também no estrangeiro, tendo marcado presença, não só em eventos musicais variados, mas também em espetáculos teatrais. Em Aveiro, Rui Rodrigues explicou-nos ainda em que medida o ritmo se pode constituir como elemento potenciador de coesão social.

Rui Rodrigues, apesar de o estarmos a entrevistar aqui em Aveiro no âmbito dos seus projetos musicais, sei que a sua formação académica versa outra área, a da comunicação social. Sempre conciliou estas duas paixões pela música e pelo jornalismo?
Esta é uma história engraçada, vale a pena contar. Eu estudei sempre audiovisual, relações públicas e publicidade. Nunca estudei nem exerci jornalismo. O que fiz foi uma pós-graduação em informação e jornalismo por gostar muito de jornalismo embora nunca quisesse trabalhar nesta área. Tenho amigos que trabalham em jornalismo e vejo que é uma realidade um pouco dura pois o meio é muito conflituoso. Por estes motivos e não outros é que eu quis investigar o jornalismo. Relativamente à música, tenho de salvaguardar que faço parte de uma geração que viveu num período em que as escolas profissionais de música estavam a dar os primeiros passos. Quando eu estava no 10º ou 11º ano é que abriu a Escola Profissional de Música de Espinho. Ainda não havia ESMAE, não havia nada. Lembro-me perfeitamente que quando o Hugo Danin, que está aqui hoje connosco, voltou. Encontrámo-nos num estúdio onde eu estava a gravar... Ainda não havia escolas oficiais em abundância como há hoje... Lecionei bateria durante 8 aos em Braga na academia de uma loja de música e recordo-me que havia uma grande dificuldade em encontrar livros de bateria. Eram praticamente inexistentes. Quando chegou a altura em que eu podia ir estudar para a Academia já era tarde pois tinha 20 anos. Sou um músico Rock. Não fiz portanto aquele percurso de conservatório, mas estudei. Estudei sempre. Estudei com o Michael Lauren que vai cá estar hoje. Foi um privilégio estudar com ele. Estudei também com o professor brasileiro Wagner Ribeiro e tenho um percurso musical que agora está um bocado esquecido. Trabalhei nomeadamente com Big Fat Mamma com quem ganhei a 5ª edição do festival "Termómetro Unplugged", e a III edição do Festival de Música Moderna de Gondomar em 1998.

Rui RodriguesSabemos ser diretor artístico e membro cofundador da Associação Bombos com Alma. Qual o objetivo desta Associação?
Há um objetivo claramente pedagógico. Quando digo pedagógico, não estou a falar no sentido de ensinar as crianças a tocar mas no de mostrar que em Portugal há centenas e centenas de pessoas que, ou tocam num grupo de percussão, ou tocam numa associação de bombos, Zés Pereiras, etc. Conheço bem a realidade de entre Douro e Minho e lá há imensos. Freamunde, Guimarães, Chaves, Mirandela, têm festas da cidade em que toda a gente traz instrumentos de percussão para a rua e, face a esta realidade, sendo eu baterista e um amante do ritmo pensei que estava na hora de criarmos uma associação pedagógica para todos estes grupos, ou seja, com esta organização, queremos apoiar a edição e criação de livros, de discos, aliás já gravámos um disco com 400 tocadores que apresentámos no Theatro Circo... A associação surge para que as pessoas percebam que o grupo não é só para dar uns toques ao fim de semana. O grupo é muito importante porque faz parte da cultura. A Associação chama-se "Bombos com Alma" para o estudo da Percussão Tradicional. Tudo o que tenha a ver com percussão tradicional, nem que sejam os Aborígenes da Austrália a tocar com paus, tem lugar nesta associação pois pretendemos organizar vários workshops. Vamos também apostar em ações de formação para trabalhar sobre aquilo que os vários grupos de percussão portugueses fazem. Temos que ver quais são os padrões e os aspetos mais genuínos para que os possamos polir e elevá-los ao máximo. Nós podemos ter um baterista português que seja um craque e que utilize basicamente padrões e grooves portugueses por conhecê-los, por valorizá-los e outras pessoas vão também gostar disso... Portanto esta associação tem como objetivo trabalhar para ajudar os outros grupos, todos. Partilho até aqui uma situação engraçada. Quando fomos às Festas Sebastianas em Freamunde, (há uma noite que é a noite do bombo em que toda a gente toca bombo na rua) eles colocaram um bombo gigante na rua e escreveram na sua pele "Bombos com Alma", ou seja chamaram a todo aquele evento "Bombos com Alma". Isto é bonito. Eles perceberam que, apesar de nós termos um grupo que se chama Bombos com Alma, afinal bombos com alma são todos aqueles que o tocam, que o preservam que o respeitam. Bombos com Alma são todos os bombos portugueses. Muitos bateristas colocam hoje nos seus sites de bateria o bombo porque este tem um timbre fantástico. Quem vê um bombo na rua não fica indiferente.

A dedicação à percussão tradicional tem sido um dos desafios que tem abraçado de forma bastante entusiástica. O Manual de Percussão Tradicional é um exemplo claro disso. Este é o primeiro de muitos manuais?
Sim. Já estou até a trabalhar no Grau II. Este manual é o "Manual de Percussão Tradicional I – Minho". Tive esse cuidado de separar as coisas e de fazer apenas aquilo em que sou competente. Estou a trabalhar no "Grau II – Minho" e estou a trabalhar noutro de outra região que para já ainda não vou divulgar mas posso adiantar que para outras regiões trabalharei com outras pessoas pois se há uma região que não conheço bem, devo entregar o trabalho a quem melhor domina a música e a tradição desse lugar. Isto dá-me o privilégio de trabalhar com músicos que são reconhecidamente competentes na música de cada região. Por exemplo os Bombos de Lavacolhos são muito diferentes dos do Minho, assim como os de Trás-os-Montes.

Rui RodriguesO que nos apresenta neste livro é resultado das suas vivências pedagógicas e das experiências que tem feito com os seus alunos e formandos em algumas instituições de ensino?
Sim. Este livro acaba por ser uma ferramenta que eu senti necessidade de criar porque quando dei conta, já estava a passar 6 horas por dia a dar aulas de percussão e bateria, quer individualmente, quer em grupo.

Para lá da sua vertente ligada ao ensino e à aprendizagem, tem trabalhado com vários artistas/músicos da nossa praça em experiências musicais e teatrais... Pode partilhar com os nossos leitores alguns desses nomes e dessas experiências?
Sim, posso. Deixe-me no entanto ressalvar que eu nunca fui aquele músico de academia, não tenho aquele certificado. Cá em Portugal sempre houve um certo preconceito com isto dos graus académicos. As pessoas sempre valorizaram mais o certificado do que a competência. É certo que agora já se está a fazer em Portugal algo que já se faz nos Estados Unidos há muito tempo. Falo do Professor Especialista... Ainda há dias lia um autor inglês, professor universitário, que dizia ficar chocado quando via no seu departamento avaliarem as pessoas pelo seu CV, dando primazia àqueles que tinham muitas publicações mas que por vezes não tinham grande experiência e competências práticas sobre os assuntos. Aqui em Portugal ainda é muito mais grave pois estamos a anos-luz da abertura de espírito de outros países. Aqui ainda se valoriza muito a licenciatura e os outros graus esquecendo que a competência não advém somente do rigor académico mas também da praxis construída e co construída pelo profissional. Eu, apesar de não vir do conservatório ou da academia, tenho tido a sorte de trabalhar com grandes nomes do mundo artístico. Não sendo muito correto, vou referir os amigos em primeiro lugar. Um dos músicos com quem eu toquei mais tempo é, para mim, um dos melhores guitarristas portugueses. Falo do Budda que tem o Budda Power blues, o Monstro Mau e que toca com o Mundo Cão. Ele é um guitarrista brutal, tem uma produção incrível de discos e de concertos e creio eu, voltando ao que estávamos a falar, que ainda não tem a projeção que merecia. Não querendo fazer juízos de valor, fico espantado com o facto de haver bandas que aparecem e estão no panorama nacional há dois anos com um ou dois discos e têm uma projeção muito superior à de artistas e músicos que andam há 20 anos a produzir coisas boas. Tive a sorte de trabalhar com muita gente de qualidade. Trabalhei também com o Carlão dos Da Weasel, com o Miguel Ferreira dos Clã, já fui produzido pelo Miguel Pedro dos Mão Morta que também é lá de Braga e para além destes, toquei com vários tocadores tradicionais que andam por aí perdidos e ninguém os conhece e são um tesouro escondido.

Rui, pode explicar-nos em que medida o ritmo se pode constituir como elemento potenciador de coesão social?
Rui RodrigueEste é um tema que me fascina e só não estou a fazer um Doutoramento nesta área porque ainda não tive tempo. No entanto tenho produzido alguns textos e feito algumas recolhas sobre isto mas ainda não houve oportunidade de aprofundar. Se alguém entretanto agarrar o tema, acho muito bem e não fico nada chateado porque considero que é fundamental fazer-se. Vou dar aqui alguns exemplos. Por exemplo, quando me encontro numa turma de miúdos de 3, 4 e 5 anos, logo em idade pré-escolar, e distribuo os instrumentos de percussão, verifico que em 90% dos casos eles começam a tocar e em uníssono. Isto, só por si, já mostra como nós temos dentro de nós esta competência quase inata de comunicar através do ritmo. Isto é milenar. Através dos séculos o homem sempre utilizou o ritmo para comunicar. Há ritmos que estão tão dentro de nós que quando alguém os começa a tocar, nós começamos também. Os grupos de bombos de que falávamos há pouco são também isso. Temos lá o pai, o filho, o avô e todos tocam em conjunto. Eu, por exemplo, prefiro muitas vezes tocar do que falar. O meu estado de espírito é muitas vezes mais bem retratado quando eu toco do que quando falo.

Sendo um defensor da manutenção dos ritmos da tradição que, em sua opinião, permitirão a criação de uma base sólida de influências rítmicas para músicos profissionais e grupos de tocadores, considera que estes deveriam ocupar um lugar de maior relevo na aprendizagem da percussão em escolas e academias?
Sem dúvida. Tenho feito muitas apresentações em conservatórios e tenho que lhes deixar aqui uma palavra pois não é fácil convidar alguém que não vem da academia clássica, pois ainda há muito receio daquilo que advém da "coisa popular". Sinto isso nos conservatórios onde ainda não fui e que já contactei. Há um receio que as coisas não corram bem... Não há grande respeito por aqueles a quem eu chamo "Tocadores". Faço esta distinção, não em tom depreciativo, pelo contrário, conheço tocadores que tocam com muito mais alma do que alguns a quem chamamos músicos. Os tocadores tocam sempre e o músico às vezes não quer ir porque não há cachet, ou por outras razões. A academia, como não conhece, tem receio de levar para o espaço académico esta realidade cultural. Penso que o motivo principal pelo qual isto acontece acaba mesmo por ser o desconhecimento.

Para terminarmos, gostaríamos que partilhasse connosco quais os próximos projetos em que irá estar envolvido?
Esta semana estarei em Bragança no evento Artes e Livros. Este é um município muito ativo que já convidou os Bombos com Alma mais do que uma vez. Tenho verificado aliás que Trás-os-Montes e outras regiões acabam por estar a mexer mais com iniciativas culturais do que propriamente os meios urbanos. Os grandes centros urbanos estão um pouco adormecidos. Vou continuar a correr o país todo a apresentar o livro e que é algo que faço por vezes com grande esforço pois, não raras vezes, vou somente pela venda dos livros. Estou também a gravar um disco a solo que vai ser uma coisa muito estrambólica (risos). É um disco que parte do ritmo. Estou a convidar pessoas para virem tocar e estou a inverter o processo composicional. Normalmente, quando se convida um baterista para gravar um tema, mostra-se a base harmónica e melódica e diz-se "marca assim!" ou "faz assado". Aqui, neste disco, o processo irá ser invertido. Neste disco irei colocar as pessoas que admiro e que aceitam o meu convite. A ideia não é ter um álbum de bateria com muitos solos. Queremos fazer um disco com músicas que tenham letra, gente a cantar mas em que a música tenha partido de um padrão. Quando se ouvir o disco, ninguém vai perceber. A proposta é mostrar aos convidados: "Olha, a letra é esta e o padrão rítmico é este. Faz um arranjo!". Para terminar deixo aqui uma ideia que me acompanha nos meus workshops, nos meus livros, na música que faço e na música que toco. Quando construímos uma casa começamos pelos alicerces, logo a música também tem que começar pelo ritmo pois não podemos ter melodia e harmonia sem ele. Tem que haver um ritmo. Pode até ser um ritmo aleatório, mas tem que haver ritmo. O que acabou de acontecer ali dentro, para muitas pessoas, foi um momento musical, mas foi só ritmo... harmonia zero, melodia zero... Então se o ritmo é assim tão importante, porque é que as fundações quase nunca partem do ritmo? Para muita gente que eu conheço, ritmo é a marcação do tempo, é o acompanhar... mas não é. Vale a pena pensarmos nisto!

Manual de Percussão TradicionalMANUAL DE PERCUSSÃO TRADICIONAL
Grau I - Minho

Este manual pretende contribuir para o apoio ao estudo da percussão tradicional portuguesa. A proliferação de grupos de percussão tradicional tem sido notória em Portugal nas últimas décadas.

Inspirados por séculos de atividade dos emblemáticos "Zés Pereiras" e, mais recentemente, pelo trabalho de músicos como Rui Júnior, José Salgueiro e muitos outros autores e promotores da cultura da música popular e tradicional portuguesa, estes novos grupos de tocadores têm procurado estéticas frescas que possam de alguma forma revitalizar a percussão tradicional em Portugal.

O manual foi redigido a pensar na cultura portuguesa e constitui um registo que partiu da prática regular (diária) levada a cabo nas diferentes intervenções (performativas, formativas, etc.) que o autor conduziu ao longo de quase duas décadas, tendo sido pensado para a criação de uma "ferramenta" que possibilite a sistematização dos conhecimentos culturais e que possa de alguma forma projetá-los, numa experiência de partilha e de valorização social.

Rui Rodrigues

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