Tiago Bettencourt à conversa com o XpressingMusic fala-nos da carreira e do mais recente trabalho: “Do Princípio”.

Tiago Bettencourt"Do Princípio" é o nome do mais recente álbum de Tiago Bettencourt que contou com convidados de peso como Mário Laginha, Jaques Morelenbaum e Fred Ferreira dos Orelha Negra e dos Buraka Som Sistema. Mas a nossa conversa com Tiago Bettencourt começa com o início da carreira deste contador de histórias que deixou a arquitetura para se dedicar de corpo e alma às canções. Aos 16 ganhou de seus pais uma guitarra com a qual começou a dar os primeiros acordes de músicas dos "Resistência", "Nirvana", "Smashing Pumpkins", "Pearl Jam", entre outros. Fã de concertos acústicos, o nosso convidado, cresceu a ouvir os MTV Unplugged...

XpressingMusic (XM) – Tiago, muito obrigado por aceitar conversar um pouco connosco para que possamos passar a sua mensagem aos nossos leitores. Iriamos começar esta entrevista com uma questão relacionada com o início da sua vida enquanto músico. O que fazia o Tiago Bettencourt antes dos Toranja? Quando descobriu que a música iria ser o cerne da sua vida?
Tiago Bettencourt (TB) – Antes dos Toranja estava a tirar o meu curso de arquitetura. O Pedro Puppe, vocalista dos "Oioai" e compositor dos "Miúda", era da minha turma e foi a primeira pessoa a convidar-me para uma banda. Antes disso eu tocava guitarra somente por puro prazer pessoal. Eu cheguei a ter aulas de piano mas era muito novo. Aos 16 anos os meus pais deram-me a minha primeira guitarra e eu tocava as músicas daquela altura dos "Resistência", "Nirvana", "Smashing Pumpkins", "Pearl Jam"... Eu gostava muito dos Unpluggeds da MTV e cresci a ouvi-los mas nunca pensei vir a ser artista ou sequer vocalista de uma banda. O máximo que poderia ser era guitarrista... Quando o Puppe me convidou, eu disse-lhe "Olha eu não escrevo mas posso ser guitarrista...". Depois, ao mesmo tempo que o Puppe, comecei a escrever e a compor. Passados uns tempos, o Puppe saiu da banda ficando o cerne daquilo que viriam a ser os Toranja. Logo no primeiro concerto que demos, tivemos muitos convites de editoras para gravar mas achámos por bem esperar. E assim foi. Esperámos um ano e tal e, estando eu no 5º ano de arquitetura, gravámos o primeiro álbum dos Toranja. Tiago BettencourtDepois, quando me preparava para ir estagiar, repentinamente o álbum começou a ter muito sucesso e eu tive que ir ter com o Gonçalo Byrne, que era o arquiteto com quem eu ia estagiar, e dizer-lhe que naquele momento não poderia ir mas que quando os concertos acalmassem, voltaria... E até hoje... (risos). Portanto, isto não foi propriamente uma coisa planeada, ou pelo menos, se estava no meu subconsciente, nunca liguei muito.

XM – Passados onze anos, pode dar-nos a sua opinião relativamente ao sucesso do tema "Carta"? O que terá feito desta canção um hino? As palavras e a melodia juntaram-se num encontro daqueles que acontece uma vez num bilião? (risos)
TB – Considero que foi tudo junto associado à novidade. A novidade é uma característica muito sedutora num artista. Isto é assim em todo o mundo, não é só cá em Portugal. Quando o artista aparece pela primeira vez, causa muito mais impacto do que quando aparece pela segunda. Isso acabou por ter um grande papel no aparecimento dessa música. Na altura não havia muitas pessoas a cantar em português e a compor em português. Os Ornatos Violeta tinham acabado há pouco tempo... E apareceu essa música que eu se calhar canto de uma maneira estranha. Para mim, cantar muitas palavras seguidas não é novidade... Temos o Sérgio Godinho a fazer isso, temos o Bob Dylan desde sempre a fazer isso. A explicação para este sucesso talvez aconteça por ser muito simples e fácil de tocar... Podíamos estar aqui imenso tempo a refletir nas razões que levaram essa canção a fazer parte da vida de tanta gente mas acho que não há uma resposta concreta porque há muitos a tentar fazer isso e não conseguem.

XM – Alguma vez teve receio de ficar demasiado "agarrado" a este tema ("Carta")? É um tema obrigatório nos seus concertos...
TB – Acho que quem conhece o meu trabalho já não fala sequer da "Carta". É claro que no início havia pessoas que, nos nossos concertos, depois de ouvirem a "Carta" iam-se embora. Por isso passou a ser a primeira música do concerto... A partir do momento que os Toranja acabaram e eu comecei esta carreira a solo, houve uma espécie de limpeza das pessoas que só gostavam de uma música... Agora, as pessoas que vêm aos concertos vêm para ouvir o trabalho inteiro. Lembro-me que há coisa de 3 anos demos um concerto em Lisboa e nem tocámos a "Carta" e ninguém disse nada. As pessoas vieram embora no fim do concerto e toda a gente saiu muito feliz.

XM – O que fez com que o Tiago resolvesse continuar a caminhada neste mundo de canções sozinho? Os Toranja tinham vencido Globos de Ouro, facilmente chegavam aos tops vendendo milhares de discos... nada fazia prever a paragem desta banda...
Tiago BettencourtTB – Penso que teve a ver com aquela coisa do "mais vale acabar quando estamos em alta" do que esperar que a coisa venha a cair. Os Toranja acabaram na altura certa. Parámos numa altura em que nem todos tínhamos a mesma ideia daquilo que os Toranja poderiam continuar a ser. Quando percebi que os Toranja não estavam a seguir um caminho com tanta qualidade como tinham tido até ali... Penso que todos percebemos que os Toranja tinham mesmo que acabar. Ficou o mito, até porque as pessoas também adoram coisas que acabam.

XM – Em 2007, com os Mantha, é a sua estreia discográfica a solo... Fale-nos um pouco desta aventura pelo "Jardim" e das razões que o levaram a escolher o canadiano Howard Bilerman, para produzir este álbum...
TB – O Howard Bilerman foi-me proposto pelo meu produtor na altura, o Paulo Ventura. Foi completamente um tiro no escuro pois não fazia ideia se ele ia aceitar ou não... Mandámos uma pré-produção do álbum e ele aceitou e nós ficámos muito contentes. O que pretendia naquela altura era alguém que não tivesse a mesma abordagem que eu tinha tido até então. Até aquela altura, eu ainda não tinha gostado de gravar um disco. Não era uma coisa divertida, não havia um processo de criativo engraçado, não existia experienciação... O Howard foi uma pessoa que me apresentou um novo mundo em termos de captação e de produção de um álbum. Aprendi coisas que vou guardar para o resto da vida. O álbum "Jardim" foi todo gravado em fita. Eu não vi um computador do princípio ao fim. Quando se grava em fita, a abordagem é completamente diferente. Não estamos à procura de takes perfeitos, o que procuramos são takes emocionais que consigam transmitir a emoção que queremos passar naquela altura. Pode ter defeitos, pode ter "pregos", mas vai tudo fazer parte daquele momento. Tudo isto porque na fita é muito mais difícil de editar. Hoje em dia há muitas armas onde se podem corrigir a voz, afinar uma voz e na fita não se consegue fazer isso. Esse trabalhar "sem rede" deu-me um prazer gigantesco e aí comecei a gostar de gravar discos. Foi aqui que se deu a tal triagem e ficaram os bons fãs que são pessoas que estão connosco até hoje.

XM – «Canção Simples» constitui-se como a confirmação de que Tiago Bettencourt trabalha as palavras como muito poucos... Como é o seu processo de composição? O que vem primeiro? As palavras, a harmonia, a melodia?...
TB – Não há um processo fixo... Às vezes surgem-me palavras, surgem-me frases que eu aponto e depois vou perceber que tipo de musicalidade é que elas têm. Outras vezes, estou a tocar guitarra e atrás de um ritmo aparecem umas palavras. Por vezes tenho letras inteiras que preciso de musicar... Portanto não há processo fixo, assim como não tenho uma altura fixa para o fazer. Trabalho bem sob pressão. Normalmente quando tenho um prazo até saem coisas engraçadas (risos). Confio muito no acaso.

XM – Em 2010, Tiago Bettencourt desvenda "Só Mais Uma Volta" e um novo álbum. "Em Fuga" volta a contar com Howard Bilerman. Confirma a máxima de que em equipa que ganha, não se mexe?
TB – Sim. Completamente. Eu, se pudesse, também tinha feito este meu último álbum com ele. Sou grande fã do Howard e do trabalho dele. Considero-o absolutamente genial, humilde e muito competente em tudo o que faz. Foi, outra vez, uma grande aventura trabalhar com ele.

XM – "Tiago na Toca" surgiu para que ficasse claro que era um artista inflexível relativamente às pressões do mercado e a outras? O que nos quis dizer mais com este trabalho onde sentiu a necessidade de falar com palavras de outros?
Tiago BettencourtTB – Eu gravei o "Tiago na Toca" entre o "Jardim" e o "Em Fuga". Foi um álbum gravado só com um microfone num aparelho de gravação no computador em duas vias. A captação foi muito artesanal, com um ou dois microfones. Eu tinha vindo do Canadá com aquela excitação de experimentar esta nova forma de gravar. A ideia de cantar com as palavras de outros surgiu num concerto do Camané. Ele cantou um fado do Alfredo Marceneiro chamado "Lenço". Eu gostei muito e enviei um e-mail ao Camané pedindo-lhe que me mandasse a letra por favor... Eu musiquei a letra mas foi algo pontual. No entanto, aquilo deu-me tanto prazer, que surgiu logo a ideia de ir fazer uma pesquisa pelos poetas, muitos deles ligados ao fado, e tentar musicar... Quando dei conta, tinha já gravado um conjunto engraçado de canções e um grupo de convidados muito divertidos. Foi um projeto independente, fora da Universal. Eu queria que o lucro revertesse a favor de alguma coisa e a burocracia para uma coisa desse género é complicadíssima... Ficámos anos a tentar perceber, como poderíamos lançar o "Tiago na Toca". Por isso é que ainda lançámos o "Em Fuga" pelo meio, só depois conseguindo editar o "Tiago na Toca", álbum pelo qual tenho um carinho muito especial. O lucro reverte a favor de uma associação que se chama "Ajuda-me a Ajudar". Fiz somente três concertos em Lisboa, Porto e Aveiro porque nesta fase houve uma mudança de agente... Nestes concertos, eu tocava sozinho com umas projeções atrás. Espero ainda voltar a fazer este concerto porque me deu muito prazer produzi-lo...

XM – É um admirador confesso de concertos acústicos? Foi essa admiração que o levou a optar por nos despir as suas músicas e apresentá-las na sua mais pura essência ao público em 2012?
TB – Nessa altura a editora propôs-me fazer um Best of, então eu sugeri que se fizesse um concerto acústico pois já tínhamos feito alguns pontualmente. Achámos engraçado fazer um concerto com orquestra e acústico ao estilo dos unpluggeds com que eu cresci. É claro que esta ideia também teve muito de marketing. O alinhamento do concerto e do álbum é muito virado para o público. Lá estavam as músicas que o público mais gostou e mais acarinhou durante estes anos todos, que podem, por vezes não ser as minhas preferidas, mas são as do público. Foi um álbum com o intuito de juntar as pessoas todas outra vez.

XM – "Do Princípio" é o novo disco de Tiago Bettencourt. Pode falar-nos deste trabalho que agora apresenta ao grande público? O que pretende transmitir ao público com este trabalho? Quem o acompanhou na aventura de gravar este trabalho?
TB – Quem me acompanhou, foram os Mantha. Acompanham-me desde o "Jardim". Eu faço canções e este é um álbum de canções que eu espero que as pessoas gostem e levem para as suas vidas. Temos três convidados de peso que são o Mário Laginha, o Jaques Morelenbaum e o Fred Ferreira dos Orelha Negra e dos Buraka Som Sistema. Foi um processo muito engraçado. Desta vez fui eu que produzi, foi um processo muito lisboeta, foi tudo aqui por casa, ao pé dos nossos amigos e acho que isso também teve muita influência pois não estávamos isolados. Foi um processo que me deu muito prazer e gosto muito do resultado final. Tem coisas novas que passam pelo mundo da música eletrónica, mundo onde eu ainda não tinha entrado. Consegui aliar várias armas da música eletrónica e trazê-las para o meu álbum também. Foi um álbum que me deu muito prazer fazer.

Tiago Bettencourt

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