Alexandre Borges e João Vasco apresentaram-nos o projeto Poema Bar

Alexandre Borges e João VascoFomos ao Porto e, tendo como pano de fundo o Urban Cicle Café, passámos uma hora na companhia de Alexandre Borges e João Vasco que nos falaram com paixão, entusiasmo e reconhecida admiração e orgulho de um projeto que valoriza a língua portuguesa de forma ímpar. Ficámos a perceber melhor como as sonoridades do piano de João Vasco inspiram e suportam as brilhantes leituras de Alexandre Borges. Poema Bar traz-nos Fernando Pessoa e Vinicius de Moraes numa perspetiva sincera que talvez se constitua como a mais genuína forma de lembrar estes gigantes da poesia mundial. A entrevista começou sem que déssemos conta pois a conversa fluiu de uma forma tão inata que o rigor da planificação rapidamente sucumbiu perante a amabilidade e simpatia dos nossos convidados.

XpressingMusic (XM) – Como foi o início deste projeto? Já se conheciam? De quem partiu esta ideia?
Alexandre Borges (AB) – Um dia recebi um e-mail do João Vasco no qual ele me explicava os seus projetos ao piano, como o Além Fado onde ele tinha novos arranjos para o fado ao piano onde se mesclavam várias influências que iam desde a música clássica, à música popular portuguesa, à música popular brasileira... Esta mescla era já orientada num pensamento futuro relacionado com o ano do Brasil em Portugal... Nós falámos em abril e o ano do Brasil em Portugal seria no ano seguinte. Chegámos à conclusão de que tínhamos amigos em comum em Lisboa, cidade que eu conheço muito bem, e também aqui no Porto, cidade onde eu cheguei a morar no início da minha carreira.
Alexandre Borges e João VascoEu tenho uma ligação muito forte a Portugal pois já fiz cá teatro, cinema e gosto de vir cá de férias. Sou um entusiasta de Portugal. No Brasil, quando me falam em viagens, eu sugiro logo: Porto, Lisboa! Portanto, nós não nos conhecíamos e quem nos apresentou via e-mail foi a pianista Carla Seixas. Por coincidência eu estava para vir para Portugal passado dois meses com uma peça... Então disse ao João que iria estar em junho em Lisboa e que nos poderíamos encontrar e fazer uma experiência. ...Você toca e eu recito uns poemas... Passado duas semanas o João liga-me e disse-me que tinha falado com uma amiga que era diretora da Casa Fernando Pessoa e ela interessou-se pelo projeto, pela ideia, e ela gostava que essa primeira leitura fosse lá. Foi então que constatámos que não ia ser uma coisa "caseira" só para amigos. Seria necessário pensar em algo com algum alinhamento embora pudéssemos convidar quem quiséssemos pois a entrada seria livre... Surgiu então a questão: E que poetas vamos apresentar? Eu disse que, português teria que ser Fernando Pessoa. Eu tenho um livro de Álvaro de Campos que guardo até hoje. Foi uma prenda de um amigo portanto, Fernando Pessoa seria algo que eu queria fazer. Depois, Vinicius de Moraes, até pela ligação que tenho com a família, com a filha, com a neta, seria o poeta brasileiro eleito. Assim, iriamos trabalhar dois poetas "boémios" que viviam a boémia e como há o "piano bar" nós pensámos em fazer o "Poema Bar". Soou bem e como o João Vasco também é designer, enviou-me logo umas maquetes de como seria o material gráfico... Tudo que tem a ver com vídeo também é ele que faz... O João Vasco fez então um cartaz para a nossa primeira apresentação e convidámos a Mariana de Moraes que é neta do Vinicius para cantar e assim nasceu o projeto Poema Bar sem muitas pretensões, imperando a vontade de estarmos juntos e desenvolvermos uma ideia. Aliás ainda hoje estamos a desenvolver pois este não é um projeto fechado. O espetáculo tem uma base mas varia um pouco de lugar para lugar. Fizemos então um guião para que houvesse alguma coisa mais sólida. A partir daí as portas foram-se abrindo. Eu tinha um amigo na Alemanha e nós lá fomos fazer um espetáculo num teatro com duas sessões de casa cheia com portugueses, brasileiros e alemães...
Alexandre Borges e João VascoJoão Vasco (JV) – Achei interessante o facto e alguns desses alemães estudarem português...
AB – Agora estamos a completar três anos de caminhada...

XM – "Poema Bar" já levou poesia e música a todos os tipos de público: da Favela do Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, à Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos de Lisboa; da Biblioteca Joanina, em Coimbra, ao Teatro Alberto Maranhão, em Natal; da Embaixada Brasileira, em Berlim, ao Café Vilarino, no Rio de Janeiro; do Auditório do SESI/FIESP, na Avenida Paulista, ao Teatro Mário Viegas, em Lisboa; do auditório da Petrobras, em Cubatão, ao Teatro Bühne der Kulturen, em Colónia, "Poema Bar" já foi visto e ouvido por mais de 12000 pessoas.
Neste projeto impera uma grande vontade de democratizar o acesso à cultura? Neste caso específico à música e à poesia?
JV – Sim. Um dos aspetos interessantes deste projeto é levar a cultura e a poesia a sítios onde habitualmente não é ouvida. O próprio piano surge como novidade, por incrível que pareça...
AB – No Brasil onde ainda existe uma grande faixa da população que não tem acesso a concertos como vocês aqui em Portugal, encontrámos pessoas que nunca tinham ouvido um piano.
JV – Houve um concerto no Brasil, numa cidade pequena, onde ouvimos pessoas dizerem que nunca tinham tido um piano à sua frente.

XM – Como tem sido a reação do público? Varia muito de acordo com os contextos em que se apresentam?
JV – A verdade é que, algumas pessoas não sabiam sequer ao que vinham. O Alexandre Borges é, antes de mais, o que leva as pessoas ao espetáculo... Fernando Pessoa e Vinicius de Moraes são também muito "populares"...
AB – O Fernando Pessoa, no Brasil, é muito popular. O Vinicius também é muito popular, não só pela bossa nova mas porque também escreveu muitas coisas para crianças... As pessoas identificam-se muito com estes dois poetas.

XM – Encontram muitos pontos comuns nestes dois gigantes da poesia?
JV – O lado boémio como se disse há pouco... O humor muito inteligente. Há, de facto, muitos pontos em comum...
AB – Eu acho que os dois escreveram muito daquilo que viveram. A rua que viveram, o bar que frequentaram, os amigos que tinham, as mulheres que amaram, no caso do Vinicius, muitas! (risos). Eles colocaram em sacrifício a vida pela poesia. Há uma frase do Vinicius que se encaixa também em Pessoa... Foram poetas que viveram como poetas. Viveram na noite, na rua, na madrugada, nos bares e na solidão que tudo isto traz... viveram também o preço físico que se paga por isso

Alexandre Borges e João VascoXM – Ao prepararem este projeto tiveram em conta as várias edições já apresentadas ao grande público de poemas de Fernando Pessoa que foram interpretados por artistas como Camané, Mariza ou Ana Moura? Perguntamos também se o percurso foi idêntico relativamente a Vinícios de Moraes...
JV – A verdade é que as coisas foram acontecendo e nascendo de forma um pouco espontânea. As coisas foram acontecendo em palco sem que houvesse um grande estudo de como seria este espetáculo.
AB – O João toca a música que gosta de tocar. É precisamente porque fazemos o que gostamos de fazer que este espetáculo acaba por resultar tão bem... Unimos as nossas vontades numa coisa comum.

XM – O Espetáculo tem-se mantido fiel ao inicialmente traçado, ou decorrente das apresentações que têm vindo a fazer têm feito pequenos upgrades?
JV – Não. O espetáculo nunca é igual porque é inesgotável a poesia que temos à nossa frente.
AB – Por exemplo, aqui no Porto vou ter que ler "Tripas à moda do Porto"... Ainda há pouco estávamos aqui a olhar para as bicicletas e nos lembrávamos que havia um poema das bicicletas... Nós estamos a registar todas estas passagens, todos estes momentos que estamos a viver para condensar num documentário em DVD. Há registos de todas as nossas chegadas aos países, aos teatros... e do próprio espetáculo. A ideia é a pessoa ficar sentada num sofá a ouvir poesia e a música que serve de base à recitação ao mesmo tempo que vê as imagens que inspiraram aqueles momentos performativos...

XM – O trabalho que hoje apresentam foi concebido em conjunto, ou houve uma composição musical prévia e a posteriori adaptou-se a inclusão do texto?
JV – É precisamente o contrário. Eu preciso de ouvir primeiro o poema...
AB – É importante dizer que também existem coisas separadas. Há momentos em que o João faz o solo dele e eu passo a ser um espectador até porque o Poema Bar é um pouco isso... O espectador que está a beber o seu whisky enquanto ouve uma música... Eu também tenho os meus solos assim como a Sofia Vitória que é uma cantora que por vezes nos acompanha. Aqui no Porto também teremos cantoras convidadas... Em alguns espetáculos convidamos também o público a participar lendo alguma poesia... Já convidámos também outros músicos como o Adriano Jordão, pianista, que já tocou... Também já tivemos contrabaixo, flauta... Em Ourém tivemos um jovem de 14 ou 15 anos a recitar, já tivemos a Eunice Muñoz, o José Raposo quando esteve no Brasil... O espetáculo é mesmo assim, aberto para que possa haver uma maior interação do público.
Eu também leio, não decoro. Não tenho essa preocupação. Alexandre Borges e João VascoQuero também descobrir no momento o que me inspiram aquelas palavras. O meu objetivo não é mostrar uma performance. Quero emocionar-me naquela hora.

XM – Decorrente de toda esta experiência que têm vindo a acumular, têm surgido ideias para outros projetos similares?
AB – Sim. Nós queremos fazer agora um Poema Bar erótico. Pegar em poesias antigas eróticas...

XM – Esta semana, dia 22 de maio, irão estar na mítica Livraria Lello, mesmo no centro da baixa do Porto. Estes e outros casos são reveladores de que o vosso projeto se adapta a qualquer ambiente podendo ser apresentado tanto num grande auditório como num ambiente mais intimista... Concordam?
JV – Claro. Esse é um dos aspetos mais interessantes do Poema Bar. Uma vez... algures numa cidade do interior de S. Paulo chegámos a um pavilhão e tínhamos mais de 2000 pessoas para nos verem... Confesso que tive medo e pensei... será que isto aqui vai resultar? Foi impressionante o silêncio de todas aquelas pessoas. Adoraram também o piano, aliás, compraram-me praticamente todos os discos que tinha levado.
AB – Uma vez estivemos no mítico bar Vilarino onde se tinham encontrado pela primeira vez Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Disseram ao Tom que o Vinicius precisava de um músico e este prontificou-se logo a conhecer pedindo que fossem apresentados... Foi desse encontro que saiu a famosa frase do Tom "mas vai ter algum dinheirinho para o aluguel?" Nós tocámos aí no Vilarino mas o piano quase que não entrava... Apresentamos o espetáculo para 30/40 pessoas... É interessante esta flexibilidade e adaptabilidade que este projeto tem.

XM – ...Depois seguem para Lisboa e Paris... Em Paris, a vossa apresentação destina-se a público lusófono?
JV – Sim. Essencialmente. O nosso público fala a nossa língua ou, eventualmente, está a estudar a nossa língua.

XM – Sabemos que o Alexandre Borges tem uma grande ligação a Portugal fruto de já ter estado a viver ano e meio no Porto... Deixaram-lhe marcas, esses anos a viver neste país, nesta cidade?
AB – Muitas! Eu estava a começar a carreira, só tinha praticamente feito teatro amador e comecei a minha carreira profissional aos 24 anos. Vim para cá aos 23 e fiquei a viver no Porto, a trabalhar com atores aqui da Seiva Trupe, a montar uma peça do Chico Buarque – a Gota de Água –, vim como assistente de direção do realizador e operador de som e fiquei um ano e tal a morar em Montes Burgos, acompanhei o grupo em viagens e vivi essa coisa maravilhosa que é a sensação de ser um estrangeiro. Alexandre Borges e João VascoA sensação que tinha era que estava a começar uma outra vida. Deram-me a oportunidade de me reinventar... e assim foi: fiz muitos amigos (que tenho até hoje); descobri o Fernando Pessoa, que foi uma coisa muito importante para mim, como homem e criei não só isso mas também, como brasileiro, a sensação de pertencer a algum lugar, de ter uma ancestralidade muito grande. O Brasil é um país muito novo e, aqui no Porto, uma porta que tem mais de 700 anos (na Sé), tem mais anos que o Brasil! Isto deu-me um sentimento de pertença (não diretamente, apesar da minha avó ser portuguesa). Assim como quando os portugueses vão para o Brasil, têm uma sensação de jovialidade, de uma coisa nova, que aconteceu há quinhentos anos atrás. Isto deu-me um grande estofo!

XM – Se tivessem que definir Fernando Pessoa e Vinícius de Moraes em poucas palavras como os definiriam?
AB – Eu acho que foram dois solitários: mergulhavam para si e buscavam a poesia na carne e no sangue. O Vinicius soube usar essa solidão, mas "compartilhada": ele gostava de receber as pessoas em casa, teve várias mulheres (vários casamentos), uma procura de alguma coisa que penso que ele próprio não sabia o que era, para preencher a solidão. O Fernando Pessoa acho que usou essa solidão de uma maneira mais "solitária". Ele tinha um círculo mais fechado, mais íntimo e ao mesmo tempo foi muitas pessoas, viajou muito sem sair do quarto dele... o Vinicius não, precisava de estar com as pessoas até de madrugada, teve muitos parceiros... e acho que a música lhe trouxe isso mesmo – as parcerias, ter que tocar com um e com outro...
A poesia é uma coisa mais solitária. Mas eram dois solitários também um pouco deprimidos, apesar da sua genialidade toda...
JV – Isso é o que eu acho mais interessante, a possibilidade que nos é dada de, ao lê-los, ser-mos abraçados tanto com dor como com um sorriso. É impressionante como eles escolhem a expressão exata, a frase exata...eu sinto-me abraçado por eles...

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Alexandre Borges e João Vasco

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