Tânia Oleiro e a paixão incondicional pelo fado...

Tânia OleiroTânia Oleiro nasceu em Lisboa e desde muito cedo viveu o fado bem por dentro. Filha de fadista profissional cantou durante 5 anos no Marquês da Sé e participou em espetáculos marcantes com músicos como Rabih Abou-Kahlil, Ricardo Parreira e Fernando Alvim. Tânia Oleiro colaborou em diversas coletâneas e em 2009, foi uma das convidadas de Rão Kyao, para participar no seu disco Em'cantado, ao lado de fadistas como Ana Sofia Varela, Camané, Carminho, Manuela Cavaco e Ricardo Ribeiro. Foi sobre estas viagens pelo mundo do fado que falámos no LX Factory em Lisboa...

XpressingMusic (XM) – Tânia, muito obrigado por ter aceitado o nosso convite para esta entrevista. Para começar gostaríamos de lhe perguntar qual a idade que tinha quando começou a cantar os primeiros fados?
Tânia Oleiro (TO) – Desde sempre me lembro de cantar o fado. Lá por casa o Fado era algo muito natural pois a minha mãe foi fadista profissional durante muitos anos. Eu costumo brincar com esta situação dizendo que, ou odiava o Fado ou então não veria outra coisa na minha vida. Assim, depois de muitas noites "embalada" pelo fado fiquei absolutamente apaixonada por "ele".

XM – Quando, aos 10 anos de idade, venceu a Grande Noite do Fado de Setúbal, pensou que a sua vida profissional poderia passar por uma carreira musical?
TO – Foi um acaso como tantos outros e, mais uma vez, incentivada pela família e pelos amigos. Não estava nada à espera de participar aos 10 anos de idade na Grande Noite do Fado de Setúbal... Acabei então por ir pois as pessoas diziam-me – "Anda lá... vai experimentar..." Fui, a experiência foi ótima, mas não passou disso mesmo pois eu sempre quis seguir os meus estudos e os meus pais também queriam que assim fosse. Portanto esse foi o único concurso em que me lembro de ter participado durante a minha infância. Nunca cantei profissionalmente nesta fase...
Nunca pensei em viver do fado. Não era daquelas meninas que dizia que queria ser cantora... Nada disso.

XM – Que outros prémios recorda ter arrecadado ao longo da sua carreira até aos dias de hoje?
Tânia OleiroTO – Mais tarde, e mais uma vez influenciada pelos meus colegas, pois na faculdade eu já participava na Tuna Académica, fui várias vezes inscrita em concursos de fado, agora mais sérios. Havia muito entusiasmo por parte dos meus colegas pois ia vencendo um concurso aqui e outro ali... (risos) No entanto chegou a um ponto que eu mesma disse "Basta!".
Recordo-me dos Encontros de Fado de Almada que venci tendo presentes no júri nomes como Maria da Fé, Lenita Gentil, a Alexandra, a Alice Pires... Este prémio teve muita influência na minha decisão de enveredar por uma carreira profissional. Após esta participação participei num programa de televisão da TVI. No final do programa, a Alexandra e o marido vieram ter comigo e convidaram-me para cantar numa casa de fados que eles estavam a abrir em Alfama. Eles queriam gente jovem e com talento para integrar o elenco desta nova casa de fados. A partir daqui a minha vida mudou completamente. Eu estava, na altura, a terminar o meu curso e queria começar a dar aulas...

XM – Foi então em 2002 que concluiu a sua formação académica... Nos dias que correm exerce a atividade para a qual se formou a nível superior?
TO – Sim. Sempre conciliei a minha carreira docente com a carreira artística. Sou professora de Matemática e Ciências Naturais. Nunca encarei o Fado como hobbie. O Fado é grande demais para que o encare como hobbie. Não vou estar aqui com rodeios... Por vezes torna-se muito difícil conciliar estas duas profissões. Tenho o apoio da minha família para me facilitar a minha participação nestes encontros... É claro que por vezes há alturas em que a profissão docente assume um maior protagonismo outras vezes é o contrário e assim vou tentando conciliar as duas.

XM – O que significou para a Tânia trabalhar durante quatro anos numa das mais prestigiadas casas de fado de Lisboa (Marquês da Sé)? Ainda rentabiliza as experiências daí advindas nas interpretações que hoje nos oferece?
TO – Foi muito importante para mim essa experiência. Nós, quando somos novos, pensamos que já sabemos tudo... Quando entrei para o Marquês da Sé apercebi-me das lacunas que ainda tinha a cantar e no próprio "dizer dos poemas". Foi ao longo daqueles 5 anos a trabalhar com aqueles músicos que aprendi muito daquilo que hoje apresento em palco.

XM – Sabemos que nem só em Portugal tem mostrado o seu trabalho. Quais os países que já visitou? Qual a reação dos estrangeiros às suas interpretações?
Tânia OleiroTO – Ainda que eu me identifique mais com o lado tradicional do fado, também gosto do fado canção, ou sejam os fados mais musicados... Eu penso que o público estrangeiro está habituado a melodias mais rebuscadas... Eu tento oferecer-lhes um bocadinho de tudo, embora seja difícil para eles porque não percebem a palavra e a palavra é algo muito importante no fado... Mas eles percebem a emoção e acabam por se sentir tocados precisamente por essa emoção que o artista emana.

XM – Como classifica a experiência vivida em 2007 com os Santos e Pecadores? Foi importante para a Tânia enquanto artista passar por estas vivências, por vezes tão longínquas da linguagem à qual está habituada no Fado?
TO – Mais uma situação inesperada como outras tantas... (risos) Foi um convite de última hora. São experiências que se tornam importantes também... Não quis inovar nada no fado. O que se fez foi um cruzamento de musicalidade(s)... Não excluo a possibilidade de participar em mais projetos destes mas também não é nada que esteja nos meus objetivos. Sou fadista e estou de tal forma focada nisso que não me vejo a desviar dessa linha.

XM – Em 2009, foi uma das convidadas de Rão Kyao, para participar no seu disco Em'cantado, ao lado dos fadistas, Ana Sofia Varela, Camané, Carminho, Manuela Cavaco e Ricardo Ribeiro. Foi importante para a Tânia esta experiência? Sentiu que este convite representava um efetivo reconhecimento do seu valor enquanto artista?
TO – Foi muito importante por várias razões. Em primeiro lugar, pela admiração que tenho pelo Rão Kyao enquanto músico e compositor e mesmo enquanto pessoa. Depois... por ter sido convidada sendo eu uma ilustre desconhecida no meio de todos aqueles grandes nomes. Isso foi muito gratificante. Penso que só agora se pode falar que vai havendo já algum reconhecimento... (risos)

XM – Em 2010 foi incluída na coletânea "Divas do Fado", destinada a sublinhar a importância da mulher no fado e na internacionalização deste género musical. Considera que a mulher é efetivamente importante para a internacionalização do género musical "Fado"?
TO – É tão importante a mulher como o homem. É claro que o papel da mulher no fado sempre assumiu um relevo diferente tanto no estrangeiro como cá em Portugal devido à imagem da inesquecível Amália Rodrigues. É óbvio que a origem do fado também está muito mais ligada à mulher do que ao homem até por causa da imagem do xaile e do vestido preto comprido. Ainda assim considero que os homens estão em pé de igualdade nesse aspeto (risos).

XM – O que nos traz, de novo, para breve?
TO – Vem aí o meu novo disco, até porque todas as gravações que tenho feito têm consistido em participações noutros discos com um ou dois temas em compilações de fado ou como aconteceu no álbum do Rão Kyao como falámos há pouco... Agora perspetiva-se um trabalho meu que já tem vindo a ser preparado. Não é fácil pois não temos muitos apoios e infelizmente o nosso país é muito pequeno não havendo um mercado para tanta gente a cantar bem (risos). Neste momento já assistimos a uma maior aposta no fado por parte das editoras mas mesmo assim é insuficiente... A minha dificuldade reside aqui. Assim, aquilo que eu fizer terá que apoiar-se numa edição de autor, com os apoios que tiver que ter, mas é claro, é nestas alturas que as dificuldades vêm sempre à tona d'água...
É claro que temos sempre o apoio dos músicos mas acaba por ser um trabalho muito solitário.
Tânia OleiroA este respeito posso ainda dizer que deixar um registo gravado é uma das minhas prioridades. Às vezes costumo brincar e dizer "Nem que fosse só para oferecer à família, gostava de ter um disco". Gostava de deixar algo que marcasse a minha passagem pelo fado profissional porque eu não sei o dia de amanhã e sei que será difícil conciliar as duas profissões que abraço. Num futuro com uma família mais alargada ainda pior será, mas o fado fará sempre parte da minha vida. O Fado nunca será excluído da minha vida.

XM – Falou nos músicos... Quem são os músicos que a acompanham neste projeto?
TO – Por norma, os músicos que me acompanham são o Pedro de Castro na guitarra portuguesa, o Jaime Santos na viola de fado, algumas vezes o professor Joel Pina na viola baixo, outras vezes o Francisco Gaspar... São músicos que, para além de os admirar imenso, são meus amigos, portanto não consigo prescindir disso em palco, ou seja, de me sentir um pouco em família. Falo do palco e das casas de fado, é claro.

XM – Muito obrigado. Para terminar, gostaríamos de lhe perguntar se considera que o Fado está no bom caminho. Considera que a classificação da UNESCO veio valorizar o vosso trabalho enquanto fadistas?
TO – Parece existir uma maior aposta no fado mas penso que as coisas permanecem quase iguais. Pelo menos eu, enquanto fadista, não sinto qualquer apoio, francamente. O fado tem vindo a ter outra leitura ultimamente. Lembro-me de ser miúda e, quando cantava um fado, ouvir alguns comentários em tom depreciativo. "Lá estás tu a cantar o fado... canta lá outros géneros musicais...", "Se cantas bem fado também cantas bem outras coisas!"... Ainda hoje tenho amigos que me dizem que não gostam de ouvir fado... "Gosto de te ouvir a ti porque és minha amiga..." (risos) De qualquer forma considero que os jovens de hoje estão um pouco mais despertos para o fado, o que não quer dizer que o apreciem a 100%... Mas sim, é bom sentir que o facto de o fado ter sido considerado pela UNESCO património Imaterial da Humanidade, tenha despertado mais interesse, sobretudo por parte dos mais jovens. Portanto, volto a dizer que esse interesse não se reflete em apoios e se é que há apoio, esse é sempre para os mesmos, para um pequeno círculo. Mas sinto que o fado está no bom caminho. Temo é que, agora que estamos no pico, se comece a entrar num período mais decadente, sobretudo porque, a meu ver, muitas vezes não há um certo cuidado com o Fado e começa-se a banalizar. As pessoas só querem inovar... eu não tenho nada contra mas acho que é em demasia. Fazer-se diferente para quê se o legado que temos é tão bom. Acho que há um certo aproveitamento desta conjuntura favorável ao fado. Há tantos músicos de outras áreas musicais que nesta altura se dedicam ao fado fazendo versões... não digo que se estejam a aproveitar pois cada um precisa de ganhar a sua vida mas... tiveram o fado sempre tão de parte e olharam sempre o fado tão de lado... que me custa assistir a esta "utilização". Quando digo isto até me sinto um bocado "uma velha do fado" (risos) mas é o que sinto.
Por outro lado, fico muito feliz de ver muita gente nova a cantar. Eu canto na "Mesa de Frades" à quinta-feira e na Casa da Severa na Mouraria à sexta e como são casas com um caráter mais ou menos informal, todas as semanas vejo raparigas mais novas a começarem a cantar. Muitas vezes sou surpreendida porque aparece muita gente a cantar bem, outras vezes nem tanto... portanto às vezes entristece-me que se comece a banalizar... parece que houve um surto...
(...) Vejo que uma das falhas graves do nosso país atualmente reside na cultura. Falo não só do fado e da área musical mas também de outras áreas como o teatro, o cinema... Sobretudo o teatro ...
Também agradeço a iniciativa do XpressingMusic. Tenho estado atenta e leio regularmente algumas das vossas entrevistas. Muito obrigada!

Tânia Oleiro

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