Filipe Queirós, a tuba e os seus desafios mais recentes…

Filipe QueirósFilipe Queirós iniciou os seus estudos musicais na Academia de Música de Viana do Castelo, cidade de onde é natural. Licenciado pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto, na classe do professor Eduardo Nogueroles, frequenta atualmente o doutoramento em Performance, na Universidade de Aveiro. O nosso entrevistado é docente na Universidade de Aveiro e na Universidade do Minho e em dezembro de 2013 ganhou o lugar para tuba solista da Orquestra Sinfónica Brasileira no Rio de Janeiro. Este último facto e todas as mudanças inerentes a este serão aqui passados em revista nas linhas que se seguem.

XpressingMusic (XM) – Em primeiro lugar queremos agradecer ao Filipe o facto de nos ter acolhido desde a primeira hora para esta entrevista. Pode começar por nos dizer como foi o seu percurso enquanto estudante de música e, especificamente, estudante de tuba? Quando foi que tudo começou? Qual a caminhada que encetou até ter chegado à ESMAE?

Filipe Queirós (F.Q.) – Iniciei os meus estudos na tuba aos 14 anos com o prof. José Vicente Siméo na Escola Profissional de música de Viana do Castelo. Um ano mais tarde, com a chegada de um professor de tuba à escola, Eduardo Nogueroles, passei a integrar a classe desse professor. Foi com ele que concluí a licenciatura na ESMAE.

XM – Já passaram pelo seu percurso formativo nomes como Eduardo Nogueroles, Roger Bobo, Rex Martin, Gene Pokorny, Daniel Perantonni, Warren Deck, Gerard Bouquet e Mel Culbertson. Todos eles assumiram importâncias idênticas na(s) sua(s) aprendizagem(ns)? O que trouxeram para a sua vida, enquanto músico, cada um destes Mestres?

F.Q. – Eduardo Nogueroles foi quem me transmitiu de forma mais estruturada os conhecimentos técnicos básicos sobre a tuba. Mel Culbertson deu um enorme contributo para o meu amadurecimento como músico, na transição de estudante para tubista profissional e para a minha internacionalização. Foi através dele que tive acesso ao elevado nível de performance na tuba em França, nomeadamente no Conservatório Superior de Música de Lyon, escola de referência a nível mundial. Filipe QueirósDestaco também Gerard Bouquet, com quem me aconselhei inúmeras vezes na execução de música contemporânea, visto ele ter sido tubista do Ensemble Intercomtemporain durante largos anos, e que me ajudou enquanto músico do Remix Ensemble – Casa da Música. Com Roger Bobo pude apreender todos os ensinamentos na vertente solista da tuba. Considero o Prof. Rex Martin um excelente pedagogo e possuidor de uma grande clareza no ensinamento da técnica que melhor se adequa à preparação do reportório. Com Gene Pokorny e Warren Deck frequentei masterclasses onde aprofundei conhecimentos ao nível da execução orquestral. Daniel Perantonni, sendo também este um virtuoso, constituiu-se como mais um contributo para eu descobrir o virtuosismo na tuba.

XM – Chegou a colaborar com Mel Culbertson nos testes para a criação de novos modelos de Tuba. Fale-nos um pouco desta experiência...

F.Q. – Foi interessante conhecer as instalações da fábrica Melton e B&S e ver todo o processo de construção dos instrumentos de metais e também de outros instrumentos menos comuns, mas que são muito utilizados nas fanfarras, na Alemanha. No primeiro dia de testes, estivemos a tocar nos novos modelos do Mel e, juntamente com os técnicos, fomos registando os aspetos a melhorar. No segundo dia de experimentação, já com alterações realizadas nos instrumentos, voltámos a tocar para ver os resultados e o Mel certificou-se que a tuba estava assim pronta para sair para produção.

XM – O Filipe Queirós já tocou com a Orquestra Nacional de Bordéus – Aquitânia, com a Ópera Nacional de Bordéus, Orquestra Nacional do Porto, Orquestra Gulbenkian, Orquestra do Algarve e Orquestra do Norte... Em que momento da sua vida sentiu que já era alvo de reconhecimento aqui o no estrangeiro?

F.Q. – Sem dúvida, quando o Mel me confiou o seu lugar na orquestra para o substituir foi o momento de maior reconhecimento.

XM – Entre 2001 a 2012 foi tubista convidado do Remix Ensemble da Casa da Música, onde também tocou eufónio, trombone contrabaixo e trompete baixo. Isto é bem demonstrador da versatilidade de que dispõe enquanto performer... Considera-se um músico multifacetado?

F.Q. – Sim, no início comecei por adquirir e aprender a tocar alguns destes instrumentos para poder executar reportório que integrava a programação do Remix Ensemble. Acabou por ser uma mais-valia, já que os utilizei em várias orquestras, experienciando novo reportório e usufruindo de sensações diferentes das que quando toco tuba. Filipe QueirósAlém de me ter tornado um músico multifacetado, contribuiu para a minha evolução técnica enquanto tubista.

XM – O Filipe já conquistou vários prémios e distinções... Quais foram os prémios que mais o marcaram?

F.Q. – Ter ganho o lugar de tuba solista na Orquestra Sinfônica Brasileira no Rio de Janeiro, cidade que muito aprecio.

XM – Entre 2005 e 2007 andou em tournées pela China e pela Europa. Sentiu que foram anos importantes para o seu crescimento enquanto músico?

F.Q. – Foram experiências únicas, realizar concertos por várias cidades na China e contactar com culturas e povos tão diferentes. Realizar tournées pela Europa e tocar em salas como a da Orquestra Filarmónica de Berlim ou na Cité de la Musique são momentos únicos para qualquer músico. O prestígio do local assim como o seu público exigente requer do músico uma execução ao melhor nível.

XM – Enquanto solista internacional tem realizado concertos em países como Portugal, Espanha, França, Suíça, Inglaterra e Finlândia. De país para país, sente que existem diferenças na forma como a música e os músicos são encarados pela(s) sociedade(s)?

F.Q. – Considero que o reconhecimento do estatuto do músico como instrumentista de orquestra é semelhante nos vários países da Europa e da América. De uma forma geral esta classe é reconhecida pela sociedade pelo seu valor de especialista. No entanto, a crise tem criado algumas distorções na forma de encarar a cultura e na forma como as instituições lidam com os cachets dos músicos, nomeadamente em Portugal. A precariedade do trabalho e a contratação a recibos verdes tem permitido todo o tipo de especulação e de clientelismo, penalizando muitas vezes a qualidade musical e os músicos. Quanto à forma como a música é apreciada pela sociedade, naturalmente que tudo depende do país em questão e da forma como esse país encara as artes e desenvolve as políticas culturais e educativas. Penso que Portugal melhorou a partir dos anos noventa, mas naturalmente que na atualidade está a ressentir-se dos constrangimentos financeiros e tem ainda muito que caminhar para atingir níveis europeus de desenvolvimento cultural.

XM – Já foi dirigido pelo grande maestro Jan Cober... como classifica estas experiências?

F.Q. – Muito enriquecedora. Não só por ter sido dirigido por um grande maestro, profundo conhecedor do reportório musical para sopros, mas também porque tive oportunidade de viajar pelo Luxemburgo e Alemanha - onde me apresentei a solo - e de contactar com todos os jovens músicos de múltiplas nacionalidades e culturas. Filipe QueirósAcho que cresci como músico, mas também com pessoa, com essa troca de experiências.

XM – Com a Orquestra Sinfonieta de Lisboa terá vivido certamente grandes momentos... Pode falar-nos de alguns dos momentos mais altos que viveu enquanto solista desta orquestra?

F.Q. – Eu já conhecia o maestro Vasco Pearce de Azevedo desde a minha adolescência dos concursos para a Orquestra de Jovens da União Europeia. Por isso aceitei com muito agrado o convite que ele me fez e apresentei uma obra em primeira audição em Portugal, do compositor Steptoe, que foi gravada pela Antena 2. Foi gratificante ser acompanhado por músicos de grande qualidade, alguns deles meus antigos colegas de escola. Nos três concertos que apresentámos, o público aderiu com grande entusiasmo ao concerto, nomeadamente ao extra, onde toquei uma peça que demostra a tuba como um instrumento de grande virtuosismo, o que deixa sempre o público em geral muito surpreendido.

XM – O pianista Youri Popov tem trabalhado consigo desde 2000... É razão para dizer que já se "entendem musicalmente de olhos fechados"?

F.Q. – O pianista Youri Popov era já o meu acompanhador nos tempos em que estudava na Escola Profissional de Música de Viana do Castelo. É um músico completo, um excelente profissional com quem gosto imenso de conversar sobre música. Conhece profundamente todo o reportório e as impressões que trocamos sobre as obras ajudam-me nas minhas interpretações. Após tantos anos a tocar juntos, naturalmente que já nos conhecemos bastante bem enquanto músicos, o que nos permite uma maior segurança em palco. Irei sentir a falta dele no Brasil.

XM – Como docente já trabalhou com a Escola Profissional de Música de Viana do Castelo, com a Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo do Porto, com o Conservatório de Música do Porto e com a Academia de Música da Póvoa de Varzim... Atualmente leciona na Universidade de Aveiro e na Universidade do Minho... Como tem assistido à evolução do ensino da música em Portugal? Ainda há muito caminho a percorrer? Tem havido uma evolução assinalável?

F.Q. – Naturalmente que as Escolas Profissionais de Música vieram revolucionar não só o ensino da música em Portugal, como toda a produção e divulgação da música erudita e não só. Nunca houve tantos jovens a tocarem e com tanta qualidade. Quanto ao ensino superior, é preciso ser ambicioso e desejar para Portugal escolas superiores ao melhor nível do que existe na Europa.

XM – Para terminarmos esta entrevista, agradecendo mais uma vez a amabilidade, gostaríamos que nos falasse um pouco deste seu novo desafio no Brasil... Como surgiu esta oportunidade e em que medida a sua vida vai mudar?

F.Q. – As oportunidades somos nós que temos de as criar. A partir de uma certa altura na minha vida, decidi que queria sair de Portugal e o Brasil é um país que sempre me atraiu imenso. Estive atento aos concursos internacionais e às vagas que me poderiam interessar. Quando surgiu o concurso internacional da Orquestra Sinfónica Brasileira não hesitei um segundo. Trabalhei e preparei-me para ganhar. Vou para um país com um clima que adoro, para a cidade dos meus sonhos, o Rio de Janeiro. E ainda ter o prazer de integrar uma orquestra que apresenta programas aliciantes e com maestros e solistas de alto nível, como é o caso dos três concertos que iremos realizar em Agosto, sob regência do reconhecido maestro Lorin Maazel.

Filipe Queirós

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