O Maestro, Pedagogo e Musicoterapeuta Tozé Novais em entrevista exclusiva ao XpressingMusic

Tozé NovaisTozé Novais nasceu em Viseu. O Maestro, Pedagogo e Musicoterapeuta português começou a estudar piano aos 7 anos com o seu pai, músico amador, Heitor Augusto da Silva. Atualmente faz parte dos "The Curimakers", é maestro do coro "Cantus Firmus" e, como musicoterapeuta, trabalha essencialmente com crianças com autismo, desenvolvendo um relevante trabalho no concelho de Seia. Tozé Novais é ainda maestro do Orfeão Estrela da Serra, de São Romão, lecionando também piano nesta instituição.

XpressingMusic (XM) – Tozé, muito obrigado por esta oportunidade que nos dás de te conhecer melhor enquanto homem, músico, musicoterapeuta... Até à tua entrada no conservatório tiveste aulas particulares de piano e de harmonia com Amadeu Esteves Tavares e com o teu pai, Heitor Augusto Silva... Foram estes dois nomes que te mostraram que a música poderia vir a ser a tua "Profissão"?

Tozé Novais (T.N.) – Sim, sem dúvida alguma que a influência musical, em específico do meu pai, me tornou cativo à arte. Porém foi com as aulas, com o meu próprio desenvolvimento, que criei a convicção de que este poderia ser o meu caminho. Felizmente também contei com oportunidades, desde pequeno, para integrar projetos e de ver a música como uma possível profissão.

XM – Em 1991, entras para a escola de música de Seia, atual Conservatório de Música de Seia – Collegium Musicum, onde estudaste Tozé Novaispiano na classe do professor António Tilly, com quem tiveste também aulas de formação musical. O que absorveste de António Tilly que anda hoje se reflita nos teus gestos, nas tuas atitudes enquanto músico e pedagogo?

T.N. – É um excelente profissional, com exigência acima da média. Sei que puxou por mim e que me guiou na minha própria construção. Porém, creio que foi mesmo na idade mais adulta que cimentei a minha atitude e forma de estar e ensinar música. O curso na Escola Superior de Educação deu-me bases e ferramentas inquestionavelmente importantes e, mais tarde, a própria prática junto de alunos possibilitaram a determinação da minha própria abordagem pedagógica.

XM – Fala-nos um pouco do teu envolvimento nos projetos musicais "Popularis", "Sons da Lua" e "Longa Metragem" na década de 90...

T.N. – Foram fundamentais no meu crescimento humano e profissional. Assumi um papel nos Popularis com apenas 13 anos e, por isso, sei que as pessoas com quem lidei me ajudaram a crescer e a desenvolver a minha personalidade. Além disso, a experiência em palco com eles ajudou-me a arriscar noutros projetos mais ambiciosos. Tanto os Sons da Lua como os Longa Metragem tinham uma linha muito minha; ajudei a compor e a definir grande parte dos temas e, por isso, foram projetos que revelavam a minha face e língua musical. Além disso, contaram com alguma notoriedade e projeção na comunidade onde estavam integrados. Tive grandes concertos e atuações bastante importantes com eles. Foi uma década de descoberta e abertura à música portuguesa rock, pop, e senti-me muito confortável e realizado com estes projetos.

XM – Em 1996, entras na Escola Superior de Educação de Coimbra no curso de Professores de Educação Musical do Ensino Básico, o que te deu a oportunidade de trabalhar com professores como Virgílio Caseiro e Cristina Faria... O que te levou a enveredar por este tipo de formação? Foi importante para ti trabalhar com estes pedagogos que acabámos de mencionar?

Tozé NovaisT.N. – Sempre me vi músico, mas sempre me revi no contacto com os outros, nomeadamente no ensino. Gosto muito de ensinar, de lidar com as pessoas, particularmente com crianças. Foi inevitável ver este curso surgir na minha vida porque me revia precisamente nele. Os meus professores foram fundamentais na confirmação da minha escolha. Trabalhei e aprendi com os melhores. Mantenho laços com grande parte deles e sei que foram peças imprescindíveis na minha formação a vários níveis. De cada um, colhi traços e virtudes diferentes, que ainda referencio na minha vida, atualmente.

XM – Quando terminaste a licenciatura em Coimbra tiveste logo colocação? Continuaste a ficar colocado nos anos seguintes até aos dias de hoje?

T.N. – Lecionei numa Escola público privada, a Escola Evaristo Nogueira, em São Romão. Mas pouco tempo depois surgiu um "convite" muito importante da Câmara Municipal da minha cidade, que acabou por adiar até hoje o concurso nacional de professores. Leciono de outra forma e noutras vertentes que não o ensino público, através da colocação.

XM – No ano de 2002 foste convidado e contratado para maestro do Orfeão Estrela da Serra de São Romão. O que destacas desta tua primeira experiência enquanto maestro? Já tinhas formação nesta área? Desempenhas mais alguma função neste Orfeão para além da de maestro?

T.N. – Neste orfeão sou apenas Maestro, mas desempenho muitas vezes outros papéis inevitáveis. É um projeto onde me sinto em família e por isso têm sempre em consideração as minha opiniões a nível de direção, organização, calendário, etc. Antes de abraçar este projeto, contava com a experiência enquanto pianista e cantor do Orfeão de Seia, onde cresci e aprendi muito sobre arte coral.

XM – Em 2003 inicias o teu percurso enquanto musicoterapeuta... O que fazias nesta altura? A quem se dirigia a tua ação enquanto musicoterapeuta? Quando surgiu o "Festival Especial"?

T.N. – Em 2003 inicio funções na Câmara Municipal de Seia, onde sou convidado a desenvolver vários projetos distintos relacionados com música. Passei pela Casa da Cultura e depois acabei por integrar o quadro da Câmara de Seia no departamento de Educação e Cultura, onde tive a oportunidade de trabalhar com crianças pela Ludoteca Municipal. Ao lidar com crianças, fui-me apercebendo da "diferença" de algumas delas e comecei a interessar-me mais um pouco por isto e pela intervenção da música enquanto ponte de comunicação nessa "diferença". Após alguma insistência e procura, surge em Coimbra, no ano de 2008, uma pós graduação em Musicoterapia, onde desenvolvi as técnicas que, de forma leiga, já Tozé Novaisaplicava nas sessões que naturalmente surgiram com um grupo de crianças autistas do concelho de Seia. Com a aprendizagem de novas técnicas e conceitos foi mais fácil para mim concretizar oficialmente mais sessões de musicoterapia fora das "paredes" da Ludoteca, indo mesmo ao encontro das necessidades das Escolas e Instituições de Seia, através de protocolos estabelecidos entre estas e a Câmara Municipal. E nesse seguimento surgiu o Festival Especial que, no fundo, é uma festa onde concentro todos os grupos com que trabalho a nível da Musicoterapia. Trata-se de uma tarde cultural onde expomos publicamente trabalhos desenvolvidos com vários grupos de necessidades especiais.

XM – Paralelamente às aulas que lecionavas e à tua atividade de maestro, mantiveste sempre a tua atividade enquanto músico, teclista em grupos... Projetos como "MUV" e "The Curimakers" são o exemplo vivo dessa atividade... Sentes necessidade de tocar? Estes projetos são o teu porto de abrigo? Fala-nos um pouco deles...

T.N. – Basicamente é mesmo isso: necessidade de tocar. E essa necessidade reflete-se, a maior parte das vezes, na vontade de tentar sempre mais, conseguir algo mais. Os MUV era um grupo de covers, onde transpúnhamos em palco a vontade de tocar e interpretar temas. Os The Curimakers, por sua vez, é um projecto mais estruturado, constituído de temas originais, cujo objetivo era mais do que mostrar um palco. O objetivo era mesmo o de criar nova música em Portugal. Um funk e pop diferente para alegrar as nossas rádios. É um projeto muito válido que está a dar os primeiros passos, e que conta já com a gravação de um CD, que se encontra à venda em inúmeros sítios, nomeadamente FNAC e plataformas digitais. Nos The Curimakers dou-me mais do que simples músico; dou-me também como compositor, mostrando a verdadeira música em que acredito.

XM – Também criaste o blog aecmusica.blogspot.pt. Qual era o teu objetivo com a criação deste blog? Ainda se encontra ativo?

Tozé NovaisT.N. – Integrada nas minhas funções na Câmara Municipal de Seia, surgiu a necessidade de lecionar música nas atividades extra-curriculares. Nessa experiência apercebi-me da dificuldade dos professores em encontrarem ideias, material, novidades e projetos interessantes a nível musical. Por isso organizei este blog, sendo um núcleo de partilha de ideias entre professores (de AEC's e não só). A sua utilidade revelou-se inequívoca e fundamental. Tive um feedback muito positivo da comunidade de professores... Ainda hoje recebo e troco e-mails com alguns deles.
É importante esta troca de informação entre profissionais da mesma área.

XM – Em 2008 e 2009 voltaste a estudar... Em que consistiu a tua nova formação?

T.N. – Como já referi foi a Musicoterapia. Fiz uma pós-graduação que tenho enriquecido anualmente com congressos, seminários e atividades dentro e fora de Portugal, relacionadas com a área da musicoterapia. É fundamental uma aprendizagem constante, que acompanhe os tempos.

XM – Fala-nos agora um pouco do trabalho que desenvolves no "Cantus Firmus".

T.N. – Os Cantus Firmus são um projeto diferente a nível coral. Sediado em Seia, é um grupo de malta da minha geração que canta temas contemporâneos a 4 vozes. Do nosso repertório inclui-se o Stevie Wonder, Phil Collins, Lionel Richie, etc. No fundo, são temas diferentes do que habitualmente se ouvem em grupos corais. Gosto muito deste projeto; somos flexíveis e "frescos".

XM – Tozé, mais uma vez agradecemos a tua amabilidade em receber-nos para esta entrevista. Para terminar, gostaríamos que nos deixasses os teus votos para este ano de 2014... O que ambicionas para ti, para os teus projetos e para o ensino artístico em Portugal?

T.N. – Eu é que agradeço a vossa lembrança e atenção. Para 2014 anseio aprender mais e sonho em ver e contribuir para o desenvolvimento de estruturas básicas para a proliferação da musicoterapia em Portugal, nas suas variadas vertentes. Gostava de estudar um pouco mais nesta área, mantendo ativos todos os meus outros projetos enquanto professor e músico.
Relativamente ao ensino artístico em Portugal, gostaria de ver uma maior comunhão entre profissionais e escolas e, ainda, uma maior abertura a dinâmicas inovadoras no ensino da música, mostrando aos alunos a postura prática da música...

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