A Pianista Olga Amaro. Inovação e Paixão pela Música são alguns dos ingredientes que coloca à disposição dos projetos que abraça.

Olga AmaroNatural de Âncora, concelho de Caminha, Olga Amaro iniciou os seus estudos musicais na Academia de Música Fernandes Fão em Vila Praia de Âncora em 1994, com Eugénia Moura. Olga Amaro foi aluna de Helena Sá e Costa, Constantin Sandu e Nina Schumann. A nossa entrevistada classifica-se como uma pianista com um amor incondicional pela música. Olga Amaro considera que através da música se consegue alcançar o que de melhor há nas pessoas. Entre 2004 e 2008 foi professora-assistente do Departamento de Piano da Universidade de Stellenbosch.

XpressingMusic (XM) – Olga Amaro, muito obrigado por nos dedicar um pouco do seu precioso tempo. Podemos dizer que foi na Academia de Música Fernandes Fão, que tudo começou? A Professora Eugénia Moura mostrou-lhe que a música poderia fazer parte integrante da sua vida pessoal e profissional?

Olga Amaro (O.A.) – Eu é que agradeço o convite. É um prazer partilhar a minha experiência com o XpressingMusic.
Sim, foi na AMFF que conheci a Professora Eugénia Moura, a grande influência no meu percurso musical. Foi quase sempre ao lado dela que as minhas escolhas foram tomadas (aliás, algo que ainda hoje acontece) e que o carinho e o amor pela música cresceu de uma forma incondicional através das muitas experiências que partilhamos e vivemos juntas ao longo destes quase 20 anos.

XM – É verdade que não gosta de seguir fórmulas estabelecidas? Será a irreverência ou a criatividade e o seu espírito inovador que a conduzem para esse(s) caminho(s) de "desobediência" (risos)?

Olga AmaroO.A. – (risos) Acredito que aquilo que somos, enquanto músicos, é o reflexo da nossa personalidade. Apesar de ter seguido uma formação "tradicional" como pianista, o meu espírito sonhador e, se calhar, um pouco ambicioso também, não se contenta facilmente! Preciso de novidade e de experiências que me desafiem e, talvez por isso, goste de fugir à regra. Para mim, ser pianista passa não só pelas aulas e pelos recitais, mas também pelo que posso aprender quando abraço novos projetos no mundo das artes em geral. Tenho uma necessidade permanente de trabalhar com músicos diferentes, com artistas de áreas distintas e tornar o meu projeto pessoal num processo de absorção de conhecimento. Sinto que é isso que mais me faz crescer enquanto músico e ser humano.

XM – Helena Sá e Costa foi uma personalidade que a marcou bastante... Concorda?

O.A. – Considero um privilégio enorme ter convivido e aprendido com a D. Helena. Conheci-a ainda muito jovem e tenho gravadas na memória muitas lições, muitas "expressões", muitos momentos vividos no Largo da Paz. Recordo com enorme carinho e apreço as palavras e os ensinamentos de uma grande senhora, de uma... personalidade!

XM – Outro nome que certamente lhe deixou marcas foi Constantin Sandu... Sente que ainda hoje se refletem na música que nos toca?

O.A. – Acredito que todos os nossos professores de instrumento deixam marcas muito fortes no nosso percurso, especialmente quando entramos no ensino universitário e iniciamos um novo ciclo. O professor Constantin fez parte dessa nova etapa, quando ingressei na ESMAE, e contribuiu de uma forma muito distinta no meu desenvolvimento. O entusiasmo com que vivenciamos os três anos de trabalho, a forma como sempre acreditou e apostou no meu valor são marcas que ficam para a vida.

XM – A opção de ir África do Sul, para a Universidade de Stellenbosh, deveu-se a algum motivo especial? Procurava trabalhar com a pianista Nina Schumann? Fale-nos um pouco desta sua experiência e de tudo o que dela absorveu...

O.A. – Há pouco falávamos de irreverência e desobediência (risos). Nina Schumann foi um misto de tudo isso: uma verdadeira aventura!
A Nina e a Universidade de Stellenbosch foram tudo aquilo menos o que procurei: aconteceu! Conheci a Nina quase por acaso. Olga AmaroPediram-me para virar páginas num concerto a dois pianos com o seu marido, Luis Magalhães. Até hoje, ainda não consigo muito bem perceber como consegui virar as páginas no concerto porque o fascínio foi imediato. Alguns dias depois estava a ter a minha primeira aula com ela e senti que estava à minha frente aquilo que realmente eu queria, a minha mestre! Uma semana depois estava com ela num avião para a África do Sul (ia lá passar duas semanas para conhecer e ter aulas, fiquei um mês... e, depois, quase seis anos!) Ainda hoje considero ter sido a decisão mais fascinante da minha vida. As aulas praticamente diárias, a vida musical da Universidade, a energia, o trabalho árduo, (as lágrimas também, claro), o amor incondicional pela música vivido, no estúdio da mestre, fizeram parte de uma grande transformação na minha vida artística e pessoal. Com e através da Nina, tive o privilégio de conhecer e aprender com grandes músicos, de testar os meus limites, de "desobedecer", de reconstruir e de me tornar a Olga Amaro do presente. Além de uma grande mestre, a Nina continua a ser um modelo para mim, uma referência, um dos pilares da minha formação. Ainda hoje acredito que gratidão seja uma palavra pequenina para descrever o quanto ela me ensinou.

XM – Entre 2004 e 2008 foi professora-assistente do Departamento de Piano da Universidade de Stellenbosch. O que sentiu ao receber um convite destes?

O.A. – Confesso que olhei para o cargo de professora-assistente, sempre, como um processo de aprendizagem: como uma "colega" dos alunos, aprendendo imenso com eles e adquirindo uma experiência muito enriquecedora. Resumindo, foi uma honra, acima de tudo, e uma mais-valia no meu crescimento musical.

XM – O seu amor pela música é mesmo incondicional?

O.A. – Eu diria que indescritível.

XM – Quando se encontra consigo mesma, qual a música que mais gosta de ouvir?

O.A. – Em casa ouve-se música constantemente, desde Monteverdi passando pelos concertos do Barroco e pelas grandes sinfonias românticas até uma Sagração da primavera, por exemplo. Acho que o que ouvimos vai muito ao encontro do nosso estado de espírito mas, confesso que, lá no fundo, tenho um lado muito apaixonado pelo jazz que oiço com mais frequência.

XM – A música já a levou a tocar de norte a sul do país bem como em diversas cidades na África do Sul, Moçambique, Roménia e Espanha. Sente que o contacto com diferentes públicos e culturas tem consequências nas suas interpretações?

Olga AmaroO.A. – É muito enriquecedora a experiência de tocar em países ou para públicos diferentes. Eu acredito que a forma como tocamos é muito nossa e sempre muito especial, seja onde for. Mas acredito, também, que há lugares onde a energia é diferente e o gozo de partilha da nossa música se torna único.

XM – Pode falar-nos um pouco do seu recente trabalho com a soprano Marina Pacheco? Falamos do disco Canções de Lemúria...

O.A. – Irreverência talvez fosse a melhor forma de classificar este trabalho com a Marina e, muito provavelmente, o nosso trabalho em duo na generalidade. Ambas queremos muito, ambas queremos novos horizontes! Este disco foi o resultado dessa busca pela inovação: um trabalho muito nosso, muito português, muito aventureiro também. Queríamos mais do que gravar um disco. Queríamos um espetáculo novo no nosso projeto e foi daí que nasceu "Canções de Lemúria". Convidámos quatro compositores a escrever para nós sobre textos de quatro escritores portugueses contemporâneos, o ator/encenador Pedro Lamares e a artista plástica Manuela Pimentel que se juntaram ao projeto, criando uma equipa que viveu e experienciou "Canções de Lemúria" numa perspetiva transversal ao mundo das diferentes artes. Assim aconteceu um disco que foi transportado para palco e que, desde a escolha de textos à criação das obras, aprendizagem musical, gravações, montagem do espetáculo, produção e aplausos finais nos proporcionou a todos uma vivência plena de profundidade e crescimento artístico e humano.

XM – Mais uma vez agradecemos a sua amabilidade. Para nos despedirmos, gostaríamos de deixar uma questão relativamente ao ensino artístico em Portugal... Está de boa saúde e recomenda-se?

O.A. – Sou uma pessoa, por natureza, positiva e, neste ponto, procuro encarar a situação com otimismo. É um facto que vivemos tempos difíceis, talvez os mais difíceis que qualquer um de nós enfrentou e nos quais se tornam insuportavelmente repetitivas as palavras corte, austeridade e crise, mas, olhando à minha volta, vejo que há hoje em dia muito mais jovens e crianças a aprender musica. É bom sentir isso e olhar para estes tempos de mudança como uma nova etapa, uma nova forma de criar e fazer música pela música em Portugal!

Olga Amaro e alguns dos seus prémios alcançados até à data desta entrevista:

  • Prémio de Melhor Pianista do 5º Concurso de Canto Lírico da Fundação Rotária Portuguesa (2011, Porto)
  • Vencedora do StellenboschNational Ensemble Competition e da Mabel QuickCompetition (2006, África do Sul)
  • Vencedora da Categoria de Ensemble do ATKV-MuziqCompetition (2005, África do Sul)
  • 3º Prémio e Prémio de Interpretação Ivo Cruz do Concurso Nacional Maria Campina (2001, Faro)
  • 1º Prémio do Concurso Nacional Florinda Santos (1996, S. João da Madeira)
  • 2º Prémio do Concurso Regional do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian (1996 e 1998, Braga) 

Olga Amaro

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