Joana Carneiro responde às questões do XpressingMusic…

Joana CarneiroJoana Carneiro nasceu em Lisboa e iniciou os seus estudos musicais como violetista antes de se formar em direção de orquestra na Academia Nacional Superior de Orquestra de Lisboa. Concluiu o mestrado em direção de orquestra na Northwestern University (Chicago) e prosseguiu os estudos de doutoramento na Universidade de Michigan. Joana Carneiro é aclamada pelas suas atuações vibrantes em diversos estilos musicais e tem chamado a si uma considerável atenção como uma das mais notáveis maestrinas da atualidade. Recentemente dirigiu a Royal Liverpool Philharmonic no Royal Albert Hall de Londres e a Royal Philharmonic Orchestra e Renée Fleming no concerto de abertura da temporada da Ópera Real dos Emiratos Árabes Unidos, em Oman.

XpressingMusic (XM) – Joana, queremos em primeiro lugar agradecer a sua amabilidade para com o XpressingMusic. Iniciou os seus estudos musicais como violetista antes de se formar em direção de orquestra na Academia Nacional Superior de Orquestra de Lisboa. Já sonhava dirigir quando iniciou o estudo do instrumento?

Joana Carneiro (J.C.) – Em primeiro lugar, quero dizer que o prazer é meu em ter esta conversa. Era pequena quando comecei a tocar viola ou violeta. Na verdade o que eu queria era tocar um instrumento de orquestra. Mas a ideia de dirigir veio logo a seguir.

XM – Trabalhar com Jean-MarcBurfin marcou-a certamente... Concorda? Ele teve alguma influência na sua decisão de deixar o país para realizar o seu Mestrado e o seu Doutoramento?

J.C. – Trabalhar com Jean-Marc Burfin foi certamente um dos pilares fundamentais para toda a minha formação e carreira. Tenho como certeza que todos os alicerces que ainda hoje uso vêm desse tempo. E Jean-Marc sempre me incentivou a procurar oportunidades no estrangeiro.

XM – Posteriormente trabalhou com Victor Yampolsky, Mallory Thompson, Kenneth Kiesler. Quais as principais características que pensa ter absorvido de cada um deles e hoje se revelam na sua forma de dirigir?

Joana CarneiroJ.C. – Com Victor Yampolsky comecei a perceber a noção de diferentes estilos musicais ao longo da história da música e o papel do maestro na construção desse som. Com Mallory Thompson, aprendi muito sobre instrumentos de sopro e o seu vastíssimo repertório. Kenneth Kiesler foi absolutamente fundamental para mim, de muitas formas: no estudo da partitura mais aprofundado, da clareza musical do gesto, na coerência que é fundamental num maestro entre a vida privada e musical e tanto mais.

XM – Gustav Meier, Michael Tilson Thomas, Larry Rachleff, Jean Sebastian Bereau, Roberto Benzi e Pascal Rophé são outros nomes que certamente admira... Concorda? O que de mais significativo lhe foi transmitido por cada um deles?

J.C. – Sem dúvida que admiro todos eles, aprendi muito com todos. Kurt Masur foi outro professor muito importante para mim. Todos eles me ajudaram em aspectos específicos da minha carreira.

XM – Em 2010 recebeu o Prémio Helen M. Thompson, atribuído pela Liga das Orquestras Americanas a diretores musicais excecionalmente promissores. Foi um dos pontos mais altos da sua carreira até então?

J.C. – Foi um momento importante, mas que não considero meu. O prémio em questão destina-se a maestros, mas a verdade é que o trabalho que tenho vindo a desenvolver na Berkeley Symphony deve-se verdadeiramente a uma equipa extraordinária e que é ainda mais merecedora dessa honra.

XM – O que sentiu em Março de 2004, quando foi condecorada pelo então Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, com a Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique? Reconhecimento dentro de portas?

J.C. – O que senti em primeiro lugar foi surpresa, gratidão. Evidentemente que foi um estímulo muito importante para seguir o meu caminho.

XM – Em Janeiro de 2009 foi nomeada Diretora Musical da Orquestra Sinfónica de Berkeley. Sentiu que era uma grande responsabilidade suceder a KentNagano?

J.C. – Sim, muito grande. Kent Nagano é um dos maiores maestros da actualidade e tem sido uma honra continuar o seu trabalho.

XM – Mesmo com uma vida repleta de trabalho consegue ser ainda Maestrina Convidada da Orquestra Gulbenkian. Como consegue organizar o seu tempo entre a Sinfónica de Berkeley e a Orquestra Gulbenkian?

J.C. – Não creio que a minha vida seja mais complicada do que a de muitas outras pessoas. Tenho muita gente a apoiar-me e a ajudar-me: um marido extraordinário, famílias e amigos e duas agentes que me ajudam a manter a minha vida organizada e bem planeada.

XM – Enquanto Diretora Artística da Orquestra Sinfónica de Berkeley, trabalho que irá realizar, pelo menos, até 2017, é reconhecida por liderar a orquestra tendo em conta o trabalho dos compositores e as suas novas obras. Sente que trouxe uma nova forma de trabalhar e uma nova visão organizacional para esta prestigiada orquestra?

J.C. – Não sei, é difícil falar do meu próprio trabalho. Trabalho para que exista uma clara responsabilização da orquestra no sentido de trabalhar com criadores vivos, agentes que nos ajudam a viver, interpretar e sentir a contemporaneidade.

XM – É unanime que a temporada 2012-2013 foi muito rica. Pode falar-nos um pouco do trabalho desenvolvido neste período? Quais os pontos fortes da temporada?

J.C. – Já não me lembro muito bem... Berkeley, Gulbenkian, mas talvez um regresso à Europa.

Joana CarneiroXM – A carreira de Joana Carneiro como maestrina convidada tem-lhe dado a oportunidade de correr o mundo trabalhando com orquestras como as Orquestras Sinfónicas de Gotemburgo e Gävle, a Sinfónica de Norrköping, a Orquestra da Rádio da Suécia, a Orquestra Sinfónica de Malmö, a Orquestra da Ópera de Norrland, a Orquestra Sinfónica de Aachen, a ResidentieOrkest de Haia, a Orquestra Euskadi de Espanha e a Orquestra Filarmónica de Hong-Kong. Conte-nos como é este tipo de trabalho onde pouco conhece sobre os músicos com quem vai trabalhar... É um desafio muito grande, não é?

J.C. – É uma oportunidade enorme, ouvir músicos de todos os cantos do mundo, sentir diferentes valores musicais e com eles aprender enormemente.

XM – Em Indianápolis dirigiu Thomas Hampson em concertos dedicados a Mahler e Schumann. Foi um grande desafio?

J.C. – Foi uma honra trabalhar de novo com a orquestra de Indianápolis e com o maravilhoso Thomas Hampson, aprendi com ele muito sobre Mahler.

XM – Muito solicitada como maestrina de ópera, estreou-se com a Ópera de Cincinatti em Julho de 2011, dirigindo A Flowering Tree de John Adams, que também estreou no Teatro de Ópera de Chicago, na Citè de la Musique em Paris e na Fundação Calouste Gulbenkian. Qual a razão de ser tão solicitada para dirigir ópera? Tem a ver com o género com que mais se identifica?

J.C. – Sinto que é dirigindo ópera que aprendo mais sobre o que faço. É uma forma de arte profundamente complexa e rica. É uma honra poder desenvolver projectos nesta área, nomeadamente na criação de novas óperas.

XM – Ser assistente de Esa-Pekka Salonen na Ópera de Paris, na altura que foi, constituiu-se como um marco importante na sua carreira?

J.C. – Sem dúvida, assim começou a minha carreira em ópera, sendo assistente de Salonen em Paris, na estreia de Adriana Mater (ópera de Kaija Saariaho), encenada por Peter Sellars.

XM – Certamente haverá algum ou alguns pontos fortes da sua carreira que não tenham sido aqui focados nesta entrevista pois o seu percurso enquanto profissional é pródigo em convites, prémios e reconhecimentos públicos... Faça justiça a um ou mais aspetos da sua carreira que guarde como marcantes para si enquanto Maestrina.

J.C. – Acabo de dirigir o meu primeiro concerto como Maestrina Titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Foi uma semana e um concerto que nunca esquecerei: a generosidade musical dos músicos e do público.

XM – Portugal é um país muito pequeno para a dimensão que atingiu a Joana Carneiro que hoje conhecemos?

J.C. – Portugal é um país maravilhoso, com uma cultura extraordinária... é uma honra poder dirigir no meu país.

XM – Muito obrigado, mais uma vez, por nos permitir esta partilha com os nossos leitores. Para terminar, gostaríamos de saber qual a sua perceção relativamente ao que se tem produzido nas nossas escolas, conservatórios e academias. Continuamos a ser um país que forma/educa bem?

J.C. – Sem dúvida. Como directora artística do EGO (Estágio Gulbenkian para Orquestra) tenho tido a oportunidade de conhecer os novos talentos que formamos, absolutamente extraordinários.

Joana Carneiro

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