A Soprano Carla Caramujo. Talento partilhado pelo mundo...

Carla CaramujoCarla Caramujo é licenciada e mestre em Canto/Performance e Ópera pela Guildhall School of Music and Drama de Londres e pela Royal Scottisch Academy of Music and Drama de Glasgow. A nossa convidada abarca um vasto reportório que vai desde o barroco até às produções contemporâneas. Vencedora do Concurso Nacional Luísa Todi, Chevron Excellence Award, Dewar Award e Ye Cronies Award no Reino Unido e Musikförderpreis der Hans-Sachs-Loge em Nuremberga. Não faltam razões para querermos conhecer melhor esta artista. Nas próximas linhas viajaremos com Carla Caramujo através do seu trabalho, das suas conquistas e dos seus sonhos para o futuro.

XpressingMusic (XM) – Carla Caramujo, muito obrigado por contemplar os leitores do XpressingMusic com algum do seu tempo. Começamos pela sua formação... O que a levou a optar por Inglaterra? Olhando hoje para trás, que mais-valias vislumbra terem advindo desta opção?

Carla Caramujo (C.C.) – Muito obrigada pelo generoso convite, agradeço-lhes muito o interesse pelo meu trabalho.
Optei por Inglaterra, porque, na altura, era um dos países que oferecia a melhor e mais completa formação nas áreas da música. A GSMD e a RSAM (hoje RCS) reuniam uma vastidão de disciplinas vocacionadas para o canto, na sua vertente de performance, comparável a muito poucas outras escolas internacionais. Representavam todas as áreas de conhecimento imprescindíveis a uma carreira de cantor lírico profissional, com um elenco de professores ao mais alto nível. A partilha de conhecimentos com o departamento de Drama de ambas as escolas foi riquíssima. Na altura, pareceu-me a escolha acertada, e de facto, não estou arrependida. A mais valia é enorme. Carla CaramujoNão só na preparação vocal, musical e dramática como também na inserção do mercado de trabalho que é muito difícil. O ambiente multicultural destas escolas e a sua inserção em redes internacionais abriram-me muito os horizontes. Hoje, com a formação que adquiri sinto-me capaz de responder a qualquer desafio.

XM – Quando falamos de reconhecimento, podemos dar como exemplo o facto de ser Scholar da prestigiosa Fundação Samling no Reino Unido. O que sente quando vê reconhecido o seu valor? Sente que são recompensadas as horas em que abdicou de fazer outras coisas para se dedicar à sua vocação?

C.C. – Ser Samling Scholar, ou os prémios que recebi, são, sem dúvida, exemplos do reconhecimento do muito esforço... mas mesmo muito! E o alívio compensador das horas, dias e anos de trabalho... É sobretudo uma sensação de reconhecimento e tributo pelo esforço, dedicação e profissionalismo que tento pôr em tudo o que faço, são desejos que vão sendo concretizados e que me dão uma grande alegria interior, apesar de ainda haver muito a fazer. Mas não é somente nos prémios que encontro esse conforto ou retorno. Sinto, cada vez mais, esse reconhecimento também nos aplausos e afeto do público após um concerto ou récita de ópera, na simpatia dos colegas, maestros, encenadores e todas as pessoas que trabalham comigo. Nos incentivos e no olhar brilhante daqueles que partilham os meus ensaios, o meu dia-a-dia, acreditam em mim e torcem por mim! Nos abraços após uma récita ou concerto. Nos "Brava" sentidos!

XM – Há nomes que ao passarem pela nossa vida, acompanham-nos até ao final... Podemos dizer que é o que acontece quando falamos de António Salgado, Laura Sarti, Patricia MacMahon e Christa Ludwig? O que "bebeu" em cada uma destas fontes?

Carla CaramujoC.C. – São pessoas que influenciaram determinantemente o meu percurso. Foram os meus mestres de técnica vocal embora, cada um deles também tenha influenciado muito a minha interpretação. Todos eles com o seu "toque de Midas" no momento certo da minha aprendizagem e desenvolvimento enquanto cantora.
O António Salgado foi quem me ensinou as bases da técnica vocal, ainda hoje todo o suporte do meu canto. Preparou-me para entrar na Guildhall onde tive a felicidade de continuar a estudar com a Laura Sarti, especialista em bel canto, ensinando-me todas as subtilezas da técnica e da estética da ópera italiana. É um ser humano maravilhoso, que contribuiu de forma decisiva para a construção não só da minha voz mas também da minha personalidade! Em Glasgow, encontrei Patricia MacMahon, uma grande mestre do pormenor e acuidade técnica. Trabalhávamos arduamente....Influenciou muito a forma como hoje estudo e interpreto cada linha musical que canto. Na mesma altura em que estudava com a "Pat", conheci a GRANDE Christa Ludwig através da Accademie Musicale de Villecroze, em França. Audicionei para o programa de Verão deles, consegui um dos 12 lugares, e pelo meu desempenho, foi-me atribuído um ano de estudo com a Christa Ludwig pago pela mesma academia francesa. Foi maravilhoso, é uma pessoa fascinante, e foi um grande privilégio "beber" da sua experiência e sobretudo da sua estética de interpretação. Estudei quase todas as heroínas Mozartianas com ela.
São pessoas com quem, felizmente, mantenho contacto e a quem recorro com regularidade. Expresso-lhes aqui, uma vez mais, o meu imenso carinho e gratidão. Vão acompanhar-me para sempre, no meu coração e no meu canto!

XM – Quando falamos de prémios, podemos dizer que há uns com maior significado do que outros, ou todos eles têm o seu lugar próprio na sua vida? Pode partilhar os prémios que recorda com maior intensidade?

C.C. – Todos eles têm um lugar muito especial e marcante em determinados momentos da minha carreira e da minha vida.
O primeiro prémio que recebi foi o Croydon Symphony Orchestra Soloist Award em 2002. Foi numa fase inicial dos meus estudos em Inglaterra e por isso, muito importante. Ofereceu-me a possibilidade de fazer vários concertos com a mesma orquestra. Foi uma fonte de grande motivação. Seguiram-se alguns prémios em forma de bolsas de estudo, tal como o Chevron Excellence Award, que me permitiram continuar os meus estudos em Inglaterra e depois, os prémios que considero de afirmação da minha carreira. Recordo com muito carinho o primeiro prémio no Concurso Nacional Luísa Todi. Carla CaramujoSenti-me muito feliz por receber esse prémio em Portugal. Dediquei-o à minha família pelo apoio sempre presente.
O Dewar Award, o maior e mais prestigiante prémio atribuído a um artista na Escócia e o primeiro prémio no Musikförderpreis der Hans-Sachs-Loge em Nuremberga, que premiou o meu trabalho de recitalista em duo com a pianista japonesa Maki Yoneta, foram, para mim, a confirmação e o consolidar e de uma carreira e de um projeto para a vida.

XM – O seu reportório é vasto e diverso. Quais as obras que mais trabalho lhe deram a preparar? São as obras mais trabalhosas as que lhe dão mais prazer em palco?

C.C. – Não é fácil responder diretamente à pergunta.
Todas as obras têm a sua dificuldade. Todas são diferentes na sua abordagem, mesmo as escritas pelo mesmo compositor. Se uma tem uma maior dificuldade técnica, seja de execução ou de leitura, outras são mais desafiantes do ponto de vista interpretativo. Se umas são mais difíceis em termos de tensão vocal e dramática outras são-no pelas razões inversas, pela subtileza da simplicidade, pelo endurance da delicadeza do pormenor.

XM – Sentiu-se lisonjeada ao estrear em absoluto o papel de Salomé na obra O Sonho de Pedro Amaral?

C.C. – Sem dúvida! É fantástico estrear uma obra nunca ouvida, nunca vista....Sentimo-nos intérpretes criadores!
O Sonho é claramente um exemplo de uma obra muito difícil de executar em todos os planos. Talvez por isso, mas também pela profusão de elementos novos e criação constante, a sua realização atingiu o pico do sublime para mim. É uma obra fantástica, e tinha um elenco de cantores e equipa maravilhosos que me apoiaram muito nos momentos mais exaustivos. No Carla Caramujofinal da estreia, em Londres onde tudo tem um significado muito especial para mim, senti uma alegria gigantesca e extenuante...no dia seguinte quase não me conseguia levantar.

XM – A Carla Caramujo Colaborou com a Orquestra de Estugarda, Croydon Symphony Orchestra, Cambridge Orchestra, Scottish Opera, Royal Liverpool Philharmonic, Ensemble Barroco de Amesterdão, Músicos do Tejo, Orquestra de Câmara de Xalapa do México, Orquestras do Algarve, do Norte, Clássica da Madeira, Metropolitana, Nacional do Porto e Sinfónica Portuguesa... Quase ficamos sem fôlego... O facto de atuar com diferentes orquestras e com diferentes maestros traz-lhe uma polivalência enorme... Concorda?

C.C. – Sim, concordo. Mas esse é um dos requisitos e maravilhas desta profissão. Um cantor atento vai conquistando uma grande polivalência de interpretações, abordagens.
A versatilidade, compreensão e flexibilidade são fundamentais não só no estudo e abordagem das obras como também nas relações humanas. Cada maestro, cada encenador, cada colega com quem contraceno, os seus conhecimentos e características, e as suas performances individuais, influenciam imenso a minha própria performance... por isso, a mesma obra nunca é cantada da mesma maneira...

Carla CaramujoXM – Do grande repertório coral-sinfónico, qual ou quais as obras com que mais se identifica?

C.C. – Não quero ser injusta porque poderia estar aqui horas a falar de obras fantásticas, mas destaco o Requiem Alemão de Brahms que adoro...

XM – A Carla Caramujo já se apresentou nas principais salas de concerto de Nuremberga, Heidelberg, Newcastle, Londres, Norfolk, Glasgow, Buenos Aires, Montevideo, e nos Festivais de Aveiro, Sintra, Coimbra, Edimburgo e Mérida (México)... Há alguma sala de espetáculos, ou algum festival que ainda não tenha sido presenteado com a sua presença e que para si fosse importante?

C.C. – Claro que sim, ainda tenho um longo caminho a percorrer... Gostaria muito de cantar no Festival de Glyndebourne, onde, por incompatibilidade de agenda, tive que recusar convite. E gostaria muito, claro, de pisar alguns dos palcos emblemáticos dos teatros de ópera Europeus como a ópera de Viena por exemplo....

XM – Já foi dirigida por Giovanni Andreoli, Pedro Amaral, José Luís Chan, José Miguel Esandi, Cesário Costa, Christian Curnyn, Darrel Davison, Timothy Dean, Osvaldo Ferreira, Julia Jones, Moritz Gnann, Juliàn Lombana, Marcos Magalhães, Rui Massena, Cornelius Meister, Alexander Polianitchko, António Saiote, Johannes Stert, Marc Tardue, Javier Viceiro, Laurent Wagner e João Paulo Santos. Há algum maestro fora desta lista com o qual ainda gostasse de trabalhar?

C.C. – Imensos....

XM – Foi importante para si ter participado em 2008 participou na série documental gravada para RTP Percursos da Música Portuguesa?

C.C. – Sim, foi sobretudo muito interessante, porque nessa altura descobri o gosto pela descoberta da música erudita portuguesa. Quando o maestro Jorge Matta nos dirigiu esse convite, gravámos os primeiros de uCarla Caramujoma série de recitais de canções e árias de compositores portugueses dos Séculos XVIII e XIX realizados no Teatro Nacional de S. Carlos sob a direção musical do maestro João Paulo Santos. Desde então, e graças à investigação do Maestro João Paulo, esse projeto foi-se alicerçando e sinto-me muito honrada de, nestes últimos anos, ter vindo a levantar o véu e a dar voz a obras tão maravilhosas! Obras essas que fazem parte da nossa história e que, ao longo do tempo, caíram injustamente no esquecimento. São compositores que, em nada, ficam atrás dos seus contemporâneos Europeus.

XM – Fale-nos um pouco da sua recente experiência por países da América Latina...

C.C. – Foi uma experiência muito gratificante. Participei na temporada do SODRE, um extraordinário centro cultural em Montevideo, no Uruguai. Lado a lado em cartaz com os maiores intérpretes Mundiais que por ali vão desfilando. Foi um privilégio partilhar o palco com o cravista Austro-Uruguaio Álvaro Barriola. Interpretámos a integral dos Lieder de Mozart que eu dediquei secretamente à Christa Ludwig (risos) e que foi transmitido em direto por todo o Uruguai na rádio clássica desse país.
Na Argentina cantei ópera Italiana e Francesas do séc. XIX no festival de música clássica de Esteban Echeverria, em Buenos Aires, com excelentes músicos argentinos e ainda um recital de música portuguesa dos finais do séc. XVIII em Buenos Aires, abrindo assim a mostra de cinema português no MALBA (Museu de Arte latino-americana de Buenos Aires). Fui extremamente bem acolhida pelo público e pelas autoridades locais. A música portuguesa suscitou muito interesse!
Conheci músicos e artistas plásticos extraordinários e fiquei encantada com a sede de cultura de ambos os povos, com as salas de concerto esgotadas, com o entusiasmo do público, com a quantidade de revistas de cultura e artes, a quantidade de orquestras, exposições, mostras de cinema e eventos culturais em geral. De facto, parece-me que o muCarla Caramujondo passou a girar em torno de metrópoles fora da Europa e a América Latina é, sem dúvida, um grande destino cultural e começa a ser também um polo importante nas artes e na chamada música erudita.

XM – Portugal começa a ter vários exemplos de sopranos que mostram o seu trabalho lá fora, sendo reconhecidas pela qualidade demonstrada... Considera que estamos no caminho certo para nos afirmarmos como um país onde a formação dos músicos é de qualidade?

C.C. – Nos últimos 15 anos, eu diria, formaram-se músicos portugueses ao mais alto nível. Fora e dentro do país.
Em Portugal, as escolas de música elevaram muito o nível e a oferta de cursos, conseguindo captar alguns músicos excelentes formados no estrangeiro para os seus corpos docentes. O ensino nos conservatórios, desde a iniciação, nunca foi tão bom e tão abrangente. Cada vez mais crianças têm acesso ao ensino da música. Criaram-se incentivos e mecanismos para cultivar o estudo da música. Acho que estamos no caminho certo... resta saber se o país aguentará este desenvolvimento, e, se o continuará a suportar.
Há que continuar esse bom trabalho, e, no que toca à inserção no mercado de trabalho dos músicos, temos ainda muito a fazer. Não há capacidade para incorporar tantos músicos recém-formados. Para isso serve a dita globalização e abertura de fronteiras, mas, penso que nos poderemos afirmar num patamar de qualidade se dermos um passo em frente em formar, cultivar e cativar públicos. Ao contrário da América latina, as nossas belas salas não esgotam, não existem hábitos para a cultura. É necessário fazer ainda muito para aproximar as pessoas da música e das Artes em geral. Sem cultura não há identidade possível e sem identidade não somos nada! Não podemos abdicar ou negligenciar o investimento na cultura.

XM – Mais uma vez, muito obrigado por esta partilha. O que pensa fazer nos próximos tempos? Gravar um CD está nos seus planos mais próximos?

C.C. – Começo já em Janeiro ensaios para a primeira ópera da nova temporada do Teatro Nacional de S.Carlos – Il viaggio a Reims de Rossini – em que interpretarei um dos papéis principais, la contessa di Folleville, que estreará no início de Fevereiro. Seguir-se-ão outros projetos entre concertos, recitais e ópera, em Nova Iorque, Buenos Aires, La Plata e Montevideo, e também em Portugal claro. Espero ainda terminar o novo ano com a gravação da obra integral para voz e piano de António Fragoso, com o Maestro João Santos ao piano. Será um projeto em colaboração com a Associação António Fragoso que me dará muito prazer!

Carla Caramujo

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