Sandra Correia. A Vida, o Fado…

Sandra CorreiaFilha de músico, Sandra Correia, natural de Fornos, Santa Maria da Feira, irá dizer-nos nas próximas linhas como a música entrou na sua vida e, mais especificamente, como elegeu o fado como profissão. Sandra Correia é conhecida por ser portadora de uma presença marcante em palco e de uma voz forte que robustece os sentimentos e emoções que nos canta. Tem cantado em Portugal e no estrangeiro, sendo já muitos os espetáculos que guarda no seu portfolio das recordações.

XpressingMusic (XM) – Sandra, muito obrigado por nos conceder esta entrevista. Gostaríamos de começar por lhe perguntar se o facto de haver músicos na família concorreu de forma muito evidente para que se ligasse de forma tão marcante à música. E já agora... porquê o Fado?

Sandra Correia (S.C.) – Sim, claro que sim. O meu pai ensaiava (e ensaia) em casa com o seu grupo, na sua sala de ensaio, pelo que sempre estive rodeada de muita música, de músicos, de toda a agitação resultante de ensaios, espetáculos, viagens, instrumentos... A música está-me nas veias. Comecei a cantar muito criança, em associações, em festas, em concursos. Profissionalmente, canto desde os 16 anos. O Fado, porém, nunca me foi incentivado, bem pelo contrário, por vários motivos. Por um lado, não era visto, pelas pessoas que me rodeavam, exceto pela minha mãe, como projeto de futuro. Por outro lado, sou natural de Fornos, Santa Maria da feira, e na minha terra não havia Fado nem casas de Fado, nem músicos de Fado.... No entanto, o Fado, sem saber nem como nem porquê, simplesmente nasceu comigo. Um dia, muito criança, ainda não tinha 3 anos de idade, a minha mãe, segundo me conta ela, deu comigo parada, como que encantada, a ouvir Amália Rodrigues. A partir daí era assim que passava os meus dias. O meu pai não entendia; a minha mãe adorava. Poucos anos mais tarde, isto deu origem a algumas discussões em casa entre Sandra Correiaos dois, com a minha mãe, que pelos meus 8 anos já sabia que eu ia ser fadista, pois cantava o dia inteiro em casa, em frente ao leitor de cassetes, a interrogar e a tentar forçar o meu pai a levar-me a casas de Fado. Cada visita que recebíamos em casa pedia "ó Sandra, canta um Fado". E eu cantava, muitos, com a cassete da Amália a rolar. Com 11 anos já cantava tudo o que tinha da Amália, que ia aumentando a cada aniversário, a cada Natal, a cada presente recebido. Com 12 anos tive de começar a trabalhar e passei a poder comprar o que ainda não tinha da nossa Diva...

XM – A crítica refere-a como a personificação perfeita do Fado. Concorda com esta definição?

S.C. – Já li isso e não sei bem como reagir... Por um lado fico feliz que gostem do meu trabalho e que se sintam tocados, por outro lado, há tanta gente que canta tão bem e que tem Fado em todas as veias... Deixo essas definições para quem ouve, para quem critica, sendo que eu simplesmente sou eu mesma, canto o que sinto e como sinto e vivo com o Fado em mim a toda a hora. Posso aceitar a definição se considerarmos que há tantas personificações perfeitas do fado quanto há intérpretes, pois o Fado tem isso... é personificação perfeita todo/a aquele/a que o interpreta de forma sentida e verdadeira.

XM – De todos os espetáculos que já fez em Portugal e no estrangeiro, há algum, ou alguns que recorde com maior carinho e saudade?

S.C. – Há muitos... Um deles foi o que fiz em 2009 no cineteatro António Lamoso, em Santa Maria da Feira, por ter sido na minha terra. Tenho também especial carinho pelo espetáculo que fiz em Ponte da Barca em 2011, pela beleza do local, pela enchente de público, pelo belo coro de vozes do público, por daí ter resultado um cd ao vivo; pelo que fiz na Feira de Artesanato do Estoril em 2012, pelo local, pelo ambiente e público muito especiais, pela organização; por alguns em França, como o que fiz no Théatre Vaugarny em 2011, pela surpresa de encontrar um teatro lindo e completamente esgotado praticamente no meio do nada (de uma floresta); no La Pleiade em 2012 por não ter tido informação de número de espectadores até entrar na sala e a ver esgotada. O espetáculo do João Braga em 2013 em Amarante, como sua convidada, o que muito me honrou. Enfim, são muitos e para dizer a verdade recordo todos ou praticamente todos com imenso carinho. Nenhum espetáculo é igual ao outro e todos são especiais.

Sandra CorreiaXM – Sabendo que o fado é um dos tradicionais cartões-de-visita de Portugal, sente que é uma grande responsabilidade cantar esta canção tipicamente portuguesa?

S.C. – Claro que sinto, mas apenas antes e depois. Enquanto canto nada mais sinto que não seja o poema e o que ele me diz.

XM – Considera que o facto de a Unesco ter declarado o Fado como Património Imaterial da Humanidade, trouxe uma nova e maior visibilidade ao mesmo? Já se vislumbram vantagens deste reconhecimento no terreno?

S.C. – A nossa querida Amália já havia levado o fado aos quatro cantos do Mundo e já o havia tornado Património de toda a Humanidade. A classificação pela UNESCO pode ter trazido mais visibilidade em certos meios, nomeadamente académicos, pois têm aparecido livros e teses sobre o Fado e suas origens, por parte de investigadores de vários países. Vantagens no terreno ainda não as senti, mas é provável que algumas haja. Ainda não senti que as grandes editoras tenham passado a apostar clara e inequivocamente no Fado, como resultado da classificação, mas tenho verificado que disparou o número de novos fadistas a cantar em todo o lado e a gravar. O que realmente faz bem ao Fado são os bons fadistas e os bons músicos.

XM – Há algum fadista que mereça maior admiração da sua parte?

S.C. – Muitos. Desta geração, alguns mais mediáticos, outros nem por isso. Das gerações anteriores, Fernanda Maria, Maria José da Guia, Beatriz da Conceição, Natércia da Conceição, Maria da Nazaré, Manuel de Almeida, Alfredo Marceneiro, Fernando Maurício, António Rocha, João Braga, Carlos Zel, etc. Tanta gente... E acima dos comuns mortais, por ser uma luz especial, a Amália, por quem tenho uma admiração infinda.

XM – Considera que Portugal é um país pequeno para tantos e tão bons fadistas que temos na atualidade?

S.C. – Os bons nunca serão demais.

XM – Fale-nos dos seus novos projetos. O que podemos esperar da Sandra Correia nos próximos tempos?

Sandra CorreiaS.C. – Um álbum de estúdio (estamos neste momento a gravar) e a participação numa longa-metragem. E, obviamente, muitos espetáculos, por todo o lado!

XM – Pode apresentar-nos os músicos que a acompanham habitualmente nos seus espetáculos?

S.C. – No meu cd ao vivo fui acompanhada por Mário Henriques na guitarra portuguesa, Manuel Reis na viola e Filipe Teixeira no contrabaixo. O Mário Henriques e o Manuel Reis (que para além de músico é um brilhante compositor, tendo composto imensos temas para mim, alguns dos quais constam do meu próximo cd) têm-me acompanhado imensas vezes nos últimos anos. Tenho outros grandes companheiros de estrada habituais, como os guitarristas Armindo Fernandes e Miguel Braga e os violas Jorge Serra, Bruno Brás e Miguel Ramos. No meu próximo cd serei acompanhada por Pedro Viana na guitarra portuguesa, na viola vão dividir tarefas o Miguel Ramos e o André Ramos e no baixo o Frederico Gato. Tanto o Miguel como o André e o Frederico já me acompanharam várias vezes e é natural que me acompanhem muitas mais, dado serem os músicos do cd. No meu último espetáculo no Centro Cultural da Malaposta fui acompanhada por Pedro Ferreira na guitarra portuguesa, Tiago Silva na viola e Jorge Carreiro no contrabaixo e apesar de ter sido a primeira vez que atuamos juntos, houve uma cumplicidade tão grande em palco que é muito natural que partilhemos palco mais vezes. Tenho sido acompanhada por excelentes músicos por quem tenho grande admiração e amizade em vários projetos e casas de fado.

XM – Quais as suas ocupações e paixões para além do Fado?

S.C. – Ler, pintar, escrever, ir ao cinema e brincar com os meus dois filhotes, Mariana e João Vasco.

XM – Muito obrigado por nos ter dedicado algum do seu tempo respondendo às nossas questões.
Para terminar vamos deixar-lhe algumas questões para uma resposta curta...

XM – Livro da sua vida?...
S.C. – Não tenho um livro da minha vida, muitos me tocaram, mas assim de repente, elejo "As Máscaras do Destino", de Florbela Espanca.

XM – O melhor filme que já viu foi...
S.C. – O paciente inglês.

XM – Cor favorita...
S.C. – Preto, para vestir; violeta para os olhos.

XM – O melhor fado de sempre...
S.C. – Não há um melhor fado de sempre... mas tenho alguns que me tocam de forma especial...

XM – Personalidade do ano...
S.C. – O Papa Francisco.

XM – Viagem da sua vida...
S.C. – A viagem de Natal a Londres em 2011, com as crianças.

XM – Passeio... De carro, a pé ou de bicicleta?
S.C. – De carro.

XM – A felicidade é...
S.C. – Ver os meus filhos a sorrir.

XM – O fado é...
S.C. – ...inexplicável. Mas feliz daquele que o sente por um segundo que seja. Obrigado!

Sandra Correia wide

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