Nuno Aroso, percussionista dedicado à criação contemporânea...

Nuno ArosoNuno Aroso dirige a classe de percussão da Universidade do Minho. A crítica reconhece-o como um dos mais criativos percussionistas da sua geração. Tocou em estreia absoluta mais de 100 obras, ficando parte delas registadas em duas dezenas de álbuns discográficos. Nomes como Peter Klatzow, Peter Ablinger, Oscar Bianchi, João Pedro Oliveira, Amanda Cole, Kumiko Omura, Luís Antunes Pena, Matthew Burnter e Martin Bauer têm escrito diversas obras para o nosso entrevistado. Após completar o curso de percussão da Escola Profissional de Música de Espinho, Nuno Aroso foi admitido na Escola Superior de Música do Porto. Concluiu a licenciatura em 2001 com 20 valores. Em 2003 prosseguiu estudos de especialização no Conservatoire National de Strasbourg obtendo o "Diplôme de Soliste em Marimba e Vibrafone".

XpressingMusic (XM) – Nuno, agradecemos desde já a amabilidade. Começamos por lhe colocar uma questão relacionada com o facto de a sua carreira a solo assumir um papel fundamental na sua vida artística. Como se define enquanto músico? Quais as suas principais influências?

Nuno Aroso (N.A.) – Agradeço da mesma forma a gentileza do convite, aproveitando a ocasião para agradecer também o notável trabalho que o XpressingMusic tem vindo a desenvolver no âmbito da divulgação da música nacional.
Esta será provavelmente a mais difícil de todas as perguntas, já que me levará a um sempre suscetível exercício de olhar analiticamente um espelho. Tentarei começar com ajuda: dizia Salvador Dali, não exatamente por estas palavras, que pintar era uma parte infinitamente reduzida da sua vida, da sua personalidade. Creio que se pode entender o que Dali quer dizer, sobretudo sabendo que a pintura foi porventura a expressão que mais revelou a sua personalidade artística. Com a devida modéstia na colagem ao seu pensamento, eu serei porventura um músico que não existiria se o meu mundo fosse só música. Gosto de pensar que a música, sendo seguramente o motor da minha vida, não será mais do que uma parte de um inevitável todo que no fundo, apresentando-se por mera aritmética maior do que a parte, poderá esse sim definir-me e influenciar fortemente a minha condição de músico. Um "quase paradoxo" intencional, para lhe dizer que vejo a minha atividade musical como uma consequência de um conjunto traços pessoais, de tempos, espaços e influências, que não poderá nunca ser enclausurada numa só gaveta mental e gerida em isolada suficiência. Muito menos poderia eu imaginar a minha vida musical reduzida ao interior dessa gaveta em que a música seria a única coisa obsessivamente lá existente, estimulando-se por e a si mesma de forma artisticamente satisfatória. Serei, portanto, um músico convicto da missão a que se propõe e inequivocamente comprometido com ela, embora necessite em absoluto de um mundo de estímulos e interesses em redor, ainda que estes não sejam necessariamente música. Permito-me assim, que mesmo nesta alienável condição de músico, me motive artisticamente da mesma forma uma obra de Saramago, ou de Sciarrino, Nadir Afonso, Joyce, ou Cage, salientando alguns nomes que considero influências importantes. Vou assim regularmente assentando o meu trabalho em estruturas erguidas sobre vários interesses pessoais, sobre outras áreas de manifestação artística, expressão social e humana, incluindo aqui por exemplo o pensamento político e filosófico. É assim que encontro alimento, ideias e consequentemente perguntas que me levam depois a uma necessidade de concretização pela música. Perguntar-me-á então como é que tudo isto se traduz no resultado prático da minha atividade musical? Bom, haverá um lado porventura mais subjetivo e de difícil análise que será o de entender aspetos interpretativos propriamente ditos e um lado maNuno Arosois objetivo que será o de perceber como são feitas as escolhas e os caminhos, parceiros e compositores, temas, e o porquê da tal opção solística que refere na pergunta. Falando disso, a opção deve-se essencialmente ao facto de poder, dirigindo-me a mim mesmo, dar resposta mais pronta às inquietações artísticas e às interrogações que me vão surgindo pelo caminho. Estudar e praticar os meus assuntos e os meus motivos, digamos. A dada altura senti que estava na hora de responder à chamada em modo de navegação solitária, como já tenho dito. No entanto não quer isto dizer que o trabalho solo seja para mim um trabalho de solidão. Poderá ser de isolamento no estudo diário e no processo de aprendizagem de obras, na escrita sobre um projeto, de uma ideia, de um programa, como para qualquer músico. Mas é agora para mim, acima de tudo, uma maneira de estar em que me coloco no papel de um músico que entende que deve estar próximo da criação, e que, partilhando ideias, tenta ser para outros em redor, sobretudo compositores, mas não só, uma alavanca criativa, um estímulo ao aparecimento de nova música para percussão, de novos instrumentos, de novas técnicas, que serão depois apresentados em concerto, etc.

XM – Podemos dizer que a exploração de novas técnicas e de novos meios instrumentais aliados aos aspetos cénicos relacionados com a performance da percussão, são os pilares que o sustentam e, simultaneamente, o motivam?

N.A. – Esses aspetos são fundamentais para mim. Mas devo salientar que só serão fundamentais dentro de uma dimensão maior que é o privilégio absoluto da música. Aparecerá uma nova técnica se isso servir um pretexto musical, mas dificilmente aparecerá uma música para servir algum propósito técnico, por si só musicalmente inócuo. Isso não me interessaria artisticamente, é contrário ao processo que defendo. Faço, no entanto, muitas sugestões e demonstrações de sonoridades que vou descobrindo nos meus instrumentos, de técnicas de execução, de tipos de baquetas, que penso poderem trazer um universo sonoro interessante para determinado compositor mergulhar. Estas questões na percussão são sensíveis e têm uma relevância grande no processo, porque há uma infinidade de recursos que permitirão por sua vez um sem-número de abordagens criativas. A questão está depois na boa seleção de meios a utilizar e no conteúdo do texto musical, claro. A exploração por si só, sem orientação clara e objetivo específico não conduz normalmente a um resultado. É preciso ter uma ideia, um motivo a perseguir e isso eu procuro em primeiro lugar, como mote. Os recursos instrumentais são outra questão importante, e nesse campo há muito espaço criativo dentro da percussão de concerto. Gosto particularmente de tocar instrumentos de lâminas, a Marimba, Vibrafone. Multipercussão também, mas é simultaneamente parte significativa do meu trabalho criar e descobrir novos instrumentos, novas combinações. Gosto de provocar o diálogo com compositores e outros artistas, bailarinos, cineastas, atores, escritores, para imaginarmos o que poderia ser interessante fazer de novo, inventar, renovar, preparar, para uma obra nascer. Interessa-me, resumindo, conhecer os meus limites e os limites da percussão no plano musical e em toda a sua dimensão, onde se incluem, por exemplo, os aspetos cénicos. Só isso poderá satisfazer a minha curiosidade artística e, humildemente, tentar fazer crescer esta área instrumental e o seu repertório mais um pouco em cada dia.

XM – Sabemos que tem colaborado com inúmeros compositores de todo o mundo e dos mais variados quadrantes estéticos. O que tem transportado destas colaborações e parcerias para sua obra e para a sua carreira?

N.A. – Transporto mais do que tudo uma enorme gratidão pelo património humano e artístico que tem vindo a ser depositado nas minhas mãos.

Nuno ArosoXM – Nomes como Peter Klatzow, Peter Ablinger, Oscar Bianchi, João Pedro Oliveira, Amanda Cole, Kumiko Omura, Luís Antunes Pena, Matthew Burnter, Dimitris Andrikopoulos prestigiam o seu percurso e dão uma diversidade sonora e estética enorme ao seu trabalho... Concorda?

N.A. – Sim, concordo inteiramente. É de facto um privilégio artístico e pessoal, poder ter nomes incontornáveis da composição e que muito admiro. Esses e outros não mencionados, a colaborar comigo. E é sem dúvida muito importante e prestigiante para mim poder estar no processo, contribuir, provocar e estimular a criação. A diversidade sonora e estética que refere aparecerá naturalmente associada a essas colaborações. Se pensarmos que um compositor é a representação de um universo criativo único, uma impressão digital artística, por assim dizer, cada obra será inevitavelmente um reflexo da sua originalidade, dos seus valores estéticos e interesses. Para o meu trabalho é evidentemente uma enorme mais-valia. Mas fico muito contente que das já muitas obras criadas para mim, várias tenham ganho vida própria e se tenham tornado referência do instrumento. Algumas de autores portugueses, que são hoje tocadas em todo o mundo.

XM – Para além de Portugal, também França, Alemanha, Bélgica, Espanha, Itália, Eslovénia, Brasil, China, Tailândia, África do Sul, Argentina, Grécia, Suécia, Inglaterra, Suíça, Canadá, Bulgária, são alguns dos países em que já atuou nos mais variados contextos. O Nuno Aroso professor, membro de júri e intérprete, é uma única personagem multifacetada ou assume diferentes posturas dependendo da realidade que se lhe apresenta?

N.A. – É certo que funções diferentes, ainda que todas no âmbito da música contemporânea e da percussão, terão necessariamente registos próprios e por consequência provocarão posturas adaptadas. É infinitamente diferente estar num palco ou numa aula, num júri ou numa gravação. Mas gosto de pensar que os princípios estéticos, artísticos e outros igualmente importantes, não se perdem no tipo de trabalho ou na geografia. Isso é, aliás, o que pode definir um artista numa primeira análise: a sua construção e respetiva solidez. Aquilo que espero que exijam de mim quando me dirigem um convite é precisamente que exponha, tocando, avaliando, ou ensinando, as minhas convicções mais profundas do ponto de vista artístico.

XM – O facto de ser um defensor do enriquecimento e renovação do conceito de concerto enquanto espetáculo completo e multidisciplinar, quer dizer que se assume como um defensor das expressões integradas? É também um entusiasta da educação pela arte?

N.A. – O enriquecimento do conceito do concerto que refere na pergunta tem para mim a ver essencialmente com a atenção que o espetáculo merece em todas as suas vertentes. É fundamental no meu trabalho que a forma de apresentação da música em contexto de concerto não seja negligenciada, e seja, pelo contrário, bem pensada e profundamente trabalhada multidisciplinarmente. Falo por exemplo de aspetos visuais, como a luz. Sabemos que isso não acontece sempre, ou por falta de meios ou pela falta de cuidado dos músicos que não valorizam devidamente todo o potencial da função interpretativa. Nuno ArosoA percussão encerra aspetos de dimensão cénica e coreográfica que ainda mais atenção necessitam, seja pela riquíssima morfologia dos instrumentos, seja pelo próprio gesto do intérprete, muito significativo na implicação narrativa ligada à perceção da música.
Sobre a educação, sendo eu avesso a grande parte dos sistemas vigentes, o que me parece é que é decisivo conseguir estabelecer padrões de funcionamento que invertam um caminho de um certo empobrecimento humano na sua dimensão pensante, atribuindo um papel de relevo aos estímulos para a sensibilidade e individualidade, como direito. Seguramente as artes têm aí um papel decisivo. Acredito que se isso se conseguir, e tivermos pessoas mais sensíveis e "sanamente" confiantes da sua individualidade, teremos uma sociedade que se permite ser tocada pelo mundo em redor de forma mais absorvente, mais capaz de contemplar, de criticar, de distinguir o génio da banalidade, de opinar. Talvez uma sociedade mais justa e preparada para responder com qualidade aos desafios que se impõem.

XM – Pode descrever-nos um pouco da sua experiência em Paris, com Jean Pierre Drouet? O que mais transportou para aquilo que hoje faz enquanto performer?

N.A. – Jean Pierre Drouet foi um dos mais interessantes intérpretes e impulsionadores do chamado Teatro Instrumental, que teve vultos criativos como Mauricio Kagel, George Aperghis, Vinko Globokar. Drouet destacou-se a dar vida a obras em que ao percussionista exige-se também que seja ator. Foi também músico de jazz, ao lado de Michel Portal e um percussionista de grande nível, com dedicatórias de Iannis Xenakis, por exemplo. Estive com ele algumas vezes numa altura em que me interessava particularmente o género do Teatro Instrumental. Discutíamos muitas ideias, peças, conceitos, compositores. Tocava para ele. Foi um breve período, mas absolutamente decisivo para a minha construção pessoal e artística. Apesar de neste momento muito raramente voltar a este género de repertório, ficaram em mim noções musicais de cena, de personagem e de drama, por assim dizer, que hoje são fundamentais na minha conceção criativa.

XM – Muito obrigado, mais uma vez, pela oportunidade que deu aos nossos leitores de conhecerem melhor o seu trabalho. Para terminar, gostaríamos que nos dissesse se tem novos projetos para apresentar ao público em breve...

N.A. – Para breve tenho 2 discos a sair: "Esgrima" e "Metal". "Esgrima" é um disco dedicado à música improvisada, em que provoco "duelos" musicais com outros músicos, de outros instrumentos, sendo que a percussão é o denominador comum. Joana Sá, Vítor Rua, Henrique Portovedo, Hugo Carvalhais, Rita Redshoes, Dimitris Andrikopoulos são os músicos que convidei. "Metal" é um conjunto de obras que me foram dedicadas, com a característica de serem todas escritas para percussões de metal. São obras de João Pedro Oliveira, Peter Klatzow, Virgílio Melo, James Romig, Luís antunes Pena. Ao começar o ano aparece a estreia de "Talea et Alia", um novo programa em duo com o timpaneiro Rui Sul Gomes, numa formação até aqui pouco explorada, timbales e percussão, com um conjunto de novas peças de compositores portugueses e brasileiros. Terá estreia numa tourné no Brasil, em Janeiro. Em Fevereiro estreio na Culturgest, inserido no Festival Rescaldo, um novo programa solo que se chama "Asperēs", e que trata da apresentação de obras de Cage, Wolf, Lucier, que utilizam meios instrumentais primários, como pedras, madeiras, plantas, às vezes acompanhados de outros meios convencionais.

Nuno Aroso

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