Luís Represas. O homem, o músico, o autor/compositor em entrevista ao XpressingMusic.

Luís RepresasO nosso convidado dispensa apresentação pois o seu caráter enquanto homem, cidadão, músico e compositor é, de todos, conhecido. Luís Represas "canta-nos histórias" desde 1976 e a sua voz já entrou pela casa de todos nós inúmeras vezes. Homem de causas, nunca desistiu de ir à luta e de usar as suas armas, ou sejam, as palavras revestidas de profundas melodias e "embrulhadas" em ricas e inteligentes orquestrações. Nas linhas que se seguem tentamos mostrar aos leitores do XpressingMusic como Luís Represas trabalha a música, com a música e para a música, numa carreira que já conta com largos anos e que promete continuar com o mesmo vigor e com a mesma crença que continha em 1976 quando fundou a banda Trovante.

Em primeiro lugar queremos agradecer ter aceitado este convite para partilhar um pouco de si e do seu trabalho com os leitores do XpressingMusic. Como primeira questão gostaríamos de lhe perguntar como foi o seu percurso entre os 13 anos, quando compra a sua primeira guitarra e o ano de 1976 quando funda o Trovante. Foram anos de aprendizagem musical?
Foram anos comuns a qualquer adolescente que se apaixona por uma guitarra e com os seus colegas de Liceu vai aprendendo a tirar partido do instrumento para poder tocar as músicas que fazem parte do seu dia-a-dia. Tudo completamente na "escola" do autodidatismo.

O Trovante surge com o objetivo de afirmar a música popular portuguesa no pós 25 de abril? Como surgiu a ideia de formar esta banda? Quem foram os seus mentores para além do Luís Represas?
O Trovante não surge com nenhum objetivo para lá de fazer músicas usando palavras que fizessem sentido nas nossas vidas e nos momentos que fomos atravessando. A ideia foi igualmente simples, como na questão anterior. Cinco rapazes que partilham das mesmas ideias, militam na mesma organização política, alguns conhecem-se quase de nascença, e fundamentalmente têm os mesmos gostos musicais. Três pessoas foram importantíssimas no início do Trovante. O Francisco Viana que escreveu os textos dos dois primeiros LPs e a Balada das sete Saias no LP Baile no Bosque, e que nos incentivava a trabalhar com método e objetivos, o Adriano Correia de Oliveira que foi fundamental para a gravação do nosso primeiro LP e nos permitiu conhecer e trabalhar com grandes nomes como o Zeca Afonso, o Fausto e mais tarde o Sérgio Godinho, o Vitorino, além dele próprio claro, e o Zé Manel Osório, que espalhou aos quatro ventos que havia que estar com atenção a um grupo de cinco miúdos irrequietos que estavam a pôr a cabeça de fora. Quanto a mim apenas fui um dos cinco, juntamente com o João Gil, o João Nuno Represas, o Manuel Faria e o Artur Costa.

No Trovante, Luís Represas tornou-se a voz de muitas mensagens. Talvez aquela que os portugueses têm mais em mente seja a vertida na canção "Timor". Este foi um daqueles casos em que a canção se tornou uma arma evidente contra os opressores, neste caso particular, do povo timorense?
Muitas canções, e muito boas, foram escritas com o objetivo de ajudar o povo Timorense. "Timor" foi mais uma que, no entanto, "caiu na rua" e na alma dos portugueses. Como muitas outras expressões "Timor" ajudou a juntar vontades solidárias para com os timorenses

Luís Represas

Considera que a sua ida para Cuba foi um ponto de viragem, não só na sua vida, como também na(s) sua(s) forma(s) de abordar a música? Nani Teixeira e os cubanos Pablo Milanés e Miguel Nuñez eram nomes que tinham obrigatoriamente que estar com o Luís para protagonizar esses processos de "descentração" musical e de conquista de novas texturas?
Foi sem dúvida um ponto de viragem, embora não um ponto de rotura.
A ideia fundamental foi partir para um local onde estivesse livre de pressões, comentários, propostas, ideias pré-concebidas, que me impedissem de me descobrir enquanto compositor fora do então terminado Trovante. Cuba, além de ser um país que eu conhecia muito bem, tinha os músicos ideais para trabalhar comigo. Junto à vantagem de não conhecerem o meu passado, alem do próprio Pablo, "navegavam" nas mesmas águas musicais que eu e rapidamente se criou uma empatia que ainda hoje existe, principalmente com o Miguel Nuñez. O facto do Nani Teixeira ter partido comigo foi mais numa necessidade de manter uma âncora, que eu julguei indispensável, ao meu passado. Tudo isto provocou em mim a autodescoberta fundamental para um bom princípio de futuro.

Podemos dizer então que o álbum Represas foi o reinício de uma carreira que perdura e está presente em tudo o que produz ainda nos dias de hoje? O que sentiu nesta altura? Tornara-se um artista mais abrangente, que não atingia só a franja de admiradores do extinto "Trovante"?
Sem dúvida. No entanto a constante comparação com o Trovante era inevitável e ainda hoje existe. Por um lado é às vezes injusta, mas quando a comparação é com algo tão bom como o trovante, a coisa não fica tão incómoda (risos). Alargou-se de facto o público, embora alguns fundamentalistas tenham fechado a porta por acreditarem que fui eu o responsável pelo fim do grupo. Esses não fazem falta porque não quiseram mesmo perceber nada do que se passou.

O que significam, ou significaram para si, nomes como Bernardo Sassetti e Davy Spillane? De que influências quis dotar a sua música ao convidar estes dois nomes para a produção de um dos seus discos?
Depois da intensíssima gravação do "Represas" em Cuba senti necessidade de regressar a outras origens e sonoridades que também faziam parte das minhas referências.O Bernardo, embora estivesse a passar uma fase de intensa paixão pela música latina, o que não provocaria um desgarrar liminar com o cd anterior, tinha uma informação e formação no Jazz que seguramente iria alargar os horizontes sonoros do "Cumplicidades". A participação do Davy Spillane trouxe o ingrediente e o passaporte para os espaços que queria revisitar.

Em 1998 Luís Represas edita o seu quarto trabalho, "A Hora do Lobo". Este trabalho reveste-se de encontros e reencontros. Marcante foi também o facto de o apresentar numa Expo 98 onde estavam presentes 100.000 visitantes... Concorda? Recorda-se da digressão onde este espetáculo estava incluído?
A "Hora do Lobo" foi não só o reencontro com o Miguel Nuñez como também a possibilidade de trabalhar com um músico das Canárias; Pedro Guerra; e ter contacto mais direto com a música dele. Convidei-os para estarem presentes nos concertos dos Coliseus mas também para participarem nesse dia inesquecível das 100.000 na Expo. O dia em que a Expo 98 bateu os 100.000 visitantes. Mas o melhor desse concerto foi ter sido o culminar de um dia organizado por mim em que convidei a tocar, em vários palcos espalhados pelo recinto, músicos de tendências diferentes que depois se juntaram a mim na Praça Sony em duetos únicos. Falo do Carlos Zel, do Carlos Nascimento, estes dois já infelizmente desaparecidos,

Em 1999, a convite do Presidente da República Dr. Jorge Sampaio, os Trovante reencontram-se para um espetáculo no Pavilhão Atlântico, em Lisboa. São momentos como estes que nunca se esquecem na carreira de um músico?
São momentos muito fortes. Em primeiro lugar pelo facto do Presidente Jorge Sampaio ter reconhecido o Trovante como um grupo transversal à sociedade portuguesa e como tal ser, no seu entender, o ideal para fazer uma grande festa concerto para a comemoração dos 25 anos do 25 de Abril. Depois, o inesperado de nos juntarmos de novo 6 anos depois de nos termos separado, já com os nossos projetos pessoais consolidados, em que aproveitámos para recordar as canções, o clima, rever-nos pessoalmente e rever o público que queria regressar alguns anos para trás e reencontrar o Trovante ao vivo. Foi uma noite super emocionante.

Luís RepresasTambém nesse ano deu voz aos temas originais de Phil Collins, para a banda sonora do filme de animação Tarzan, da Disney. Como assumiu este convite? É um trabalho que gosta de fazer?
Foi um convite também inesperado. Já tinha sido chamado para cantar uma canção do Rei Leão e pensei que a coisa ficasse por ali. Mas surgiu o simpático convite da Disney para cantar a versão portuguesa das canções do Phil Collins. Foi uma oportunidade de entrar no universo musical dele e trocarmos uma breve conversa em Londres. Foi um trabalho muito rigoroso. Gostar ou não de o fazer depende muito do material em que se está a mexer. Só aceito fazer se gostar e me sentir bem nessa pele.

Sente que o seu trabalho é hoje em dia reconhecido nos países lusófonos? Considera também que o facto de ter já gravado em castelhano também lhe alargou horizontes para outros mundos?
Os países lusófonos estão neste momento a desenvolver e a afirmar cada vez mais a sua música e a construir um mercado próprio. O maior prazer que eu tenho é colaborar com grandes músicos desses países. E o reconhecimento vai acontecendo e é tranquilo. O mercado hispânico é mais complicado embora gravar em castelhano completa o sentido das canções, embora tenha constatado que muitas vezes preferem ouvir em português pela cadência e musicalidade da nossa língua

O projeto "Reserva Especial" levou-o a Praga e a gravar com a Orquestra Sinfónica da República Checa. Como classifica esta(s) experiência(s)?
Foi um desafio que partiu do Zé Calvário que assinou todos os arranjos desse CD. Foi de facto uma experiência única tendo em conta as canções que escolhi para o repertório, os arranjos, a qualidade da orquestra, o tempo passado em Londres para gravação de todos os outros intervenientes, a dedicação do Alex Marcou que foi irrepreensível técnico de gravação. Diria que todas a experiências deste tipo me enriquecem pois o contacto com outras realidades e outros modos de trabalhar acrescentam elementos fundamentais ao meu edifício de músico e obviamente humano.

A convite da Swatch, gravou o tema "Quero uma Casa deste Tamanho", cujas receitas reverteram a favor da instituição de solidariedade Ajuda de Berço. Sente que a música faz mais sentido quando atenta a estas grandes causas?
Não se trata de fazer mais sentido. Faz outro sentido, tem outra missão.

Sentiu-se recompensado, ou melhor, reconhecido quando, em 2005, no dia 10 de Junho, "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades" foi condecorado com a Ordem de Mérito pelo Sr. Presidente da República, o Dr. Jorge Sampaio?
Sempre valorizei e respeitei as instituições. Se o Presidente do meu País entende que o meu percurso de vida e profissional justificam ser agraciado com a Comenda, só me resta ficar reconhecido e honrado e com o sentido de responsabilidade ainda mais presente.

O projeto "Luís Represas e João Gil", Após 13 anos do fim do Trovante, alguma vez vos fez pensar que o fim dos Trovante poderá ter sido um erro?
Claro que não. Os nossos percursos sempre foram óbvios e sólidos e sempre colaboramos pontualmente, nomeadamente gravando temas do Gil como foi o caso do Zorro na primeira edição da Voz e Guitarra. O Trovante não eramos nós nem mais um nem mais outro. Era um coletivo que pensava de uma forma dedicada a um artista que servia chamado Trovante e já lá vão mais anos sem ele do que ele durou.

Esta entrevista já vai longa mas consideramos difícil resumir uma carreira tão rica de acontecimentos. Muita coisa ficará por dizer... Muito obrigado por esta partilha! Para terminar, deixamos-lhe duas perguntas. Primeiro, gostávamos que nos dissesse como sente o pulso da música e dos músicos portugueses em 2013... e, por fim... Tem algum sonho ou projeto que ainda não tenha concretizado e que gostasse de eleger como prioritário em 2014?
O músicos portugueses têm muita vontade e talento para fazer música. Assim o mercado os exponha e divulgue.
No meu caso tenho um novo CD de originais a sair em Fevereiro de 2014, do qual podem já ir ouvindo o primeiro Single "Tomara".
Já agora e para que fique claro, lamento que as minhas respostas venham segundo o novo "desacordo" ortográfico, mas o corretor é incorruptível (risos).
Um grande abraço.

Luís Represas

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