Vasco Dantas Rocha. Juventude e empreendedorismo rumo a uma carreira consistente...

Vasco Dantas Rocha, Piano

Vasco Dantas Rocha começou a estudar piano aos 4 anos de idade e aos 6 apresentou-se pela primeira vez em público. Em 2000, foi admitido com distinção no Conservatório de Música do Porto onde estudou com a Professora Rosgard Lingardson concluindo o curso com a nota máxima. Paralelamente ao piano, iniciou aos 7 anos o estudo do violino. Teve como Professor José Paulo Jesus. Como violinista, conquistou relevo nas orquestras “Momentum Perpetuum”, “Jovens dos Conservatórios Oficiais de Música”, e na Metropolitana de Lisboa júnior. O XpressingMusic quis saber um pouco mais sobre este jovem que já conta com vários prémios internacionais.

Vasco, agradecemos-lhe o privilégio que nos concede ao dedicar-nos um pouco do seu tempo para responder a esta entrevista. Qual é a receita para alguém tão jovem ter já arrebatado tantos e tão prestigiados prémios? Fale-nos de alguns desses prémios e do significado que assumiram e assumem para si...
Antes de mais, gostava de agradecer o facto de me terem contactado para esta entrevista. Respondendo à sua pergunta, creio que “a receita” a que se refere, se existe, é similar a qualquer uma outra situação em que alguém pretende ter sucesso – trabalho, disciplina e consciência.
Com estes três ingredientes principais, aliados a uma mínima facilidade ou talento natural na área em questão, penso que teremos então a tal receita promissora.
Obviamente dos vários prémios que já consegui obter, alguns têm mais significado do que outros, tanto devido ao diferente significado e valor que têm, como devido ao longo percurso e quantidade de trabalho que me foi necessário para o conseguir atingir. Alguns dos prémios que mais significado tiveram para mim até agora, foram o “Prémio Casa da Música 2009” que me valeu a estreia a solo na sala Suggia da Casa da Música, e o “Esther Fisher Prize 2013” prémio incluído no Concurso Chappel Medal, e que é atribuído ao aluno de Licenciatura com melhor desempenho, do Royal College of Music. Ainda assim, todos os prémios que consegui alcançar foram sempre e apenas uma recompensa pelo esforço e trabalho dedicados, por isso quanto maior for o esforço necessário para o atingir, mais significado terá o prémio no final.

Vasco Dantas Rocha, PianoEm 2011 chega a hora de atuar na “Sala Suggia” da Casa da Música... Pode-se dizer que este é um dos pontos altos da sua carreira?
Sim, verdade. Dia 4 de Janeiro de 2011, às 19h00, uma terça-feira chuvosa na cidade do Porto. Tive o privilégio de atuar a solo numa sala de imenso renome, nesse dia, praticamente lotada. Este recital foi a abertura do Ciclo de Piano EDP 2011 da Casa da Música, e incluía não mais do que uma dezena de recitais durante o ano inteiro, cada um deles com a atuação de grandes pianistas com carreira internacional e inúmeros prémios prestigiados já alcançados.
Um deles, se calhar o melhor pianista da atualidade, e um dos meus ídolos, Griogory Sokolov iria ser o protagonista do seguinte recital, e como tal nos programas de sala e agendas da Casa da Música, a página que incluía o meu recital estava precedida pelo seu recital. Ter o meu nome mencionado no mesmo livro que o próprio Sokolov já é um prestígio, mas estar incluído no mesmo ciclo de recitais é algo com realmente grande significado.

Tocar a solo com a Orquestra Sinfónica do Porto e ter a oportunidade de trabalhar com os maestros Martin André, Günter Neuhold, Nicholas Kok e Pedro Neves são também momentos que certamente não esquecerá... Concorda?
Concordo absolutamente. Tive a oportunidade de já ter trabalhado com diversos maestros, tanto como pianista solista como violinista em Tutti de orquestra. A primeira e única vez que tive a oportunidade de tocar com a Orquestra Sinfónica do Porto foi em maio de 2013, num concerto de Homenagem ao centenário da pianista portuense Helena Sá e Costa. O concerto interpretado foi o Concerto para 4 Pianos e Orquestra de J. S. Bach, com direção do maestro austríaco Günter Neuhold. Foi uma experiência excelente, até por ter sido a primeira vez que toquei em conjunto com mais 3 pianos e orquestra, algo que não acontece muitas vezes.
Um dos maestros que mais me marcou foi também o maestro inglês Martin André. Trabalhei com ele, sobretudo enquanto violinista, em inúmeros estágios com a “Momentum Perpetuum”. É um excelente músico e um excelente maestro, adorei todas as obras que tive o privilégio de trabalhar com ele, e toda a experiência que adquiri com isso. Para além de tudo isso é também uma excelente pessoa e um excelente líder.

Há alguma razão especial para ter optado pelo Royal College of Music? É inevitável para um músico português, que deseje fazer carreira, ir para fora?
À segunda pergunta, eu respondo sem a mínima dúvida que sim, em condições normais, é inevitável sair de Portugal para construir uma carreira como pianista.
Eu optei inicialmente pelo Royal College of Music devido aos excelentes professores que lecionam lá, e devido às oportunidades que podem surgir para um aluno dessa faculdade. Eu adorei trabalhar com o professor e mestre Dmitri Alexeev, que conheci num curso de aperfeiçoamento, em Portugal, antes de iniciar os estudos no RCM. Essa foi também uma das razões que me levou a ir para Londres, para tentar a oportunidade de trabalhar com ele.
Felizmente, em Portugal há também excelentes professores de piano, cada vez mais. No entanto, ficando em Portugal nunca teria experienciado muitas das coisas que pude viver em Londres, musicalmente e não só. O facto de estar numa cidade tão culturalmente dinâmica, onde todos os dias há inúmeros eventos para assistir, e numa universidade tão internacional, onde há músicos de todas as partes do mundo, naturalmente, ganha-se uma experiência bastante superior enquanto jovem e músico.
Por estas e outras razões estou bem, e nada arrependido por ter deixado Portugal aos 18 anos e vir estudar para Londres.

Vasco Dantas Rocha, PianoTem alguns projetos para o futuro próximo que possa partilhar com os nossos leitores?
Para breve, tenho como principal prioridade terminar o último ano (4º ano) da licenciatura no Royal College of Music, e depois prosseguir com o mestrado em performance. Ainda tendo um bom par de hipóteses em ponderação, de universidades onde talvez me irei candidatar, em Inglaterra, Alemanha, Dinamarca e Itália; todas poderão ainda ser hipóteses.
Participarei em breve num concurso internacional de piano, no Reino Unido, e em termos de concertos tenho ainda agendado para este ano, um recital na Alemanha, e um programa de concertos na região de Kerala, na Índia.

No próximo ano, 2014, tenho já agendados alguns recitais em Portugal, Inglaterra e Brasil, entre outros. Um recital numa pequena mas belíssima localidade Transmontana, que faz parte de um excelente projeto que visa tentar introduzir essa população a experienciar eventos culturais aos quais nunca, ou raramente, têm acesso ao vivo; Vários concertos em Inglaterra, sobretudo em Londres; Um concerto a solo com a Orquestra do Norte, em Portugal; Um concerto a solo com a Orquestra Filarmónica do Espírito Santo, no Brasil, em Agosto; E um recital em direto para a rádio portuguesa - Antena 2, provavelmente ainda no Verão.

Para além da música tem outras “paixões”?
Com certeza! Adoro fazer desporto, principalmente fazer surf (quando estou em Portugal) e jogar futebol. Aliás, até a uma certa altura da minha adolescência, o meu objetivo era ser jogador de futebol ou pianista!

O que mais gosta de fazer nos seus tempos livres?
Gosto de socializar com os meus amigos, e sobretudo ter a oportunidade de conhecer pessoas de outros países e culturas, o que é uma das coisas que adoro ao estar a viver em Londres, a facilidade com que se podem conhecer novas pessoas e rapidamente aprender novos costumes.
Sou um pouco viciado em xadrez, desde pequenino que aprendi a jogar, e cheguei a ser campeão distrital (Porto) e 3º classificado no campeonato nacional de Xadrez, no Algarve.
Gosto também de ler e ouvir música não clássica, nos tempos livres, e como já disse antes, praticar quase qualquer modalidade de desporto.

Vasco Dantas Rocha, PianoMuito obrigado por ter dedicado este bocadinho aos nossos leitores e seguidores. Para terminarmos a nossa entrevista, gostaríamos de lhe perguntar se concorda com aqueles que dizem que Portugal vive um momento de prosperidade no âmbito da formação de músicos. Vivemos novos e melhores tempos? Temos agora mais e melhores músicos?
Na minha opinião, tendo apenas por base aquilo que vejo, a música erudita em Portugal evoluiu bastante principalmente em termos de divulgação e abrangência de um maior e mais diversificado público. Hoje em dia há um maior número de jovens que iniciam o estudo de um instrumento desde muito cedo.
Tomando como base a vida cultural na minha cidade natal que é o Porto, desde há 10 anos até hoje, penso que as diferenças são notórias. Aumentou exponencialmente a oferta de concertos musicais, aumentou a quantidade de público a interessar-se pela música e a quantidade de locais onde se realizam espetáculos musicais. Penso que a Casa da Música foi a principal impulsionadora da divulgação do gosto pela música nesta cidade. Esta instituição, única no Porto e também em Portugal, tem realizado um ótimo trabalho com muito mediatismo e qualidade. Era algo que há muito faltava na região, para divulgar a música, não só no Porto, como no norte do país. Por outro lado, o maior número de jovens que hoje em dia aprende música, também contribui para a divulgação do gosto pela música ao arrastarem consigo os seus familiares e amigos. Nota-se perfeitamente a diferença entre a quantidade de alunos que frequentavam o Conservatório de Música do Porto quando eu fui admitido, em 2000, para agora. Lembro-me de eu fazer parte do pequeno universo de alunos que ingressavam no CMP com tão tenra idade. Os meus colegas de classe eram no mínimo dois ou três anos mais velhos do que eu, e havia-os com mais seis ou sete anos de idade, nas mesmas turmas que eu frequentava. Atualmente, a quantidade de alunos a aprender música nesta escola é incrivelmente superior e cada vez a iniciarem com menor idade. Eu acho que tudo isto é extremamente positivo para o futuro da música erudita em Portugal, tanto a curto como a médio prazo.
No entanto, apesar de todos estes aspetos positivos iniciais, continuam a existir grandes e graves problemas sobre este tema.

Vasco Dantas Rocha, PianoNa minha opinião, o principal problema que afeta a música portuguesa é simplesmente a falta de mercado musical no país. A solução para este problema não é fácil. Requer uma postura do país que permita divulgar a cultura em geral e a música em particular. Mesmo assim, os benefícios só se sentirão a médio ou longo prazo e nunca no imediato.
É um facto que, infelizmente, o povo português tem pouco acesso à cultura e no que diz respeito à música, menos ainda. O famoso maestro Venezuelano, mundialmente conhecido pela sua qualidade musical mas também pelo esforço em levar a música a pessoas com menos capacidades culturais, Gustavo Dudamel, disse em Lisboa: “É preciso levar a música às comunidades que não têm acesso a ela... um povo sem cultura é um povo sem alma”. Ora, quando não se dá acesso à instrução também não haverá sede de cultura. É uma pescadinha de rabo na boca, como se diz no norte do país, ou seja, um problema leva ao outro problema, ciclicamente.
Por isso, na minha opinião, a solução passa por conceder aos cidadãos, um maior acesso à educação e cultura nas mais diversas áreas artísticas. Para isso é necessário que haja vontade dos nossos dirigentes e políticos. Só assim, não só se resolverão a maior parte dos problemas que atualmente afetam a música portuguesa, como também nos tornaremos num povo mais culto, mais sensível e mais interessado. Assim, o mercado musical em Portugal poderá naturalmente crescer e desenvolver-se sem impedimentos, pois a qualidade da música portuguesa é bastante positiva e pode perfeitamente ser equiparada à música de outros países europeus com mais tradição cultural e musical ao longo dos séculos.
Quanto à nova geração de músicos portugueses, só tenho a dizer que é espantosa a quantidade de músicos nacionais da minha geração que recentemente têm tido sucessos fora de Portugal, ganhando concursos internacionais, entrando em escolas de grande qualidade mundial, destacando-se entre os melhores alunos.
Isso deixa-me, por um lado, extremamente orgulhoso pois são meus concidadãos, mas por outro, entristece-me o facto de ser necessário ter de sair do país para conquistar o nosso futuro nesta área (e não só, como é sabido!) e ver o nosso mérito reconhecido, primeiramente além-fronteiras e só depois, muito mais tarde e às vezes nunca, dentro do nosso próprio país. É por a educação em Portugal ser bastante positiva que podemos ver estes fenómenos a ganharem o seu espaço lá fora, pois têm excelentes bases adquiridas no nosso país, no entanto, sabendo disto, por vezes penso para mim próprio: “Que país se pode dar ao luxo de gastar fortunas na formação dos seus cidadãos e depois deixar que terceiros usufruam graciosamente das suas competências adquiridas?” Pois, infelizmente é isso que tem vindo a acontecer, e falando pelo menos da minha geração, Portugal tem servido ultimamente, para os outros países, como uma “fábrica de cérebros”, como já alguém o disse.
Penso que a nova geração de músicos tem grande potencial e poderá atingir níveis de sucesso ainda mais altos. No entanto, para tal, é preciso que tenham muita força de vontade e que estejam preparados para encontrar motivação aos resultados menos positivos. É inevitável dizer que é preciso algo que, para quem está do lado fora lhe chamará, “muito trabalho, muito trabalho e ainda mais trabalho”, mas para nós, que estamos do lado de dentro, não é mais do que “o prazer recompensado”, ou não fosse o músico uma das profissões mais privilegiadas. Todos os dias podemos criar algo nosso e proporcionar aos outros momentos de felicidade, ao expressarmos, através da música, as nossas mais íntimas emoções.

Vasco Dantas Rocha. Juventude e empreendedorismo rumo a uma carreira consistente...

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