A violetista Raquel Moreira Bastos em entrevista ao XpressingMusic…

Raquel BastosO XpressingMusic foi ao encontro da violetista Raquel Bastos. A nossa convidada tem aparecido em recitais a solo e com vários grupos de câmara em países como Portugal, Reino Unido, Alemanha, África do Sul, Estados Unidos, China e Austrália. Estabeleceu-se na Austrália, integrou a Orquestra Sinfónica de Queensland, e tem vindo a desenvolver a sua carreira em Brisbane, tocando com vários artistas de reconhecido valor incorporando vários grupos de câmara, tais como Southern Cross Soloists, Collusion, The Badinerie Players, os quartetos de cordas Anima e Norablo, entre outros.

XpressingMusic (XM) – Raquel, em primeiro lugar gostaríamos de agradecer a amabilidade que teve para com o XpressingMusic aceitando o convite para esta entrevista. Que idade tinha quando percebeu que a sua vida ia ser preenchida pela música? Esta foi a profissão com que sempre sonhou?

Raquel Bastos (R.B.) – Antes de mais gostaria de agradecer o convite, é com prazer que aceito dialogar com o XpressingMusic que tem vindo a realizar um trabalho fantástico de divulgação, promoção e dinamismo de tudo o que é relevante para o desenvolvimento da música em Portugal. A música teve sempre um lugar muito importante na minha vida e as primeiras memórias da minha infância incluem um pequeno piano que eu levava comigo para todo o lado. Eu lembro-me de passar horas a tentar reproduzir as músicas que ouvia à minha volta. Por isso, acho que desde sempre soube que a música faz parte de mim completa e intrisecamente. Tentei imaginar-me noutras profissões, mas nunca seriamente.

Raquel BastosXM – Quando iniciou os seus estudos musicais no Conservatório de Música de Aveiro de Calouste Gulbenkian, já era então claro para si que iria enveredar por uma carreira artística?

R.B. – Apesar de a música ter sido sempre muito importante para mim, iniciei estudos musicais muito tarde. Durante toda a minha infância cantei e toquei de ouvido, e fui aprendendo conceitos muito básicos de música. Só quando entrei no Conservatório, já com 13, anos é que comecei a aprender a sério. Começar a aprender um instrumento de cordas tão tarde não foi fácil, porque todos os meus colegas eram ou mais novos do que eu, ou muito melhores do que eu! Por isso, nessa altura ainda não pensava muito no futuro. Adorava andar no Conservatório e aprender cada dia um conceito novo. Para além disso, eu não conhecia ninguém que fosse músico profissional! Não tenho ninguém na minha família que seja músico, ... nem sequer amador, por isso nunca tinha pensado na possibilidade de ter uma carreira musical. Mas lembro-me do momento exacto em que decidi definitivamente ser músico: foi quando toquei a solo num recital no Conservatório a peça Vocalise de Rachmaninoff. O que senti em palco durante a performance foi indescritível e tão sublime que eu soube desde então que seria esse o meu rumo.

XM – Em 1999 ingressou na Academia Nacional Superior de Orquestra e em 2000 a Escola Superior de Música do Porto. O que lhe permitiram as experiências adquiridas nestes anos e nos anos imediatamente a seguir?

Raquel BastosR.B. – Passar do secundário para o ensino superior é sempre um passo importantíssimo de transformação que engloba a formação de um jovem, transfornando-o num adulto. Acho que esses anos foram o início da minha vida artística, a formação de contactos e laços de amizade que me têm acompanhado pela vida. Para além disso, a ESMAE formou-me enquanto músico. É uma instituição com imensa qualidade. Foi durante esses anos que comecei a viajar, participando em cursos de aperfeiçoamento no estrangeiro. No meu último ano da licenciatura, aderi ao programa Erasmus e fui estudar para Inglaterra durante uns meses, só aí me apercebi da qualidade musical do que se produz na ESMAE. Em Inglaterra tinha masterclasses quase todas as semanas e as condições eram incríveis, mas a dedicação dos nossos professores da ESMAE não tem comparação ... o que faz muita diferença. Mas para responder à questão, é com saudade que me lembro desses anos, porque vivi muito, toquei muito, conheci o mundo e a gente do mundo e não trocava esses anos por nada, eles foram o impulso para onde me encontro hoje.

XM – Philip Heyman, Ryszard Woichiki, Kim Kashkashian, Carol Rodland, Karen Rischter Wolfram Christ, Anabela Chaves, Sylvie Altenburger e Susan Dubois são nomes que estarão sempre ligados à sua forma de estar no mundo musical? Em que medida a influenciaram?

R.B. – Sem dúvida! Mas esqueceu-se de um nome: Hazel Veitch. A minha primeira professora de viola no Conservatório, ela conseguiu fazer o talento emergir, soube refiná-lo e deu-me as ferramentas para poder sentir, para poder expressar o que sinto através da viola. Mas a Kim Kashkashian é a minha grande musa, desde que comecei a aprender viola que ouço os CD's dela e daí veio a minha grande paixão pelo instrumento e pela voz da viola. Amo profundamente o som que ela cria e a intensidade de fraseado e estrutura com que interpreta qualquer estilo de música. Os anos passam e a Kim Kashkashian continua a ser para mim a melhor violetista no planeta. O ano passado tive o grande prazer de a conhecer pessoalmente em Nova Iorque e de tocar para ela, escusado será dizer que foi um dos dias mais felizes na minha vida, um dos meus sonhos mais incríveis tornou-se realidade. Outra grande fonte de inspiração na minha vida é a minha professora de Doutoramento no Texas, a Susan Dubois. Ela ensinou-me técnicas que vêm directamente de Primrose e que me ajudaram a libertar fisicamente para que o lado emocional possa ser expressado muito mais livremente. Para além disso, ela tem tem sido um pilar na minha vida, um apoio a todos os níveis. Acho que esse é o grande dom de um professor e eu tenho tido imensa sorte com os professores que tive, todos têm sido grandes fontes de inspiração e exemplos que eu sigo e copio com orgulho. Eles vão muito mais além de conceitos musicais e da sala de aula, tornam-se amigos e mentores para a vida. Por exemplo, o professor Ryszard na ESMAE, ... quantas vezes as nossas aulas duravam 4 ou 5 horas ... e o aluno a seguir tinha que esperar. Ele vivia para nós, a dedicação que ele tem aos alunos é incrível e sem dúvida uma enorme fonte de inspiração. Por isso, a combinação de tudo o que aprendi com estas pessoas incríveis torna-me no que sou, a influência que todos têm na minha vida enquanto músico e professor é imensurável.

Raquel BastosXM – Como surgiu a oportunidade de integrar a Orquestra Clássica da Madeira?

R.B. – Faltavam-me três meses para acabar a Licenciatura na ESMAE e o maestro Rui Massena, com quem eu tinha estudado na Academia Superior de Orquestra, convidou-me a fazer prova. Eu aceitei o desafio e trabalhei na Orquestra Clássica da Madeira durante quase 2 anos. Foram anos inesquecíveis, com memórias maravilhosas da ilha da Madeira e dos colegas na orquestra.

XM – Qual a razão ou quais as razões que a levam a ir fazer o seu Mestrado em Viola na Universidade de Stellenbosch na África do Sul e o Doutoramento em Viola Performance na Universidade do Norte do Texas?

R.B. – Desde que completei a Licenciatura que tinha andado à procura de um professor para continuação de estudos. Enquanto trabalhava na Madeira, fui a Boston, Londres, Amsterdão, Basel e Freiburg à procura de uma Universidade onde pudesse continuar os meus estudos. Mas só quando conheci a Susan Dubois é que encontrei o que procurava. Em 2005 participei num Festival International de Música de Câmara na África do Sul onde conheci a Susan e ela ofereceu-me uma bolsa de estudo completa para ir para o Texas estudar com ela no ano seguinte - aceitei de imediato. Já que tinha alguns amigos em Stellenbosch, perto da Cidade do Cabo, decidi ficar na África do Sul enquanto esperava para começar o Doutoramento no Texas. Iniciei assim o Mestrado na Universidade de Stellenbosch, foram meses incríveis e experiências únicas na minha vida.

Raquel Bastos Anima 2013XM – Chegou a ser professora assistente... A carreira docente também a fascina de alguma forma ou o lado performativo é o que mais lhe agrada?

R.B. – Sim, definitivamente. Adoro dar aulas! O lugar de assistente na Universidade do Norte do Texas fez parte da minha bolsa de estudo, englobou dar aulas, mas a maior parte do trabalho foi integrando o quarteto de cordas da Universidade. Éramos todos estudantes de Doutoramento e trabalhámos durante dois anos como um quarteto profissional: ensaios todos os dias e bastantes concertos. Foi de facto uma oportunidade, e destas não há muitas, onde aprendi muitas técnicas de ensaio em quarteto e conheci pessoas fabulosas, como por exemplo os membros do quarteto Julliard. Mas voltando à questão, sim! Adoro dar aulas e tenho que confessar que dar aulas me dá uma enorme satisfação. O ano passado decidi deixar a orquestra a tempo inteiro e concentrar-me mais em dar aulas e tenho que reconhecer aceitar que adoro! Trabalho presentemente no Grace Lutheran College aqui em Brisbane e estou a amar a experiência. Tenho alunos desde o terceiro até ao décimo segundo ano e adoro vê-los crescer, é um privilégio e uma grande responsabilidade dar aulas e formar pessoas. Claro que sou uma performer e continuo a tocar muito activamente em concertos sinfónicos e de música de câmara. Se tivesse que escolher ... definitivamente, escolhia performance em música de câmara, sem dúvida ... mas teria muitas saudades dos meus alunos.

XM – Já fez inúmeros concertos nos Estados Unidos e, por exemplo, na China... Estas experiências foram certamente enriquecedoras... Concorda?

Raquel Bastos Shangai 2007R.B. – Sim, concordo. Conhecer de perto culturas tão diferentes é sem dúvida enriquecedor, são experiências que trazem muito valor pessoal e profissional. Na China é mais constrangedor por causa da barreira linguística e também porque alguns dos rituais que aqui no Ocidente nós tomamos como "corriqueiros", lá não são conhecidos, ou não são prática comum e nunca se sabe o que vem a seguir ... por exemplo, é frequente em concertos ver pessoas levantarem-se a meio de uma peça ... quando não se está a espera, não se sabe muito bem como reagir. São desafios próprios do contacto com diferentes culturas, e eu adoro esse lado de viajar.

XM – O facto de ter vindo a ser convidada regularmente a participar em recitais para a rádio nacional ABC Classic FM ao vivo e em vários festivais internacionais constitui para si a concretização de um sonho de criança? Serão estes convites o justíssimo reconhecimento do enorme valor que detém enquanto instrumentista?

R.B. – Hummm ... estes concertos ao vivo constituem mais uma vertente daquilo que faço. Claro que tocar para a emissora nacional ao vivo é sempre assustador e a ABC Classic FM aqui na Austrália faz gravações desses concertos, o que torna tudo ainda mais sério, mas é um privilégio poder participar nestes projectos. E são de facto esses momentos que me fazem adorar ser músico profissional. A Austrália tem comunidades muito distantes das grandes cidades, comunidades que nunca têm acesso à cultura e que vivem completamente isoladas, por isso, tocar na rádio é um trabalho de muita importância e responsabilidade.

XM – Como surgiu a decisão de ir para a Austrália?

R.B. – Bem ... vim para a Austrália seguindo o coração ..., a decisão veio completamente de dentro de um coração apaixonado! E terá sido a primeira vez na vida que não foi uma decisão musical ... E cá estou! E adoro este país e as pessoas, o clima, a diversidade, ... tudo.

Raquel Bastos Badinerie Sunday Live 2011XM – O que pensa fazer no futuro mas próximo? Vir para Portugal está fora de questão?

R.B. – No futuro mais próximo penso começar um doutoramente académico, pela primeira vez, não em viola performance. Gostava imenso de poder estudar o âmbito de um projecto que implementei na minha escola, por isso nos próximos anos continuarei aqui em Brisbane. Mas claro que o quero sempre fazer é tocar e envolver-me em arte e música. Ir para Portugal não está nunca fora de questão, assim como ir para outros sítios no mundo se a oportunidade surgir. Adoro Portugal, tenho toda a minha família aí, bem como os meus amigos, por isso nunca diria que não.

XM – Agradecemos mais uma vez esta parte do seu precioso tempo que nos dedicou. Tem algum conselho que possa transmitir àqueles jovens que agora iniciam a sua aprendizagem de um instrumento e que sonhem com uma carreira musical no futuro?

R.B. – Perseverança e confiança. Uma carreira musical não é nada fácil, tem que se considerar muitos aspectos e ter a certeza absoluta de que é esse o rumo que se deseja. Mas com dedicação, trabalhando com consistência e paixão tudo se alcança.
Mais uma vez obrigada ao XpressingMusic pelo convite e felicitações pelo notável contributo que têm dado para o panorama musical de Portugal. Até breve.

Larose - Barber, 3rd Mov (Live Concert Shangai 2007)

Norablo - Shostakovich, String Quartet No 10, 4th Mov (Live at Queensland Symphony Orchestra Chamber Players Series 2013)

Raquel Bastos - Sonata, Mov 1., Rebecca Clarke

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