O guitarrista Nené Peleira em entrevista ao XpressingMusic

Nené PeleiraLuís Carlos Delgado Peleira, mais conhecido como Nené Peleira, nasceu em Sá da Bandeira, Angola em 1972. Tem formação em guitarra clássica e formação musical mas não só. Também adquiriu formação em áreas como Animação Cultural, Produção e Gestão Cultural e ainda Marketing nas artes do espetáculo. Atualmente assume a direção pedagógica da Escola de Música Musicentro dos Salesianos de Lisboa, cargo que ocupa desde julho de 2013. Nesta entrevista pretendemos conhecer melhor este homem que se divide entre os palcos e as salas de aula.

XpressingMusic (XM) – Nené, muito obrigado por ter aceitado partilhar um pouco do seu tempo com o XpressingMusic e com os seus leitores e seguidores. Em primeiro lugar gostaríamos que nos dissesse como consegue organizar o seu tempo entre as aulas de música e os palcos e o estúdio...

Nené Peleira (N.P.) – Olá, é um prazer estar no XpressingMusic. Posso dizer que não é nada fácil! Dizem que quem corre por gosto não cansa...mas na verdade fica é cansado mais tarde! Só com muitas horas de trabalho diárias e muita organização se consegue conciliar tudo. Para terem uma ideia, num dia normal eu dou 7 aulas de guitarra elétrica seguidas durante a tarde. Logo, se tiver ensaio ou for tocar à noite... facilmente trabalho 13 horas por dia. Isto, durante todo o ano letivo. Para além disso como qualquer instrumentista preciso das minhas horas de estudo... não há portanto muito espaço para o lazer. Tudo isto piora se pelo meio estou a produzir um disco...houve alturas em que dormia 3 a 4 horas por dia durante meses. Hoje já não faço isso como é óbvio, até porque com a experiência acabamos por ser mais eficazes e aprendemos a poupar energia.

Nene PeleiraXM – Ao longo da sua formação, houve algum professor que o tenha marcado e influenciado de forma mais evidente?

N.P. – Como pessoa e obviamente como guitarrista o meu primeiro professor de guitarra elétrica, o Mário Jorge, que infelizmente já faleceu. Um guitarrista de rock "old school", que me abriu os olhos para muita coisa de que nunca tinha ouvido falar. Tenho muita pena de nunca ter conseguido gravar nada com ele. Depois disso estudei durante um período com o Dudas (Ficções) e claro, aquela música era fascinante! Devorava aqueles discos dos Ficções, com o Yuri e o Frazão. Nos anos 80, não havia muita coisa em Portugal, aprendiamos muito a tocar em cima dos discos de que gostávamos e ao vivo, pois havia muitos sítios para tocar, e a ouvir os outros colegas. Apesar de ter estudado o Reportório Clássico, os meus interesses musicais sempre estiveram noutras áreas.

XM – Considera ter sido importante a sua passagem pelo instituto de artes do espectáculo – IAE?

N.P. – Claro que sim, apesar de não ser exatamente a minha área, a formação que fiz com eles ensinou-me a olhar com outros olhos a outra parte do negócio da música. Os empresários, agentes, produtores, etc.

XM – Sabemos que realizou um Workshop de Guitarra Eléctrica na área do Jazz com Joe Diorio. Foi relevante para si esta experiência? O que pensa ter sido mais importante?

N.P. – Em 1997 estive em Los Angels (USA). O curioso foi que quando soube que ia estar em LA, tentei entrar em contacto com a LAMA, escola do Guitarrista Frank Gambale, mas na altura os contactos eram todos mais lentos, a internet estava no início, etc. Quando chegou a altura de ir não tinha resposta da LAMA, e então optei por contactar o GIT (Musicians Institute) para ver se podia ter aulas lá durante aquele período. Como a resposta foi afirmativa, lá fui eu! Acabou por ser melhor porque a LAMA é em Pasadena e o MI é em Hollywood e estava mais perto de casa. Não foi só de Jazz, tive aulas com professores de todos os estilos. Uma das masterclass foi com o Joe Diorio, que era na altura responsável pela disciplina de guitarra. Foi muito interessante e muito importante para o meu método de dar aulas ainda hoje.

XM – O que significam para o Nené nomes como Phil Markowitz, Arnie Lawrence, Ed Neumeister e Jimmy Owens?

N.P. – A primeira vez que ouvi falar deles foi em 1998 num Workshop promovido pela Gulbenkian chamado Jazz em Agosto. Sempre fui um guitarrista de rock/blues e não tinha qualquer ligação ao jazz, como guitarrista. Apesar de não ser instrumentista de jazz, sempre ouvi muito os discos da ECM, a Electric Band, etc. Mas penso que foi a partir desse workshop que me comecei a interessar mais por essa sonoridade como instrumentista.

Nené PeleiraXM – Também estudou guitarra com Mário Jorge e Rui Pereira Dudas. O que "bebeu" desta experiência? Sente que a música que hoje faz transpira aspetos destas práticas?

N.P. – Mais no caso do Dudas, na altura já gostava muito da música improvisada e de outras sonoridades mais orientais das composições do Dudas. Como é óbvio, já ouvia muito Led Zepplin nesse tipo de sonoridades. A música que faço hoje e a liberdade que procuro ao fazê-la vem de 25 anos de palcos, de centenas de concertos e gravações e de partilhar isso tudo com outros músicos. Gosto muito do improviso e da comunicação tanto com o colega de banda como com o público. Para mim é uma alegria muito grande poder tocar ao vivo.

XM – São já muitos os anos que o ligam ao Colégio Salesiano "Oficinas de S. José" de Lisboa. Se tivesse que fazer hoje um balanço de todo o trabalho desenvolvido nesta instituição, quais seriam os aspetos que mais realçaria?

N.P. – O espelho de uma escola e de um professor são os alunos. Nesse sentido, tenho muito orgulho que da nossa escola, o Musicentro dos Salesianos de Lisboa, tenham saído tantos profissionais nestes 20 anos de existência. É incrível que numa escola em que não há pré-requisitos para entrar, haja tanta qualidade e talento.
Alguns exemplos dos alunos de guitarra: João Barbosa (Mafalda Veiga, Paulo de Carvalho, Produtor Musical na Plural), Luísa Sobral, Pedro Pires (Adelaide Ferreira, Gota), Guilherme Marinho (Aurea, Mazelab, Mafalda Arnauth, Sara Tavares, etc), João Diogo Roque, Angelo Freire (Mariza). São muitos mais, e peço desculpa por não poder referenciar toda a gente, que também noutros instrumentos começaram na nossa escola e que hoje são profissionais da música. Mesmo tendo alguns deles completado a sua formação a nível superior no estrangeiro ou no nosso país, o Musicento foi o seu primeiro palco e onde despertou a paixão pela música.
Ter dado um pequeno contributo que seja, para a construção da carreira destes artistas deixa-me obviamente muito orgulhoso. A nossa escola é uma verdadeira escola profissional.

XM – Sabemos que enquanto instrumentista muito há para dizer pois já são bastantes anos ligados a grandes nomes da música portuguesa. Vamos tentar fazer aqui um resumo de alguns dos aspetos que julgamos terem sido os mais marcantes da sua carreira. 1995 é o ano em que tem a oportunidade de participar numa série de concertos, realizados no Aqua parque do Restelo. Pode falar-nos um pouco desta experiência?

N.P. – Foi uma experiência muito engraçada. O Aquaparque estava a promover uma série de concertos com o nome a "Noite do Mito". A ideia era um tributo a grandes nomes internacionais da música. Tocávamos semanalmente reportório de vários artistas, tais como, Rolling Stones, Queen, Led Zepplin e, no último concerto da série, a convite da Warren Music, fizemos o lançamento mundial do album Ballbreaker dos ACDC, que se ligaram connosco via satélite e falaram também com o público presente (isto em todas as cidades da Europa). Tínhamos todos à volta dos 22 anos por isso foi uma grande excitação (risos).

XM – Enquanto compositor, participou na criação da banda sonora do espetáculo "Fragmentos do Quotidiano". de Ana de Morais, apresentado no teatro Mirita Casimiro e Maria Matos. Foi a sua maior participação no âmbito da composição?

Nené PeleiraN.P. – Nem por isso, foi a primeira levada a palco e, por isso, teve uma grande importância para mim na altura. Depois disso gravei um disco de originais com a banda Jade. Em 2003 com o fim dos Jade, fundei os Mazelab com Zé Moreira (baterista), Paulo Ramos (voz) e o Leopoldo Gouveia (baixo). Gravámos 2 discos de originais "Would You" em 2005 e "Evolution" em 2011 misturado pelo João Martins (Resistência, Da Weasel, Xutos & Pontapés, Ala dos Namorados). Os dois discos, felizmente com muito boas críticas, estão disponíveis no Itunes (risos).
O meu trabalho mais importante, enquanto compositor, é o projeto de originais Mazelab.

XM – Como surgiu a possibilidade de integrar em dezembro de 1999 a banda da cantora Lúcia Moniz?

N.P. – A Lúcia estava a lançar o primeiro disco e fui chamado para uma audição pelo guitarrista Armindo Neves, que estava na altura a ajudar a Lúcia a escolher a banda. Toquei um bocado e, felizmente, fiquei eu. Foi um projeto espetacular na altura pois o disco tinha sido produzido pelo Nuno Bettencourt (Extreme) e qualquer guitarrista gostaría de tocar aquelas músicas com aqueles solos de guitarra e ter a oportunidade de privar com o Nuno. Apesar de ser o primeiro disco da Lúcia Moniz, ela sabia muito bem o que queria ouvir em cada música. Lembro-me que os ensaios eram muitos e durante muitas horas, era uma banda incrível ao vivo! Para além de mim faziam parte da formação, o Kevin Figueiredo (hoje nos Extreme), o Miguel Amado no baixo (João Gil), Vitor Machado na voz e guitarra, Rui Almeida nas teclas (hoje no João Pedro Pais). Foi o projeto em que participei como músico convidado, com que mais me identifiquei.

XM – Mas nem só Lúcia Moniz teve o privilégio de contar com a sua participação. André Sardet, Fernando Pereira, Rita Guerra, João Portugal, João Charepe e Padre José Luís Borga são nomes que não esquecerá... Concorda? Fale-nos um pouco de cada uma destas passagens inerentes ao trabalho que desenvolveu com cada um destes artistas.

N.P. – André Sardet... Uma das maiores tourneés nacionais na última década. Tive o privilégio de participar, junto com os meus colegas, nos arranjos e gravação do famoso disco "Acústico" que vendeu perto de 180.000 unidades. Um feito incrível para 2007. O disco foi gravado, salvo o erro, em 2004 e só sai no final de 2006, estando arrumado na gaveta aquele tempo todo! Fizemos mais de 100 concertos, foi muito desgastante para todos, mas tínhamos uma equipa espetacular, desde técnicos, road manager e músicos. Penso que são condições, a todos os níveis, dificeis de repetir. Penso que apesar do desgaste físico e psicológico de uma Tour desta dimensão, todos os intervenientes a fariam novamente com gosto. A banda que acompanhava o André nessa altura era constituída, para além de mim, pelo Miguel Amado no baixo (João Gil), Ruben Alves (Rui Veloso), Manu Teixeira (Percussão), Zé Moreira na Bateria e Patrícia Silveira e Patrícia Antunes nos coros.

Fernando Pereira... Trabalhei com ele em estúdio num disco que gravei para um musical no Coliseu dos Recreios. Foi muito divertido poder assistir de perto, ao que este artista consegue fazer com a voz.
João Portugal... Fiz parte da Tour do tema "Tudo Pode Acontecer" durante dois anos. Apesar de não ser propriamente o meu tipo de música, tive o privilégio de partilhar o palco com grandes músicos como o Ruca Rebordão na percussão (Rão Kyao), Nelson Canoa nas teclas, Nuno Oliveira no baixo, Yami e o Ivo Costa na bateria.

João Charepe : O João Charepe é um grande amigo de infância e um grande escritor de letras. Na altura pediu-me para produzir o disco de originais dele numa sonoridade mais tradicional. Foi uma experiência muito intensa e que me deu muito gozo. Tem a particularidade de ter sido o primeiro disco que produzi.

Por fim, o Padre José Luís Borga é um amigo e uma pessoa muito inteligente e divertida. Foram tempos muito bem passados em estúdio... Chegámos a fazer 1 ano na estrada a promover o CD que produzi para o Padre Borga, "Que Fésta".

XM – Não sei se nos esquecemos de algum projeto relevante que queira aqui lembrar e partilhar com os nossos leitores e seguidores...

MazeLabN.P. – Os projetos mais relevantes, para mim, serão sempre os meus projetos de originais. Tenho 2 discos de originais gravados com os Mazelab e estou a preparar para este ano um projeto novo um pouco mais alternativo. Prometo que darei novidades atempadamente (risos)... Já agora convido todos os leitores a passarem pelas páginas dos projetos em que estou envolvido e colocarem um Gosto!
https://www.facebook.com/pages/Musicentro-Salesianos-de-Lisboa/143743745639323
https://www.facebook.com/pages/Maze-Lab/140432679337046

XM – Gostaríamos de conhecer melhor as suas correntes de pensamento relativamente ao ensino da música... O que pensa da Educação e Formação Musical em Portugal? Nota alguma evolução relativamente ao tempo em que iniciou a sua formação nesta área?

N.P. – A evolução é imensa em termos de oferta. Nos anos 80, não havia em lado nenhum um "Musicentro". Podiamos estudar os instrumentos clássicos ou Jazz no Hot Club mas, se quiséssemos uma formação alargada já era mais difícil.
Relativamente ao ensino da música, acredito muito no que fazemos no Musicentro ao nível do ensino do instrumento. A aprendizagem depende da motivação e na aprendizagem do instrumento musical é ainda mais importante o nível motivacional do aluno.
A melhor maneira de motivar um aluno de instrumento é com a música de conjunto. Se o aluno consegue tocar uma música, porque não experimentar tocá-la com os colegas? Os nossos alunos no primeiro período já estão em palco a tocar com as condições próprias de um concerto.
Também não sou um grande defensor dos Métodos Gordon ou Suzuki. Para mim o melhor método é "O Aluno". O aluno deve ser o objetivo, e não um elemento necessário para se aplicar este ou aquele método, por que senão, teremos o método como fim e não como meio. O professor de música deve ser livre, assim como a música é livre para, ao longo do ano letivo de acordo com as suas capacidades, escolher, mudar ou inventar, o método que lhe parecer adequado para pôr ao serviço do ALUNO.

XM – A entrevista já vai longa e não queremos "abusar" da amabilidade do Nené. Gostaríamos de lhe desejar os maiores sucessos pessoais e profissionais. Há alguns projetos, musicais e pedagógicos, para os próximos tempos que nos possa revelar?

N.P. – Neste momento estou a preparar o ano letivo que está quase a começar no Musicentro e que se prevê de grande atividade a nível de concertos.
De outros projetos que ainda não posso falar, prometo ir informando o XpressingMusic de tudo (risos).

Um abraço a todos e obrigado pelo convite!

Artway
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