Marta Pereira da Costa… A primeira e única guitarrista profissional de Fado a nível Mundial em entrevista ao XpressingMusic.

Marta Pereira da CostaEmbora tenha começado pelo piano aos quatro anos de idade, foi a guitarra que, aos 8, começou a fazer parte da sua vida. Inaugurou este percurso pela guitarra clássica e, aos 18 anos, por influência do pai, inicia-se na Guitarra Portuguesa pela mão de Carlos Gonçalves, guitarrista de Amália Rodrigues. Foi nesta altura que começou a frequentar o Clube de Fado, em Lisboa, o que lhe deu a oportunidade de privar com grandes mestres como Mário Pacheco e Fontes Rocha acabando por acompanhar diversos fadistas de renome que frequentam aquela importante casa de Fado.

XpressingMusic (XM) – Marta, em primeiro lugar desejamos agradecer-lhe a amabilidade demonstrada para com o XpressingMusic concedendo-nos esta entrevista. Ao passarmos os olhos pela sua biografia, fica para nós evidente que a música sempre fez parte de si enquanto ser humano. Concorda? Em criança já se imaginava como artista na área da música?

Marta Pereira da Costa (M.P.C.) – Muito obrigada pelo convite. Sim é verdade que desde pequenina estou ligada à música. Logo no jardim de infância a educadora reparou que gostava muito das aulas de música e com 4 anos comecei a ter aulas de piano. Desde que me lembro adorava brincar ao piano, ouvir música e imitar as melodias. Mais tarde quando o estudo começou a ficar mais sério e precisava de muitas horas de prática, a única coisa que me fazia parar eram as dores de costas senão não saia do piano! Infelizmente interrompi o estudo quando comecei a tocar guitarra portuguesa e fiquei tão deslumbrada com este instrumento que deixei os outros dois de lado. Se pudesse gostava de saber tocar todos os instrumentos! Ainda hei-de aprender violoncelo (risos)

Marta Pereira da CostaXM  Mariza, Katia Guerreiro, Camané e Carlos do Carmo são alguns dos artistas que já teve o prazer de acompanhar... Acreditamos que cada um deles lhe traga sensações, vivências e aprendizagens distintas. Como vão surgindo estas oportunidades de acompanhar nomes tão sonantes e respeitados da nossa música portuguesa e que influências exercem cada um destes nomes na construção da figura da Marta Pereira da Costa?

M.P.C. – São artistas que eu admiro imenso e que felizmente tenho tido o prazer de ir conhecendo e, por vezes, de acompanhar... São grandes embaixadores do Fado, grandes vozes, grandes intérpretes e poder conviver com eles é um privilégio. São experiências enriquecedoras e procuro sempre absorver ao máximo cada uma delas. Sou uma autêntica esponja no que toca a aprender com os outros (risos)... E são estas coisas que nos fazem crescer e evoluír.

XM – Fale-nos também da sua experiência com Mário Pacheco.

Marta Pereira da CostaM.P.C. – Tendo tido como meu primeiro professor o grande guitarrista Carlos Gonçalves, compositor e músico de Amália Rodrigues, foi com outro enorme guitarrista, Mário Pacheco, que comecei a contactar com o meio fadista na sua casa de fados. Foi através dele que conheci a Mariza, o Carlos do Carmo, o Camané, o Carlos Zel, entre tantos outros. Foi ao lado dele que comecei a acompanhar fado, no Clube de Fado. Chegava muito cedo e pedia para me ensinar os fados dessa noite, os acordes e as introduções. Normalmente fazia a 2ª voz nas introduções e acompanhava com acordes arpejados para ir aprendendo a estrutura harmónica dos fados. Mais tarde o Mário começou a ensinar-me alguns temas instrumentais para tocar com ele em concerto. Foi a convite dele que pisei os primeiros palcos e foi com ele a minha primeira internacionalização (a Genéve no ano 2000 ou 2001..). É um músico, guitarrista e compositor que eu admiro imenso e é um privilégio ter dado os meus primeiros passos a seu lado. Sei que posso contar com ele sempre que precisar, é um grande amigo a quem estarei eternamente agradecida pela disponibilidade e interesse em ajudar que sempre demonstrou para comigo.

XM – 2008 foi um ano muito intenso para a sua carreira pois participou a solo num tema do primeiro CD do seu marido, Rodrigo Costa Félix, "Fados d'Alma" e foi convidada pelo conhecido compositor e produtor espanhol Jaime Roldán, para participar na gravação do tema "Pasa" inserido no álbum "Unidad de Canciones Intensivas". Houve ainda tempo para os palcos neste ano, ou foi um ano mais fechada em estúdio?

Marta Pereira da CostaM.P.C. – Em 2008, apesar de já ter tocado em diversos palcos, não considerava que estava a fazer carreira. Ainda em fase de aprendizagem recebi estes dois desafios para os quais não me sentia de todo preparada. Mas não podia dizer que não a nenhuma das oportunidades e por isso o trabalho foi intenso para poder dar a melhor resposta possível. Foram experiências diferentes e muito enriquecedoras. Paralelamente, houve sempre noites de fado e saídas para espetáculos em Portugal e no estrangeiro, a convite do Mário Pacheco e do meu marido Rodrigo Costa Félix.

XM – Em Maio de 2012 participa no primeiro CD da história do Fado em que a Guitarra Portuguesa é tocada em exclusivo por uma mulher. Considera isto um facto histórico que poderá ser rentabilizado em seu favor?

Marta Pereira da CostaM.P.C. – Bem, acho que é um marco na história do Fado e da Guitarra Portuguesa. Fico feliz por ter quebrado essa barreira imposta pela tradição. Foi acima de tudo uma experiência que me permitiu crescer imenso como música, pois partindo do zero de experiência em acompanhar sozinha, tive que pensar nas introduções dos temas, nas frases melódicas e motores de acompanhamento, todo um trabalho que nunca tinha feito sem o mestre ao lado. Como recompensa, foi agora atribuído a este disco o prémio de melhor disco de 2012 pela Fundação Amália Rodrigues.

XM – Iniciou a sua carreira a solo em 2012 tendo-se estreado em Março em Toronto. Como tem sido esta experiência a solo? Tem outras memórias destas aventuras recentes em que também tem tido o prazer de se encontrar com outros grandes artistas da nossa "Praça"?

M.P.C. – Tem corrido muito bem. Desde que comecei a tocar guitarra portuguesa que me interessei muito pelos temas instrumentais de grandes guitarristas que fazem parte da história deste instrumento. Tenho uma admiração imensa pela música de Carlos Paredes, assim como José Nunes, Armandinho, entre outros. E quis estudar o seu repertório escolhendo alguns temas de que gostava. O espetáculo que apresentei em Toronto procurou ser uma viagem pela história da guitarra portuguesa e pelo legado destes mestres, mencionando as minhas referências e influências, desde o estilo de Coimbra ao de Lisboa, dos guitarristas do passado até às minhas influências do presente. No mesmo ano, no âmbito das festas de lisboa, fui convidada para me apresentar a solo, partilhando o cartaz com as minhas referências da actualidade: José Manuel Neto, Ângelo Freire e Ricardo Parreira. Convidei para este concerto no coração de Alfama, fadistas e amigos que admiro: Katia Guerreiro, Marco Rodrigues, Rodrigo Costa Félix e a cantautora Adriana. Foi uma noite inesquecível.

XM – Fale-nos agora um pouco das suas passagens na área da composição para cinema...

Marta Pereira da CostaM.P.C. – Recebi um convite, através de uma amiga em comum, da realizadora Ana Rocha Sousa para fazer uma música para uma curta-metragem, "Minha Alma and You", que era um trabalho de mestrado para o London Film School. Foi quase de um dia para o outro. Nem consegui ir para estúdio... Uma gravação caseira.... Um ano mais tarde, convidou-me novamente mas desta vez para compor a banda sonora de uma outra curta-metragem "No Mar". Para me ajudar neste trabalho convidei o pianista e compositor Rui Gonçalves. Mais uma experiência muito enriquecedora onde aprendi imenso.

XM – Mas nem só pelo cinema tem sido este passeio de sucessos... Pode partilhar com os nossos leitores as suas mais recentes experiências em que alia a música à moda?

Marta Pereira da CostaM.P.C. – Fui convidada, juntamente com o Rodrigo, a participar na campanha internacional da Cortefiel, denominada "Gente con Talento". Foi uma experiência muito interessante esta passagem pelo mundo da moda mas foi principalmente um enorme previlégio sermos os únicos portugueses a fazê-lo. É uma honra, uma marca tão importante como a Cortefiel reparar no nosso trabalho ao ponto de nos convidar para uma campanha desta dimensão.

XM – Em Abril, foi uma das convidadas da Rádio Alfa, em Paris para, junto de Joana Amendoeira e Mafalda Arnauth, atuar na Gala anual de Fado. Sente que isto é o justo reconhecimento por anos de trabalho?

M.P.C. – São pequenos-grandes passos que vou dando e significam que estou no rumo certo. A Rádio Alfa é uma das mais importantes divulgadoras da música portuguesa lá fora e foi com muita alegria que recebi esse convite, para mais, ao lado de duas fadistas tão reconhecidas do grande público como a Mafalda e a Joana.

XM – Espanha, França, Brasil e Estados Unidos são as próximas paragens. Sonha visitar outro país que não estes? Pensa que o género musical ao qual se dedica poderá ser uma mais-valia para a sua internacionalização?

M.P.C. – Sem dúvida. Quero muito levar a minha música, a guitarra portuguesa e o Fado a todo o lado. Sinto-me honrada cada vez que o faço. Como se levasse a nossa bandeira nas costas. Adoro viajar e conhecer outras culturas, tenho a sorte de, com o meu trabalho, o poder fazer frequentemente. E levar a nossa música, a minha música, além fronteiras é um enorme previlégio.

XM – A Marta sente-se um exemplo para outras mulheres? Qual a principal razão que elege para que não haja mais mulheres a dedicar-se a esta vertente da música?

Marta Pereira da CostaM.P.C. – Penso que seja apenas por uma questão de tradição. Não há dúvida de que é um instrumento duro, difícil, por vezes violento, mas não é de todo impossível tocá-lo. Basta gostar-se muito e as dificuldades superam-se. No início, tudo uma questão de prática, de muita dedicação e esforço com o objectivo de descobrir o nosso próprio som, a nossa identidade musical. Depois é viciante! Há um mundo de coisas para aprender, investigar e tocar. É isso que digo às várias mulheres, de todas as idades, que me perguntam se é difícil, se é possível. É difícil, sem dúvida, mas perfeitamente ao alcance das mulheres.

XM – Mais uma vez agradecemos ter aceitado o nosso convite. Para terminar gostaríamos de saber se tem projetos novos para o futuro próximo que possa partilhar com os nossos leitores.

M.P.C. – Tenho vários projetos em curso mas o mais importante de todos será a gravação do meu primeiro cd, que já estou a preparar, com calma e ponderação. Tenho várias composições da minha autoria, algumas terminadas outras ideias ainda por terminar. Quero dar os passos certos no tempo certo e não tenho pressa. Vou trabalhando diariamente com esse objectivo e sei que, com trabalho, posso chegar onde quero.

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