O trompista Ricardo Matosinhos vem ao XpressingMusic

Ricardo MatosinhosRicardo Matosinhos não se limita a tocar, estudar e ensinar trompa. O nosso entrevistado quer fazer chegar bem longe todas as conclusões às quais tem chegado enquanto investigador e intérprete. A trompa enquanto instrumento musical não tem segredos para Ricardo que já é nos dias que correm um dos grandes impulsionadores na divulgação deste instrumento, utilizando para isso todos os meios de que dispõe. Nesta entrevista vamos tentar saber um pouco mais sobre este instrumento e sobre o nosso convidado.

XpressingMusic (XM) – Ricardo, agradecemos muito o facto de ter aceitado o nosso convite. Começamos por lhe perguntar o que significou para si trabalhar com nomes como Ivan Kučera e Bohdan Šebestik. Influenciaram-no muito enquanto músico e instrumentista?

Ricardo Matosinhos (R.M.) – Começo por agradecer o convite do XpressingMusic, cuja existência devo confessar que desconhecia por completo. Após ter consultado o vosso site, pude verificar que é, de facto, uma mais-valia para o mundo da música, possuindo já um número considerável e crescente de informação.

Em relação à questão que me colocaram, o professor Ivan Kučera foi como um pai musical para mim uma vez que me ajudou a dar os primeiros passos neste belo instrumento, que muitos consideram como um dos mais difíceis de executar. A prova de que foi um excelente professor constata-se exatamente pelo facto de eu enquanto aluno no início da minha aprendizagem não ter sentido isso. Hoje vendo a trompa com outros olhos, apercebo-me da tremenda dificuldade que este instrumento oferece aos principiantes. Nos primeiros anos de aprendizagem frequentava a escola de segunda a sábado e apenas via os meus pais ao fim de semana, assim sendo, o professor Ivan e outros docentes da Escola Profissional de Arte de Mirandela desempenharam um papel, que vai muito para além do de "meros" professores. Por exemplo: com o professor Ivan visitei sítios em Portugal que não conhecia, fui incentivado a assistir a concertos, a participar em concursos e masterclasses em Portugal e República Checa. Muito antes de, nos meandros da Educação Musical, se falar em componentes não letivas, já o professor Ivan fazia tudo o que achava necessário para a minha formação enquanto músico e pessoa. Mantenho bastante contacto com o Professor Ivan e ainda hoje trocamos experiências dentro e fora do mundo da música.

Inicialmente a minha entrada para a Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (Porto) para trabalhar com o Bohdan Šebestik foi um choque. Já que deixava de ser um aluno finalista numa escola em que havia sempre alguém a organizar a minha forma de trabalhar, e passava a ser um caloiro, numa nova escola em que tinha que aprender ser autónomo. O professor Bohdan, com toda a sua influência do rigoroso mundo do Aikido e Aviação, soube transmitir-me a disciplina necessária à aprendizagem da trompa, bem como, preparar-me para a derradeira fase de aprendizagem. A meu ver começa-se verdadeiramente a aprender seja no mundo profissional, na performance ou ensino quando se fica entregue a si próprio. Nessa altura foi essencial para mim rever todos os ensinamentos destes dois professores, bem como, as influências oriundas de diferentes masterclasses e descobrir o que é, afinal, a trompa. Na minha opinião, a aprendizagem começa aí e é extremamente importante, nessa altura, estar munido de ferramentas que possibilitem vingar no mundo da música. Do professor Ivan herdei a sede de conhecimento e do professor Bohdan a disciplina e rigor na preparação musical. Sem dúvida alguma, que estes dois professores moldaram o que sou hoje. É inegável que indiretamente transmito esses ensinamentos para os meus alunos acrescentando as minhas próprias ideias que entretanto se foram formando.

XM – Sabemos que tem recebido vários prémios que mais não são do que o justo reconhecimento do seu valor. Pode falar-nos de alguns desses prémios? Quais tiveram um maior significado para si?

R.M. – O Prémio Eng. António de Almeida e o Prémio Rotary Club Porto Foz / Veloso & Troca foram uma surpresa no final da minha licenciatura, uma vez que, não estava à espera. Foram ambos atribuídos graças ao meu percurso académico tendo sido integralmente investidos em bibliografia de temáticas musicais, em especial e como não podia deixar de ser, sobre trompa. O Prémio Jovens Músicos em 2007 foi uma vitória pessoal, numa fase em que já me encontrava a lecionar. Os professores começavam, nessa altura, a ser massacrados com burocracias e o concurso foi o objetivo ideal para me manter em forma. Embora nem toda a gente partilhe desta opinião, creio que para alguém lecionar um instrumento musical terá de ser igualmente capaz de o executar de uma forma exímia, para de seguida ir ao encontro das melhores formas de transmitir esse conhecimento. A riqueza da aprendizagem musical nasce precisamente da fusão entre a teoria e a prática.

XM – Em que altura da sua vida se começou a interessar pelo Jazz?

R.M. – Tendo tido uma formação convencional e sendo a trompa um instrumento que habitualmente não trilha os caminhos do Jazz, o meu principal interesse foi mera curiosidade. No seguimento da minha licenciatura adquiri uma trompa natural e tentei aprender a tocá-la por minha conta e frequentando masterclasses. Não para me tornar um especialista em música antiga mas sim para conhecer as características do instrumento, ir ao encontro das suas raízes e tentar perceber de que forma estas se podiam relacionar com a performance num instrumento moderno. O interesse pelo jazz surgiu na mesma altura e pela mesma razão, já que ao terminar a licenciatura me coloquei a seguinte questão: “E agora?” Tive algumas aulas com o saxofonista Mário Santos que me deu a conhecer o mundo do jazz e pude de imediato constatar que a minha formação não estava completa. A formação de um músico da área Clássica incide maioritariamente nos cânones da dita música clássica no mundo ocidental, quase como se tudo o resto fosse tabu. É um facto que no século XX os diferentes géneros e estilos musicais se fundem e é importante ter algumas noções da música do “Novo Mundo” para se poder interpretar música desta época. No mundo do jazz tomei consciência da verdadeira harmonia que rege os sons e, de repente, conjuntos de notas até então sem sentido começaram a ser agrupadas em escalas e acordes. Além disso, como é que alguém pode concluir um curso de música e não saber sequer o básico de uma improvisação?

XM – A sua participação em Masterclasses e Workshops em Portugal e no Estrangeiro é o espelho da importância que atribui à formação contínua que deve estar subjacente à postura de qualquer músico profissional?

R.M. – Costumo dizer aos meus aluno que há uma fase da vida em que nos podemos concentrar apenas em aprender mas, enquanto músicos iremos trabalhar e aprender durante toda a vida, sendo que até mesmo às portas da morte, se sobrarem mais 5 minutos, poderemos ainda descobrir como resolver uma passagem musical que nos atormentou toda a vida. É importante, portanto, que durante a formação inicial o aluno tenha acesso à mais variada paleta de opiniões musicais de modo a facilitar todo o seu processo de aprendizagem. No meu caso pessoal, o meu primeiro masterclass, na altura com 12 anos de idade, estava a 8 horas de viagem de autocarro, e nem mesmo o facto de viver em Trás-os-Montes me impediu de o incluir na minha formação. Dos primeiros masterclasses aparentemente pouco ficou mas de repente dou por mim, hoje em dia, a recordar ensinamentos passados e a dar-lhes o correto significado como se de peças de um puzzle, que finalmente se encaixam no devido lugar, se tratasse. Nos masterclasses e workshops aprendem-se novas abordagens a técnicas, muitas vezes, conhecidas mas como não há duas pessoas iguais, um novo ponto de vista pode fazer a diferença entre o saber e o compreender. Assim como existem inúmeras formas de entoar os seguintes versos: “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!” e cada uma delas, embora gramaticalmente correta pode chegar mais facilmente ou não aos ouvidos, às mentes, ou aos corações do público. Também na música se pode tocar todas as notas, com o ritmo correto, articulações e dinâmicas de acordo com o que foi expressamente solicitado pelo compositor e, mesmo assim, não fazer música. Um músico como qualquer outro profissional não deve fechar-se sobre si mesmo, julgando-se o detentor de todo o saber, mas deve estar aberto a outros pontos de vista, outros olhares, que por vezes, transformam radicalmente a interpretação da mesma obra.

Ricardo MatosinhosXM – Para além dos Workshops e Cursos de Aperfeiçoamento que tem ministrado em várias escolas do país, é também autor de materiais pedagógicos para o ensino da trompa, publicados pela AvA Musical Editions e pela Phoenix Music Publications. Partilhe connosco um pouco deste seu trabalho enquanto autor.

R.M. – Desde os meus tempos de aluno que sempre me interessei pela composição e desses tempos apenas sobreviveram alguns esboços académicos. No contexto do ensino, os problemas que os alunos iam revelando levaram-me ao encontro de várias soluções, que um dia resolvi começar a escrever em livro. O estilo jazzístico é muitas vezes utilizado por mim nesses trabalhos para facilitar a assimilação de conhecimentos, da mesma forma que alguns comprimidos com um sabor amargo podem ser mais facilmente ingeridos com um saboroso sumo de laranja. Não me considero um compositor. Sou um professor de trompa, um instrumentista, cujo profundo conhecimento do instrumento me oferece bastantes vantagens ao nível da escrita pedagógica. A criatividade nasce do caos pois se todos os dias trilharmos os mesmos caminhos, não encontraremos a resposta, ainda que esta esteja mesmo ao nosso lado. Ao invés de me sentar numa mesa e me obrigar a escrever, deixo que as ideias venham a até mim. Curiosamente estas surgem nos momentos mais inesperados, por exemplo: durante a noite quando reina o silêncio total ou, por vezes, dou por mim numa fila de trânsito, com um longo caminho pela frente, cheio de ideias mas sem forma de escrever. Nessas alturas um telemóvel pode ser o suficiente para gravar um esboço do que será a obra completa. A possibilidade de ver as minhas obras publicadas na Phoenix Music Publications, editora muito conhecida no mundo da trompa, surgiu depois de um excelente comentário que foi feito ao meu primeiro livro de estudos. A AvA Musical Editions surgiu um pouco depois e desta ligação já surgiram muitas ideias, que em breve, darão mais alguns frutos. É de louvar o trabalho que tem desenvolvido, sendo atualmente das poucas editoras portuguesas que continua a sobreviver à crescente pirataria que todos os anos coloca fora de impressão obras importantíssimas.

XM Também está ligado à criação de sites. Este seu lado tecnológico revela a sua vontade de partilha do conhecimento e de promotor de novas aprendizagens no que concerne ao estudo da trompa?

R.M. – A tecnologia é também uma paixão antiga, mas que ao contrário da música provém de uma via autodidata. Criei o meu primeiro site em 1997 e, desde então, estou ligado à criação de inúmeros sites no mundo da música e não só. Entretanto, a vida profissional não me permitiu dedicar a todos eles. Contudo, atualmente para além do meu site pessoal (http://www.ricardomatosinhos.com) continuo a administrar mais alguns sites tais como O Portal dos Trompistas (http://www.trompista.com), que nasceu em 2004 e desde a sua criação teve como intuito ser um ponto de encontro de trompistas que falam a língua de Camões. É frequentado por inúmeros utilizadores, na sua maioria portugueses e brasileiros, que partilham novidades, colocam questões e pedem opiniões. Enquanto aluno sempre senti necessidade de um espaço como este em língua portuguesa e, assim, que tive oportunidade deitei “mãos à obra” e criei este site. Já o caso do http://www.hornetudes.com nasceu no seguimento da dissertação de Mestrado que apresentei em 2012 à Universidade Católica Portuguesa. Na minha opinião, o conhecimento de nada serve se não for partilhado e o próprio conceito de Universidade só faz sentido quando colocado ao serviço da comunidade. Assim sendo disponibilizei neste site grande parte da informação da minha dissertação, propiciando uma mudança de mentalidades facilitando assim o acesso a professores, cientificamente informados, que desta forma, poderão mais facilmente adequar os materiais pedagógicos à sequência de aprendizagem e às necessidades técnicas e interpretativas de cada aluno.

XM – O seu trabalho de investigação "BIBLIOGRAFIA SELECIONADA E ANOTADA DE ESTUDOS PARA TROMPA PUBLICADOS ENTRE 1950 E 2011" nasce da sua vontade de situar o estado da arte relativamente ao instrumento em causa?

R.M. – Quando tive de escolher uma temática para a minha investigação sabia que tinha pela frente muito trabalho e um investimento colossal. Não me identificava com nenhum tema que originasse um mero trabalho académico passível de ficar perdido e esquecido numa prateleira de uma estante. Então decidi-me por um tema que pudesse ser aplicar de imediato na minha sala de aula. Uma vez que, os programas de instrumento utilizados em Portugal se encontram profundamente desatualizados, mais do que criticar decidi investigar. Assim que houver vontade política está lançado um dos pilares da criação de um programa nacional. E, pela primeira vez, ao invés de realizar um programa com conteúdos programáticos que existem na biblioteca da escola, pelo menos no caso dos estudos, pode ser tida em consideração uma investigação científica.

XM – Onde se encontra a lecionar neste momento da sua vida?

R.M. – Atualmente encontro-me a lecionar na Academia de Música de Costa Cabral, no Centro de Cultura Musical e na Escola Profissional Artística do Vale do Ave.

XM – Enquanto músico, alguma vez se sentiu limitado por se encontrar num país pequeno como Portugal?

R.M. – Portugal não é um poço de oportunidades musicais uma vez que não existe uma tradição musical. As orquestras são poucas, os apoios à cultura são diminutos e prevendo o desenrolar da conjuntura atual, não acredito em mudanças num futuro próximo. Contudo, todos os países se queixam do mesmo, mesmo aqueles que possuem uma tradição musical. Convém frisar que Portugal já cresceu culturalmente e que estão a ser edificados os pilares da tradição musical, contudo sinto que provavelmente já não estarei por cá quando a obra cultural portuguesa estiver concluída.

XM – Considera ter havido uma grande evolução no ensino da trompa em Portugal nestas últimas décadas?

R.M. – Quando comecei a estudar trompa, em 1994 o meu primeiro professor veio propositadamente da República Checa para lecionar este instrumento a apenas dois alunos! Ele costumava dizer que em Trás-os-montes éramos só nós e os lobos. Atualmente todos os anos concorrem ao ensino superior cada vez mais trompistas, ainda mais bem preparados do que no ano anterior e já se começam a encontrar no mercado de trabalho, trompistas portugueses que estudaram com portugueses, criando assim uma escola nacional de trompa.

XM – Quando produz material didático para trompa, tem em mente as crianças e os jovens enquanto aprendentes? Quantas obras didáticas produziu até ao momento? Onde poderemos adquirir estas obras?

R.M. – Os materiais didáticos que escrevi estão pensados para diferentes níveis, já foram tocados por crianças de 6 anos e por profissionais. Tenho sempre o cuidado de escrever algumas palavras sobre cada um destes materiais pois tal como um medicamento, quando tomado sem prescrição médica ou de forma contrária às indicações terapêuticas, pode ter resultados contrários aos inicialmente propostos assim acontece com a aprendizagem da trompa. Até ao momento produzi um livro para a iniciação, um guia de bolso para servir de referência aos alunos, três livros de estudos dos quais apenas um está publicado, um livro de exercícios que também aguarda publicação e um conjunto de 3 suites para trompa e piano que estão em fase de revisão.

As minhas obras podem ser adquiridas nos sites das respectivas editoras: AvA Musical Editions  http://www.editions-ava.com/, Phoenix Music Publications  http://www.phoenixmusic.nl/ ou em qualquer casa de partituras.

XM – Agradecendo-lhe mais uma vez a amabilidade demonstrada para com o XpressingMusic, gostaríamos, como última questão, que nos falasse um pouco dos seus projetos para o futuro.

R.M. – Como projetos futuros anseio pela publicação de 2 livros de estudos, que se encontram em fase final de produção, aos quais se seguirá uma competição internacional em que trompistas poderão concorrer, bastando para isso gravar para o YouTube um ou mais estudos dos que escrevi. Depois de devidamente analisados, os vídeos selecionados serão votados no Facebook. Pensado, já há alguns anos, encontra-se em fase inicial de criação um colossal livro de exercícios para trompa, que visa adicionar variedade ao estudo da mesma, evitando assim a monotonia, incluirá também uma secção dedicada à forma de trabalhar. Os estudos para trompa também não ficam por aqui, já escrevi mais alguns que, quem sabe, um dia possam vir a integrar um 4º livro. Há também uma parceria com uma empresa de software de Vancouver, da qual resultará uma aplicação para diapositivos móveis criada com o intuito de ajudar instrumentistas de metal a trabalhar buzzing (vibração labial).

De bom grado acedi ao vosso convite por ser um projeto merecedor do meu profundo respeito e reconhecimento. Numa altura em que em todos os meios de comunicação social falam de crise, é bom contar com iniciativas como o XpressingMusic para promover o conhecimento musical e contradizer a ideia de que os músicos sabem única e exclusivamente tocar instrumentos musicais. Com projetos como o XpressingMusic poder-se-á ajudar a contrariar esses falsos conceitos solidificando a posição da música e dos músicos na sociedade Portuguesa.

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