Graça Boal Palheiros em entrevista ao XpressingMusic partilha alguns dos seus pontos de vista relativamente à Educação Musical em Portugal

Graça Boal PalheirosSão inquestionáveis os contributos que tem vindo a dar à Educação Musical, bem como a visibilidade que tem tentado atribuir a esta disciplina. Com formação em psicologia, piano, pedagogia musical e com a consciência e competência próprias de quem trilhou o seu caminho sempre atenta às realidades vivenciadas noutros países, Graça Boal Palheiros, que fez parte do seu percurso académico na Bélgica e no Reino Unido, vem partilhar com os leitores e seguidores do XpressingMusic um pouco das suas experiências e das posições que tem vindo a assumir na luta pela democratização do ensino da música em Portugal.

Começando por agradecer o facto de ter aceitado o nosso convite, gostaríamos de iniciar a entrevista com a seguinte questão: Sente que estes anos foram anos de progresso relativamente à consciencialização que se impunha à(s) sociedade(s) no que concerne ao lugar autêntico que a Educação Musical deve ocupar na escola e nos currículos?
Tenho a sorte de pertencer a uma geração que cresceu com o nosso país. Como aluna do ensino secundário, numa cidade em que não existia uma única escola de música, participei no fascinante período que se seguiu à revolução de Abril, descobrindo a vida democrática, na escola e fora dela. Estou consciente das rápidas e profundas transformações que, nas últimas décadas, têm ocorrido na educação e na cultura e, em particular, na música. O interesse das crianças e dos jovens pela aprendizagem da música tem crescido, muitos pais procuram proporcionar aos seus filhos essa aprendizagem e inúmeras escolas de música foram sendo criadas, quer por iniciativa privada, quer por entidades públicas, locais e regionais. A década de 1980 conheceu reformas significativas no ensino especializado de música, no ensino genérico e no ensino superior, com a criação de Escolas Superiores de Educação e Escolas Superiores de Música nos Institutos Politécnicos, Departamentos de Música nas Universidades, e Escolas Profissionais Artísticas; e ainda com a implementação de novos currículos e programas, visando um claro progresso na quantidade e qualidade da educação musical. No Ensino Básico, obrigatório e acessível a todas as crianças, o estatuto da Educação Musical e a perceção que os alunos, as famílias, a escola e a sociedade têm da disciplina, sofreram uma evolução muito positiva, sobretudo a nível do 2º Ciclo. De facto, para a maioria das crianças portuguesas, os 5º e 6º anos de escolaridade são os únicos anos em que têm acesso à disciplina de Educação Musical lecionada por professores especialistas. A presença da educação musical no 3º Ciclo tem sido bastante frágil, dado o seu carácter de disciplina opcional e o número reduzido de escolas que a oferecem. No 1º Ciclo, lecionado por docentes generalistas, com exceção de alguns projetos musicais promovidos por entidades locais, a educação musical foi praticamente inexistente, até à criação das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC), em 2006, que tornaram o ensino da música acessível a milhares de crianças, nas escolas públicas. Apesar das imensas dificuldades na implementação das AEC, devidas sobretudo à falta de docentes qualificados, são já visíveis alguns efeitos positivos desta medida no desenvolvimento musical das crianças, nos casos em que a legislação é cumprida, e a AEC Ensino da Música é lecionada por docentes de música qualificados. Na educação pré-escolar, alguma prática musical vai sendo realizada pelos educadores de infância, muito menos pressionados do que os professores do 1º Ciclo, para a obtenção de sucesso nas disciplinas ‘nucleares’ do currículo. Em resumo, um longo caminho foi percorrido desde as antigas aulas de Canto Coral, que tão negativas memórias deixaram em muitas gerações de alunos, até à Educação Musical na atualidade. É gratificante observar a prática musical realizada hoje nas escolas, quer na sala de aula, quer em clubes de música, grupos corais e instrumentais e projetos musicais e educativos que, com grande criatividade e dedicação de professores e alunos, vão sendo realizados nas escolas e comunidades, por todo o país.

Enquanto docente e coordenadora do Mestrado em Ensino de Educação Musical, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, presenciou a evolução da identidade do professor de Educação Musical. Pode falar-nos um pouco dos avanços, se considerar que existiram, na formação de professores de Educação Musical em Portugal dos anos 80 até ao presente?
À evolução na educação musical não é seguramente alheio o grande investimento realizado na formação de professores de música, tanto na formação inicial ministrada em instituições de ensino superior, como na formação contínua, promovida sobretudo por associações e outras entidades não-governamentais. No início dos anos 1980, a carência de professores de música qualificados era um dos principais problemas no ensino. Apenas 25% dos docentes de Educação Musical eram profissionalizados, sendo esta percentagem bastante inferior à dos restantes grupos de docência. O modelo de formação inicial assentava na formação inicial em música, obtida nos conservatórios, e a formação em serviço (estágio, profissionalização), adquirida posteriormente pelos docentes nas escolas. O ponto de viragem na formação inicial de professores de música para o Ensino Básico ocorreu realmente em meados da década, com a criação de licenciaturas em ensino de Educação Musical, nas Escolas Superiores de Educação dos Institutos Politécnicos. Estes cursos são baseados num modelo integrado de formação, englobando formação musical, ciências da educação e prática pedagógica realizada em escolas do Ensino Básico, ao longo dos quatro anos de duração do curso. Conferindo um grau académico de nível superior, esta formação representou um avanço significativo na qualificação académica e profissional dos docentes e terá certamente contribuído para o desenvolvimento da identidade do professor de Educação Musical. Por outro lado, a oferta de formação contínua tem tido um papel inestimável na melhoria da formação de professores de Educação Musical, desde os anos 1960. A Fundação Calouste Gulbenkian que, ao longo de cinco décadas, tem desempenhado um papel preponderante na vida cultural e musical portuguesa, promoveu numerosos cursos para professores. É também de salientar o papel da Associação Portuguesa de Educação Musical na realização de Encontros, Seminários e Cursos e na edição da Revista de Educação Musical, e o da Associação Wuytack de Pedagogia Musical, na promoção de Cursos de Pedagogia Musical e na publicação de materiais didáticos para o ensino da educação musical. Nos últimos anos, várias instituições culturais têm também contribuído para diversificar a oferta de formação contínua de professores, através dos seus serviços educativos, que colaboram ativamente com escolas e comunidades locais.

No seguimento da questão anterior, considera que nos dias que correm ainda temos perfis de professores de Educação Musical muito díspares nas escolas portuguesas?
Uma questão sobre as escolas portuguesas, que englobam o ensino genérico e o ensino especializado de música, público e privado, exigiria uma resposta muito longa. As várias gerações de professores têm perfis diversos, em resultado dos diferentes modelos de formação que foram existindo. Atualmente, os jovens estudantes têm acesso a uma oferta mais diversificada e de maior qualidade em ambos os tipos de ensino, fruto da maior formação e qualificação dos seus professores, obtida em Portugal e no estrangeiro. Existem também muito mais oportunidades para a prática musical, promovidas nomeadamente, por autarquias que, ao longo dos anos, expandiram a sua oferta cultural, em festivais, concertos, e outros eventos. E não podemos esquecer o papel fundamental das bandas filarmónicas e de outros grupos musicais locais na formação musical dos jovens. Os professores têm, de facto, perfis diversos, mas não creio que isso seja negativo. Pelo contrário, a diversidade, baseada na variedade de culturas e práticas musicais de professores provenientes de diferentes escolas e regiões, constitui uma riqueza e pode ser um contributo valioso para a Educação Musical.

Podemos dizer que é uma pessoa imbuída de um grande espírito de missão? Fundamentamos a nossa questão em evidências tais como a sua ligação à fundação de estruturas tão importantes como a APEM - Associação Portuguesa de Educação Musical – e a AWPM – Associação Wuytack de Pedagogia Musical.
Acho que sim, em criança já participava com os meus pais em ações de voluntariado e fiquei com esse gosto de contribuir com o meu trabalho para diferentes projetos. A APEM foi fundada em 1972, em Lisboa, pela professora Maria de Lurdes Martins, figura pioneira na educação musical no nosso país. Fui membro da Direção em 1997-1999, a convite da professora Graziela Cintra Gomes, então presidente da APEM. Em 2004, num período difícil da Associação, incentivei alguns colegas que já tinham participado em Direções anteriores, como as professoras Elisa Lessa e Manuela Encarnação, e candidatámo-nos à Direção, porque sentimos que tínhamos de continuar o trabalho da APEM em prol da educação musical. E assim completei quatro biénios, três dos quais como presidente, até Novembro de 2012.
A Associação Wuytack de Pedagogia Musical foi fundada por minha iniciativa em 1992, no Porto, com a finalidade de dar continuidade aos Cursos de Pedagogia Musical orientados pelo professor belga Jos Wuytack (com uma tradição de duas décadas, significativa na formação contínua de professores) e divulgar a sua obra musical e pedagógica em Portugal. Pela sua regularidade, qualidade e descentralização geográfica (dezenas de cursos tiveram lugar em Lisboa, Porto e outras localidades), esta formação tem contribuído para o desenvolvimento dos profissionais da educação musical. Outros projetos englobam a edição de livros didáticos e canções e peças instrumentais para crianças e jovens, incluindo música portuguesa, bem como a realização de concertos e edição de CDs, interpretados por grupos vocais e instrumentais de várias escolas do país.
Para além destas duas associações, nos últimos anos integrei a Direção e a Comissão Executiva da ISME - International Society for Music Education (Sociedade Internacional de Educação Musical), e faço ainda parte da sua Comissão de Investigação. Nesta associação, pude colocar em prática a minha experiência anterior e adquiri também uma perspetiva internacional das questões atuais da educação musical que, a par da perspetiva nacional, tem sido extremamente enriquecedora para o meu desenvolvimento pessoal e profissional.

Jos Wuytack é certamente um nome importante na sua vida. Pode dizer-nos quais os principais contributos que extraiu desta convivência para as suas práticas e reflexões?
Jos Wuytack é, sem dúvida, um nome importante na minha vida, tendo contribuído para a minha decisão de enveredar pela carreira docente. Enquanto estudante na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto e no Conservatório de Música do Porto, frequentei um curso de Pedagogia Musical orientado por Jos Wuytack, em que participavam cerca de 70 professores de música. Fiquei absolutamente fascinada com o conteúdo prático do curso (cantámos, tocámos, ouvimos música, improvisámos, dançámos), mas sobretudo com a sua musicalidade e criatividade, a sua paixão pela música e pelo ensino, a sua personalidade e o seu modo de comunicar e ensinar, que transmitiam uma energia e uma alegria contagiantes, envolvendo todos os formandos numa experiência musical de grupo extraordinariamente significativa e, por isso, inesquecível. Passados muitos anos, sei que partilho este entusiasmo com milhares de professores de música, nos numerosos países onde Wuytack tem motivado e inspirado os docentes, na tarefa de educarem musicalmente os seus alunos. Como formadora de futuros professores de educação musical, tenho refletido sobre a relevância dos princípios pedagógicos e metodologias que assimilei e a necessidade de desenvolvimento de competências musicais e pedagógicas, atitudes e valores, e tenho partilhado com os estudantes a importância de promovermos experiências musicais significativas para os alunos.

O CIPEM é um espaço reflexivo por excelência… É neste contexto que confronta a praxis com a teoria?
O CIPEM - Centro de Investigação em Psicologia da Música e Educação Musical, sediado na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, tem sido um espaço fundamental de investigação e reflexão, tanto para os docentes de Música, como para os estudantes. Os seminários e conferências que realizámos e as Revistas que editámos, bem como os projetos de investigação em que temos estado envolvidos, têm proporcionado excelentes oportunidades de conhecimento, formação e intercâmbio com outros docentes e investigadores. Considero também que é um privilégio, a possibilidade de consultar livros e publicações periódicas internacionais de referência na biblioteca do CIPEM, no meu local de trabalho. Neste contexto, penso que é verdadeiramente estimulante o confronto entre teorias e práticas da educação musical. Por um lado, a investigação tem-me permitido refletir sobre teorias do desenvolvimento e da aprendizagem musical do ser humano. Por outro lado, a supervisão da Prática Educativa da educação musical realizada pelos estudantes nas escolas e noutros contextos educativos, tem-me permitido contactar regularmente com a realidade e refletir sobre questões práticas, a partir das quais podem surgir novas questões. Os estudos de investigação que estamos a realizar atualmente, propostos pela Diretora do CIPEM, sobre o impacto de projetos musicais de intervenção social e comunitária, têm facultado uma reflexão sobre as diversas funções da educação musical em diferentes contextos.

Por mais metodologias, teorias e práticas com as quais tem contactado e aprofundado, podemos afirmar que o cerne da sua ação enquanto docente-investigadora é a criança… Concorda? E já agora… Considera que uma criança que não tenha acesso a uma educação musical orientada desde cedo crescerá com lacunas que a tornarão no futuro um ser humano “incompleto”?
Sim, a maioria dos estudos que tenho realizado têm focado, direta ou indiretamente, o desenvolvimento musical das crianças. Na investigação que realizei em Londres sobre ‘Ouvir música em casa e na escola’, entrevistei 120 crianças e adolescentes portugueses e ingleses, sobre a importância da música na sua vida do dia-a-dia nesses dois contextos, casa e escola. Interessaram-me sobretudo as funções da música nos diferentes contextos e as perspetivas dos participantes sobre as razões porque ouvem música, as suas preferências musicais, e os modos como ouvem e como estabelecem interações sociais através da música. Noutros estudos, analisei as respostas cognitivas e emocionais das crianças à música de diversos estilos, e ainda os efeitos de metodologias ativas de audição musical na aprendizagem da música. Quanto à segunda pergunta, a extensa investigação realizada até à data salienta a importância da exposição precoce à música para a saúde e o bem-estar da criança e destaca os inúmeros benefícios da educação musical no desenvolvimento cognitivo, emocional e social da criança e no seu aproveitamento escolar. Ambos os processos de aprendizagem, aculturação e treino, são importantes para o desenvolvimento musical e geral da criança. Assim, acredito que uma criança que tenha acesso à música desde cedo tornar-se-á, no futuro, um ser humano mais completo.

Muitas outras questões teríamos para lhe colocar mas, tendo consciência dos vários planos em que se movimenta em prol da música e da educação musical, e que lhe deixam certamente algumas limitações de tempo, deixamos-lhe só mais algumas questões em jeito de desafio, reiterando o nosso agradecimento por ter acedido ao nosso convite. O que augura para os tempos que se avizinham relativamente à educação musical em Portugal? Terão os seus profissionais condições anímicas para a defender depois de anos em que a luta parece não ter colhido os frutos espectáveis? Estará a nossa sociedade predisposta às razões emanadas no sentido de justificar a pertinência da música na formação do indivíduo? E os nossos governantes estarão “harmonizados” no sentido de reconhecer esse valor?...
Agradeço esta oportunidade de reflexão sobre a situação atual e futura da educação musical em Portugal. Na primeira resposta, referi alguns aspetos da enorme evolução da educação musical nas últimas décadas, num contexto de desenvolvimento geral da música e da educação. É, por isso, desconcertante e desanimador, assistirmos à drástica redução das disciplinas de educação musical no currículo do Ensino Básico, como consequência da reestruturação curricular decretada pelo Ministério da Educação e Ciência, em 2012. É surpreendente que governantes com formação académica não pareçam ter ainda consciência do valor da música na educação e dos seus benefícios para o desenvolvimento humano, quando este valor tem sido amplamente divulgado internacionalmente, não apenas por especialistas e investigadores em contextos académicos, mas também ao público, em geral. Acredito que os cidadãos portugueses e os profissionais, em particular, continuarão a mobilizar-se, a fazer-se ouvir e a dar a ouvir a música que se faz nas escolas, para justificar a pertinência da educação musical no currículo escolar. Gosto de pensar na educação a longo prazo e creio que esta visão é imprescindível para planearmos o futuro. Por isso, acredito que, apesar das dificuldades atuais, é importante continuarmos a desenvolver a educação musical, pois ‘Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…’

Graça Boal Palheiros

Doutorada em Psicologia da Música pela Universidade de Surrey Roehampton (Londres) e mestre em Educação Musical pela Universidade de Londres. Docente na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, coordena o Mestrado em Educação Musical. Diretora da Revista de Educação Musical, foi presidente da APEM-Associação Portuguesa de Educação Musical (2006-2012), membro da Direção da ISME-International Society for Music Education (2008-2012) e da sua Comissão de Investigação. Cofundadora e presidente da Associação Wuytack de Pedagogia Musical, coordena a formação docente e projetos musicais e editoriais. Membro do CIPEM-Centro de Investigação em Psicologia da Música e Educação Musical e do CIEC (Universidade do Minho). Desenvolve investigação sobre audição e educação musical. Tem publicado em vários países (Bélgica, Brasil, Espanha, Estados Unidos, Lituânia, México, Portugal e Reino Unido), e apresenta regularmente comunicações em conferências nacionais e internacionais.

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