O Baterista/Percussionista Urbano Oliveira em entrevista ao XpressingMusic

Urbano Oliveira @ XpressingMusicNasceu em Lisboa e iniciou a sua carreira aos 17 anos como baterista no grupo de música rock "OS GATOS NEGROS". Urbano Oliveira vem ao XpressingMusic partilhar um pouco das suas experiências em projetos que vão desde o rock ao jazz, passando também pela música africana. Na área da pedagogia tem aparecido ligado a inúmeros eventos de reconhecido valor nacional e internacional. É membro do PAS-Pecussive Arts Society e da Associação Portuguesa de Musicoterapia. O nosso entrevistado é ainda responsável e precursor do projeto Recreational Musik Making em Portugal, desenvolvendo um trabalho para todas as idades no âmbito da educação, "ocupação de tempos livres", com grupos sociais e empresarias, e na esfera da musicoterapia. Urbano Oliveira é diretamente apoiado por vários músicos americanos e participou na "Rhythical Alchemy Playshop".

XpressingMusic (XM) – Urbano Oliveira, agradecemos o facto de nos conceder esta entrevista. Podemos começar pelo Hot Clube. Considera que a frequência da escola do Hot Clube de Portugal, do qual sabemos ser membro desde 1967, foi muito importante para a sua formação enquanto baterista?

Urbano Oliveira (U.O.)  Eu é que agradeço imenso a oportunidade que me dão para falar das minhas experiências musicais e sociais.

Para a minha formação como baterista não. Foi um período curto e rudimentar. Poucos livros, poucas pessoas aptas e disponíveis que os interpretassem bem e, não havia DVD´s, Internet, Youtube, enfim, um cortejo de informação inimaginável nesse período.

XM – Em 1978, toca e grava com a primeira Big Band formada no Hot Clube. É algo que recorda com muito orgulho… concorda?

U.O. Sim, proporcionou-me a oportunidade e o prazer inesquecíveis que era concretizar um dos meus grandes sonhos como músico: tocar numa orquestra de Jazz. Com a satisfação adicional de ter gravado talvez o primeiro registo de uma big band no nosso País. Eramos 11 músicos e uma cantora: foi com a “Orquestra Girassol”, dirigida pelo Zé Eduardo. Embora sem qualquer experiência digna de reparo, fui eu que tratei de tudo, exceto a capa/ilustração que foi generosamente desenhada pelo Pedro Baptista. Entendia que era importante deixar alguma coisa registada, porque gostava muito do que estávamos a fazer e também porque entendia que, mais tarde, poderia ter alguma importância para a biografia de cada músico e para a história do jazz em Portugal. Foi gravado no estúdio Musicorde em Campo de Ourique. Tenho muito orgulho nisso, é verdade.

XM – O que o levou a ir para Angola no início dos anos 70? Há algum projeto musical em que tenha participado nesta época que queira destacar e partilhar com os nossos leitores?

U.O. Com um toque de ironia, o que me levou a Angola foi um exausto, desbotado e fedorento navio de guerra, batizado S. Gabriel, que até avariou no caminho. Bem, já estão a imaginar. De 1969 a 73, como não me dava jeito nenhum desertar nem ausentar-me do País fara fugir ao serviço militar, fui “voluntário” à força para dedicar 4 preciosos anos de juventude à Marinha de Guerra Portuguesa e assim ajudar a defender e a preservar não sei bem o quê para o País. Assim, com emoções multifacetadas, fui contemplado com dois anos de vida em Angola, de 1970 a 72. Na minha passagem por Luanda, fui convidado para fazer parte do conjunto africano a “NAVE” dos irmãos Sambo. Nunca tinha tocado música africana. Foi uma experiencia musical interessante e enriquecedora. Como refiro no livro “Ad Libitum” que escrevi e foi publicado em Junho do ano passado, o mais valioso dessa experiência é a grande amizade que nós ainda mantemos.

XM – Nomes como Michael Lauren, Frank Katz, Chris Lacinac e Peter Retzlaff tiveram muita influência na sua carreira e na sua postura perante o instrumento?

Urbano Oliveira @ XpressingMusicU.O. Isso sim, é outra história! Foi quando aproveitei para conhecer com detalhe referências, técnica e estilos. Fui inegável e positivamente influenciado pelo que me transmitiram.

Tive aulas na Drummers Collective, em NYC, com Michael Lauren, que vive atualmente em Portugal. Continua a ser um professor de referência e um amigo; com Frank Katz, que tocou com os Brand X, tive aulas de funk; com o Chris Lacinac, foi uma agradável surpresa na introdução ao estilo New Orleans e, com Peter Retzlaff, um jovem professor, foi um estímulo adicional na área do jazz.

XM – Para além de ser notória, ao longo da sua carreira, uma preocupação em se inteirar das técnicas inerentes aos mais variados géneros musicais, é também de destacar a importância que atribui ao conhecimento pedagógico e aos métodos de ensino. Foram estas inquietações que o levaram a partir rumo a Cuba/Havana, Escócia/Glasgow, EUA/Boston? Podemos dizer que o Urbano Oliveira enquanto músico e pedagogo é o resultado destas vivências?

U.O.  Sim inequivocamente. Eu desejava ir às origens, saber onde, quando, como e porque é que aquela panóplia de instrumentos tinha dado nome à bateria. A bateria, tal como a conhecemos hoje, é um instrumento recente. Na verdade, é um conjunto de instrumentos de percussão.

Foi justamente por querer possuir conhecimento pedagógico e ter contacto com métodos de ensino que estive em Glasgow, para aprender as técnicas de caixa nos grupos “pipe and drums”, em Boston com as bandas “fife and drums” e em Cuba, para aprender e compreender o que me foi possível reter, num mês de estadia, da imensa complexidade dos ritmos afro-cubanos.

Foram viagens valiosíssimas. Todos desejamos tocar bem, mas se for possível conhecer e vivenciar outras realidades, outras culturas, estilos e abordagens, ficamos inevitavelmente muito diferentes: mais aptos para compreender, mais preparados para tocar melhor, a ouvir com outra atenção, a refletir com mais recursos e a conversar com mais bagagem sobre a matéria.

XM – Lançamos-lhe aqui um desafio… Como caracterizaria em poucas palavras cada um dos seguintes bateristas: Rod Morgenstein, Alex Acuña, Gordy Knudtson, Marco Minnemann, Bill Stewart, Mike Portnoy, Chester Thompson, Jim Chapin, Michael Lauren, Horacio Hernandez (El Negro), Giovanni Hidalgo e Dom Famularo?

U.O.  Puxa, é muita gente! Como tenho fotos com quase todos, vamos lá:

Rod Morgenstein é um baterista de referência, reconhecido no jazz de fusão e como professor. Não sei se ainda se mantém como professor na Berklee em Boston.

Alex Acuña, conheci-o em Dallas, numa apresentação que fez com Horácio Hernandez (El Negro) numa das convenções do Percussive Arts Society. Poucos sabem que tocou com muita gente conhecida: Elvis Presley, Diana Ross, Weather Report  Herbie Hancock Roberta Flack, Antonio Carlos Jobim, Al Jarreau, Paco de Lucía, Carlos Santana. Tem um palmarés impressionante.

Sobre Gordy Knudtson, não o conheço o suficiente para fazer um comentário útil.

Marco Minnemann, é um baterista alemão com uma técnica impressionante. Vi-o tocar a solo, também numa das convenções do PAS.

Bill Stewart? Gosto!...Muito swing. Com uma Independência notável consegue um fraseado muito melódico e polirritmias com uma dinâmica que aprecio imenso. Vi-o tocar e assisti a um workshop dele nos EUA.

Vi uma impressionante clinic de Mike Portnoy à cerca de 10 anos. Notável. Foi co-fundador da banda de metal progressivo Dream Theater. É dos bateristas mais premiados.

Conheci Chester Thompson em Oslo. Quando subiu ao palco, para tocar a solo, teve um aplauso do púbico que terá durado à vontade cerca de 10 minutos. Tocou com Frank Zappa e os Genesis. É muito admirado e respeitado pelo seu estilo e pela personalidade. É agradável ouvi-lo e estar com ele.

Conheci o trabalho de Jim Chapin há uns anos através de um LP (minus) que produziu para bateristas. Foi o primeiro conjunto de gravações que adquiri feitas sem a bateria para os estudantes poderem acompanhar os temas. É bem conhecido o seu livro “Advanced Techniques for the Modern Drummer, Volume II, Independence–The Open End”. Simpático e afável, foi um grande professor e divulgador que aparecia em quase todos os eventos importantes onde estivessem baterias e bateristas presentes. Era por isso muito acarinhado. Estava longe de sonhar que um dia o viria a conhecer pessoalmente e a estarmos juntos diversas vezes, tanto nas convenções do PAS como em Los Angeles, na NAMM. Faleceu no dia 4 de Julho de 2009.

Michael Lauren foi meu professor na Drummer Collective em 1997. Somos amigos. É, agora, o professor que nunca existiu cá, em tempo algum. Está a dar um enorme impulso à divulgação e ao estudo do instrumento em Portugal. Possivelmente, só será devidamente reconhecido daqui a uns anos.

Quanto ao meu amigo Horacio Hernandez (El Negro) é uma delícia vê-lo tocar. No estilo afro-cubano, quem quiser aprender, tem no seu estilo referências que nunca mais acabam. Como curiosidade, quando nos conhecemos, disse-me que iria fixar com facilidade o meu nome por se recordar de um grande jogador de baseball cubano dos anos 60’ Urbano Gonzales.(2ª base…)

Urbano Oliveira @ XpressingMusicGiovanni Hidalgo, para mim, a par do Changuito(José Luis Quintana) é o mestre das congas. Tem uma técnica e uma agilidade fascinantes. Já o vi tocar muito próximo várias vezes. Impressiona. Recomendo a todos os que desejam tocar melhor.

Conheci o Dom Famularo há uns anos no Porto. Começou aí uma amizade e admiração que continuam intensas. Consta que é o baterista que mais worshops fez pelo Mundo. É um excelente professor e comunicador. Tem divertidas histórias de vida que, nas suas apresentações, conta com muito sentido de humor.

XM – Rock, Jazz, Funk, Afro, Reggae, Pop, são estilos que não lhe são estranhos. A sua versatilidade está na forma brilhante como os domina… Considera que essa versatilidade foi a razão de ser convidado para tocar com os mais variados projetos e com nomes como Rui Veloso, Fernando Tordo, Herman José, Maestro Segundo Galarza, Maestro José Calvário e Maestro Jorge Machado?

U.O.  Sim a experiência inicial proporcionou-me vários caminhos. O meu primeiro conjunto foi “Os Escorpiões”. Como o pessoal dos anos 60 costuma dizer: “é um conjunto tipo Shadows” em alusão ao conjunto inglês da época com o mesmo nome. Continuei com intensidade e diversidade nos conjuntos de baile tocando música para dançar nos mais diversos estilos. Também, ocasionalmente, em cabarets, onde a sonoridade tinha que ser muito reduzida para os clientes poderem falar de “negócios”, substituindo bateristas pelos mais diversos motivos, antes da experiência com a banda rock “Victor Gomes e os Gatos Negros”. Isto deu-me uma versatilidade invulgar para a época.

Estávamos no tempo em que se designavam os grupos rock como conjuntos de ritmos modernos ou de música yé-yé. Entre os 17/18 anos, quando tocava com os músicos bastante mais velhos, de vez em quando, levava na cabeça. Se não me “amansassem” a impetuosidade sonora própria da adolescência, ficavam sujeitos a levar com uma dose massiva de volume “baterístico” que lhes ficaria de emenda…

A minha experiência mais marcante foi com o Maestro Shegundo Galarza, com quem toquei mais de 25 anos. Tocámos música apropriada para Danças de Salão em imensos e elegantes eventos sociais, onde conheci gente interessante. Viajámos imenso, com algumas histórias divertidas e inenarráveis.

Algumas vezes, num workshop, numa aula privada ou à conversa, costumo dizer que os bateristas deviam ter uma formação semelhante à dos médicos: primeiro clínica geral, depois, uma especialização. Caso contrário pode acontecer o que imensas vezes constato, por exemplo: tocam muito bem rock ou Reggae, mas são incapazes de acompanhar apropriadamente um Bee-bop um Pasodoble um Beguine ou um Cha-Cha-Cha.

XM – Pode falar-nos agora um pouco das suas obras didáticas? Quantas obras editou até ao momento?

U.O.  Comecei com um simples livro: “Iniciação ao estudo da Bateria - Os Tambores na Escola”, destinado a oferecer aos alunos nos estabelecimentos de ensino básico. Fiz inúmeros workshops por todo o País.

Depois, ao ouvir várias vezes numa garagem um adolescente a “malhar” numa bateria, sem nexo nem piedade, ocorreu-me gravar o CD “Aprende a Tocar Rock Básico” destinado a todos os jovens, independentemente da idade, que pretendam aprender sem escola e estudar sem professor. Acresce destacar que o referido adolescente é hoje adulto e estudou na escola do Hot Club com bons resultados.

Seguiu-se o livro “Rudimentos e solos Preliminares para Tarolas/Caixa Snare Drum”, o primeiro a ser publicado em Portugal, destinado a bateristas,percussionistas, caixas filarmónicas e fanfarras.

O CD “People n’Drums”, curiosamentegravado com a ajuda generosade muita gente que não sabe tocar, dediquei-o aos que têm o desejo pessoal ou a responsabilidade profissional de proporcionar aos outros momentos de convívio, expressão criativa, diversão e bem-estar. Tem 13 faixas com instrumentos de plástico, cerâmica, madeira, metal, tambores diversos e vozes.

Editei também o vídeo “Percussão para Todos” onde exemplifico de forma simples como é possível tocar sem esforço e com boa sonoridade mais de 20 instrumentos de percussão

Em 2012 publiquei o livro “Ad Libitum”, que já tive ocasião de referir, com meras crónicas sobre a minha relação com a música, os músicos e a inevitável musicalidade da vida.

Tenho outras ideias sobre publicações que apenas aguardam parceiros com sensibilidade e disponibilidade financeira.

XM – Enquanto performer, em que projetos se encontra envolvido atualmente?

U.O.  Neste momento estou em ensaios a tentar pôr de pé a banda de rock sinfónico “Petrus Castrus”, em conversações muito animadoras sobre a aplicabilidade do conceito Recreational Music Making em países lusófonos e com as intervenções em instituições públicas e privadas com o programa denominado Motivational Drumming.

XM – Quando aparece na sua vida a preocupação e o interesse pela musicoterapia?

Urbano Oliveira @ XpressingMusicU.O.  Em 2000, Remo D. Belli – que à volta dos anos 50 produziu pela primeira vez peles sintéticas para tambores - convidou-me a visitar a fábrica em Valencia, em Los Angeles. O convite incluía a passagem por Dallas para participar na convenção do Percussive Arts Society, da qual Remo foi um dos fundadores. Remo falou-me de drum circle, group drumming e do papel dos facilitadores nessa atividade. Abordou também a filosofia do RMM (Recreational Music Making). A partir dessa viagem, fiquei tão entusiasmado que, imediatamente, comecei a avaliar a possibilidade de desenvolver o conceito em Portugal. A REMO, Inc, e o meu amigo Luís Ruvina, conhecendo o meu entusiasmo, através do seu fundador, ofereceu-me duas formações nos E.U.A: uma em North Hollyood em 2001 e outra em Malibu em 2002.

A partir desse momento, com livros, workshops, contactos e experiências relacionei-me no terreno com a musicoterapia, a terapia ocupacional e a arte-terapia. Na sequência do que fui fazendo nesse domínio, em 2006, fui convidado pelo Centro de Investigacion Musicoterapeutica para ir à Universidade de Deusto, em Bilbao, colaborar como docente nas “Jornada de Verano de Musicoterapia”, o que muito me honrou.

XM – A entrevista já vai longa mas não poderíamos terminar sem lhe perguntar se tem novos projetos em preparação e lhe desejar a continuação dos seus êxitos pessoais e profissionais…

U.O.  Como não podia deixar de ser, por cá, o momento que atravessamos também arrasta para o desassossego todos e tudo o que tem ver com Arte. Assim, a música e os músicos, (com poucas notas e escassos trocos) atravessam um período de instabilidade e desconforto. Mas, há muito talento e energia positiva a surgir a cada momento, gente jovem, capaz e decidida a afastar o desprezível ou a usar os obstáculos para construir pontes para o lado positivo e criativo da vida.

No que diz respeito a projetos pessoais, se tiver a sorte de parar por aqui a descida do nível de vida que nos estão a impor, resta-me desejar que não me doa nada, nem no corpo nem na alma. Se assim for, já é um grande sucesso para manter acesa a criatividade e não deixar empalidecer a motivação.

Também através da Speaknomis, trabalho em parceria na conquista de outros mercados no plano da dinamização de equipas através da música na área empresarial, cujas apresentações são focadas nos objetivos estratégicos das iniciativas.

Para finalizar, resta-me agradecer esta entrevista e os vossos desejos, que retribuo com muita estima.

Artway
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