XpressingMusic apresenta-lhe o criador do conceito Oratio. Deixamos os nossos leitores com João Carlos Ramalheiro…

Joao Carlos Ramalheiro @ XpressingMusicSão já muitos os prémios que coleciona na sua galeria. Por exemplo, em novembro 2012 foi vencedor mundial do prémio “Melhor Prática na área da Educação” na categoria “Educators Choice” pela Microsoft no fórum mundial “Partners in Learning” em Praga, com o projeto “Oratio Classroom – The World of Music”. Ainda o Oratio fez do nosso convidado vencedor europeu do segundo lugar “Melhor Prática na área da Educação” na categoria “Educators Choice” no fórum europeu “Partners in Learning” da Microsoft em Lisboa. Em 2011 participou e colaborou no programa/concurso de escolas: “Most Innovative Schools” da Microsoft (designadas como as mais inovadoras a nível mundial pelo programa “Shape the Future” da Microsoft). Vamos então conhecer o trabalho deste músico, docente e empresário do mundo da música e da educação musical.

XpressingMusic (XM) – João, é com muito prazer que o recebemos no XpressingMusic. Pode partilhar com os nossos leitores, em linhas gerais, em que consiste este conceito Oratio - Dynamic Teach Interface, Recurso Informático/Didático, vencedor de dois prémios internacionais da Microsoft Educação?

João Carlos Ramalheiro (JR) – Até data trata-se de um conceito de software que pretende vir a ser um produto digital intuitivo que irá revolucionar, nos seus primeiros passos, a educação musical no ensino básico, métodos, hábitos e a forma de ver a educação no século XXI. É um software educacional direccionado para docentes titulares, educação musical e para alunos entre os seis e os dez anos, permitindo ao docente leccionar de uma forma mais dinâmica em salas de aula equipadas com os periféricos do século XXI (Quadros interativos, PC, Portáteis, Tablets, KINECT), podendo ainda usar a imaginação da criança e permitindo ao docente levar os alunos numa verdadeira aventura didáctica.

João Carlos Ramalheiro @ XpressingMusicXM – O Oratio passou certamente por várias fases. Descreva-nos esses vários momentos até chegar ao sucesso internacional que alcançou…

J.R. – Oratio Classroom teve a sua hora de nascimento quando tive o primeiro contacto com o quadro interactivo e a este se juntou a minha preocupação em melhorar o processo de aprendizagem dos meus alunos, fazendo-o sobretudo melhorando a minha performance! Motivar sobretudo os meus alunos, sem os massacrar com teorias abstractas da música em tão tenra idade fazia sentido para mim. Espero que seja de conhecimento geral que a educação musical na infância não é só entretenimento mas sobretudo um factor imprescindível na evolução neurológica, emocional e até racional (a nível de procedimento lógico e de matemática), daí os momentos de uma criança a cantar e musicar nunca serem o suficiente! Senti que deveria aplicar as boas práticas pedagógicas de transição para a compreensão teórica, para outro nível permitindo-me a mim, como docente, ser mais eficaz!

Fui aberto com os meus alunos e pedi-lhes a colaboração para criar um conceito de jogo/software que permitisse tornar as aulas de educação musical ainda mais interessantes! Foi um desenrolar de descobertas novas em relação aos meus alunos e à sua originalidade, desprendidos de influências que surgem ao tornarmo-nos adultos.

Este desenrolar de circunstâncias interessantes, as conquistas a nível pedagógico e sobretudo o feedback positivo dos meus alunos levou-me a reconhecer que podia vir a ser um grande produto que poderia revolucionar não só a minha sala de aula!

Devido às condições proporcionadas pela Câmara Municipal da Lousã na modernização das escolas e motivação para apoiar projectos empreendedores do conselho, tive hipóteses de apresentar este conceito a várias entidades como a Microfil, A Sheikha Dr. Hind Al Qasimi, membro da família real de Sharjah (Emirados Árabes Unidos), à Microsoft entre outros.

Em inícios 2012 foi-me dado a conhecer a existência de um fórum chamado Partners in Learning da Microsoft, vocacionado para o ensino, onde podia enquadrar este meu projecto e apresentá-lo a outros docentes inovadores a nível europeu em Março! Foi em Lisboa que participei e venci o segundo lugar na categoria "escolha de docentes" a nível europeu! Por muito valor e qualidade que este projecto tinha para mim, estava consciente de que além da concorrência de alto nível teria ainda que acrescentar e desenvolver algo mais para se poder encaixar dentro dos parâmetros de avaliação do fórum mundial, pois não estávamos a competir pelo melhor conceito de software, mas sim pelas práticas mais inovadoras de ensino que resolviam uma série de problemáticas, tanto a nível pedagógico, como humano! Sabia que seria difícil, mas teríamos que arrasar! Envolvi uma equipa de pessoal jovem para desenvolver uma demo e o resultado foi a conquista do primeiro prémio mundial na categoria “educators choice” no global fórum dos P.I.L. (Partners in Learning) em Praga. A grande maioria dos colegas inovadores de todo o mundo aprovou este conceito.

João Carlos Ramalheiro @ XpressingMusicXM – Mas a carreira do João Carlos Ramalheiro é muito mais ampla do que a criação deste conceito de que temos vindo a falar… Enquanto docente, o que tem feito nestes últimos anos?

J.R. – Bom, para além dos estágio no âmbito das práticas pedagógicas no meu percurso académico na Escola Superior de Educação de Coimbra na área da Educação Musical do ensino básico, tive a oportunidade de leccionar e intervir em várias áreas do ensino, trabalhando como docente de instrumento, expressão musical e teoria na Academia de Música da Lousã, Animador em prolongamentos de escolas e jardins da Activar, Técnico Superior de Educação nas Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC) coordenadas pela Câmara Municipal da Lousã, Técnico de reabilitação/recuperação musical para cidadãos portadores de deficiência na ARCIL e sou actual director pedagógico da Academia de Música da Lousã que irá chamar-se em breve IMMA (Instituto de Música Moderna e Artes). Esta transição deve-se ao facto de querermos expandir esta marca para outros lugares a nível nacional e, porque não, ao estrangeiro.

XM – Para além do João docente e músico há também o empresário… Como e quando surge a T.E.A.C. – Produção de Eventos Culturais, Unipessoal. LDA.?

J.R. – Na verdade tornei-me recentemente sócio e gerente de duas empresas. A TEAC (Tecnologia, Educação, Artes e Cultura) é a minha primeira empresa que gere/explora a marca “Academia de Música da Lousã” e assim, em breve, o “Instituto de Música Moderna e Artes”. A minha principal função é a direção pedagógica e a leccionação de algumas disciplinas. Por outro lado, a INSIGNIO LABS que é a nova empresa, irá desenvolver e produzir a linha de produtos inerentes do projeto Oratio Classroom, que pretende vir a ser a grande esperança, não só para mim, respeitando o sucesso associado ao conceito até data, mas para todos os que comigo partilham este sonho. Ainda existe uma percentagem aberta para quem quiser investir…(risos)

XM – Tem a seu cargo a coordenação e gestão da Academia de Música da Lousã. Esta é outra das “meninas dos seus olhos”? Quais os principais projetos que tem desenvolvido nesta Academia?

João Carlos Ramalheiro @ XpressingMusicJ.R. – Sim. A Academia, futuro IMMA, é sem dúvida um elemento chave na minha felicidade no âmbito profissional por ter visto crescer este estabelecimento, pois fui inicialmente docente de instrumento e tornei-me director pedagógico no ano 2007. Sinto-me profundamente grato por partilhar esta escola com um corpo de docentes especializados, licenciados e altamente competentes, por atrair grandes músicos, docentes e alunos extraordinários e acumular grandes sucessos, realizar sonhos e desenvolver pequenos e grandes projectos artísticos.

XM – Sabemos que tem mantido uma ligação profissional às Atividades de Enriquecimento Curricular, vulgarmente designadas como AEC’s. Estas atividades têm motivado largas discussões em torno da sua pertinência e da própria forma de implementação das mesmas. Qual é a sua posição relativamente a estas atividades?

J.R. – Bom, esta resposta poderia ocupar dezenas de páginas, mas vou tentar resumir tudo da seguinte forma: As AEC sendo executadas por técnicos/docentes com alta competência pedagógica são uma mais-valia marcante no desenvolvimento da criança. A maioria destas áreas relacionadas fazem parte do programa curricular que coube até à data ao docente titular e que, por vezes, dificultava o seu dia-a-dia, não tendo formação necessária e podendo resolvê-lo hoje em colaboração com um colega docente especializado, à semelhança do que acontece nos anos seguintes ao primeiro ciclo. Penso que para o cidadão atento o valor destas disciplinas artísticas, desportivas e línguas estrangeiras é evidente, mas é importante sublinhar que não se trata de uma pomposidade cultural e se seguirmos os bons exemplos nas áreas científicas teremos que reconhecer que estas áreas já faziam parte de um currículo escolar desde as primeiras civilizações da antiguidade humana. Hoje existem provas claras a nível da neurociência e psicologia que sublinham este vulto (importância).

É óbvio que surge sempre resistência quando surge algo de novo, mas o mundo não deixa de girar e a evolução é imparável. Também o sentimos em relação à inovação e modernização de escolas, mas os sistemas escolares não são nenhuma excepção à regra. Entretanto o que poderá acontecer é o atraso e a desatualização por motivos, para mim, incompreensíveis. Por vezes somos muito melhores a “desfazer” do que a “fazer” e o termo “criação” surge associado à palavra “problema”.

João Carlos Ramalheiro @ XpressingMusicRespeitando a minha experiência a este nível devo acrescentar que tive, independentemente dos contras, uma excelente oportunidade de trabalhar com colegas grandemente capazes de desempenhar essas funções desejadas no ensino e de produzir momentos onde foi possível mostrar em grande massa à comunidade lousanense o que somos capazes de fazer.  

XM – Pode falar-nos um pouco da sua experiência no que concerne à intervenção musical para cidadãos portadores de deficiências?

J.R. – Desempenhei esta função durante dois anos e meio e garanto que foi altamente enriquecedor a nível humano trabalhar com estas realidades. Foi aqui que fui desenvolvendo a minha experiência em relação à psique humana e a influência do estímulo musical, repensar e adaptar os meus objectivos às condições de cada caso e festejar freneticamente cada pequena conquista, valorizando gradualmente as condições da minha vida pessoal. Foi de facto uma experiência única da qual resultou, entre outras, a formação musical “dos irmãos do Blues” e um laço de grande amizade com muitos utentes.  

XM – O João dá aulas de guitarra elétrica, guitarra clássica e guitarra acústica, piano, prática vocal, iniciação e ainda formação musical. São muitas áreas e completamente distintas… Isto obriga-o a um enorme esforço no que à formação contínua exige de um docente. Sendo uma pessoa tão ocupada, como consegue organizar o seu tempo para se manter sempre atualizado e em forma em todos estes instrumentos e áreas de formação?

J.R. – Penso que a resposta é a mistura adequada entre humildade, paixão e convicção por aquilo que faço e assim poder melhorar a cada dia que passa a forma como actuar nessas áreas, podendo mesmo afirmar que vivo no meu elemento. Obviamente existem áreas onde me sinto mais forte que noutras, mas mantenho-me “up to date” devido aos bons exemplos a nível pedagógico e artístico que tenho no Instituto e nas minhas convivências com a comunidade de músicos. Mas é importante referir que aprendo sobretudo com os meus alunos… são fantásticos… sim, é verdade, o docente aprende imenso nesta interacção com o seu discípulo e é crucial admiti-lo…

Tenho vindo entretanto a tomar decisões, nem sempre fáceis, criando prioridades, pois esta minha agenda nem sempre é fácil de gerir, cabendo agora também a mim a gerência de uma empresa nova que irá, assim o espero, trazer um marco na educação musical. Penso que isso faz parte da nossa necessidade de poder evoluir como ser humano e andamos todos à procura de afirmação na vida. Entretanto as decisões terão que ser feitas com um determinado “timing” e nem sempre são compreendidas por terceiros, mas o essencial é seguir o que o nosso interior nos manda fazer sem ferir a liberdade do próximo, pois não existe ninguém além de nós capaz de ter a visão total das nossas boas intensões.

João Carlos Ramalheiro @ XpressingMusicXM – Ao passearmos pelo seu currículo verificamos que nos últimos anos os sucessos alcançados têm sido tantos que nos dá a sensação que tem vivido um sonho. Concorda? Convidamo-lo a partilhar com os nossos leitores as maiores conquistas e as que maior significado têm para si.

J.R. – Literalmente! Registaram-se grandes conquistas não só a nível profissional. Em 2011 casei-me após uma longa data de namoro e posso dizer que tenho o privilégio de partilhar a minha vida com a minha alma-gêmea e tenho uma família espectacular, que me apoia seja em que situação for. Penso que se procurarmos um equilíbrio e um bem-estar a nível psicológico estamos mais despertos para receber coisas positivas e sabermos tomar decisões mais assertivas em prol da nossa felicidade. Isto propaga-se também para o campo profissional e no meu caso, uau! 2012 foi um ano incrível: em Março conquistei o segundo lugar com o conceito Oratio Classroom no fórum europeu dos Partners in Learning da Microsoft, em Maio fiz parte da composição musical do hino dos “destemidos” que foi intitulado hino oficial da RTP1 da selecção portuguesa no programa canta Portugal, participação resultante no contexto dos meus serviços como técnico superior de educação da Câmara Municipal da Lousã nas Férias Activas. O meu projecto musical Lighthousepeople com a fantástica voz da Adriana Fernandes teve a oportunidade de se apresentar televisivamente no programa “Verão Total” da RTP em Julho. Em Outubro, 5 alunos de canto do IMMA conquistaram, na competição “Golden Voice Talent Competition” (Organizado pela SEATPT e a BLIMRecords) a oportunidade única de cantar com a AUREA ao vivo na sala TMN em Lisboa, 2 ficaram em segundo (Adriana Fernandes) e em primeiro (Paulo Sousa) que teve a oportunidade de gravar um single com esta fantástica voz de Portugal. Os meus alunos são razão de imenso orgulho a nível pessoal e a nível profissional. Todas as suas conquistas são conquistas para mim.

E em Novembro? Já sabem, ganhei este concurso mundial da Microsoft em prol da inovação no sector da educação em Praga. 1.º lugar na categoria “educators choice” com este conceito já mais elaborado “Oratio Classroom” devido a colaboração experimental dos membros da futura equipa que irá desenvolver o(s) produto(s) relacionados. São eles: Tiago Martins, Carlos Sêco, Margarida Costa, Ricardo Canas, João Paul, Daniel Lobo, Rijo Madeira, Dina Lazaro e Miguel Rijo.        

João Carlos Ramalheiro @ XpressingMusicXM – João Ramalheiro, agradecemos a sua enorme boa vontade demonstrada desde a primeira hora em que o convidámos para esta entrevista. Como questão final, gostaríamos que nos deixasse aqui alguns dos seus desejos relativamente à educação musical para os próximos anos… O que considera que urge mudar?

J.R. – Penso que a resposta a esta pergunta terá que ser ainda mais alargada, pois o sistema escolar em geral está em transformação e teremos que afirmar a qualidade, cuja essência passa pelas disciplinas artísticas. A inteligência humana não se resume aos processamentos lógicos e racionais, o nosso cérebro é muito mais dinâmico do que isso e devermos dar oportunidade ao aluno de desenvolver essas competências de forma livre e individual num ambiente controlado. A escola terá que reunir um espaço que permita o progresso das crianças com alto potencial para a criatividade e musicalidade. Sobretudo, sinto que a “interdisciplinaridade” é um elemento-chave para fazer valer esta equação a nível artístico. Estou convencido e determinado em poder partilhar com docentes que estão de mente aberta para a inovação na educação musical e não só, para criar ferramentas pedagógicas inovadoras, permitindo a aprendizagem enquanto se divertem. Essa sim é a minha motivação e a dos meus parceiros da INSIGNIO LABS. Aprender e Ensinar de uma forma diferente, desenhando um sorriso no rosto de uma criança enquanto aprende a cantar e musicar, chegando à linguagem complexa pela associação daquilo que é para ela o óbvio, respeitando a sua vivência.

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